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Tuesday, January 01, 2013

Agasalhos de uma só estação






Vesti um agasalho quando os dias eram frios.
Não, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco.
Lá onde chegavam ao fim as minhas folhas era como se um sorriso se soltasse de cada dedo; e cada dedo agarrasse o infinito.

Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.

E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.

Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?

São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.

Dizem que, por baixo, há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.

Tenho frio.





Wednesday, November 09, 2011

Tempo

Foto de Elipse


Todo o passado fica sujeito a um inventário

E o futuro faz-nos reféns.

Sobra o passar dos dias, a sucessão das noites e a curva elíptica da translação da terra.


Sunday, March 07, 2010

Palavras (ainda) com chuva

foto de Elipse
Já se inclina para mim a melodia
embora o lastro pese ainda, trágico, incómodo, flagelante
e as palavras tenham chuva sobre as sílabas
dizem os poetas que as águas cantam os amores e correm calmas
mas nem sempre as janelas se abrem sobre os jardins;
às vezes o verso é demasiado profundo e cava
a própria natureza grita e as pedras rugem
a lembrar que abaixo há ainda a humana condição
e só depois a madrugada;
ou o uivo das folhas que o vento arrasta antes de derrubar as pontes
e só depois o regaço onde se curam as feridas.

Wednesday, May 13, 2009

Vestidos de pedra

foto de Elipse

Demoro-me nas linhas das palavras, secas as letras, lento o rastejo.
Demoram-se-me os gestos, mais do que seria de esperar, na dimensão dos verdes e nos espectros que os enleiam. Ignoro os nomes das coisas e o texto enrola-se. Presença inútil a da música.
Petrificam-se as emoções; e a espuma dos sonhos, macilenta, térrea, despida de substância, é pedra igual.
Os ângulos dos dedos ferem a coragem; não há paz nem na sombra, nem nos claustros.
Roça a dor na demora dos gestos; fio de meada enleada, larva em casulo seco, veludo desbotado. Pedra.
Inquieta-se a lucidez, fermenta o rasgão no espelho, perde-se a semântica dos sentidos.








Thursday, November 20, 2008

As cariátides (outra vez)


Sem cabeça seria apenas corpo;
corpo flexível, arrumado, curvo
corpo em movimento, girassol abrindo.

Sem cabeça não me deitaria fora
todos dias ao final da tarde
para no dia seguinte acordar fingindo.

Monday, November 17, 2008

Memórias vivas

Salvador Dali, Persistência da Memória

Só sei que a memória nunca se embaciou, nem nos dias mais turvos nem nas noites mais brancas; hora a hora afaguei as lembranças, mesmo as dos lugares mais pálidos ou as dos tempos mais azafamados. E foi no presente daqueles dias – os dias que hoje ainda respiram na penumbra – entre quartos vazios e o luar abandonado, que sorvi o luto, gota a gota, bebendo as pedras, arranhando as vísceras e sangrando o suficiente para saber que quando o tempo passa sobre as horas de todos os presentes, a alma, solta do peso, cola-se ao corpo e chama-lhe matéria fúnebre.
Só sei que já me curei do teu cheiro dentro das paredes e do rumor da tua presença nos degraus da minha casa. Quando falo de amor, se falo, recuo muito mais do que esperava e mesmo assim já não sei preencher espaços vazios. É como se falasse de uma história de outras personagens e a fechasse depois numa lombada descosida, bolorenta.
Só sei que já não é a mesma lua, a que se levanta do lado do jardim e depois sobe para o centro dos meus olhos que antes assustavam o silêncio frio das madrugadas. E há dias em que já não sei se era o teu perfil que eu esperava, ou os nós dos teus dedos a baterem ao de leve na janela da cozinha; ou se esperava o perfil do teu perfil.

Se pudesses voltar não haveria nada de meu que te aguardasse junto à porta, esse lugar onde demorei a perceber a verdade da tua ausência.
Se pudesses voltar eu não voltaria a esse corpo que, sendo meu, me aleijava nos abraços; não voltaria ao silêncio amarfanhado das cedências e menos ainda ao desconforto das partidas.
Se pudesses voltar eu diria que te inventei; porque sempre inventamos a perfeição.

Saturday, November 01, 2008

Sol de Outono

Foto de Elipse

Pego em todos os poemas do mundo e solto as rimas; pego depois nas rimas ouvindo-lhes a cinza; sopro-lhes tinta fresca e pego depois em mim, presa nos versos e digo alto a dor que finjo sentindo-lhe os dentes ácidos quando o gelo se espalha pelas ruas ao fim da tarde.

Digo também das mil sílabas que li nos livros enquanto cessava o canto, noite dentro; e do desejo descarnado que costumava rimar com harmonia para poder, disfarçado, agredir-me no silêncio e deitar-me neve sobre as mãos.

Tenho poetas presos às páginas, guardados nas estantes; prendo-lhes as palavras junto aos afagos, mesmo as mais duras ou as que vestem de luto, por precisarem da doçura das mãos quando a noite começa.

Prendo as palavras que o vento teimosamente me retira e me atira, agitando-me a firmeza contra a torrente dos dedos, quando os dedos querem escrever o que a tristeza sopra para dentro da voz calada.

Modifico depois os registos e refaço; varro lamentos, renovo a tinta, acrescento-me de ousadas virtudes e se calo é porque nem todas as rimas podem ser sopradas pelos ventos. Por isso afago-as em palavras novas e pinto o sol em todas as manhãs.




Tuesday, October 14, 2008

Cantata de Outono

foto de Elipse

Não é por não te ter… é mais pelo castanho-claro das folhas que o vento empurra pelas ruas e pelo calor húmido que o ar carrega entre portas, onde o sossego exagera de tanto ser por fora e a inquietação por dentro.

Não é por não te ter… é mais pela crueldade diária do espelho matinal; pelo pó que se acumula na parte superior dos livros fechados, nas estantes; pela marca dos passos no mármore do chão; pela tinta que se vai gastando de tanto esconder o branco dos cabelos.

Não é por não te ter… que ter-te seria um excesso a todas as horas, não sobrando espaço para o sossego discreto que me aplaude a criação, de vez em quando.

Não é por isso, não. É pelo espaço reproduzido no vazio, pelas horas que o relógio multiplica, pela constância do silêncio a prolongar-se na mesma direcção, pelo sentido obtuso do riso unilateral, pela música sem eco no canto da sala cansada da cor dos móveis, pelo excesso de sossego em vez da festa, pelo desejo mal arrumado no canteiro adiado das sementes, pelos laços desfeitos nos presentes que ficam nas montras, pelas palavras que ditas seriam ouro e escritas ganham um peso inútil.

Não é por isso, não. Ter-te, à distância, seria ter ainda alguma coisa e mais a esperança de não definhar calada.

Monday, December 24, 2007

E como... se as flores nascem todos os dias

Arranco da terra esta pedra e esta pressa
Cansada de lugares comuns e presa à espera

Vagueio com os mortos e sinto-lhes a fome
E mesmo o nascer das flores ressoa na imperfeição do instante

São comerciais as alegrias alheias
Vendidas sob as máscaras da utilidade dos gastos

Das canções desbotadas retenho as vírgulas
Que pouso nos lutos geminados com a loucura

E não sabendo como cantar, digo baixinho um grito
Obscuro, veemente, negro, gasto…

Thursday, June 28, 2007

Suspirando...


Raramente usei este espaço como lugar de contestação social ou de qualquer outra natureza. Talvez o tenha feito uma ou outra vez, desabafando queixumes relativos à minha actividade de professora e ao desagrado que em certos dias isso me causou (não, não é verdade que tenha deixado de gostar do que faço, mas há uns dias piores que outros, como na vida de todos os profissionais).
A personagem que criei para escrever aqui é demasiado virada para dentro para se interessar pelas coisas que movem o jornalismo, que se vai fazendo ao sabor daquilo que é mais mediático e, como tal, que pode render mais às empresas de comunicação e difusão.
Porém, eu interesso-me. Mas não preciso de criar nenhum outro espaço para o efeito. Estou a usar este, exactamente hoje, depois de ter estado sentada diante da televisão a ver as notícias do país e do mundo.
E o que vi e ouvi assustou-me:
As leis do trabalho estão a mudar de uma maneira estranha. Para quem o tem, claro!
O Ensino Superior tem, a partir de hoje, novas regras (bastou a aprovação da maioria, claro). Teremos empresas de ensino a formar os futuros alunos.
Uma directora de serviço foi hoje demitida do seu cargo por não ter retirado um cartaz jocoso a propósito de declarações do ministro da saúde. Antes, como se lembram, tinha sido um professor, destacado numa Direcção Regional.
Depois há ainda o caso Portugal Profundo - take 2 - tendo António Balbino Caldeira sido ouvido hoje em tribunal a propósito de umas coisas que escreveu. Mas já tinha havido o take 1 - há uns tempos, por causa de outras coisas escritas, nessa altura a propósito do (quase) esquecido caso Casa Pia. Segundo o próprio, quatro anos de blog deram origem a quatro processos.

Então, quando me preparava para dar voz à Elipse, à espera que saísse um dos seus textos poéticos, fiquei assim...

Tuesday, June 12, 2007

Retrospectivamente



Antecipei sempre os poentes nas colunas do horizonte
Quebrei todas as sílabas silenciando as agonias
E deixei arrastar as águas dos Invernos
Sobre mortalhas de vida presa ao compromisso.

Aliviei com silêncios o rancor dos elementos
Cortei com a navalha a ponta incendiada das asas
E escrevi textos e textos no lavrar do medo
Sobre jardins plantados em marés futuras.

Aceitei o gelo dos areais por temer a oscilação das dunas
Enquanto me deitava hirta dentro da escuridão
E plantei musgo anunciando a Primavera
Sobre as farpas agudas de todos os argumentos.

Recolho agora da neblina o cheiro a véus translúcidos
Feitos espelhos de memórias e gestos por dizer
E deixo arrastar as águas de todas as estações
Sobre o imenso charco das pedras calcinadas.

Tuesday, February 13, 2007

Fora de horas


Deito-me todos os dias fora de horas, mas sei que adormeço antes; talvez tenha perdido a noção da alternância entre a lucidez e a noite.
Adormeço de olhos abertos sobre a mesa onde os papéis descansam de mim. E assim fico, direita no eixo da vigília, até despertar das imagens ou dos desejos cada vez mais indefinidos, escondidos debaixo de algumas letras que repito desconexamente.
Mesmo em dias tempestuosos, transpirando sob o frio que gela a casa pelo lado de dentro, adormeço nos gestos e nos olhos ainda abertos mas sem noite que os faça descansar. As paredes são iguais todos os dias e eu, de olhos abertos sobre a mesa onde as folhas dos livros me rejeitam a vontade, forço contas de cabeça em volta de parcelas apagadas pelo tempo.
Deito-me todos os dias fora de horas e às vezes, de olhos abertos mas sem parar para pensar, dou comigo sem sentidos porque os perdi na busca de razões para que o mundo seja este girar contínuo de interesses que nunca são os que interessam, enquanto as pessoas se batem e se combatem por convicções que as viram de costas umas para as outras. E também se abatem na necessidade de confronto.
São poucas as horas do dia e é pouco o tempo para aquilo que verdadeiramente é importante, parecendo que a importância está nos argumentos da afirmação falível.
São poucos os dias em que não me deito fora de horas, fora de mim; e se o desejo permanece é porque se alimenta desta vontade de passar para além da realidade e negar aos olhos e ao entendimento a aproximação precoce do crepúsculo.
São poucos os dias em que permaneço inteira. Deito-me fora muito cedo e antes de cair a noite vou rebuscar as peças para me enformar mais uma vez, colando-me.

Thursday, January 04, 2007

"Entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda"

Escher


“Impelido por outra situação talvez Einstein tivesse fuzilado gente em vez de descobrir tempos físicos e astrofísicos. Os carrascos de Auschwitz poderiam ter estado perto de uma importante descoberta no domínio da Bioquímica, e a prova é que se haviam interessado tão vivamente pela decomposição dos corpos. Assim a ciência e o crime poderiam ter entre si apenas uns passos de dança ou umas flexões de ginástica. Entre o bem e o mal uma mortalha de papel de seda.”

Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios


São apenas referências, estas, a excertos de um livro de que gosto muito pelo seu conteúdo reflexivo ou a pedir reflexão. Já tenho dito, em alguns comentários que deixo por aí, que sou leitora exigente e não é uma qualquer Rebelo Pinto que me faz perder horas de vida. Melhor, muito melhor do que isso temos aqui, e aqui e aqui e aqui, que me perdoem muitos outros mas hoje não os vou citar todos. Tudo a seu tempo.
Vem isto a propósito da notícia que há pouco ouvi acerca de mais duas execuções esperadas no Iraque para os próximos dias.
“Entre o bem e o mal uma mortalha de papel de seda”, diz ela numa obra que para mim é ímpar na sua teia narrativa, que parte de um relato escrito a posteriori por um não interveniente nos eventos relatados, e vai desmontando o relato louvando-o, mas provando, página a página, que aquilo que se diz depois "não vale a casca de um pêssego", e tudo o que fica do que passou é "uma memória fluida".
Ora para que ando eu às voltas com estas frases?

É que nas minhas andanças pela História acabo a concluir, vezes sem conta, que o passado é tão irrepresentável como a verdade; e por isso, o que se disser daqui a uns tempos não equivale nunca ao que se passou, quando o próprio jornalismo acaba por ser um rol de interpretações, a gosto (e a interesse) e de quem escreve e de quem manda escrever, referindo-se a coisas do presente…
Estaline apagou os sucessivos inimigos das fotografias (e nem photoshop tinha…); Auschwitz é dado como uma falsidade judaica pelas novas frentes nacionalistas austríacas e alemãs; Hitler mandou enterrar cacos para que os seus arqueólogos descobrissem nas escavações a lendária origem ariana do povo eleito, marcada por uma suástica que vai buscar as origens aos cultos celtas, aztecas ou hindus, entre outros.
Que outros exemplos? São inúmeros.
Lembro-me da estátua de Saddam Hussein a cair quando da chegada americana e lembro com igual espanto o que li há menos de uma semana sobre as declarações de Bush acerca da execução ocorrida: um passo para o processo de instalação da democracia no mundo, ou qualquer coisa assim… (o que se disser depois disto "não vale a casca de um pêssego")...

Questiono-me, como ela, acerca do bem e do mal.

E termino esta reflexão com um exemplo mais actual – Cavaco Silva diz que vai estar atento à actuação do governo. Referiu uma das áreas críticas (que me toca, naturalmente), dizendo que é hora de se começarem a ver resultados. Ele, que teve 5 ministros da Educação nos seus governos, qual deles o que deixou um rasto de maior mediocridade no acerto das reformas sucessivas que vieram a desembocar no ensino que hoje temos, ainda à nora com a melhor teoria para melhorar os resultados... ("entre o passado e o presente, uma memória fluída"). Há que fazer transitar os alunos para que se vejam resultados. Não importa que não saibam ler nem escrever. O que importa, isso sim, é que não saibam pensar. Cidadãos autómatos, colados às tecnologias, que não saibam ouvir um telejornal sem que o comentador respectivo venha ajudar a interpretar a notícia (qual notícia? O fait-divers, claro!)… Talvez venham a fuzilar gente, os meus alunos mais inteligentes, se o caminho que continua a ser apontado excluir o conhecimento da História, da Filosofia e de outras coisas importantes para se perceber outras razões para se estar aqui que não sejam apenas as teclas de um computador que, efectivamente, nos ligam ao Mundo.
"Entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda".
Teria pano para mangas se continuasse a escrever...

Deixo isso para quem quiser. Siga a dança!

Thursday, May 18, 2006

A parte e o todo


Escher
Todos os dias sinto que o tempo se subtrai a um todo antigo e no entanto tudo parece ter acontecido ontem, tendo sido há décadas. Décadas são intervalos de duração prolongada, quando ainda se está no lado de trás do fio esticado. Para a esquerda a.C., para a direita d.C., linha infinita, sem sinais de começo a não ser o toque do giz na pedra. O fim é o resultado da subtracção, embora se acredite sempre no prolongamento das horas sobre os dias e sobre os meses e sobre os anos.

Todos os dias a materialidade das operações numéricas me surge como afronta e no entanto os ponteiros do relógio prosseguem o seu curso trazendo invariavelmente a noite antes das manhãs. Noites são desperdício, são horas subtraídas à parte do fio que ficou no lado da frente.

Todos os dias me parecem começos de fios rasgados ou mãos que ensaiam nós para remendar o avesso de um todo antigo dividido em décadas. Décadas são ciclos de curta duração se nos colocamos em observatório piramidal abarcando superfícies alagadas de tempo.

Todos os dias relativizo a minha existência em função de um todo. Mas não esqueço a minha dimensão em nenhum dos dias.


Tuesday, April 18, 2006

À volta das dores

Podia até dizer-te que tenho pena e que me doem as tuas dores. Mas também tenho em mil pontos de vista dispersa a verdade das coisas, sem saber em certos dias se a verdade é o que vejo ou se não é isso mais do que a criação de um querer que não diviso dentro da consciência, por omisso ou camuflado.

Podia até dizer-te que penso em ti. E penso. Mas se o faço é por piedade, sendo já este o sentimento inócuo de te ver à distância, sentado na cadeira onde buscas o conforto impossível embora continues a fazer o planeamento da vida que para ti nunca parou, nem agora que estás parado.

Podia até dizer-te que sei o que sentes. Mas não sei disso por solidariedade ou por analogia; sei-o porque as senti ferradas, essas dores que silenciei a maior parte das vezes ou que gemi calada enquanto as lágrimas corriam para dentro e ilusoriamente as suavizavam.

E assim andamos à volta das dores. Tu porque as sentes. E eu sentida.

Sunday, April 09, 2006

Mnemotecnias

Dali


São areias da praia onde repousam poças de água muito transparente com relva a despontar do fundo ou escarpas a pique com abismos à vista.
E eu percorrendo os areais ou sentada na rugosidade da rocha, mas sempre sob a ameaça da queda lenta e eterna.
Também podem ser escadas que me transportam para os lugares cimeiros donde caio invariavelmente como se o filme passasse devagar e nunca acabasse; ou caio para um lugar vertical muito elevado que dificilmente me acolhe, tal é a estreiteza, estando de novo a queda à vista. Devagar.
Outras vezes são passagens apertadas onde poderia caber o corpo de uma ave, nunca o meu; contudo eu teimo e fico aprisionada em sufoco porque algum perigo me apressa na passagem e eu tropeço na roupa ou corro de joelhos e nunca chego ao meu destino.
Ou barcas perto das margens mas sem leme. Ou gritos abafados numa voz que não existe. Mas sempre com perseguição ou outro perigo que não identifico por falta de tempo.
Aflijo-me também perante folhas e folhas de palavras que não decifro. Mas estão lá à minha espera.
Convoco pois os relógios deformados e os violinos dobrados sobre as areias dos desertos, os cavalos de dorso suspenso ou as gavetas dos corpos putrefactos, a beleza comestível e as ruínas dos poços iniciáticos. Eterno retorno este, que os mecanismos do invisível operam no teatro da memória.
Ah, mas recuso os deuses pregados nas paredes em crucifixos dourados. Não me sujeito aos modelos, embora finja.

Saturday, March 11, 2006

Mãos abertas dentro de gavetas fechadas

E no percurso das mãos para a mente vão sobrando ideias.

Não sei se é exactamente assim, se são as mãos que comandam. Depende dos dias, da pressa, da situação, do outro… ou de mim.
Há dias em que as mãos me levam; noutros eu seguro-as dentro dos bolsos, presas à textura do forro. Morro por dentro das palavras que estão ali e que eu não sou capaz de soltar, de verbalizar.
Há outros dias em que deixo as mãos abertas dentro de gavetas fechadas.
Mas mesmo abertas, escorregadias, longas nos seus gestos nem sempre soltos, nem sempre desimpedidos, elas não deixam sair todas as palavras que a mente guarda em cantos inacessíveis.
Que filtro as sustém? Que cortina se interpõe à vontade de soprar para fora a sujidade?

Que ideias sobraram?
Era disso que queria falar…

Thursday, February 16, 2006

Lamentações

Há dias em que conseguimos pôr os olhos a girar e abençoamos o sol. Somos como a terra em desejos cíclicos de renovação. Mas não conseguimos evitar madrugadas frias. E se fechamos os olhos nem sequer é para conservar o calor do lado de dentro. É porque nem as ondas cadenciadas, nem a cobertura verde sobre os montes, nem as asas de um pássaro solto, nem a verticalidade de um pinheiro, nem as vozes risonhas das crianças, nem a forma das nuvens toca o nosso imaginário empobrecido pelas paisagens sujas. Nesses dias que depois se fazem anos.
Quando temos palavras para dizer desagrados, apenas comunicamos. Nada se resolve. Depois pensamos que não há nada para resolver e que não há seres humanos conformados. Basta passar os olhos por este mundo de vozes sem rosto que nos habituaram às palavras; e de imagens-mensagens-anónimas, embora saibamos das mãos que as fixam e as projectam. O resultado é este mar de lamentos. Mesmo nos outros que, à séria, escrevem crónicas oportunas e interessantes sobre as coisas que se passam, encontramos o tom lamentoso. (Teríamos que analisar as excepções, que são poucas e enumeráveis, mas hei-de voltar ao assunto). Às vezes gostamos de partilhar o prazer de um livro, de um filme ou de uma brincadeira. Ou de uma ficção que os outros lêem como coisa sua, identificando-se com as nossas personagens. Não sei por que o fazemos.
Partilha? Pedido público de socorro?
Que mundo é este que nos ultrapassa e é pequeno ao mesmo tempo? Que temos para receber dos outros? E damos? E quem dá o quê? E que coisas valem a pena? E com que palavras dizemos o nosso lado de dentro de forma a limparmos a ansiedade, o medo, a tristeza, a frustração e o desânimo?
E para quê, se sabemos da existência de todos os contrários?

Devo ter fugido ao assunto, mas acho que vinha aqui hoje para falar de lamentos. E do sentido lamurioso que é o nosso, o dos portugueses. Ou o de todos os cidadãos do mundo. Talvez porque todos os dias sei de mais alguém que recorreu à psiquiatria.

Monday, January 02, 2006

Cai a noite sobre as águas do rio (da minha aldeia)





Olhos postos na terra, tu virás
No ritmo da própria primavera,
E como as flores e os animais
Abrirás nas mãos de quem te espera.
Eugénio de Andrade



Olhos postos num céu pintado de laranja à beira-mar; anúncio de sol em outro amanhecer e eu ainda sem a luz das palavras-dias.
Agora é Inverno, eu sei, e o frio corta as faces de quem contempla os céus e morre de tanto olhar para o lado de lá das nuvens.
A terra está ainda fria e os troncos cheiram a musgo. Os ventos deixaram desarrumadas as folhas secas ao longo das ruas e há janelas com vidros partidos, atrás, rente à muralha.
Olhos postos na terra à beira-mar. E uma ave sobre os pensamentos. Como as flores, abrindo as pétalas ao sol do dia seguinte, enquanto a noite chega.
Agora ainda é Inverno; é por isso que protejo as mãos, arredondadas dentro dos bolsos.

Bem sei que é exactamente o Tejo o rio que corre pela minha aldeia. É por isso que não consigo estar ao pé dele pensando apenas nas flores que se abrem como mãos. Ou nas mãos.
Ao pé do rio, com os olhos postos no céu e as mãos guardadas, não consigo estar sem pensar em nada.

Sunday, December 25, 2005

Por que é que o natal me lembra Fernando Pessoa?

Passada a noite veio a chuva miudinha. E o nada fazer.
Aborrecem-me estes dias de acordar morno depois de noites preenchidas por iluminações fantásticas na alma alheia, roupa lavada a vestir vazios tão grandes como os meus. E começa o fingimento, porque vazio é palavra de mentira solta.

Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.*

E também me aborrece pedir clemência em preces. E em tudo finjo a começar por isto.
Digo que o silêncio pesa. Mas não apetece mais do que estar triste. E dizê-lo.

Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda.*

Digo que a distância magoa. Mas estar longe permite dizer também a mágoa de estar longe. E é um gosto sentir doer para se implorar à razão que venha com a chuva, numa persistência miudinha e cumpridora. E dizê-lo. Ou pedir à explicação que ajude a perceber o que podia ser explicável se fosse razoável. Pedir sem convicção, fingindo ainda.

Por isso escrevo em meio do que não está de pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir! Sinta quem lê! *

* Fernando Pessoa - Isto