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Saturday, June 17, 2006

Em busca de formas perfeitas


Foram as voltas que me fizeram fugir do lugar das fugas, sem que elas tenham um lugar ou um destino porque se foge sempre para um lugar de onde se foge a seguir para outro que também não é de permanência.
Voltei, pois, ao lugar onde uma estranha divindade me fala de envolvimento, não sei ainda se disposta a dar-me, se disposta a perceber por que nunca me dou. Não procuro, contudo, os ecos divinos pois nem latentes os trago às madrugadas ou às promessas de manhãs frescas.
Se houver ecos para ouvir serão os dos meus gritos, mesmo que o bem-estar seja esmagado na procura de uma sequência que explique as coisas inatingíveis. Deixarei de ser elíptica neste exercício que mais se assemelha ao curso de uma espiral de entendimento.
Pode haver lugares de esconderijo com vista à revelação? Parece que é simples, afinal: esconder joga com mostrar e mostrar encaixa bem na exibição acidulada dos lugares da dor.
Depois deixarei de falar de mim.

E não peço que comentem as palavras volteadas que tenho necessitado de escrever à volta das minhas construções narrativas ou em vez delas. Aqui, neste espaço narcísico de exposição pública, tenho sido deliberadamente cifrada como se quisesse dizer-vos que as vidas, ainda que publicadas, não deixam de ser privadas.
E nunca se esqueça que tudo isto são exercícios formais, já que o que procuro para mim é a forma perfeita.

Monday, March 06, 2006

As mãos

Escher
Também gosto de estender as mãos e olhar para elas como se olhasse para obras acabadas. Obras que falam. Obras que escondem e se escondem. Dedos abertos, esticados, enrolados, apontados, enleados.
Mãos sujas de tinta, mãos apinhadas de ideias. Mãos vazias exibindo facetas, muitas, múltiplas.
Não contemplo por contemplar; não dirijo gratidões aos deuses. Todos eles foram servidos de obras perfeitas. Vénus teria mãos de quem sabia sentir os corpos celestes; Apolo tinha mãos de tocador de lira; Dionísio tinha cachos de uvas nas mãos, antes de os converter no saboroso vinho que ostentava na taça, entre os dedos; Zeus apenas apontava e das suas mãos saíam raios, disparados a partir da sua vontade, que era a vontade divina. Hefesto forjou

mãos e mãos a ferro e fogo.
Que vontade divina obriga as mãos a serem mais velozes que o cérebro?
Gosto de colocar as mãos sobre as letras, sendo nas teclas que é feita a conversão. Gosto ainda mais de derramar a tinta sobre o papel e desenhar palavras em linha, sem que a mente mas diga.
Não são obras que saem delas. Elas são as obras. As mãos.

Sunday, October 30, 2005

Novelo Triste



A Hipatia da Voz em Fuga, lançou um desafio, a partir deste desenho.

Porque estás triste? Não te dei já o sumo de laranja que querias?

Respondi...

Gosto de coisas puras, perfeitas, autênticas.
Não suporto que me enganem, que finjam gostar de mim ou do que eu faço com dizeres amáveis, prestáveis, insuportáveis.
Por que vieste com a conversa do sumo? Mais parecias um miúdo inseguro nos actos, inconsequente, carente de mãos meladas.
Respeita as minhas lágrimas; há dias em que precisamos de ver a nossa tristeza inundar os céus, afrontar os deuses, fazer-se matéria inteira, grosseira, gume afiado sobre uma pele desbotada.
Não me toques nos cabelos; deixa-me sentir que estou só comigo, não quero ânimo servido em mãos adoçadas, enganadas de tanto pensar que podem salvar os outros das suas grades antigas.
Não me olhes, não me estendas um copo da cor das chamas; deixa-me arder por dentro que rebento se não consumo este sentir angustiado. Já me vi ao espelho, não precisas de me lembrar que o canto é grito calado; são assim os cantos dos meus olhos quando estou triste. O mais certo é teres andado desatento se nunca viste como sou planta sem viço.
Seguro o meu pé, viste bem; é certamente porque me enrolo neste feitiço de ser assim. Ser coisa pura, nua, talvez novelo. Assumo.