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Tuesday, February 05, 2008

desfocagem

Picasso


Que deu ao pintor para se pôr a colorir as lágrimas?
Quem lhe disse que elas são confetis ou cones de gelados infantis? E os chapéus barcos de lançar aos charcos nos Invernos lamacentos?
Quem o mandou desfocar os olhos e pôr saliências nos dentes?
Com que mãos limpou o rosto da mulher chorosa e lhe pôs fragilidades nos lábios e depois lhe alisou os cabelos.


Maldigo-te pintor pelos teus olhos embaciados.

Assimetrias

Picasso

São ainda muitos os dias em que abençoamos o sol; contudo não conseguimos evitar as madrugadas frias, quem sabe se por um certo finalizar trazido pelo avançar dos anos, gelos mal distribuídos, quando antes era o calor a derreter os excessos. Lacrimeja um pouco a pálpebra, defendendo-se calada, e se fechamos os olhos nem tão pouco é para conservar o calor do lado de dentro mas para os poupar apenas.
Desconstrução maldita, diria a pessoa, enquanto o pintor se deliciava no desmantelar da realidade.
Criação, repartição, gozo fiel, sem tirar nem pôr; ou punha as cores, o artista e triangulava as formas de fugida.

No fechar dos olhos encerramos a bênção do sol que agora é um desejo, mais do que o calor que regenera, e pedimos ao dia seguinte que nos ceda um milímetro de espaço para minimizar a desengraçada e pungente assimetria dos gestos.


Sunday, February 03, 2008

pequenas conversas, grandes enigmas ou de como é difícil sorrir


Não forces o sorriso que te estragas; não olhes, não fixes o real mais do que o necessário; não pronuncies as palavras inúteis, nem todos os ouvidos as merecem. Segura a lágrima, que te faz falta à secura das horas mais amargas; fecha os olhos, se puderes: uns dias de cegueira clarificam a vida ou ela é sempre clara e são as pálpebras demasiado abertas que não permitem visões certeiras.
Não sorrias ainda, a vida espera um pouco enquanto te seguras e te retrais; aligeira a carga, espalha os cabelos ao vento, estica a pele enrugada, movimenta a face trôpega; desfruta, se fores capaz, das horas inactivas: pára, paira, pasma, descansa, cria.
Aguarda o tempo necessário ao retorno da normalidade. Ela virá.

Monday, September 05, 2005

Sem máscara

Mas sem máscara ficamos cristalinos.
Cristal transparente deixa ver as vísceras. As vísceras são feias na transparência da pele sensível. São frágeis também. Mostram os processos no seu desenrolar íntimo.
Sem máscaras ficamos quebráveis. Vidro fininho que estala sob o calor do sol ou sob o granizo que se escapa de uma nuvem. Temperaturas inversas, súbitas, são fontes de dano irreparável. O vidro quebra e os restos aguçados ficam expostos à passagem das mãos.

Sem máscara ficamos apenas com as mãos para tapar os olhos, nos dias em que eles se recusam a ver.
Ou nos dias em que não queremos ser vistos.

Wednesday, August 31, 2005

Máscaras sobre os medos

No princípio era o medo.
Por isso criei a máscara, ainda sem jeito para a criação. Resultou do acto uma imitação grosseira (todas as imitações são grosseiras se não achamos a palavra certa), sem original que lhe servisse de modelo.
Pode sempre dizer-se que se obteve uma peça única, mas a composição que sai da roda do oleiro deve ser harmoniosa.

Gosto da palavra harmonia, disposta em linha sobre a palavra horizonte. E, pensando bem, talvez a imitação pudesse ser indecisa e não grosseira; ou talvez apenas imitação, sem qualificação que a mascarasse.

Não posso, pois, confiar às mãos, grosseiras e incertas (qualificações excessivas no texto) a tarefa do recorte.

Gosto de imaginar o efeito das mãos unidas na contra luz, abertos os dedos em leque, sombra de asas em movimento harmonioso.

Resta a mente, definida em padrão arrevesado, de matriz inquieta. Mente confusa ou a confundir-se em regressos sucessivos depois de cada esconderijo. Mente apinhada de palavras moldadas em pedra. Nela a máscara nunca encaixou, em resultado de tão desajeitada carpintaria. Confiar-lhe a criação é apontar-lhe sempre caminhos de palavras desalinhadas.
Mas não é já o medo. É sempre a inquietação.