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Sunday, March 15, 2009

Dias com luz

foto de Elipse
Pendem dos ramos cachos de folhas novas; chilreiam pássaros, despontam ervas, florescem trevos; os miúdos deslizam nas rodas dos patins em algazarra; um par de jovens alheia-se do mundo à sombra de uma árvore e os beijos crescem; e o céu é todo azul e cheira a verde.

Friday, March 06, 2009

O reencontro


Depois o abraço, mas antes os dias empolgados da espera, após a coincidência.
E antes, muito antes, um tempo perdido na infância, há muitos, muitos anos.
No intervalo decorreu a vida.
As meninas encontraram-se e olharam-se nas rugas. Viram através delas o passar dos anos e contaram como foi. Ou antes, contaram pedacinhos de dias bons e dias maus que a memória não alberga mais do que uma parte do todo. Às vezes nem um traço. E, à distância, havia coisas difíceis de confirmar, talvez apenas construções ou desejos. Nunca se saberia. As fotos não comprovam mais do que aquele preciso momento e não se consegue ver nelas o sentir daqueles dias. Isso disseram-no elas, as meninas, à distância de muitos, muitos anos.
Sabes, amiga, o passado não vale mais do que o necessário para se perceber de onde viemos. E mesmo isso nem sempre é a verdade!

Para mim, a verdade foi o encanto de te ter de novo.

Saturday, October 18, 2008

Enquanto os deuses proibiam o prazer

Blue nude - Picaso


Sei que não me alcanças as palavras
por mais que eu conjugue o verbo, ou diga os ecos das últimas sílabas;
Nem eu te alcanço o pensamento
aprisionado no silêncio dos cigarros fumados no quarto;
Difícil entrar nessa calma acesa e arredondar o espanto.
Difícil amansar os gumes da interdição sem magoar a crença.
Podíamos colocar as palavras sobre a mesa
correndo o risco de as deixar para sempre inacessíveis
Mas fizemos levedar os gestos.
Tocavas-me ao de leve, amedrontado ainda
e os olhos iam serenando na entrega
depois das ondas rebentarem no desenho do teu peito

Tuesday, August 26, 2008

Metamorfose


Disse que não às ladaínhas e saíu para a rua sem óculos de sol. Memórias de estios com finais dramáticos enfastiavam e lá fora o dia estava luminoso. Reparou nas borboletas brancas sobre a relva, sinal de que estava atenta, e penteou a franja com os dedos. Soletrou a palavra automaticamente. Meta… além de… depois de…
A torrente das palavras nunca dava tréguas mas salvara-se a capacidade selectiva.
Deu por si a reflectir sobre os modos de apreensão do tempo, não tanto na sua dimensão humana mas em todas as outras.
Estavam fora do alcance do entendimento imediato as estrelas com que se distraíra na noite. Era a memória de outras, as mesmas, mas debaixo de outro céu: universo. Deuses vazios de sentido em toda a extensão do espaço humano; permanência das pedras, dos mares, das árvores; permanência das memórias encaixadas nos sentimentos, mas só nas almas, que a memória das pedras está no ser e o que fica não é mais do que o pó deixado pelo passar do tempo; nos mares, o movimento das marés activa a vida mas a única fala possível é que se ouve à beira-mar quando as ondas nos dizem que-não-que-não-que-agora-não.
E era também a propósito da literatura, por causa das estantes ocas nas livrarias. Nem réplicas. Apenas histórias de gente urbana, com muita cama e pouco sentido. Sem heróis que possibilitem a poesia mesmo no calor estival com finais dramáticos.
Reparou também que as abelhas andavam laboriosas. Deviam ter andado sempre na sua luta floral, mas havia dias em que até o zumbido das asas incomodava. Sinal de que o Verão está vivo, pensou. Verão azul, leve, limpo. Luz.
Do lado de cá dos dramas, a paz.

Sunday, August 17, 2008

Contemplação



Ela tinha pena que do poço não jorrassem as palavras todas mas agora não podia, o momento era demasiado belo e a força das palavras fechá-lo-ia ao encanto da contemplação.
Foi em silêncio que lhe sentiu a pele fresca e, de olhos fechados, sorveu devagarinho o cheiro a menta.
As estrelas agitaram-se ao som da voz que entoou as sílabas onduladas da canção.
Depois nasceu o dia.

Friday, November 09, 2007

Hibernação 2.


Salpica-me o sol destes dias pequeninos.

Dói-me o corpo de lagarto escondido nas frinchas.


Saturday, September 22, 2007

luz/sombra



Era o céu a rasgar-se numa espécie de dia fora do tempo e eu concentrada na direcção circular que me trazia de volta a um lugar sem trevos mas, ainda assim, acolhida na frieza da fechadura que me reconhecia a mão.
No lado de dentro, a salvo do relampejar fino que me iluminara o caminho, o silêncio alimentava-se dos céus zangados e incomodava-me o nervo frágil.
Saí a refrescar o medo sem ter descortinado se me satisfazia ou me desagradava o excesso de ordem e a submissão aos elementos.
A chuva arrefeceu-me os braços despidos. Depois deitei a insónia nas trevas.
Pela madrugada estiquei os tendões adormecidos e tacteei o vazio com os olhos, antes que a luz nascesse.

Tuesday, July 10, 2007

águas que são espelhos


Fiquei assim a olhar o cair da água, ao ritmo dela,
regato cadenciado na transparência dos modos
e eu ali infiltrando-me no direito de estar por conta e risco;


Risco os dias e não sei de outras fontes,
de outras águas, de outros espelhos…


Wednesday, May 09, 2007

pormenores


pontas de fogo em caules frágeis dia-sim-dia-não
pode ser pouco
mas quando o tempo cai sobre as vontades esmagadas
(des)arruma-se a vida
e ofende-se com a esperança dos olhos,
o brilho,
à superfície das águas;

por estes dias vi (des)focar-se a paisagem
e, debruçada sobre mim,
desenhei a vermelho um sol sobre os riscos das feridas.

Sunday, April 22, 2007

arcas velhas

subitamente dei comigo a olhar a arca onde guardei
dobrada
a alegria;
já me tinha incomodado o cheiro a mofo
mas pensava que era do preto dos vestidos
atirados
desdenhosamente
num dia de mãos aliviadas.

lembro-me que também lá pus
a esperança
com medo de a usar em demasia.

devia levantar-lhe a tampa,
suprimir o peso sobre as camadas dispostas no interior

mas tenho medo de mexer nas traças.

Sunday, November 05, 2006

... entre a porta e a lua cheia

Tenho sempre a sensação de ter ficado à porta. Entre a porta e o tempo que vai escurecendo as paredes. O lado de dentro. Entre a porta e a lua cheia que as marés transportam. Chamam-me do lado de fora as marés de arrasto e eu firmo os pés.
Tenho sempre a sensação de ter uma porta entre mim e o que não fiz; entre mim e o que não faço. E um relógio nas mãos.
Procuro com os olhos um lugar especial, um lugar como o lugar antigo onde o tempo não deixa regressar. Queria sentar-me, inteira, do lado de dentro, na calma de um lugar paciente. Tenho saudades de estar completa nos risos e nas brincadeiras a quatro, quando éramos quatro. Saudades que o tempo agrava em vez de aligeirar.
Vejo-me; observo-me; ali entre a porta e o lado de dentro onde nunca estou inteira. E no lado de fora está sempre uma temperatura que me incomoda.
A lua ao alcance das mãos e eu entre o abrir e o fechar da porta.
Frases elípticas; frases de não sair daqui, de não chegar a lugar nenhum.
À porta, sem saber para onde dirigir os ponteiros do relógio.

Friday, September 15, 2006

ciclos, círculos e linhas rectas

A vida é feita de ciclos ou anda em círculos. Menos na duração, que essa é uma linha recta a sumir-se na continuidade que nos fica ao lado direito que, sendo futuro, não deixa de ser imperfeito e acaba num ponto final. Não é verdade aquilo dos infinitos que nos ensinaram na escola. Maldita matemática que nos engana redondamente, argumentando com a coerência interna, quando nos obriga a deduções lógicas.
Deve ser por ter iniciado agora as tarefas rotineiras, ainda há tão pouco tempo quebradas e aliviadas.
Mas antes não era assim; parece que tudo se transformava em novidade e eu vibrava com os começos das mesmas coisas confiando na minha capacidade para mudar a visão do que parecia vir a ser igual.
E eu, que senti o calor do verão como um castigo, sinto agora o fresco que se aproxima como a vingança do tempo, no seu voo irónico..

Wednesday, August 30, 2006

férias com mar


Está-se bem lá em baixo. Depois do calor da tarde o sol esconde-se por detrás da serra mas o mar ainda aconchega em ondas pequeninas e mansas. O corpo estendido na areia descansa da azáfama dos dias e a mente repousa, calma e enxuta.
Ali ou noutro mar qualquer é onde vou estar nos próximos dias.

Tuesday, August 29, 2006

"mulher fragmentada"

Ela fez o desenho e ofereceu-mo. Pediu um texto e ele saíu, verdadeiro, mas um pouco forçado nas rimas...

Fui tecida num tear de madeira crua e depois enformada num invólucro de numeração errada, um número abaixo das minhas dimensões. Cheguei ao mundo apertada.
Cresci com vontade de saber o que estava para além do fim da rua mas tive sempre medo de atravessar a floresta e descobri-la desencantada. Nasci incrédula.
Compus-me de timidez, fio a fio, linha tecida e retorcida numa mente insatisfeita mas contida; devo ter crescido encarcerada.
Aos poucos fui vestindo tecido acetinado, enfadada de tanto me encerrar na pequenez herdada. Pequenos complementos em fios de seda, escondidos, sentidos, vistos; e depois o gosto de me sentir recompensada.
Sorri quem sabe ser desejada. Investe quem tem um espelho grande e tece nele linhas cruzadas, desenleadas pela sublime sensação de ser amada.
É claro que fui feliz, da paz dos dias novos ao nascimento da prole desejada. Casa cheia de gritaria numa alegria abençoada.

Não sei se é problema deste espelho, ou se sou eu que me vejo numa imagem desfocada, mas os fios com que me visto agora são estas linhas quebradas, fios enleados, emaranhados, mal acabados …
Onde está a parte que me falta, as partes que me compõem: o corpo, as pernas, a cintura antes tão bem desenhada, as minhas mãos engenhosas e a saia fantasiada?
Não, não me digas que é uma tristeza inventada. É que a casa está vazia, tudo agora é um espelho descomposto, ou são os olhos que o quebraram e eu estou nele assim fragmentada.

Desalentada?
O coração está inteiro! Direi ao espelho que recomponha a minha parte apagada.

Thursday, August 10, 2006

Calor a mais

E tinha tomado como referência o calor do Universo para me pôr de bem comigo quando há tempos o Outono caía no seu tombar finalizador e me arrastava. Agora, porém, dificilmente resisto à vontade de me defender. A temperatura exterior ultrapassou a da minha pele e por isso derreto nesta lassidão agravada pela falta de contornos. Não que os contornos tenham a ver com o sol. E daí, talvez tenham, sim, que o excesso de luz rouba a clareza das coisas e o solo reverbera a escassa humidade que anda ali pela superfície rasgada da duração feita prolongamento. Solo frágil onde todo o verde se tornou secura à mercê das chamas até não restar mais do que a esterilidade das cinzas.
Não me apetece estender-me ao sol. Muito menos enfrentar os caminhos de areais escaldantes e as corridas desenfreadas por um lugar à sombra. Há gente a mais nas praias, nos estacionamentos, nas estradas. Paradoxalmente, se cada um se sentar ao volante do seu automóvel, de vidros fechados para melhor sentir o fresco do ar condicionado, dificilmente reconhecerá que na pista ao lado a solidão tem o mesmo som.

Mas de que é que eu estava a falar?
Ah, sim, do excesso de calor e destas noites em que os corpos não desejam tocar-se para não se derreterem naquilo que deles sobra neste Verão com cheiro a queimado.

Wednesday, August 09, 2006

O Verão também tem horrores



Quando Agosto chega e com ele este calor entediante e cansativo, não posso deixar de me lembrar de um relato soberbo de Mário de Carvalho em

Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto:

“E ei-los assim a altercar a travessia do Sado, alheados dos golfinhos, a caminho do seu primeiro dia de férias, como sempre, na Costa da Caparica, em Santo António, num rés-do-chão que arrendavam há anos a uma velha rabugenta, proprietária de muitos gatos, cujo odor continuava a impregnar a alcatifa, ainda que no Verão estivessem carinhosamente recolhidos noutro lugar qualquer, para dar lugar a veraneantes.
E, por ora, ponto final.

Joel Strosse tinha agarrado numa revista francesa, Ça Ira! E procurava concentrar-se num artigo intitulado “La gauche post-moderne, une déconstruction em marche?”, mas não conseguia passar do primeiro parágrafo. Era à tarde, cirandavam moscas em de permeio, umas melgas franco-atiradoras, prontas a atacar pela calada da noite, com aquele ruído característico da Fórmula 1, mais irritante que as alergias da matadura.

(…) pela janela gradeada via passar os veraneantes que regressavam da praia, dobrados ao peso dos guarda-sóis, basto enfadados , num carreiro sem fim. Pareciam zombies, de carnadura flácida, jeito mortiço e olhar vazio. Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta.

(…) Cremilde, sentada num sofá estampado de flores, cujos castanhos e cinzentos não se sabia bem se eram obra do artista desenhador ou do uso continuado, ia folheando a Elle e perorando destarte:
─ Vem aqui que as varizes não têm cura. A operação pode aliviar um bocado mas cura é que não há. É um médico que diz. Traz fotografia e tudo.
Joel chegou-se à janela com o intuito de baixar a gelosia, tarefa árdua, científica e complicada, com aqueles fios todos num emaranhamento marujo.
(...)

As ruas ficavam cheias de gente, (...) os contentores transbordavam de lixo (...). Ainda por cima, havia bichas no supermercado e o ambiente estava impregnado por fumos de churrasco de frango dos restaurantes improvisados, geralmente governados por bigodaças imundos, com barretes às três pancadas, muito refractários às inspecções dasactividades económicas."

Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, ed Caminho, 1995, pp. 42-45

Saturday, June 17, 2006

É menina!

Liga-nos um fio para sempre, ainda que ele seja cortado num momento de mistura de demasiadas sensações para se ter a verdadeira percepção do facto.
Depois disso, a novidade inteira. Em mim, a estranheza da palavra, pronunciada pela primeira vez com rosto à vista, dentro de uma roupa cor-de-rosa e tão pequena que assustava. E alegrava.
Nela a dimensão do desafio desde o primeiro minuto.


Faz hoje vinte e três anos mas foi há tão pouco tempo!

Friday, February 10, 2006

Os dias

Risco os dias outra vez. Risco a vontade, a força, a esperança, a persistência.
Depois lido com as sobras a montante e estilhaço-me em fragmentos aguçados.
Limpo o sangue. Forço um sorriso no espelho e ele devolve-mo triste.
Procuro as causas, as razões, as justificações. Podem ser as falas, as que as vozes deixaram nos ouvidos e as outras que não tiveram voz nem tempo. Podem ser as memórias que vêm sempre tocar os dias invernosos. Podem ser as correrias, as loucuras, os anos que passam, as rugas que aparecem e se disfarçam com o cuidado das manhãs que prometem dias, às vezes noites. Recuso depois as noites e fecho-me nos dias. Dias a fio. Dias em que o cinzento vem do céu e toca o chão e eu lá dentro sem janela de fuga porque as encerro. Envolvo-me em neblina e gelo. Digo que pode ser da chuva, desta chuva que gela os ossos e os pensamentos quando o riso afrouxa. Dias houve em que as gotas na janela me inspiraram. E me enlevaram. E me sugeriram o conforto da companhia colada à pele mesmo que ausente. O frio não vem de fora, repito. É do riso frouxo, do riso que já não mora nesta casa e me surpreende quando, como ontem, alguém ri e eu observo, estranha, depois de muitos dias sem saber onde mora a vontade de acordar.
Resisto ainda um pouco. Não, não vou precisar de ajuda, isto compõe-se.
Depois pergunto-me se há um lugar da casa onde procurar conforto como menina em busca de colo. E vou. E lembro-me, exactamente no mesmo instante, que estou a riscar os dias e a vontade e a força e a persistência. E que as sombras se estilhaçam para dentro e me ferem sem razão.

Wednesday, September 28, 2005

Rosto no Espelho


É um rosto no lado de lá, que me olha de cima, de lado, de frente, visão de todas as faces de uma coisa que se chama pessoa e que se olha às vezes como se fosse uma ilha, outras vezes apenas como um pedaço de realidade que se enquadra ou desenquadra, depende sempre do dia, da pressa do levantar ou do sentar à mesa para uma refeição mal mastigada.
É um rosto de olhos enquadrados, quase só olhos de olhar e o resto fica como que apagado pela direcção do foco que foca as coisas que não se vêem a olho nú.
É um rosto que fixa, que teima, que se fixa em teimosias feitas quimeras ou em pontos de fuga que permanecem nas telas inventadas e presas na imaginação a ponto firme. Rosto no espelho. Rosto visível. Ilha presa em marés nuas sem linhas de fuga.

Monday, September 19, 2005

As ameias



Estava ali fechada e a vista perdia-se na contemplação das coisas possíveis, dias de neblina sobre as pálpebras e muralhas de ameias sobre a vontade.
Estava ali fechada nos dias invernosos, paisagem escura, sonhos encarcerados no círculo das pedras.
Estava ali com vontade de ter asas ou pernas de gigante que ultrapassassem a inquietação contida na clausura.
Era moira por encantar, rosto sem espelhos para cá dos céus, estátua de pedra por analogia simples, semente caída em rocha.
Estava ali fechada, ou eu ou a minha imaginação.