Saturday, January 26, 2008
Prosperidade
Monday, December 18, 2006
Lá onde nunca estiveste é que está a sorte...

Atravessar as fronteiras é coisa que os gregos já faziam e o seu estatuto não era muito diferente daquele que têm hoje os cidadãos estrangeiros: chamavam-se “metecos” todos aqueles que vinham de outra cidade-estado, sem que a mistura alguma vez fosse possível.
Os germânicos, esses levaram a tarefa mais a sério e acabaram por dar início ao processo do nascimento da Europa, depois de destruído o Império Romano.
A fixação de um povo, em massa, num determinado local, muda (quase) tudo: os Normandos formaram a França, os Ostrogodos o espaço italiano, os Visigodos andaram por aqui na mistura da qual nós resultámos, os Saxões arranjaram o seu espaço para lá do Canal da Mancha… enfim… a Europa foi-se “fazendo” e depois desfazendo e refazendo.
Há dias a polémica das fronteiras deu para o “torto”, na Bélgica, quando a parte flamenga brincou em directo com a declaração unilateral de independência da Flandres.
Ontem sobreviveram 25 dos cento e tal senegaleses que se aventuraram em direcção às Canárias, numa jangada.
As migrações são tão velhas como o primeiro homem, são parte da História, são, aliás, um elemento da História trans-nacional. As razões são várias, não sei se as conseguimos enumerar: exílio, trabalho, perseguição política ou religiosa, busca… busca daquele lugar em que não se está, aquele lugar onde mora a sorte.
A questão que deixo é esta: como é que estes movimentos migratórios lidam com a identidade histórica de um povo?
Monday, December 11, 2006
We must go away to find ourselves and then we must return home
Curiosa esta Europa que treme diante de um boião de creme na mala de uma cidadã que apenas quer manter a pele hidratada num país frio. Um creme hidratante poderia transformar-se em nitroglicerina e fazer explodir um avião. Ou… quem sabe, dentro do soutien podia estar escondida a pólvora!
Noutros tempos as bombardas disparadas das naus matavam infiéis e talvez não tenha tido importância nenhuma que milhões de africanos tenham sido levados para lá do Atlântico.
Hoje a Europa queixa-se de um défice populacional e sabe que precisa de abrir as fronteiras aos que nada têm para além da vontade de partir. Nada de novo, afinal nessa vontade: as migrações são tão antigas como a história dos homens. Porém rejeita-os depois, a pretexto de que o trabalho falta para os naturais. E preocupa-se em mantê-los nos seus lugares: integrados no mundo do trabalho; cidadãos contribuintes para manterem o visto no passaporte; porém, coesos nos seus hábitos porque a globalização da informação não os deixa perder o contacto com os lugares de origem. Nem sei se interessa a integração ou a assimilação - não sei bem que palavra usar. Às vezes, muitas vezes, veda-se-lhes a entrada. Chega de invasores, diz a Europa.
E aí temos a multiculturalidade apregoada há décadas. Ou aí a tememos?
No intervalo lembrei-me que estava noutro mundo. O lago estava gelado. O sol nasceu às 11 horas da manhã e às 4 da tarde era já noite. A luz era, aliás, sempre frouxa e as cores eram outras. A única coisa que sugeria claridade era o branco da montanha. E o frio. O frio também é branco.
Mas a Europa… o que é a Europa?
Tão diferente o gesticular da espanhola e a posição rígida do finlandês, sentados à mesma mesa!
Como acertar conceitos: integração, aculturação, assimilação… que significado têm as palavras para o italiano ou para a islandesa?
Metodologias comuns no trabalho documental com que fazemos a História? Difícil a questão.
Falta-me saber se a Europa é uma unidade ou uma diversidade para além de tantas outras coisas que me faltam ainda saber para poder saber alguma coisa.
Sunday, December 10, 2006
Europe and the World
In the world there are two kinds of people: those who stay and those who leave.
O tópico seria de grande utilidade para qualquer tipo de desenvolvimento. Entrava bem na minha tendência para as generalizações (que, na maior parte das vezes, partem de mim e a mim retornam) como daria um excelente poema ou uma excelente página ensaística.
Serve, contudo, para dizer que trouxe pano para mangas da Universidade de Reikjavick e que prometo desenvolvimentos e fotografias para os próximos dias.
Por agora - e porque amanhã de manhã a minha realidade são adolescentes ainda pouco sensíveis a este tipo de abstracções - fico-me por aqui. Vou tentar assentar as poeiras. Ou antes, os efeitos dos flocos de neve que o vento arrastava em assobio, ontem, ao fim da tarde que era noite quase desde que o dia nasceu.
Depois virei falar das migrações e daquilo que eles disseram: uns mais ou menos imperialistas; outros mais ou menos conscientes de que a Europa multicultural pode não durar muito mais anos…
É que estou mesmo muito cansada e o dia ainda não acabou.
Thursday, August 17, 2006
efeitos do verão 2.
Feitas de verão as verdades cruas e as cidades arruinadas onde o negro das crateras e das casas que já não existem deixa à mostra os efeitos concretos da carne em chamas e da outra já calcinada que o tempo há-se gastar.
Feito de verão este efeito de sentimento áspero, verdade crua a despir as roupas coloridas gastando-se o sentir no tédio dos fios de seda inventados para dar cor à estação feita passagem, quase paragem.
Feitas de ódios eternos as verdades de ambas as partes do mundo sem que seja possível ou desejável tomar partido ou apenas dizer do bem e do mal.
Feito de calma peganhenta este pensamento veloz e repetido de um verão que nada traz de novo a não ser um efeito cíclico de insatisfação crua, estéril, negra sobre as cores que o sol deposita na superfície das águas de um mar ausente.
Feitas de gelo as imagens certeiras das ruínas onde nem tão pouco se podem achar culpas para ao menos lhes dar o efeito de razões imaculadas que libertem a alma das tragédias.
Feito de imagens este pesadelo mediatizado em reportagens cruas onde tudo é tão concreto como a descrença que sobrevive às telas construídas sobre o efeito das abstracções.
Feitas de horas arrastadas as guerras que travo comigo e os acordos de paz que vou permitindo para sentir apenas que a vida é um esforço laborioso.
Feito de gritos, depois da seiva dos risos, o vazio da descoberta de uma invenção entrançada em desejo e memória, que o tempo vai desfazendo por falta de consistência.
Wednesday, May 24, 2006
Sobe que sobe, sobe a calçada…
Depois fui trabalhar, mas já tinha ido às compras e deixado o almoço feito. Antes tinha estado a ajudar um dos filhos a rever um trabalho mais exigente cuja apresentação era hoje, no IST. (correu bem, já sei). Tinha estado também a ler até tarde, coisas de trabalho, também, mas outro, um que faço por conta própria e sem remuneração. E não é só por prazer, porque isso seria ter um livro para ler e não o fazer. É que não me apetece estar no mundo por ver os outros, e a preparação das aulas mais a correcção dos trabalhos e a organização de materiais é coisa de pouco desafio, ao fim de uns anos. Absorve tempo, sim, mas não satisfaz. Podia dizer que é para estar melhor preparada, que é pela exigência do meu público, pela boa preparação que lhes quero dar. E quero. Só que não tenho resposta. Mas, ainda assim, não se pode entrar numa aula de 90 minutos e esperar que 20 e tal adolescentes nos oiçam. Teoria? Nada disso. Levava, pois, a mala cheia de papelada, textos, cartolinas com imagens, bostik para as colar no quadro, fichas de trabalho…Dormi pouco, portanto. E a escola já não é o lugar para onde costumava ir com gosto e vontade de novidade. Apetecia-me tudo menos confusão.
À chegada, ainda antes de entrar ao portão, dei de caras com muitos e muitas, todos ao monte junto aos carros estacionados. A maior parte dos carros são deles e é vê-los à saída todos inchados porque vão pegar no popó e fazer figura. Os professores (os que têm carro) têm de estacionar onde calha…
Estou a falar de uma escola secundária, onde agora também se misturam meninos do ensino básico, tudo junto e em guerra.
Ali estavam umas dezenas de cabeças com bonés, reparei nisso, pareciam equipas diferenciadas, uns de lá e outros de cá, assistidos por terceiros que esfregavam as mãos porque ia haver porrada…
Vi-me metida no meio, jé eles se empurravam. Fiquei com os ouvidos cheios das palavras que eles mais sabem dizer. Não me atrevo a repreender ninguém, não resulta, já fui insultada quando o fiz. Eles não chegam a perceber porque é que é incorrecto dizerem “foda-se” e “caralho” 799 vezes por dia, em todos os lugares públicos e privados; e não acredito que todos os progenitores sejam trabalhadores da construção civil.
Chamou-se a polícia. Não vieram.
Depois passei a tarde a fazer telefonemas porque os que eram meus alunos podiam ser meus filhos e se fosse eu a mãe ficaria grata a quem me dissesse que à porta da escola se fazem esperas, um gang de cada lado e os carros cheios de paus e ferros.
Só me faltava dar uma aula para acabar a tortura. Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade. Direitos do Homem e do Cidadão… e eu entusiasmada com as analogias que ia trazendo à conversa. Meia dúzia a ouvir e os outros em pleno galinheiro. Um canta baixinho. Quando me calo, cala-se; quando recomeço, recomeça. Uma derrama o tubo de cola sobre a mesa e põe-se a guinchar. Separo dois. Amuam e dizem que já não trabalham mais. Um deles ainda diz “Pois agora é que vou mesmo portar-me mal”. Ponho alguém fora da sala? Quem???
Quero continuar a esquematizar, no quadro, aquilo que muda num país com uma revolução. Gostava de lhes explicar o que é uma constituição e o que é o poder legislativo e quem o desempenha nos países democráticos…
Uma voz diz “Nós também somos povo e devíamos era fechar na sala de professores os cotas todos que nos atrofiam com estas tretas”.
Cansei-me. Parei. Tentei brincar… às vezes resulta.
Saí.
Amanhã volto para o mesmo lugar.
Friday, April 14, 2006
Brrrr..... que frio!
Thursday, March 02, 2006
Os irmãos dos irmãos
Carina – Vou passar o fim-de-semana com a minha irmã mais nova, em casa do meu pai.Professora – E dás-te bem com ela?
Carina – Sim, a minha mãe é que não se dá, mas eu gosto de ir lá!
Catarina – Ai eu também costumo ir, mas eu tenho um irmão do lado da minha mãe e uma irmã do lado do pai. Já viu, professora, que grande família.
Rita – Eu então é assim: somos duas irmãs dos mesmos pais, mas cada uma vive com uma avó; a minha mãe não mora cá e a mulher do meu pai teve bebé a semana passada. Agora somos três raparigas e dois Fábios.
Diana – Dois?
Rita – Sim, um Fábio que é filho da minha mãe e outro Fábio que é filho da Beta.
Professora – E quem é a Beta?
Rita – É a namorada do meu pai, a que teve a menina.
A Rita é a recordista das negativas na turma – teve 12. Já conseguiu subir a duas. Está proposta para aulas de apoio, ela e os outros 13 alunos que têm negativas em número aproximado. Mas não vai. Já chega de secas, diz ela!
Provavelmente passa para o 9º ano porque o 3º ciclo é constituído por 3 anos e reter um aluno exige planos de recuperação, justificações do insucesso, declarações de autorização da parte dos pais e outras coisas relativamente burocráticas. Além disso o Encarregado de Educação devia tomar conhecimento de que a Rita, que tem 15 anos e está fora da escolaridade obrigatória, já excedeu o número limite de faltas que pode dar. Mas como a avó nunca veio à escola e nunca levantou a correspondência registada, não se pode dar sequência ao processo.





