Foi em silêncio que lhe sentiu a pele fresca e, de olhos fechados, sorveu devagarinho o cheiro a menta.
Depois nasceu o dia.
"(...) não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer; quer dizer: o que é possível segundo a verosimilhança e a necessidade" (Aristóteles,Poética)

Ao fim de tantos anos o vento ainda uiva na varanda
Enquanto eu bordo as palavras num linho desbotado.
Não é que me apeteça ser esta ilusão de repouso na noite
Posso sempre fechar a porta ou esconder o corpo
Entre o linho e as palavras
Não é que me surpreenda a súbita chegada das sombras;
A memória das coisas é sempre o dia claro
Mesmo que seja noite.
Porém morro ainda no instante verbal
Sendo a morte apenas a palavra acorrentada.
O resto é o uivar do vento por dentro da solidão.

Antes usar as palavras todas; escolher é tarefa difícil e eliminar é cortar o significado, embora seja bom jogar com os sons e não apenas com os sentidos.
Por isso digo bruma como se fosse música; e labirinto a prolongar o eco pelos caminhos da imaginação; depois digo búzios, deslizando num areal de murmúrios ao ouvido.
Mas se disser memória penso num lugar desordenado pelo tempo; lugar onde a verdade é construída à distância das emoções e para onde as asas nos levam mesmo sem querermos. E se disser sorriso rasgo a dimensão da pele, já refeita das assimetrias dos últimos dias, com os olhos sempre a ver redonda a realidade.
Porém, quando digo filhos digo poesia.
Pus-me em segredo no teu colo e tricotei um rosto
e assim sonhei ternura
e bordei trevos às escondidas.
Picasso
Picasso



São comerciais as alegrias alheias
Vendidas sob as máscaras da utilidade dos gastos
Serão sempre as estruturas de poder que geram a discriminação ou essa é uma coisa inata no ser humano, cuja tendência é dividir, separar e classificar?
Será que a tolerância desaparecia se o poder fosse mais justamente distribuído? Ou esse é um sentir tão profundamente integrado na natureza humana que logo assumiria outras formas?
Há sempre uma diferença entre as pessoas, uma diferença da qual ninguém pode demarcar-se: o que é bom para mim não é necessariamente bom para o outro. É aí que reside e diferença e é por isso que se discrimina ou se tolera.
Talvez se possa dizer que ao longo a História a tolerância existiu sempre que o controlo por parte do poder não era possível; desse ponto de vista tolerar é assumir o domínio e consequente minimização do outro. Será, pois, a tolerância uma recusa?
Contudo, em questões de natureza religiosa não se pode falar em tolerância uma vez que estão em causa práticas ligadas a valores. Ganha a exclusividade e por isso prevaleceu a lógica da conversão. Ou a sua imposição.
Tolerância absoluta seria um problema para os Estados. Tolerar tudo seria prescindir das regras e das normas que nos regulam os comportamentos. Ou não?
E nós, o que é que toleramos quando somos tolerantes?
Não era preciso ter sido em Malta, mas calhou ser lá o lugar da reflexão. Gente da História e de outras áreas das ciências humanas juntaram-se para cumprir mais um encontro em honra da deusa Clio.
