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Tuesday, February 05, 2008

desfocagem

Picasso


Que deu ao pintor para se pôr a colorir as lágrimas?
Quem lhe disse que elas são confetis ou cones de gelados infantis? E os chapéus barcos de lançar aos charcos nos Invernos lamacentos?
Quem o mandou desfocar os olhos e pôr saliências nos dentes?
Com que mãos limpou o rosto da mulher chorosa e lhe pôs fragilidades nos lábios e depois lhe alisou os cabelos.


Maldigo-te pintor pelos teus olhos embaciados.

Sunday, April 29, 2007

narrativas com asas. ou apenas símbolos

René Magritte

E não saí das páginas…
Espalmada nelas converti-me em tempo narrativo, encolhida no espaço das histórias que ficam por contar.
Arredondei-me no volume das personagens e na gramática dos monólogos surdos.
Diálogos, sonhava-os, mas era se soubesse com que palavras se constrói a trama das histórias felizes.
Nos arabescos das aves podia estar o código por desvendar se não tivesse a certeza de que tudo é simbologia.
Heróis? Só nas histórias antigas, dentro dos livros de fadas; mas os episódios são sempre interrompidos pela focalização em outras realidades, as cruas, aquelas que não têm sequência narrativa, por mais que se queira aligeirar o desenlace.
E a acção tem um nome que é sempre o nome de outro nome; às vezes promessa sob um nome, sob a palavra que se pronuncia. Como se tudo tivesse um rosto visível e outro escondido. Pronuncia-se amor e é hábito que se diz. Diz-se o nome à espera que ele se converta na imagem de desejo.
E o que se deseja? Que o rosto visível das coisas seja a satisfação do desejo oculto.
Diz-se Primavera aguardando flores e pássaros na paisagem; e se as pétalas voam fica-se sem saber se eram as aves ou se era apenas o cheiro a rosas, sem as rosas. Figuração.
Um nome é sempre um nome de outro nome: se digo “eu” posso estar a anular a existência porque é do outro que falo; hábito de dizer e deixar escondido o que não ousa ser dito ou sequer pensado. Todo o pensamento ultrapassa a competência narrativa.
E no entanto há um desconforto no pensar, um subtítulo mal enunciado em cada coisa.

Wednesday, August 02, 2006

O mal está sempre nos olhos

Tamara de Lempicka

Pega-se no volante no mês de Agosto e segue-se viagem.
Ou noutro mês qualquer, é sempre tempo de seguir viagem.
Disseste que foi separação? E daí? O mundo não pára para quem interrompe o percurso; o mundo nunca parou nem nos dias em que o céu decidiu desabar ou o chão se afundou deixando ver o (completamente) vazio.
Achas que os olhos denunciam? Que te dizem eles?
A mim, nada. Ali estão, fingindo transparência.
Ela foge? Achas que foge?
Não, não sei se tem filhos mas não parece que esteja presa. Apenas segue viagem.
Ou enlouqueceu?

Saturday, July 22, 2006

as arestas da dualidade



Cruzava-me com eles ou via-os do outro lado da rua em ritmo de passeio e refreava o passo porque me incomodava a minha pressa que não era pressa mas hábito de nem sequer conseguir reparar no rio também ele acostumado a entrar-me nos olhos perdendo o encanto das primeiras vezes se é que lembro as primeiras vezes porque a memória é feita de amontoados de imagens e cheiros e sons que se misturam numa confusão de tempos sobrepostos como meada sem fio e sem ordem e eu desordenada nos passos embora respeitasse os sinais de proibição em acostumado cumprimento da normalidade imposta e em respeito à norma evitando os desvios da rota ou do rumo que o tempo vai traçando ou eu por ele que a minha teimosia desvia normalmente os encantos trocando-os por outros igualmente fantásticos na origem mas íngremes no percurso que nem sempre escolho por me sentir partida em duas metades não complementares nem amigáveis que bifurcam o caminho como nas histórias em que é preciso fazer uma escolha ficando nós a adivinhar as duas leituras possíveis e invariavelmente optando pelo final feliz que seria o caminho que todos os outros pensavam levar ao cruzarem-se comigo no passeio ou no outro lado da rua embora a gente saiba que no final nos espera um porto sendo este um local de chegada mas também de partida pelo que nunca sabemos se devemos fazer como se chegássemos repousando e unindo as duas metades ou como se tivéssemos de partir inteiros. Parto?

Thursday, June 15, 2006

palavras elípticas

Também gosto de andar às voltas com o começo das coisas sendo que o fecho delas se me avizinha sempre perto, muito perto, sem que eu o possa ou queira adiar.
Começo todos os dias uma história mas nem sempre quero ou desejo dar-lhe a continuidade que podia levá-la ao final feliz. Continuidade lembra que é preciso voltar aos lugares do passado, mas é daí que chegam os ecos do desconforto.

E era preciso, sim. A omissão dos ecos gera coisas descontínuas mas a recusa em ouvi-los é visceral; o confronto com as palavras pronunciadas esmaga o bem estar e faz estremecer a estrutura vertebral da sequência.

Gostava – penso que gostava – de ter uma história para contar que fosse uma história verdadeira, tanto quanto a verdade pode ser alcançável (ou fiável?); mas para isso teria de a contar a várias vozes e o exercício é duro para duas mãos apenas. O labor das mãos não vence o ardil das vozes, não lhes desvela o assombro, não as aceita na desconstrução dos enredos. Sobra, pois, a circularidade elíptica oculta no esconderijo da dissimulação e na discrição dos gestos.

Estou cansada de começos; e de arredondar as linhas rectas ao sabor dos crepúsculos, aguardando as madrugadas para inverter o curso linear das construções.

Sunday, May 21, 2006

O todo em partes

Escher


Sofrer é uma tragédia.
Não sofrer também é porque a palha seca nos prados desmazela a paisagem.
Até os gatos sofrem quando estão especados diante de uma gaiola de hamsters e não lhes podem chegar.
Se os gatos não sofressem assemelhavam-se a um campo de ervas agrestes e eu, que não sou gata, parecer-me-ia com uma casca de laranja engelhada.
No viço da minha loucura e enquanto Stravinski sagra a sua Primavera eu componho a minha, mesmo sobre o restolho, sem tragédias mas com iguais dissonâncias.

Thursday, May 18, 2006

A parte e o todo


Escher
Todos os dias sinto que o tempo se subtrai a um todo antigo e no entanto tudo parece ter acontecido ontem, tendo sido há décadas. Décadas são intervalos de duração prolongada, quando ainda se está no lado de trás do fio esticado. Para a esquerda a.C., para a direita d.C., linha infinita, sem sinais de começo a não ser o toque do giz na pedra. O fim é o resultado da subtracção, embora se acredite sempre no prolongamento das horas sobre os dias e sobre os meses e sobre os anos.

Todos os dias a materialidade das operações numéricas me surge como afronta e no entanto os ponteiros do relógio prosseguem o seu curso trazendo invariavelmente a noite antes das manhãs. Noites são desperdício, são horas subtraídas à parte do fio que ficou no lado da frente.

Todos os dias me parecem começos de fios rasgados ou mãos que ensaiam nós para remendar o avesso de um todo antigo dividido em décadas. Décadas são ciclos de curta duração se nos colocamos em observatório piramidal abarcando superfícies alagadas de tempo.

Todos os dias relativizo a minha existência em função de um todo. Mas não esqueço a minha dimensão em nenhum dos dias.


Thursday, April 27, 2006

Podíamos jogar à cabra-cega

Santa-Rita Pintor
Onde estão os meus olhos agora que me despedaçaram as formas?
Como faço para recuperar os sentidos se o que sinto são tímpanos opacos e a visão engole as palavras sem as diferenciar?
Terá sido o efeito maléfico dos sonhos ao acordar ou o incómodo de viver para além do passar das horas?

Sunday, April 23, 2006

lengalenga


Mal dos poetas perdidos no palavrear libertador próximo da dor espumosa; mal dos que amam sem que o tempo os deixe permanecer aconchegados no querer eterno; mal de todos os seres pensantes do universo desgastados pela sucessão das marés que se impõe ao cansaço dos olhos; mal dos que procuram a razão das coisas sem conseguir ir além da definição de invernias repletas da mais criativa escuridão; mal dos cérebros que concebem a genialidade de uma lucidez estrangeira, cruzada a preto e branco; mal da gentileza da mão prodígio feita de traições e fugas, deliberadas ambas pelo costume de avançar até ao fundo das coisas; mal dos propósitos estratégicos para afastar a irmandade com aquilo que é o mundo e é o eu de cada um disperso através da direcção do olhar; mal da logística que desceu em nós por força do nascimento, obrigada desde então a albergar a alma num corpo que lhe é estranho; mal das caligrafias sublimes que evitam o borrão no papel; mal dos pórticos decorados sobre cantos misteriosos; mal das máscaras; mal dos ouvidos semi-cerrados; mal dos espelhos; mal do mal