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Sunday, March 15, 2009

Dias com luz

foto de Elipse
Pendem dos ramos cachos de folhas novas; chilreiam pássaros, despontam ervas, florescem trevos; os miúdos deslizam nas rodas dos patins em algazarra; um par de jovens alheia-se do mundo à sombra de uma árvore e os beijos crescem; e o céu é todo azul e cheira a verde.

Friday, March 06, 2009

O reencontro


Depois o abraço, mas antes os dias empolgados da espera, após a coincidência.
E antes, muito antes, um tempo perdido na infância, há muitos, muitos anos.
No intervalo decorreu a vida.
As meninas encontraram-se e olharam-se nas rugas. Viram através delas o passar dos anos e contaram como foi. Ou antes, contaram pedacinhos de dias bons e dias maus que a memória não alberga mais do que uma parte do todo. Às vezes nem um traço. E, à distância, havia coisas difíceis de confirmar, talvez apenas construções ou desejos. Nunca se saberia. As fotos não comprovam mais do que aquele preciso momento e não se consegue ver nelas o sentir daqueles dias. Isso disseram-no elas, as meninas, à distância de muitos, muitos anos.
Sabes, amiga, o passado não vale mais do que o necessário para se perceber de onde viemos. E mesmo isso nem sempre é a verdade!

Para mim, a verdade foi o encanto de te ter de novo.

Saturday, November 01, 2008

Sol de Outono

Foto de Elipse

Pego em todos os poemas do mundo e solto as rimas; pego depois nas rimas ouvindo-lhes a cinza; sopro-lhes tinta fresca e pego depois em mim, presa nos versos e digo alto a dor que finjo sentindo-lhe os dentes ácidos quando o gelo se espalha pelas ruas ao fim da tarde.

Digo também das mil sílabas que li nos livros enquanto cessava o canto, noite dentro; e do desejo descarnado que costumava rimar com harmonia para poder, disfarçado, agredir-me no silêncio e deitar-me neve sobre as mãos.

Tenho poetas presos às páginas, guardados nas estantes; prendo-lhes as palavras junto aos afagos, mesmo as mais duras ou as que vestem de luto, por precisarem da doçura das mãos quando a noite começa.

Prendo as palavras que o vento teimosamente me retira e me atira, agitando-me a firmeza contra a torrente dos dedos, quando os dedos querem escrever o que a tristeza sopra para dentro da voz calada.

Modifico depois os registos e refaço; varro lamentos, renovo a tinta, acrescento-me de ousadas virtudes e se calo é porque nem todas as rimas podem ser sopradas pelos ventos. Por isso afago-as em palavras novas e pinto o sol em todas as manhãs.




Monday, October 27, 2008

Claro/Escuro

Foto de Elipse



Leio no céu o apelo, quase sempre
Indiferente às vozes de quem passa
Basta-me, agora, saber por onde vou.
Entre o preconceito e a asas
Resolvo a dimensão dos dramas
Dando passos certeiros
Ante a perplexidade dos que não ousam.
Dói-me apenas a pequenez dos dias
E a obrigação de colher frutos verdes.








Thursday, August 14, 2008

Cheiros e cores


Sinto-me transportada para outro mundo na memória dos cheiros.
Os mercados abertos, as vozes, os sorrisos das pessoas... e a diferença ...
A atracção para os que vêm de fora e querem reter as lembranças.
Recomendaram-nos que não comprássemos. Os mercados não primam pela higiene.
Contudo o que fica é ainda ... encanto.

Tuesday, August 12, 2008

Roteiro de uma viagem por outros mundos



Chega-se a um outro mundo.

Tem-se a consciência de estar verdadeiramente noutro continente, embora a pobreza não nos seja estranha e muito menos a ostentação dos privilegiados. Tem de tudo a Tunísia. Mas chega-se a um mundo diferente onde o calor é uma onda que nos bafeja e nos envolve: umas vezes deixa-nos o corpo sem acção; outras vezes atiça.
Tunis é um caos mas na avenida Bourguiba anda-se à vontade na azáfama do dia; melhor ainda na luminosidade da noite.
Cartago prende pelo azul do mar: um azul que nunca tinha visto, mesmo conhecendo já o Mediterrâneo. Encanto à chegada. Local de cruzamento de civilizações, com marcas de vários passados.
Sidi Bou Said é uma encosta cheia de azul nas janelas e nas portas. E de novo o mar e o cheiro a encanto. Chá de menta para refrescar, numa esplanada. E o assédio dos vendedores, o regateio até à exaustão. Os dinares tilintam no meio das pulseiras e dos brincos. Vem ver, vem ver!
As águas são transparentes em Hammamet e daqui para a frente toda a costa está pejada de turistas, de Sousse a Monastir. Divertem-se os europeus nas águas quentes e na movimentação estival.

Prosseguimos e entramos de novo no passado, em El Djem, onde um coliseu quase intacto nos confronta com mais algumas marcas da presença romana.
Ilha das sereias – Djerba – onde dois mundos convivem: o mundo árabe e o mundo judeu, a sinagoga e a mesquita. E a sedução da joalharia. E a paisagem.
Depois Gabes, a linha costeira, as indústrias, raras neste país de contrastes. E estamos a entrar na paisagem lunar de Matmata, povoação berbere com habitações trogloditas, escavadas na montanha, buracos frescos na secura árida da envolvência. E depois Kebili, a porta do deserto, a caminho de Tozeur, a região dos palmeirais. Deliciosa a frescura dos oásis, nas três alturas dos seus cultivos, das ervas de cheiro às palmeiras imponentes. Pelo meio os figos, as romãs…
Tozeur… onde deixei o coração.
De regresso à capital ainda se visitam as ruínas de Sbeltla onde se fotografam os capitéis, quase intactos, que envolvem o teatro romano; e depois Kairouan, a quarta cidade santa do Islão.
Cheira a especiarias e a couros e a perfumes no regresso à Medina de Tunis. Tudo brilha. O colorido enche os olhos. Regateiam-se os preços naquele ritual próprio e os vendedores insinuam-se com as mulheres ocidentais. É um jogo de sedução que se alimenta. Negócio à vista.
Trouxe uma mala de encantos. Meia dúzia de bugigangas e um torvelinho de emoções.
Tenho de voltar.





Monday, February 18, 2008

criação ou continuação ou o fim do intervalo



Devolvo-te agora o sorriso inteiro, intacto, elástico, fantástico.



Sunday, November 18, 2007

Olhos claros

Há dias de Outono em que nos apetece semear a Primavera.

Wednesday, September 12, 2007

Cheiro a terra molhada


Esta tarde vieram as chuvas.

Sob os candeeiros da rua deslizaram riscos molhados
Trazendo uma frescura branda ao fim do dia

Nos jardins as corolas ficaram mais viçosas
E da terra soltou-se o cheiro mágico das palavras maduras

Não sei se viste que pus flores nas jarras
E sementes de pétalas no canteiro da estação que se avizinha.



Wednesday, August 29, 2007

Combatendo as sombras

Roma

Antecipo agora o nascer do sol completando as sílabas
Apago também os silêncios repondo a direcção nas asas
E lavro textos sobre jardins acabados de plantar

Recuso deitar-me hirta em lençóis de marés passadas
Planto musgo fresco sobre tapetes de folhas ressequidas
E sorvo o cheiro manso da neblina sobre ruínas entretidas

Invento estações novas para ultrapassar a rapidez do tempo
Digo ao espelho que espere apenas mais um pouco

E transpareço, nua, ao som da voz que sopra nos meus olhos

Thursday, June 07, 2007

olhos de ver camomilas



Dá-me, menina, os teus olhos
que os meus ficaram fechados
no lado de lá do tempo

e dá-me a cor dos teus passos
nas escadas do futuro

e a força viva que trazes
agarrada aos pensamentos

e mais a garra que imprimes
à paleta dos teus sonhos

dá-me, menina, o sentido
de sentir-te menos triste
depois dos dias cinzentos




Sunday, April 01, 2007

pedras com flores dentro


Desabrocham vivas as vontades
Nascem da pedraria
Em dias de chilreios com vento a favor
A luz chega cedo e não há noite que adormeça a determinação.




Sunday, May 14, 2006

Abrir o espaço

Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.
E foi nesse exacto momento que alisou os gemidos; meteu-os no bolso de um casaco velho e guardou-o para quando chegassem Outonos a pedir lágrimas.
Ouviu o eco das palavras a dizer que nunca se fecham portas e pensou que sim, que nunca se eliminam memórias porque elas coabitam entre si e o apagamento não sabe de escolhas.
Imaginou que um café tomado à beira-rio podia ajudar os olhos a ir com as águas, a foz ali ao lado, abertura de espaço, para começar o dia. E foi.
Na outra margem crescia o casario; gente, muita gente, pensava, gente que adia decisões e se enrola no passar das horas.
Sabia de angústias, de noites mal dormidas, de amigos calados à espera das palavras para decidirem das respostas, ou antes, das propostas. Também sabia de marés vazias e das ondas a dizerem depois “que não, que não, que não tens culpa”. Contemplação de céus para matar o tempo de espera.
Depois foi tempo de dar as mãos de novo. Não é que as soltasse de si; era apenas a vida a crescer de dentro para fora. E a licença expressa para ser feliz naquele instante.

Wednesday, November 23, 2005

Pensamento a cores


Visto-me de azul, pinto-me de céu e os olhos nesses dias são caleidoscópios.
Abençoado mundo colorido, quase divino o pensamento, ou submisso.
Rente à folhagem pousam pássaros e ouço-lhes os cantos se me visto de verde. Soltando-se da cobertura acastanhada a erva rompe e eu piso-a cautelosamente, emoção em tons de esperança.
Se é cinza o tempo morre, a música do orvalho adormece e o silêncio já não cabe nos olhos. Havendo dias de negro, cantos dos lábios a tocar o chão, olhar baço sobre a viuvez das horas.
Prefiro as rosas, aromas de jardins a encher a alma, matizes suaves e os olhos cheios de prazer.
Se digo vermelho os olhos fecham-se, flamejam para dentro e o corpo estremece. Vermelho vivo, desejo. As horas podem ser lentas no desbotado das ausências; podendo haver um pôr-do-sol cor de fogo quando é verão.

Monday, August 08, 2005

Serenidade

É absolutamente impressionante chegar a um estado de serenidade tão bom que apetece dizer: “ afinal era tão fácil, tão simples e tão possível estar feliz?”
É ainda mais impressionante chegar à conclusão de que foi num dia X que se ultrapassou uma linhazita que estava ali a ser um escolho no caminho, eliminando-se, sem esforço, com um passo apenas, a raiz de todos os constrangimentos.

Angústias, medos, tristezas, cóleras, inseguranças, dilemas, obsessões, hesitações, traições, humilhações… culpas, culpas, culpas…
Para quê?
…O maior desafio que a vida tem, afinal, é simplificar coisas que aparentemente são complicadas!
… E o maior segredo é ainda mais surpreendentemente acessível – o exercício do humor (sobretudo o supremo humor, que consiste em rirmo-nos de nós próprios).
Isto são pequenas reflexões, nada de grandioso, nada de espectacular, nada de maravilhosamente caído do céu. Pequenas reflexões que tenho feito, às vezes sem me dar conta, quer seja a meio do quilómetro 23 da auto-estrada, quer seja sentada à mesa a engolir a sopa do jantar ou a limar uma unha que arranha... para que não se pense que estou inundada de pensamentos literários.

Dantes, quando me falavam em sentido de humor, respondia sempre que não o tinha, que não me coubera nenhum pedacinho na distribuição feita à nascença. Efectivamente também eu reprimia o riso, como a religião faz aos crentes, disparando, de todas as direcções, culpas que se cravam violentamente na alma.
Vítima do espartilho ético, recusando-me a ultrapassar, com um ou outro passo mais largo, o risco circular traçado no chão à minha volta, carreguei fardos arruinando literalmente o suporte do corpo físico (as vértebras); arrastei culpas, expondo-me como que em exercício inútil de catarse; travei lutas de mim para comigo, desfazendo os restos de alguma desejada e desejável racionalidade.

Para quê, se o maior desafio que a vida tem é a simplificação!

“O simples facto de rir ajuda uma pessoa a relaxar. Quando alguém ri abertamente, este acto leva a uma descontracção generalizada dos músculos da face, pescoço, tórax, abdómen e diafragma, ao mesmo tempo que estimula o sistema cárdio-vascular e os pulmões”

Tudo tão simples, afinal:

- para as inibições sociais: descontrair os músculos e sorrir;
- para os desafios difíceis: arregaçar as mangas e sorrir;
- para as tentações de transgressão: dizer que sim a sorrir;
- para a tendência perfeccionista: dizer que não a sorrir;
- para as ansiedades: sorrir para refrear o ritmo e descontrair;
- para as reflexões angustiadas sobre aquele comportamento do
passado: sorrir, para aliviar o peso da lembrança;
- para aquilo que os outros dizem com ar censor: … apenas sorrir!