Showing posts with label memórias. Show all posts
Showing posts with label memórias. Show all posts

Saturday, October 18, 2008

Enquanto os deuses proibiam o prazer

Blue nude - Picaso


Sei que não me alcanças as palavras
por mais que eu conjugue o verbo, ou diga os ecos das últimas sílabas;
Nem eu te alcanço o pensamento
aprisionado no silêncio dos cigarros fumados no quarto;
Difícil entrar nessa calma acesa e arredondar o espanto.
Difícil amansar os gumes da interdição sem magoar a crença.
Podíamos colocar as palavras sobre a mesa
correndo o risco de as deixar para sempre inacessíveis
Mas fizemos levedar os gestos.
Tocavas-me ao de leve, amedrontado ainda
e os olhos iam serenando na entrega
depois das ondas rebentarem no desenho do teu peito

Tuesday, August 26, 2008

Metamorfose


Disse que não às ladaínhas e saíu para a rua sem óculos de sol. Memórias de estios com finais dramáticos enfastiavam e lá fora o dia estava luminoso. Reparou nas borboletas brancas sobre a relva, sinal de que estava atenta, e penteou a franja com os dedos. Soletrou a palavra automaticamente. Meta… além de… depois de…
A torrente das palavras nunca dava tréguas mas salvara-se a capacidade selectiva.
Deu por si a reflectir sobre os modos de apreensão do tempo, não tanto na sua dimensão humana mas em todas as outras.
Estavam fora do alcance do entendimento imediato as estrelas com que se distraíra na noite. Era a memória de outras, as mesmas, mas debaixo de outro céu: universo. Deuses vazios de sentido em toda a extensão do espaço humano; permanência das pedras, dos mares, das árvores; permanência das memórias encaixadas nos sentimentos, mas só nas almas, que a memória das pedras está no ser e o que fica não é mais do que o pó deixado pelo passar do tempo; nos mares, o movimento das marés activa a vida mas a única fala possível é que se ouve à beira-mar quando as ondas nos dizem que-não-que-não-que-agora-não.
E era também a propósito da literatura, por causa das estantes ocas nas livrarias. Nem réplicas. Apenas histórias de gente urbana, com muita cama e pouco sentido. Sem heróis que possibilitem a poesia mesmo no calor estival com finais dramáticos.
Reparou também que as abelhas andavam laboriosas. Deviam ter andado sempre na sua luta floral, mas havia dias em que até o zumbido das asas incomodava. Sinal de que o Verão está vivo, pensou. Verão azul, leve, limpo. Luz.
Do lado de cá dos dramas, a paz.

Wednesday, March 07, 2007

4. diferenças






conjugámos juntos o verbo desmoronar, embora em tempos diferentes e nunca da mesma maneira; há olhos que vêem primeiro as ruínas e demoram a limpar o pó que os turva; há outros que levantam paredes sobre o nada e abrem janelas para paisagens não supostas. preferia ter sabido antever o termo, fechando a página no tempo certo; há coisas que nos escapam por excesso de sentimento; ou de camuflagem.
também olhámos as águas a partir do mesmo lugar e se uns olhos alcançavam as ondas os outros fixavam-se no areal à procura do reverberar do sol. não era uma simples questão de pontos de vista; era a diferença.

Tuesday, February 27, 2007

3. infância







lembro-me de quando pousava na mão o menino Jesus do presépio, guardado no cesto dos brinquedos, junto dos tachinhos e das bonecas de plástico; ficava a contemplar a figura despida colocando-me sob os poderes sagrados; lembro-me que às vezes o padre entrava na sala de aula, a meio da manhã e falava de pecados;
pecados?, não os sabia, não me pesavam; contudo a palavra foi ficando, inibindo a liberdade dos gestos em certos dias;
lembro-me de jogar ao prego na rua e de fazer covinhas para os berlindes, na terra; e de um baloiço pendurado na oliveira, à entrada a casa da avó; se me empurrassem com força chegava com os pés ao céu, mas não queria entrar no céu, só se ia para o céu quando se morria e eu tinha ainda que descobrir o que estava para além do fim da rua;
lá ao fundo havia um pinhal e tanto me intrigava o que havia depois do arvoredo; era o mundo, e eu, ansiosa, fechava os olhos; colocava na paisagem imaginada todos os restos das conversas que ouvia e tentava construi-lo a partir desses fragmentos.

Monday, February 26, 2007

2. casa






uma vez senti que ela respirava ao meu ritmo, que se entristeciam as paredes quando eu deixava deslizar as minhas costas e os braços caídos até ficar sentada nos mosaicos sem horizonte; uma vez os degraus inverteram-se e as telhas foram chão e o céu ficou à vista; uma vez senti devolver-se o grito quando o julgava abafado no canto mais distante das ruas que me levam todos os dias para me trazer de volta ao fim da tarde; uma vez fugi e levei comigo tesouros que depois devolvi ao lugar desenhado a quatro mãos, na esperança de renovar a esperança; uma vez fiquei aqui como se fosse para sempre no espaço crescente onde ressoa o eco de passos que partem;
lá fora há um jardim que floresce em cada Primavera e eu em cada Outono morro um pouco; e, no entanto, os olhos que passam detêm-se e contemplam a beleza.

Sunday, February 25, 2007

1. adolescência





deitávamo-nos sobre as ervas dos pinhais em caminhos por onde ninguém andava; prometíamos futuro entre sorrisos e mãos enleadas e os beijos eram ainda um simples roçar de lábios, de tão verdes; usávamos rimas pobres para escrever poemas de amor em cadernos alinhados ao sabor dos sonhos; era uma gramática de verbos intransitivos, a nossa; fáceis de pronunciar todas as palavras sob a frescura das copas nas tardes de verão; apetece-me comer o verde, dizia-te; e tu, sonhando ainda a um ritmo igual ao meu, sorrias e beijavas-me as mãos...

Wednesday, January 17, 2007

à procura da perfeição


Hoje havia camélias caídas no chão do jardim
E eu, de olhos vendados, adivinhei-lhes o tom mais-que-perfeito
na memória do cheiro a terra fresca.
Se tivesse aqui a tua mão pousava nela a corola avermelhada
e aconchegava-a no seio injusto do presente.

Saturday, January 06, 2007

Vinte anos...

"Era forçoso que olhássemos na mesma direcção mas sem dúvida que nenhum de nós via o mesmo vento a bater, os toldos a voar, a areia escorregando e fugindo ."

Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios

Olhar na mesma direcção, sob um céu homogéneo, sem ver mais variações que não sejam as que a outra voz dita.
Falas, e toda a vida esvoaça, como se o mundo cantasse
e os cantos entoassem; em redor é tudo teu;

mas se a tua voz se cala, o canto do mundo cessa,
e fica a vida suspensa. E o silêncio é todo meu…
Murmurar que o tempo é eterno e nada mais interessa para além do círculo fechado sobre a resolução possível de todos os males. E ver cair a chuva na calçada ouvindo-lhe a melodia, ou sentir o gosto da língua do sol sobre a pele num dia de Inverno.
O renascer do tempo no rumor das veias.
Olhar na mesma direcção a colher sentidos; tatuá-los depois nos olhos e reduzir a visão ao imediatamente perfeito. Sem ter ainda percebido que o verdadeiro sentido das coisas é elas não terem sentido nenhum.
Sentir sobre a folhagem húmida o sopro de uma brisa salvadora e afiançar que o sol está ao alcance das mãos, como se todas as coisas do mundo passassem pela solução mágica da entrega, amor, promessa, verdade universal, esperança, certeza.
Tu estás aí, no lugar onde as palavras terminam
e se renova a magia do silêncio;
de costas para o tempo desafias a linguagem dos poemas
e acordas a poeira das noites;
tu estás aí, aqui,
na inquietação do corpo e no sabor das horas que hão-de vir…
Olhar na mesma direcção sem ter pressentido outra linha no horizonte, outra cor, outro som, outro mistério; sem ter percebido que o tempo cava distâncias, muda a rota nas agulhas, deixa traças nos tecidos e cheiro a mofo nas entranhas do desejo.
No lugar onde estás eu também estou,
num sonho ou num incêndio;
ávida, desperta e com as mãos em fogo, aqui me tens…
Não saber da escassez do paraíso, das altercações, das metas curtas, da luz frouxa dos amuos em dias longos.. Arrefecer depois a contra gosto e baixar os olhos.
Olhar persistentemente na mesma direcção – obrigação – e partilhar o sonho dos risos eternos das crianças ou querer também mantê-las tragicamente debaixo das asas a aninhar doçuras egoístas.

E o ser massacra, devasta, inquieta em permanência; debaixo da capa do bem estar desenham-se labirintos; o silêncio gasta-se e a inquietude das asas tece uma lentidão de segredos; desejam-se mistérios...
... mas já nada renasce
a não ser uma primavera hesitante... à procura de espaço.


Legenda - a verde: o que escrevi aos vinte anos;
- a preto: o que acabei de escrever.

Conclusão 1. O amor existe;
Conclusão 2. Não se pode rasgar o que está escrito;
Conclusão 3. Mesmo que se olhe na mesma direcção o que se vê nunca é o mesmo, a não ser ... aos 20 anos...
ou- reflectindo melhor sobre o que escrevi ontem e já era madrugada - nem aos vinte anos.


Tuesday, September 26, 2006

... que foi que me disseste?

Depois passaram dias, muitos dias, disse eu como só os velhos dizem quando contam histórias que os outonos agigantam; e dos dias passados ficaram memórias aplacadas pelos ventos de todos os quadrantes, sementes perdidas nas dunas a aguardar as gotas de água.
E depois dos dias embrulhados nas memórias, gravados nelas como riscos afundados no lado de dentro da pele, diz o acaso que aos olhos não falta muito para verem a luz dos dias novos; que às mãos está destinado o toque mágico do final do dia e que o beijo é capaz de voar a distância e fazer-se calor no momento da chegada.
Se vieres do lado do mar estarei no cais. Se for ao contrário serei barco. Ao fim de uns dias um e outro encontram-se. Invariavelmente um parte. Ou partem-se os dias, despedaçando-se os sentidos. Não importa. Nada no mundo pode deixar de ter sentido enquanto os dias passam.
Se me disserem que vivo de encantamentos acredito.
Ilusórias são todas as palavras e o que nelas passa a símbolo não é mais do que a construção de quem as lê. Mas a mim que as escrevo e nelas me fascino, não me preocupam os sentidos.
Basta que o dia chegue.

Sunday, August 20, 2006

fatalismos a preto e branco

Ouves lá fora a água sobre as poeiras das conversas?
É chuva.
Mas ouves a brisa que baila em volta da inércia pedindo danças?
É o vento. Aqui é raro o dia que não há vento.
Mas as danças…
É apenas o movimento do Universo.
E os sonhos? Consegues ouvir que ressoam nos diálogos?
Tenho os pés assentes no chão.
E o chão? Sentes ao menos que o chão existe?
Sim, o meu. Se estiveres neste círculo está tudo conforme os desígnios.
Mas há teorias a mais nos livros que cobrem o teu chão!
Alimentemo-nos desse pão.
E o mundo? Lá fora há um mundo por viver.
Tu tens asas. Rasga as nuvens. O meu plano está resvés a base entediante do nível do mar.

Sunday, May 14, 2006

Abrir o espaço

Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.
E foi nesse exacto momento que alisou os gemidos; meteu-os no bolso de um casaco velho e guardou-o para quando chegassem Outonos a pedir lágrimas.
Ouviu o eco das palavras a dizer que nunca se fecham portas e pensou que sim, que nunca se eliminam memórias porque elas coabitam entre si e o apagamento não sabe de escolhas.
Imaginou que um café tomado à beira-rio podia ajudar os olhos a ir com as águas, a foz ali ao lado, abertura de espaço, para começar o dia. E foi.
Na outra margem crescia o casario; gente, muita gente, pensava, gente que adia decisões e se enrola no passar das horas.
Sabia de angústias, de noites mal dormidas, de amigos calados à espera das palavras para decidirem das respostas, ou antes, das propostas. Também sabia de marés vazias e das ondas a dizerem depois “que não, que não, que não tens culpa”. Contemplação de céus para matar o tempo de espera.
Depois foi tempo de dar as mãos de novo. Não é que as soltasse de si; era apenas a vida a crescer de dentro para fora. E a licença expressa para ser feliz naquele instante.

Tuesday, May 02, 2006

Como lidar com isto?

Clicar na imagem

Arrastava o corpo pelas paredes e uivava em dias de contrariedade. Mas isso era quando era jovem. Contam que em tempos de infância dominava os irmãos mais pequenos caindo sobre eles com os dentes.
Do que me lembro é das brincadeiras e de uma memória fabulosa, apenas entendida por quem convivia de perto com ela, porque os grunhidos eram difíceis de ouvir. E ria, estridente, de boca escancarada, deixando à mostra as gengivas descarnadas.
Pedia água, sempre e sempre, como se o corpo fosse uma esponja seca; depois a água escorria do púcaro de alumínio pelos cantos da boca e ela pedia mais, não fosse o mundo acabar sem estar saciada.
Tinha um caixote com bonecas sujas, e beijava-as, ao mesmo tempo que entoava um embalar medonho. Eu era menina mas não podia chegar-me perto. O espaço era sagrado.
Por pouco ficava-me de herança, porque a longevidade cumpriu ali uma promessa desumana. Chamava-se Isilda e era minha tia.

Não creio que lhe tenha faltado amor, mas se fosse hoje poderia ter desenvolvido algumas das suas frágeis capacidades numa CERCI.
E foi assim que respondi ao desafio do Rui, mencionando uma instituição de solidariedade cuja acção me toca particularmente.


Tuesday, April 18, 2006

À volta das dores

Podia até dizer-te que tenho pena e que me doem as tuas dores. Mas também tenho em mil pontos de vista dispersa a verdade das coisas, sem saber em certos dias se a verdade é o que vejo ou se não é isso mais do que a criação de um querer que não diviso dentro da consciência, por omisso ou camuflado.

Podia até dizer-te que penso em ti. E penso. Mas se o faço é por piedade, sendo já este o sentimento inócuo de te ver à distância, sentado na cadeira onde buscas o conforto impossível embora continues a fazer o planeamento da vida que para ti nunca parou, nem agora que estás parado.

Podia até dizer-te que sei o que sentes. Mas não sei disso por solidariedade ou por analogia; sei-o porque as senti ferradas, essas dores que silenciei a maior parte das vezes ou que gemi calada enquanto as lágrimas corriam para dentro e ilusoriamente as suavizavam.

E assim andamos à volta das dores. Tu porque as sentes. E eu sentida.

Friday, March 31, 2006

Corrosão do Tempo

Amei-te com paixão de menina; e depois com a calma de quem sabia todos os segredos.
Era de partilhas o primeiro sonho e por isso emergiam flores do nosso chão conjunto.
Foi contigo que desenhei as paredes e o forro de um abrigo à sombra, com varandas suspensas na solidez de duas ou três traves.
E assim ficámos, vendo passar as manhãs sobre as noites alongadas; talvez com frio ou com metáforas a gastarem-se nos gestos. Ou nos abraços.
Pousávamos carinhos sobre o corpo, cada vez mais à beira do silêncio ou do gelo que sobrava de cada noite.
Não sei se foi o vento ou a maldade que desenhou um barco sobre as águas a caminho da margem mais atenta.

No cais havia um palco e muitas mãos exibindo o fulgor de outros segredos plantados nos degraus. E tu seguiste.
Subitamente quebrou-se o meu perfil e as águas agitaram-se.

Thursday, December 29, 2005

Anúncio de Janeiro com Primavera ainda adormecida

Eu dizia:
“Nenhuma brisa é triste”,
e procurava água, lábios,
um corpo
onde a solidão fosse impossível.*


Eu dizia que todos os ventos vêm carregados de tristeza. E que os silêncios pesam quando os ventos acalmam, fazendo sentir a distância a que estamos dos lábios ou do corpo. Ou apenas da música cativa nos dedos, quando os dedos acariciam. Ou ainda e tão só a distância que construímos para fugirmos de nós próprios e tornarmos possível a solidão.

Mas quem sabe dessa música
cativa nos meus dedos?
E depois, como guardar um beijo
mar doirado ou sombra
desolada?*

E dizia ainda de um beijo saudoso em tempo de festas ou de memórias acesas pelas iluminações que encantam almas outras que não esta, saudosa e inquieta, a guardar beijos como quem guarda folhas secas dentro de uma gaveta.

Recordava um rio
álamos
o sabor da chuva,
tropeçava em lágrimas e soluços
e lágrimas, e procurava.*

E digo ainda que o sabor da chuva tropeça também nas preces soluçadas, persistentes na procura dos álamos guardados em folhas-memórias, ainda frescas, ou em palavras-lágrimas que afectam a memória dos afectos.

Como quem se despe
para amar a madrugada nas areias,
eu dizia: “Nenhuma brisa é triste,
triste”, e procurava.

E procurava.*

Digo-o, ainda, como se me despisse para depois procurar uma brisa de sabor novo e me vestir com ela.


* Eugénio de Andrade - Ah, falemos da brisa

Thursday, December 22, 2005

Balanço de fim de ano

O beijo saudoso recorda conversas agradáveis ao fim do dia quando o frio chegava de repente e obrigava um corpo a pedir emprestado o calor do outro; ou quando o sol se punha sobre o espanto das palavras e a cumplicidade dos olhos e trazia em si a noite; ou a meio de uma tarde de sol a bater nas ondas e nas roupas-agasalhos de fim de Outono. Tudo em sonho construído na estação das memórias.

As palavras, sempre muitas, contudo insuficientes para dizer o que a parte de dentro da frieza de fora não sabia exprimir, recordam-se em textos inventados que os outros supõem nascidos do coração, não sendo o coração a nascente da verdade mas do fingir secreto que é um fingir verdadeiro. Todas apagadas agora, por ser impossível lembrar se eram bem recebidas ou se era eu que as escrevia para as inventar nos seus símbolos. Tudo em memórias fora da estação construída.

O sorriso de natal – que não é alegre mas também não é triste – é apenas o que é, um sorriso escrito numa mensagem rápida a lembrar que me lembro de dias passados no passado; era eu uma mulher destra a cultivar emancipações e a coleccionar lembranças que ficaram numa folha de fim de Outono guardada numa gaveta, não sendo meu costume povoar gavetas. Tudo em estações construídas dentro das memórias.

Vai, então, o beijo em correio urgente para chegar ainda esta semana pois a seguir é Natal e as construções desfazem-se com as memórias da estação, em balanço rotineiro de fim de ano.

Friday, November 25, 2005

As memórias

Lembro-me de ti quando trepavas a laranjeira, no quintal da casa da avó, para alcançar, lá do alto, a aproximação dos inimigos que irias derrubar com a tua espingarda de madeira “pum”, “pum”. Sem vinganças, sem maldades, apenas traquinices de uma infância feliz, espraiadas ali no quintal, como se fosse numa selva ou numa floresta, porque no apartamento o espaço não chegava para a imaginação, penso eu agora, depois de ter tido filhos e de ter percebido que os espaços fechados das casas empilhadas umas sobre as outras os impede de verem as estrelas à noite, tanta luz à volta dentro das cidades e armas de guerra nos cestos de brinquedos, de todas as formas e feitios, com luzes e sons, sem ser preciso fazer “pum”, “pum”.
Os anos passavam e eu perguntava-me, sempre que colhia as laranjas ou as apanhava do chão, grandes, maduras, vivas, onde estarias e como seria a tua vida. Via ainda a espingarda de madeira nas tuas mãos brincalhonas, mas já procurava o teu nome nas listas dos alunos que frequentavam a minha escola, sabendo que os anos nos teriam mudado as feições de miúdos e que não seria possível reconhecermo-nos se nos cruzássemos na rua. As turmas eram só femininas ou só masculinas lembras-te?, mas naquele dia em que o senhor ministro visitou a escola e nos enfileiraram no corredor, de bandeirinha na mão, menina ao lado de menino e menino ao lado de menina, a comitiva toda a passar e nós compenetrados na nossa missão de infantes da Pátria, quase como os militares que desfilavam antes de embarcarem rumo às Áfricas, como a televisão mostrava, fazendo chorar a minha mãe, naquele dia eu procurei-te com os olhos, pensando sempre que podia ser possível descobrir-te. E dar-te as ler as cartas vindas de França.

Friday, November 18, 2005

(2). Vozes e Silêncios

Mas havia também o som de outras vozes. Foi por isso que se rendeu à racionalidade do fim da noite e fez o caminho do regresso.
Ligou o rádio em gesto de procura – a companhia de uma música, talvez, ou de um som que afastasse o incómodo do fim de noite. Fez rodar o carro sobre um eixo incendiado que lhe vinha das entranhas, no escuro e viu-se a percorrer as mesmas ruas.
Era tarde quando chegou. O gato fê-la tropeçar, presença inesperada na confusão de mãos a saber a beijos sob o incêndio das dúvidas.
Sentada, aconchegou o pêlo ao bicho que lhe procurou o colo e teve a noção exacta do momento em que chegaram as memórias. Não gostava destas visitas que vinham de noite e aproveitavam o silêncio para trazer gemidos. Gemidos não, pensava. Era como se das paredes saíssem até os cheiros encostados às palavras; evidências em voo a apoquentar a chegada da manhã. Gemidos não, dizia.
Não era justo que continuasse a dar guarida ao mal. Depois pensou no bem e não soube a quem acolher.
Levantou-se e decidiu que o dia iria começar ali. Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.

Tuesday, November 15, 2005

"fingere".blogspot.com

Gostava de equacionar a palavra Verdade numa fórmula perfeita, inalterável, mestra.
Para isso teria de entrar no mundo dos números, mundo racional, mundo de realidades apinhadas de vértices e arestas laminares ligadas seguramente por uma coerência interna que me escapa ao entendimento.
Tenho, então, de entrar no mundo das palavras e ficcionar com elas (ficção = fingere = fazer) uma construção que arrume e organize a relação com o real.
Tudo em linha para que delas não se escape o entendimento. Depois tenho de usar harmonia e ritmo para estabelecer a ligação dos ingredientes. Receita antiga. Construção.

Monday, November 14, 2005

(1). Sinais e Vozes

Ele acolheu-a com os olhos à chegada. Curiosidade mútua de se saber que palavras vinham a seguir. Ou que demonstração de que desejos.
O sol já se tinha escondido, já nem se podia sentir a magia daquela linha ténue sobre o espelhado do mar, uma linha apenas que separa o real do irreal, pensava ela, com ilhas ao longe e sonhos de partidas. Contudo havia a magia da noite, momento em que tudo fica mais obscuro.
Frente a frente, entre o gelo das bebidas e o calor dos cigarros acesos, chamas a incendiar os olhos, ele falou de amores perdidos, pobres, gastos.
Ela escutou. Sentia-se a questionar o estar ali mas o desafio estava lançado ou esteve lançado quase desde o início, em ambiguidades mal resolvidas e numa resistência que pode ter sido a responsável pelo desencadear das emoções.
Lado a lado, saltitando ao sabor das suspensões do carro, o caminho fez-se estrada e as mãos soltaram-se. Que desejo? Que laço de entendimento? Que atracção? Provavelmente a da ambiguidade e apenas essa.
Talvez pudessem ter adiado tudo, adiar é uma boa solução porque a seguir vem sempre a inscrição da racionalidade no desejo, sobretudo se passam umas horas ou uns dias sobre a precipitação de uma emoção ou apenas de uma busca, pensava ela. Vale sempre a pena adiar e fazer as contas às perdas e aos ganhos.
Depois, ainda que não fosse isso o adiamento, ele aconchegou-lhe os lábios, enquanto ela fingia que não esperava a ternura do gesto. Foi quando se deu conta de estar a imaginar que a transparência dos sinais era visível, ou que podia preencher os vazios do momento com o arrebatamento das emoções, ou que tinha o direito à ousadia. Havia música na voz e música nas mãos, era o que ela sentia.
Mas havia também silêncios ou o som de outras vozes. Foi por isso que se rendeu à racionalidade do fim da noite e retomou o caminho do regresso.