Ali estava de novo com os olhos postos no tríptico. Se ao menos as duas senhoras roliças, de saia azul, afrouxassem o olhar vigilante, ele conseguiria aproximar-se do painel central para decifrar a expressão do náufrago, que também podia ser um prisioneiro, um morto ou a figura de proa de um barco alado pelas suas próprias mãos.
Parecia ter óculos. Mas não tinha braços e os olhos estavam fechados. E havia uma malha, tecida sobre o esgar da boca e uma folha manuscrita diante do rosto.
Olhou para trás. Já só estava uma das vigilantes, colocada ali mesmo ao lado do rosto encarquilhado de S. Jerónimo, que subalternizava o corpo de Cristo à lisura do crânio sobre a mesa. Voltou-se mais uma vez para o painel e concentrou toda a atenção no desespero das mãos a saírem do flanco de uma ave gôndola, cujas asas aprisionavam em vez de libertarem. Procurava entender, uma a uma, as tentações do eremita, misturadas numa amálgama de horrores onde nem o azul do céu transmitia sossego.A vigilante continuava imóvel, de mãos enlaçadas, só os olhos pequeninos guardavam a sala.
Saiu devagar, estonteado, de mãos nos bolsos, evitando o grupo de turistas. Tinha a sensação de estar submerso num lodo. Ainda olhou em volta com a impressão de estar a ser vigiado. Nas últimas semanas sentia-se a enlouquecer: em todos os olhos a acusação, em todos os lugares a perseguição. Um carro preto a rondar-lhe os passos, dia e noite, estacionado ao fundo da rua.
…
Voltou a entrar na sala semi-obscura do museu. O quadro atraía-o. Demorou-se ainda um pouco mais a olhar os painéis, mirando-os de todos os ângulos. Olhava outra vez as tentações, uma a uma.
Era o sofrimento o que mais o afligia. Ou a traição, por detrás do sofrimento. Sentia-se arrastado sobre um passadiço de madeiras frágeis sob as quais Inácio Ventura conspirava, assinando contratos em folhas sujas que o Silveira transportava nos dentes arreganhados. Serviam-lhe tentações dentro de bandejas e depois faziam-no cair da barca arrastada por demónios celestes, encavalitado no dorso escamudo de um peixe. Via germinar do ovo a ave que depois engolia as crias e era nessa altura que a matriz da culpa o abanava por dentro; mas quando desviava os olhos para o náufrago, identificando-se no desespero das mãos, compreendia que era ele que arrastava a barca de onde emergia a cabecita de uma criança, torturada pelo bico de uma ave despida. Até o apelo da luxúria, arrumado há muito na memória e na consciência, lhe ocorria agora. A punição tardara.
O manuscrito, junto ao náufrago, estava a ser uma obsessão. Podia estar ali escrita a salvação, um segredo proveniente de um lugar qualquer situado entre o céu e a terra, a indicação de um caminho possível, um contrato que ele só tinha de assinar, fosse com uma qualquer mão divina ou demoníaca, para que se abrisse o caminho certo.
O olhar das vigilantes era agora mais insistente. Ele evitava-o, cada vez mais próximo do quadro e da culpa. Malditas sentinelas, as duas ali muito aprumadas no seu papel a murmurarem condenações.
O Silveira tinha-lhe oferecido uma daquelas tentações, e ele cedera ao desejo mais singular de um homem, a construção perfeita, a obra acabada. E o que via, em resultado da sua ambição, era uma torre de Babel aberta em ruínas, rebrilhando nela um Cristo crucificado. Um apelo, no desembocar do fio de luz, que nada lhe dizia. Nunca fora homem de crenças. S. Jerónimo já tinha deixado em plano secundário o símbolo, assentando o seu olhar nos livros e naquele crânio despido.
Sentiu uma náusea. Tinha rodado os olhos mais uma vez, sob o efeito da presença das vigilantes. À sua esquerda viu, exposta num prato e imersa numa cinta de sangue, a cabeça de S. João Baptista.
Wednesday, September 20, 2006
Há uma certa sala, no Museu de Arte Antiga...
Monday, August 21, 2006
Cama Elástica

(... é uma história que estava lá para o fundo, escrita em Agosto, mas não este. Trouxe-a de novo...)
Era comum ouvirem-se múltiplos ruídos e eles denunciavam quem andava pelos espaços amplos da casa, corredores com retratos dos antepassados a vigiarem as traquinices e as intrigas, compartimentos a cheirarem a mofo, cumprindo os lugares de esconderijo nas aventuras da infância, escadarias de madeira encerada a servirem de escorrega à imaginação. À volta eram as pedras das paredes que reverberavam os sons do pensamento.
Ouviam-se os passinhos de pardalito do Zézinho, a dureza dos sapatos em que encarceraram os pés achatados da Paulinha, a borracha das sandálias do João Luís e o pisar ousado dos saltos conquistados pelos doze anos da Isabel. Ouvia-se tudo e sabia-se de tudo, apesar das paredes de pedra, masmorra de prisioneiros, dizia ela atirando as palavras contra o corpo baço da mãe.
Entre os sons havia agora um que se sobrepunha a todos os outros, vindo do compartimento mais apertado, um ruído que se afirmava com uma cadência certa, acompanhado do som persistente do suor que vinha das entranhas e colava os cabelos loiros da garota ao seu rosto claro. Um som que se tornava familiar mas que incomodava sempre a paciência do avô, enrolado num chaile, num quarto de janelas fechadas: “um dia a miúda ainda se parte toda!” gritava o velho do abandono do seu canto, suplicando ainda mais uma vez à filha que desse fim àquela cama elástica que desde há semanas tinha sido colocada na pacatez do palacete familiar.
A mãe cedera à persistência com que o pai falara no objecto mas começava já a dar razão ao velho. Não eram as queixas que a incomodavam, não, mas a ameaça sobre a sua paz. Uma ameaça que vinha desde o nascimento, desde que aquele ser miudinho a desafiou, mal definiu o verde dos olhos. O que restava dessa paz eram farrapos, desfeitos agora pelo ritmo infernal com que ela saltava no elástico vermelho, de olhos abertos em direcção ao tecto.
O pai dissera que a miúda iria cansar-se ao fim de uma horas e que dormiria noites mais serenas; deixaria de andar a saltitar pelos corredores e a pular canteiros derrubando as sebes; deixaria de trepar as árvores para chegar às nuvens.
Tinham passado dois meses e ela não saíra daquele compartimento fechado. Teimava em saltar cada vez mais alto e quando a mãe vinha, lembrando outra vez o pão do lanche, assanhava os olhos e esticava as mãos exibindo as garras côncavas. “Ela diz que vai chegar ao mar!”, repetia a voz da mãe, em desafio.
No quarto o velho tapava os ouvidos e chorava devagarinho, antevendo a desgraça mas desejando-a, cerrando os punhos e rindo para dentro de si, como se o desejo fosse uma asa.
Os elásticos desafiavam as leis da gravidade, sob os pés alados da miúda. De facto, era visível o branco rendilhado dos apêndices que se desenvolviam a partir dos tornozelos. E enquanto as asitas cresciam ela melhorava os saltos, uma vez e outra vez e outra vez e ainda outra.
Fixara um ponto junto ao tecto, uma espécie de quadrado que era uma janela aberta na imaginação, ponto de fuga, diria depois, desenhado ali junto ao tecto. Fixou o ponto, bem no centro do quadrado, e inspirou o ar todo da sala para dentro dos pulmões, abrindo mais os olhos transparentes para que neles se reflectisse o céu através das pedras.
O velho ouviu o barulho e ocorreu-lhe a ideia de um terramoto, mas sabia. Por isso ficou em silêncio. A mãe gritou e ouviu-se, aflita, na sua voz de vítima. No tecto da masmorra ficou um buraco, alargada a dimensão do quadrado desenhado a vermelho. Ela já voava sobre a construção, que oscilava sob o efeito demolidor que o buraco causara na estrutura. Voava sem olhar para as pedras que se soltavam e já via o mar.
Thursday, April 06, 2006
O cheiro da Igreja

Podemos ver nesta história que a minha avó me contou e à qual eu acrescentei as cores, os sons e os cheiros, um qualquer filme português ao estilo neo-realista (porque o António Silva já não é vivo; se o fosse dar-lhe-ia o tom desconcertante da comédia prosaica).
Mas é com este acto de cinema (ou argumento?) que apresento a minha segunda participação para o concurso promovido aqui.
Quando as alpercatas iam chinelando sobre a areia, abrandava o passo, mas se as carrasqueiras rareavam o sol castigava e andava mais depressa. Debaixo do chapéu de palha ainda tinha a protecção do lenço, atado em duas pontas debaixo do queixo, misturando-se o cheiro fresco das estevas com o da transpiração e colando-se as meias à magreza das pernas.
Seguia apressada, as mãos a darem o impulso da marcha, de trás para a frente, da frente para trás. Sentia a pieira no peito e o respirar era ofegante mas já avistava as primeiras casas da vila. Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos, à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas. Depois os palheiros, casinhas de adobe rasteiras ao chão, com telha muito gasta, as empenas a esboroarem-se gastas da esturração do estio e do salitre que soprava do suão, nos temporais invernosos. Dos poiais caíam cachos de malvas e alegrias da casa, dispostas em restos de vasos, ou metidas dentro de cestas de palma entrançada. À roda das casas corriam os moços pequenos, zurzindo latas, caras sujas e pés descalços, os paninhos das camisas a saírem dos suspensórios com que seguravam o cotim gasto das calças, transformadas pelas mãos destras das mães, que vinham para a rua ao fim das tardes – era a hora da lazeira, diziam –, sentadas nas cadeiras de vime, com a ceirinha das linhas e das agulhas, onde havia sempre um ovo de madeira para remendar as meias.
Destacavam-se os caboucos do casario, de encontro aos cerros que fechavam a vila, vendo-se no chão as fendas da terra seca. E ouvia-se o canto das cigarras. Os cães vinham ladrando ao caminho enquanto Justina se afogueava e limpava o suor com as pontas do lenço.
- Ó ti Juliana! Chegue-me daí um cucharrinho de água!
A mãe da comadre levantou-se largando a empreita e lançou a corda à cisterna, ouvindo-se o eco do balde batendo na água fresca. Justina levou a cortiça à boca e refrescou depois as mãos e as maçãs do rosto.
- Vou à Igreja, ti Juliana.
- Mode quê, filha? Hoje nã é dia de missa.
Não ia pela missa, ti Juliana, mas pelas velas. Não, não era promessa; os moços estavam bem, lá andavam guardando as ovelhas e Constantino ficara deitado. Não era homem de muita azáfama, desde que tivera de salvar uma ovelha das águas da ribeira e desmanchara as costas. Para isso lá estavam os rapazes que, na escola, não tinham futuro. O mais velho não podia, que os rebanhos precisavam de mão firme. No princípio ainda foi, mas fugia da professora e subia às figueiras, escondendo-se dos puxões de orelhas. Era mau de aprender. Os outros eram tenrinhos e a escola era longe.
Justina entrou na igreja e soube-lhe bem o contacto com a frescura. Sentou-se, aliviando o lenço, abanou-se com a palhinha do chapéu e fez as contas, mais uma vez: o António estava a mamar há um ano. Enquanto amamentava, o corpo ia engrossando, nunca sabia se era o leite que lhe inchava o ventre ou se já engenhava o próximo filho. Respirou fundo. Era ali que costumava tirar as dúvidas.
- Comadre ‘Estina!
Era a Maria da Venda, de lencinho preto em jeito de bico na cara enrugada; fazia a limpeza da Igreja e tinha ajudado a lançar água benta sobre o mais velho, quando ainda tinha o homem com ela.
-‘Tá uma calma lá fora!
- E eu nã sê? Vim por aí à pressa…
Fora a companheira dos bailes, em dias de festa. Lavavam a roupa na ribeira, de manhã, as pernas metidas na água durante horas, enquanto a espuma corria pelas pedras; depois lançavam os trapos coloridos às cordas, estendidas entre duas pernadas de alfarrobeira. À noite vestiam cores garridas e iam dançar. Constantino fazia tinir o ferrinho no triângulo, suspenso na outra mão, enquanto lhe deitava sorrisos pelos olhos, ao som do baile mandado: “Tudo certo e devagar; palminhas, mãos ao ar!”. E elas batiam as palmas acertando o passo corrido com o deles. Constantino puxava-a pela cintura e fazia-a rodopiar, enlouquecendo-a com a música dos beijos prometidos: “Palminhas acabou e ninguém se enganou!”
Justina pegou numa vela e acendeu-a, virando-a sobre o coto de uma outra. O lenço deslizara-lhe para os ombros e o carrapito empinava-se na nuca, basto e muito negro.
Das outras vezes, quando vinha na dúvida, mal entrava na Igreja sentia-se agoniada, ou pelo cheiro das velas ou pelo incenso queimado. Qualquer coisa, lá dentro, lhe despertava os sentidos.
Sentou-se de novo e esperou. Depois franziu a cara; aquele enjoo voltava; a água crescia-lhe dentro da boca e o bucho a revirar-se, a revirar-se. Fincou as mãos na barriga e depois levou-as aos olhos, escondendo o rosto.
- Que tens, mulher? Valha-me Deus, estás toda branca!
- Vem aí mais um, Maria, valha-me Deus a mim.
Tuesday, February 21, 2006
A Comemoração (3)
(continuação)Deu mais um jeito aos livros na estante deixando bem destacados os mais importantes: “Estratégias de sucesso”, “Transcendências do Real”, Interpretação dos sonhos”, “Seja o seu próprio astrólogo”, “Musculação em casa”, “Dietas fáceis” e aqueles volumes encadernados do diário, a que chamou “A História”, registadas lá todas as injustiças do mundo, todas aquelas que sobre si haviam recaído. Um dia, quando fosse a altura certa, saberiam os pormenores da conspiração de que tinha sido alvo. Um dia. Mas ainda não era a altura certa, ainda não. Nesta altura, apenas mais um whisky.
Talvez o Esotérico dirigisse o olhar para aquele sítio, mal entrasse na sala. Era quem mais tinha a ver consigo. Perdiam-se em exotismos escritos à vez no teclado; eventualmente iria trazer-lhe um livro como prenda, era o que ele dizia fazer sempre que marcava encontro real com alguém de interesses afins. O Poeta entraria a declamar Pessoa, tão ao seu gosto, como fazia sempre que entrava no espaço virtual, perante discussões acesas, acalmando os ânimos nos chats.
Que diabo, lá estavam outra vez as mesmas marcas nos copos. Isso irritava-a, não conseguia descodificar os sinais, mas o pano iria pôr os cristais a brilhar mais uma vez. Antes do pano, porém, copiou-os de novo para se lembrar depois. Eram iguais aos outros que acabara de limpar no chão do terraço. Alguém lhe entrava em casa para ter o prazer de a sujar! Tinha de ir à polícia outra vez.
Estava a ficar farta de tantas contrariedades. No escritório era o mentecapto do Félix, estava certa de que era ele que liderava todo o grupo. Congeminou que iria pô-la doente. Que mal lhe fazia que estivesse sempre a ir à casa-de-banho se não havia ninguém mais metódico e organizado do que ela. Lá porque precisava de lavar constantemente as mãos, abençoadas com a água limpa, seguida do creme hidratante, cheiroso e macio, para disfarçar o cheiro da lixívia com que as desinfectava, só tinha mesmo de as lavar. Só assim se sentia bem consigo.
Porém, sorria ao lembrar os amigos que estavam para chegar. Esses eram feitos de outro barro; estes sim, valiam a pena. O Viktor37 devia ser o primeiro, sempre tão correcto e tão floreado na conversa, que homem! Punha sempre florzinhas e sorrisinhos no meio das palavras escritas. Por ele e por outros como ele é que valia a pena aquele esforço, aquele arredar das preocupações, aquela leveza no pensar.
Acabara-se a serotonina, Doutor Rocha – pensava exaltada – e a fluoxetina, e as benzodiazepinas e essas coisas que a tinham mantido atordoada todos estes anos. Acabaram-se as consultas! Acabara-se a necessidade de controlar a melatonina porque a epífise cerebral entrara em auto-regulação. Abençoado ConfidenteWeb que tantas coisas ajudou a perceber. E o SagitárioHLx, que lhe estimulara a adrenalina em licenciosas aventuras virtuais. Todos convidados para a sua comemoração.
Passava muito da hora marcada.
Mais uma vez viu-se ao espelho. Mais uma vez as marcas? Também no espelho, as marcas? Não compreendia essa perseguição, essa mania de lhe entrarem em casa para riscar chão, paredes e espelhos. Nem os copos escapavam. Tinha de limpar tudo. Tinha de limpar tudo. Tinha de limpar e voltar a limpar tudo.
Mas antes, mais um whisky para a nova mulher que continuava à espera dos melhores amigos virtuais do mundo para a comemoração da cura.
Fim
Monday, February 20, 2006
A Comemoração (2)
(continuação)As garrafas de champagne que cuidadosamente refrescara para dar prazer a quem consigo quis ser solidário, amigo, companheiro, continuavam no seu lugar, transpirando gotas que iam deixando na mesa um laguinho. Seria melhor voltar a colocá-las no frigorífico? O tempo estava a passar e ninguém chegava. Mais um jeito na decoração. Tudo devia estar perfeito.
Que recordação boa a do cansaço do dia anterior. Preparava, havia uma semana, todos os detalhes e com as compras arrumadas no carrinho do supermercado, na véspera, ainda olhara de soslaio a menina da caixa, quando lhe perguntou se eram mesmo doze garrafas, respondendo-lhe, com o tom de voz mais afirmativo que usava nessas circunstâncias, “são mesmo doze, minha senhora”. Ainda ia sair-lhe um “porquê?” irónico, mas essa contenção, sinal da sua mudança, valeu-lhe uma melodia vitoriosa, no regresso a casa. Sim, que ela cantava, quando as coisitas complicadas do dia-a-dia a descontrolavam. Anteriormente devorava cigarros, misturados com exacerbações verbais ou escritas no espaço virtual, para quem a quisesse ler. Agora estava curada dessas impetuosidades e por isso precisava de comemorar. Estava deveras cansada, precisava de uma bebida. Desde as oito da manhã envolvida na tarefa deliciosa de decorar a sala, balões e fitas, na mesa a toalha de linho mais bonita e sobre ela as travessas com as iguarias que acompanhariam a bebida, muita bebida que a festa queria-se animada! Andava numa verdadeira roda-viva. Sozinha, claro! Ajudas para quê, quando todos chegassem iriam dar-se conta de ter entrado num mundo perfeito e elogiar a sua capacidade organizativa.
Fez questão de acabar tudo antes da hora para ter tempo de se sentar a apreciar a sua obra, antecipando o prazer da companhia, das vozes, do fumo do tabaco e do tinir dos cristais, entre as gargalhadas. Mas agora reparava que o tempo continuava a passar sobre a hora marcada.
Estão para chegar amigos sérios – pensava – que não esboçam um gesto de traição nem sequer de censura; que tão bem compreendem outro e não questionam, não troçam, não conspiram. Cada um no seu espaço, cada um no seu teclado, cada um na sua casa. Cada um cumprindo um tema de conversa, sem equívocos.
(continua)
Sunday, February 19, 2006
A Comemoração (1)
Preparou aquele dia com o cuidado que punha em todas as coisas, tanto mais que atravessava um momento decisivo na sua vida e disso queria dar testemunho quando todos estivessem presentes. Eram vinte os convidados, vinte. Para eles memorizara as duas páginas que tinha redigido com desvelo e sem esforço. Nos seus planos essas duas páginas seriam o capítulo final de um livro que estava certa de ver nas prateleiras das livrarias; não teria dificuldade em ser aceite e lida por todos aqueles que buscassem amparo e definição de caminhos; os que, como ela, comungavam das dores do abandono e do convívio com a loucura.Preparara o momento da comemoração convicta de que o acontecimento ficaria para sempre guardado na memória dos que nela estivessem presentes. Eram vinte pessoas, vinte, e o espaço era mais do que suficiente, abrindo as portadas para o terraço, onde tinha posto flores em todos os tons de rosa, vasos e jarras, cestos e arranjos vários, viçosas flores que se espelhavam no ladrilho mil vezes lavado, malditas marcas – pensava – que apareciam sempre, depois de cada lavagem, parecendo resistir à sua força. Quem andaria a riscar no chão estes sinais estranhos? – intrigava-se.
Talvez pensasse nisso mais tarde, agora não podia perder tempo, eles deviam estar a chegar.
(continua)
Sunday, January 08, 2006
O problema do começo (3)
(continuação)Saí do café com a sensação de ter estado aprisionada em histórias e precisei de andar um pouco a pé. Tentei não olhar para ninguém, embora o movimento, nas ruas de uma cidade, seja normalmente cruzado; raramente duas pessoas se dirigem para o mesmo sítio ou, se se dirigem, os propósitos afastam-nas do eixo comum. Quanto a mim não queria dirigir-me para lugar nenhum; precisava apenas de desbastar uma quantidade de condicionalismos que estavam a cortar-me os diálogos e criar pormenores que não fossem simples fragmentos ou rumores de factos sem importância.
E enquanto divagava sobre a importância das coisas visualizei a grande mesa de carvalho onde todos tínhamos pousado as mãos: dezoito pares de mãos em atitude de espera, cada uma delas querendo esconder das outras os projectos feitos para o uso do dinheiro que viria a ser distribuído após a celebração da escritura de venda do terreno sob o qual deveríamos deixar enterrada a discórdia dos últimos anos. À medida que a voz profissional da notária reproduzia nomes e valores as mãos agitavam-se: uma tirava o anel e voltava a pô-lo no dedo da outra, duas mãos pequeninas apertavam-se, encaixando-se, enquanto outra pressionava o par fazendo estalar os dedos, um a um. Em algumas já se impacientavam as canetas aguardando o momento de derramar a tinta sobre a verdade material do papel timbrado. Penso que vi também uma mão precocemente aberta e outra imperturbável face à comparticipação nos rendimentos patrimoniais ali pronunciados.
E houve um momento em que me cruzei, na minha marcha, com uma mão que se acercava para depositar na minha, involuntariamente disponível, um papel que comecei a ler, distraída: “Já fizeste parapente, asa delta, escalada…”. Eu ia subindo a rua sem direcção precisa, distraindo-me em duas ou três frases que não retive e detendo-me finalmente no apelo “…vem ter connosco e viverás a experiência mais louca nas águas do Tejo”. Reparei no título “Emoções Fortes” e, já no escritório, quando a urgência de um encontro veio pelo telefone – tinha de ser para dali a meia hora, no máximo – disse ao gerente que descontasse uma manhã às minhas férias e apressei-me para o café onde a Lurdinhas me esperava, levando na mão o prospecto para lhe dar.
FIM
Thursday, January 05, 2006
O problema do começo (2)

(continuação)
Normalmente abomino a chuva. Mas também me desgostam os dias de calor excessivo, fico como que abalroada nos gestos, sem acção para me movimentar e nem as páginas de um livro me devolvem a paciência. Estava à mercê da água, naquela manhã invernosa, dissolvendo-me numa sensação incómoda de cansaço. Tinha estado a ler contos até muito tarde: histórias de mar, umas com sinais premonitórios de tragédias sob ventos e tempestades; outras relatando ousadias sobre a ordem cósmica seguidas de imersões nos abismos. Antes mesmo de adormecer deixara que as palavras me mostrassem o corpo do capitão pirata a afundar-se em silêncio, os dois homens cuspindo para as mãos e continuando a remar. Premonição de chuva, tanto mar pela noite dentro e personagens de mãos gretadas.
Olhei para o canto da sala: sentada, muito direita, de mãos serenamente pousadas sobre a mesa, uma cara enrugada parecia estar à espera. Não sei se tinha já comido ou se aguardava o empregado, se esperava o fim da chuva ou se apenas que o tempo continuasse a passar. Havia nela qualquer coisa que se assemelhava à imobilidade de uma pedra. Senti uma estranheza, uma impressão de esgotamento das palavras. E, no entanto, ela poderia representar todas as variantes e alternativas, todos os acontecimentos contidos no espaço e no tempo. Como se a sua presença cristalizasse a singularidade ordenada da matéria. Mas sem palavras.
Há, de facto, personagens ideais para contos. A Lurdinhas servia alguns modelos, ideal no melodrama ou nos desfechos imprevisíveis. Podia pedir-me para a ajudar numa congeminação maquiavélica, a morte do Cláudio André ou, quem sabe, um suicídio no Tejo, de cima da ponte, acabando-se tudo num mergulho mediático. Rui Belchior também podia servir. O outro pusera-lhe ironia no nome, quando o chamava a ouvir atentamente a ideia da empresa de emoções; pelo menos foi o que me pareceu quando lhe ouvi a gargalhada. De facto o nome não lhe assentava bem, não condizia com a finura do rosto, barbeado e hidratado e muito menos com os dedos esguios que podiam dizer-se de um Mendonça ou de um Menezes. Belchior devia incomodá-lo, como uma unha encravada, um espinho que se tivesse alojado entre a carne e a pele, produzindo uma secreção purulenta.
E, pensando bem, que fazia ali um tal indivíduo, a não ser desempenhar o meu próprio papel de registadora das histórias alheias.
Por outro lado, tinha também o pormenor da ira do gerente perante a minha ausência, agravada por um problema complicado que só eu podia resolver. Um homem gordo de faces congestionadas, cabelo muito farto e teimoso e uma dose incontida de mau génio sempre pronto a surgir por debaixo dos pêlos rebeldes das sobrancelhas. A ira de um gerente numa manhã de chuva daria um bom começo para um conto.
Risquei a ira e sublinhei a chuva. Parei, olhei para o ar, mordisquei o plástico da esferográfica. Estava farta de fumo e guarda-chuvas a pingar.
(continua)
Wednesday, January 04, 2006
O problema do começo (1)
Quando me telefonou com a urgência do encontro – tinha de ser para dali a meia hora, no máximo – já nem me dei ao trabalho de imaginar a situação. Disse ao gerente que descontasse uma manhã às minhas férias, tão longínquas sob a constância de uma chuva miudinha que inutilizava as duas horas gastas no cabeleireiro, e meti-me no carro.Ela já tinha pedido o meu café, sentada numa confusão de fumo de cigarros e gabardinas transpiradas. Da última vez era a consciência a derramar lágrimas, depois de uma noite de vingança programada para um hotel de Sesimbra, precisando a voz de gastar-se em justificações e pedidos de legitimação do acto. Mas antes tinha sido a descoberta dramática de que o Cláudio André a enganava, tudo contado com pormenores e ameaças de suicídio, depois de outra vez em que me pedira dinheiro urgente para as obras da cozinha. Vinte minutos depois ainda a Lurdinhas contava, detalhadamente, histórias que me escapavam ao entendimento. Tinha de lhe dizer qualquer coisa; reparava agora que estava muito branca, as olheiras muito dramáticas e o guincho de um choro magro a incomodar-me a concentração.
Na mesa ao lado a gravata de riscas enquadrava-se bem na camisa monogramada e o tom de voz era convincente na argumentação, embora viesse do interlocutor e eu não o visse. O da gravata dizia que sim, que sim, e o outro assegurava que o projecto era arrojado mas garantido. Compravam um barco, talvez dois, contratavam dois ou três marinheiros experientes para não se correrem riscos desnecessários, davam jantar a três ou quatro sem-abrigo, desses que quanto mais sujos melhor, faziam uma preparação intensiva dos indivíduos, uma ou duas semanas de formação, que os fundos previam-na, e ele próprio faria de capelão, ou missionário, esses pormenores ficavam para depois. O da gravata agitava-se na cadeira; avisava, pelo telemóvel, que ia chegar um pouco mais tarde, bem se via, com a manhã chuvosa o trânsito estava impossível; e começava a incomodar-se com a curiosidade que eu devo ter posto na forma como lhes escutava as palavras. O outro entusiasmava-se, antecipando naufrágios simulados no Tejo, que as pessoas já não sabiam como preencher certos vazios e a empresa de emoções iria ter muito sucesso. O da gravata desencarcerou-se da camisa, aliviando o botão que o fazia transpirar e ficou mais atento. O outro continuava a expor-lhe os seus propósitos.
Não sei porquê, veio-me à ideia a travessia do Canal da Mancha antecedida da aproximação ao porto de Calais, em estradas de casario antigo, em cujas paredes se viam marcas das balas de há meio século. Tínhamos combinado fazer os registos dos pormenores, como um diário de bordo, para que um dia a memória não nos traísse. Ficaria tudo escrito e é por isso que me lembro que a viagem se iniciou com sol e um vento cortante. Há uma fotografia em que estou a agarrar o lenço cor-de-rosa para que ele não se solte do pescoço. Lembro-me também que abandonei a ideia da escrita a meio da viagem, quando o nevoeiro envolveu o barco e só se viam janelas salpicadas. Foi nessa altura que os bardos vieram, bailando em carrocel, aliviando-me da rugosidade de umas quantas palavras naufragadas. Enquanto jogávamos às cartas para ajudar a passar o tempo, um deles surgia das brumas, puxava-me para a montada do cavalo e desaparecíamos no ar, já o Francisco me dizia que não me distraísse, que era a minha vez de jogar.
Dei comigo a fazer um exercício de racionalidade – a Lurdinhas chorava, o parceiro do da gravata propunha aventuras no Tejo e a minha memória levava-me para a travessia do Canal da Mancha – e a concluir que só podia ser por causa da chuva.
(continua)
Sunday, December 04, 2005
Podia ter sido assim (2)
Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas quando a nudez do frio emaranhava pelos corpos. Depois os palheiros, casinhas de adobe rasteiras ao chão com telha muito gasta, as empenas a esboroarem-se gastas da esturração do estio e do salitre que soprava do suão, nos temporais invernosos. Dos poiais caíam cachos de malvas e alegrias da casa, dispostas em restos de vasos ou metidas dentro de cestas de palma entrançada.Justina costumava sentar-se de pernas afastadas debaixo da chita da saia a dar espaço para o trabalho da empreita e ali ficava entrançando as tiras, cosidas umas nas outras, até que o redondo ia ganhando forma. À roda das casas corriam os moços pequenos zurzindo latas, caras sujas e pés descalços, os paninhos das camisas a saírem dos suspensórios com que seguravam o cotim gasto das calças transformadas pelas mãos destras das mães, que vinham para a rua ao fim das tardes – era a hora da lazeira, diziam –, sentadas nas cadeiras de vime, com a ceirinha das linhas e das agulhas, onde havia sempre um ovo de madeira para remendar as meias. Destacavam-se os caboucos do casario, de encontro aos cerros que fechavam a vila, vendo-se no chão as fendas da terra seca que levantava o pó branco à mistura com o canto das cigarras.
Os cães vinham ladrando ao caminho enquanto ela se afogueava e limpava o suor com as pontas do lenço.
Imagino ainda as falas:
- Ó ti Juliana! Chegue-me daí um cucharrinho de água, que já venho caminhando há tanto tempo!
A mãe da comadre levantava-se da cadeirinha de vime largando a empreita e lançava a corda à cisterna, ouvindo-se o eco do balde batendo na água fresca. Justina levava a cortiça à boca e refrescava depois as mãos e as maçãs do rosto.
- Vou à Igreja, ti Juliana.
(continua)
Thursday, December 01, 2005
Podia ter sido assim (1)
Sei que eles cresceram entre as estevas e as figueiras arredondadas, matando a fome com figos, pela manhã, em dias de sol, que as figueiras frutificam na primavera, como todas as coisas da vida, quando seguem o seu curso normal. Pai dançarino, folião, surpreendido pelas responsabilidades da vida quando ainda nem tinha tido tempo de cumprir todas as voltinhas do baile mandado, que os homens demoram a maturar. Mãe robusta de tanto parir: vinha um filho em cada dois anos, era apenas o tempo de dar de mamar ao anterior e já se o seguinte vinha a caminho, sei-o eu, de tantas vezes ter ouvido a história.Sei que ela ia à Igreja porque o cheiro das velas e dos incensos era como que a prova final, se lhe provocava o vómito. Tinha, então, a certeza de estar novamente grávida.
Devia ser assim a caminhada para a vila, em direcção ao lugar que consagrava essa certeza:
Quando as alpercatas iam chinelando sobre a areia mais escura abrandava o passo mas se as carrasqueiras rareavam, o sol castigava e tinha de andar mais depressa. Debaixo do chapéu de palha ainda tinha a protecção do lenço, atado em duas pontas coloridas debaixo do queixo, misturando-se o cheiro fresco das estevas com o da transpiração, as meias colando-se às pernas magras. Afrouxava o aperto das ligas, fazendo-as deslizar para os joelhos. Seguia apressada, as mãos a darem o impulso da marcha, de trás para a frente, da frente para trás. Sentia a pieira no peito e o respirar era ofegante mas já avistava as primeiras casas da vila.Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos, à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas, quando a nudez do frio emaranhava pelos corpos... (continua)
Friday, November 25, 2005
Um quarto nas águas-furtadas
Vou contar-te como a mulher dele me disse para ir embora, que a casinha era pequena e eu estava a dar despesa. Levei apenas um saco na mão e pedi à madame para me arranjar um quartinho nas águas furtadas do restaurante, onde havia um colchão e pouco mais, já não me lembro do que havia, mas sei que o partilhava com a enteada da patroa, atendíamos ambas à mesa, no rés-do-chão e ela um dia foi apanhada a comer sopa às escondidas. Nesse dia, a madame trouxe a panela da sopa para o quarto e, ali à minha frente, falando na soupe, que eu não percebia mais do que isso, obrigou a moça a comer tudo, tudo, que nem as lágrimas serviram para nada, as dela e as minhas, abraçadas depois na desgraça de um quartinho numas águas furtadas, acordando na manhã seguinte para mais um dia de trabalho.Mas não morri, não, que uma mulher arranja sempre forças e eu tinha de cumprir a minha pena. Não podia andar sempre no coiffeur a entufar o cabelo, mas dava um jeito às minhas farripas escassas e aparecia sempre com bom aspecto aos clientes, mademoiselle, comment ça va?, e eu a aprender palavras novas e a rir-me para todos, chamando a mim a alegria de viver de novo ou enganando-me com ela, já não sei dizer-te.
Hoje, à distância do tempo, penso que os dias passavam e eu seguia com eles, mas não consigo dizer se me movia a petite bourse onde juntava os francos, um a um, a imagem do meu filho a entrar no carro do pai e a encarar-me como se eu fosse um fantasma pálido, ou o brilho dos meus olhos grandes, muito pretos, cujo contorno eu continuava a acentuar com o eyeliner, que se dizia crayon e atraía os homens que vinham comer au restaurant.
La portugaise, diziam os clientes. Era o que eles diziam e gostavam que fosse eu a atendê-los, sorridente, embora à noite, no quartinho acanhado das águas furtadas, não tivesse já lágrimas para chorar aquela qualquer coisa tão vazia, tão vazia, que eu não sabia se eram saudades ou se era a morte a chamar por mim. E continuava a sorrir, para as afastar a ambas.
Wednesday, October 12, 2005
Vestido Roxo com Asas ou A Memória da Dor
Para resolver as más memórias podemos sempre olhar as imagens e as palavras da O'Sanji, não se sabendo onde começam umas e acabam outras, parecendo que se prolonga tudo numa sensibilidade muito especial.
Aqui vai o texto...
Photo de David Strohl
Vestido roxo com asas ou a Memória da dor
Nunca se sabe o que acontece dentro da memória quando os olhos se abrem em direcção ao tecto e as horas custam a passar. Deve ser o excesso de repouso abrindo-se, nesses momentos, o espaço às imagens do passado. E elas surgem, como se o tempo não tivesse existência e os ponteiros de todos os relógios tivessem ficado também imobilizados. Como se o tempo estivesse a vingar-se, arredando a verosimilhança das imagens guardadas na memória e fazendo soltar, desse reservatório de penumbras, a autenticidade das impressões registadas.
Se fechar os olhos centro-me toda na intensidade da dor. Por isso deixo que uma asa bata ao de leve nas pálpebras abertas e o tempo dilata-se, fluído. E os actos únicos, individuais, parados no tempo, tornam-se presentes.
Era roxa a cor do vestido que me enfiaram pela cabeça. Chegava aos pés, mesmo depois de apertadas as fitas do cinto. Levei-o para casa para sair já vestida, pela manhã. Creio que nem dormi ou, se dormi, sonhei com os anjos todos do paraíso.
Imagem bonita a dos anjos, povoando todos os presépios da infância. Coleccionava-os entre as folhas dos livros, alguns eram distribuídos pelo padre, na sua visita semanal à Escola: toda a classe de pé, “bom dia senhor prior”, e ele, muito direito naquela roupagem preta, abotoado de alto a baixo, mil botões miudinhos e uns óculos de vidros grossos com olhos pequeninos dentro. Falava-nos justamente no eixo do Cristo cruxificado, exibição diária de um sofrimento eterno, na direcção dos nossos olhos, quando tentávamos compreender a mecânica das subtracções, no quadro preto. Deve ter-nos dito que o roxo era a cor da paixão, sendo que a paixão era sempre sofrimento. Coisa estranha quando se acordava para a linguagem romanceada do amor.
Por cima do roxo, um par de asas brancas, feitas de rendas e arame, uma carreirinha de penas a esvoaçar nas pontas e fitinhas para as prender ao corpo, disfarçadas, sob o vestido. Na cabeça uma auréola dourada moldada em duas voltas encimadas por uma estrela, ilusão de estar sempre acompanhada pelo contorno da santidade.
As asas esvoaçavam em todos os espelhos e o meu sorriso compunha o voo celeste das pregas do vestido. Teria calçado sapatos brancos, provavelmente novos, provavelmente rijos, ainda não estariam moldados ao pé. Nesse tempo os sapatos eram chinelos e um anjo tinha de ser humilde. O padre dizia-nos que deveríamos fazer sacrifícios. Palavra pesada e mais pesado ainda o caminho para o paraíso, embora as imagens fossem de asas e de anjinhos de pele rosada.
No verso das pagelas os anjos deixavam um espaço para o registo do sacrifício do dia: hoje ajudei alguém a atravessar a estrada; hoje dei o meu lanche a uma menina pobre; hoje andei com sapatos apertados. Mas não é disso que me lembro. Continuo de olhos abertos para o tecto, sabendo que todo o esforço é doloroso.
Doem-me os braços, estão dormentes, quero voltar a pô-los na posição direita, quero que eles caiam pelo corpo, na vertical, mas não consigo.
Na véspera levara tudo para casa; era preciso ajustar todas as vestes ao meu corpo infantil, dar um jeito nas asas, compor a auréola e ensaiar o transporte do objecto sobre o paninho roxo, os braços estendidos para a frente e as mãos abertas. Na sacristia tinham distribuído todos os acessórios: o anjo branco levava o pano com que limparam as chagas de Cristo; o anjo azul levava a coroa; havia anjos roxos que levavam umas estrelas na mão, presas numa varinha – tão próximos das fadas – e eu, porquê eu? – transportava o feixe de varas com que lhe bateram.
A procissão saiu da Igreja, deu a volta completa à velha construção e foi percorrendo lentamente, todas as ruas da vila. À frente e atrás figuras de olhos muito tristes, de mãos postas, seguiam aos ombros de homens vestidos de roxo. A mim doíam-me os braços, sentia-os como duas peças mecânicas que deviam continuar a exibir o objecto.
Havia colchas brancas e roxas em todas as janelas, gente em todos os cantos de todas as ruas olhando para mim. Era eu que transportava o peso da maldade. Era eu que feria o divino. As minhas mãos abertas não paravam de exibir o feixe de varas com que Cristo tinha sido castigado, sangrando das feridas abertas pelas varas que os meus braços estendidos mostravam a todos.
Não sei quantas horas caminhei pelas ruas entre anjos e demónios, na tristeza do roxo com que me vestira pela manhã. As pessoas iam segredando entre si e era para mim que olhavam. Os pés doíam. Mas não é isso que me perturba a memória. São os braços, dormentes, rijos; e a intensidade da dor quando os tentava descer. E a inquietação de um desconforto que se avolumava, à medida que as asas desciam, pesando-me já a consciência clarividente de que a dor era um erro.
Thursday, September 29, 2005
As grades
Sentado ainda no lugar do condutor, ele sentiu a mão que se abeirou da janela. E entregou a sua, como se estivesse à espera há muito tempo. Olhou para fora, para ver de onde vinha o braço, mas a névoa só lhe permitia descortinar o verde da manga que cobria o pulso. Estranhou o contacto, não era comum tal intimidade com uma mão estranha, mas sentiu-se bem, apesar das grades que o separavam do exterior. Aliás, habituara-se ao gradeamento: bastava ter um simples desejo, nem precisando de o verbalizar, para que tudo aquilo em que tinha ousado pensar ficasse ao seu alcance.Porém, era apenas à noite que aquela espécie de magia funcionava, quando o cansaço do dia fazia vergar o corpo no banco almofadado do automóvel, sem possibilidade de sair dali para desentorpecer as pernas. Ao longo do dia mantinha-se sentado, mãos no volante, dominando o espaço e o tempo à sua maneira, enquanto os ponteiros do relógio continuavam a eterna imposição do tempo exterior. Dali via todo o mundo, entrava na sala de trabalho pela porta grande, mãos no volante, ainda, e a secretária vinha trazer-lhe os papéis onde a tinta derramava a sua marca institucional; mostrava-se ao conjunto de funcionários que teclavam incessantemente, olhos postos na luminosidade dos monitores; ligava um comando e a voz da esposa fazia-se ouvir, melódica, deixando-lhe o sorriso rasgado pelo resto do dia. Amiúde interrompia o trabalho, devolvia os papéis à secretária que os recebia, atenta, por entre as grades e carregava de novo no pedal, acelerando para mais um movimento automatizado.
Percorria o espaço como se estivesse numa pista de dança. Em tempos – recordava – sentindo-se ainda entre fumo, decibéis e olhos a piscarem, destacava-se entre os demais, pés colados ao caleidoscópio do piso, enquanto todo o corpo abanava saindo dele, a um tempo, a rotação e a translação da terra. Lembrava-se de como fechava os olhos e acolhia um continente inteiro nos braços abertos, enquanto as ancas ritmavam a dança. Pista cheia em noite de sexta-feira, abandonado o dever dos dias pela troca voluntária e desejada, cheiro a corpos já transpirados mas ainda com o aroma frutado do duche que antecedera os arranjos ao espelho. Era isto que comunicava à mão quente que viera procurar a sua, na espera de mais uma madrugada.
Contava também como se movia no espaço, sentado ainda no banco de couro, e como o espaço se movia com ele, mas sempre ali, no mesmo lugar. Falava nas viagens que já fizera e nas que queria ainda fazer. Ele, dentro de um carro em movimento, como um planeta no espaço das galáxias, sem se mover do seu eixo. Lugar de responsabilidade, convertido diariamente em lugar de transporte de uma figurinha de olhos doces que, à porta da escola, aguardava pacientemente a chegada certa do progenitor. A direcção era a piscina, no horário do fim da tarde. Era mais uma vez desse lugar, as mãos ainda no volante, que a via dar braçadas seguras, através do vidro e através das grades, sem poder tocar-lhe com os olhos, que vidravam lágrimas.
À noite a esposa estava presente. E trazia-lhe o sossego, à noite, só à noite. Sentava-se a seu lado e contava como tinha sido o dia e como tinham sido as conversas com os filhos que verbalizavam expectativas, receios, projectos e sonhos. Quando tinha conhecimento deles sorria feliz. Sorria pela doce presença de uma companhia que nunca falhava, pelo conforto do cobertor que lhe trazia nas noites mais invernosas, pela água fresca que lhe passava pelos lábios nas tardes de estio sem sombras que ia suportando com amargura acrescida. A esposa sorria sempre, depois fechava os olhos e atirava a cabeça para trás, colocando os braços à sua volta, braços longos, cordas de atracar navios cansados de cais. Faziam amor à noite, no espaço exíguo que se transformava em universo, ao som da melodia da sua voz satisfeita.
Era isto que dizia à mão que viera de noite, por entre as grades, para lhe fazer companhia. E desviava os olhos da mão, que tinha também olhos e sabia das suas lágrimas.
A mão acariciou a angústia e ergueu um dedo para as grades.
Sim, instalaram-se aos poucos, sem que ele tivesse tido tempo de as observar de perto, tal era a sua concentração nos ponteiros do relógio e na pressa com que se antecipava aos outros carros para chegar a tempo. E, invariavelmente chegava a tempo, enquanto as grades cresciam e engrossavam nas janelas do automóvel.
A mão não disse nada. Só lhe era permitido ter olhos. Contudo, ele ouviu um murmúrio, um som que era penumbra guardada na memória e olhou pelo espelho retrovisor. Era o pai, mas jovem, muito mais jovem, de olhar duro, colocado mesmo ali atrás, mas tão distante.
Ele não se lembra se foi a voz do pai, sibilando falas de velho, já sem força, mas foi quase como uma ordem, ou talvez não mais que uma sugestão dita, agora, a medo.
Lançou a mão direita e arrancou um pedaço da primeira grade, que levou à boca, mastigando o ferro com a solidez dos dentes. Depois mais um pedaço. Sangrou um pouco. Talvez devesse parar. No chão, viu espalharem-se palavras, devagarinho.
Amanhã – pensava – amanhã comeria a segunda.
A mão retirou-se. Não era para si a missão de limpar a boca ensanguentada e a digestão teria de ser lenta, para não magoar.
Tuesday, August 23, 2005
O que disseram depois
(texto enviado para o concurso promovido pelo blog Divas e Contrabaixos)Sim, era com ela que eu passava o tempo todo mas o que disseram depois foi o que quiseram dizer. Disseram tudo o que se quis ouvir e em tudo eu fui ouvindo, ao longo do tempo, versões várias de uma história que só eu sabia.Passávamos juntos os intervalos e todos já diziam que éramos namorados e às vezes atiravam-nos pedras – “olha os namorados”, “olha os namorados” – cantavam, e ela, envergonhada, baixava os olhos e depois erguia-os para mim, inquirindo-me sobre a verdade do silêncio. E era verdade, eu quis ser o seu namorado desde que ela nasceu daquela mãe que se sentou no lugar da minha, que se penteava no espelho onde antes eu via a minha mãe dizendo o meu nome. Aquela mãe que quis contar-me, depois, as mesmas histórias para adormecer, histórias que falavam sempre de bruxas más escondidas em quartos escuros, saindo a voar em vassouras velhas rumo à França. Antes tinham dito que a minha mãe me deixara a chorar nas escadas, que tinha ido embora ao fim do dia e que eu fiquei a acenar-lhe com a mãozita chorosa, num adeus quase até logo. Do que me lembro foi de ficar sentado no cavalinho de baloiço durante todo o serão, enquanto o meu pai olhava para mim. Mas não sei porque lhe conto isto. Só sei que quis ser o namorado de Helena, sim, para sentir que alguém me dava o afecto que ela me negou quando se despediu de mim nesse fim de dia.
Sim, lembro-me, ele passava todo o tempo com ela. Já foi há muito mas lembro-me muito bem de os ver andar de baloiço nos intervalos; depois começaram a faltar-me às aulas. Claro que era meu dever chamar os pais à escola, não acha? Mas não é verdade que tenham vindo logo. Se tivessem vindo talvez se pudesse ter evitado o que depois aconteceu. Mas há este hábito terrível dos pais adiarem as coisas que são realmente importantes.Reconheço que ele era um miúdo complicado, já nessa altura escrevia uns textos estranhos nas palavras e mais estranhos ainda nas ideias que deixava escritas. Coisas de adulto, pensava eu, de criança que cresce depressa demais. Mas não sei se pensava isso nesse tempo ou se só o penso agora, já que nessa altura as atenções se dispersavam sobre todas as coisas do dia-a-dia e ele era um entre os outros. Dizia-se que o pai o tinha rejeitado, desde o dia em que a mãe o deixara a chorar nas escadas. Talvez fosse essa a razão de todas as coisas. Ele era um miúdo complicado. Ela não. Ela destacava-se pela brancura da pele, pela maneira especial com que se afirmava, sem querer ser a melhor aluna. Mas era. Era toda sensibilidade. Toda inteligência. Helena era a beleza. Era tudo, Helena!
Sim, disseram-nos que eles passavam todo o tempo juntos e que faltavam às aulas. Mas só nos disseram depois. É claro que tudo se podia ter evitado se nos tivessem chamado à escola logo que a estranheza dos factos lhes chamou a atenção. Digo-o eu, Maria do Céu, mãe de Helena, que o pai nunca mais teve condições para falar ou emitir opinião. Não tente falar com ele, não vai adiantar nada ao que já sabe. E digo também que o pai costumava pôr a pequenita nos joelhos para lhe contar histórias, mas sempre que o fazia chamava-o também a ele; não é verdade que o tenha rejeitado, não é verdade que o tenha obrigado a ouvir as histórias sentado à porta da sala para não incomodar a serenidade da família, como se disse. Se isso aconteceu foi naquele dia em que ele despedaçou, uma a uma, as minhas violetas dispostas em vasos sobre o parapeito da janela. Ele era já um garoto complicado mas eu não fui madrasta, não, fui mãe, que a outra deixou-o a chorar nas escadas e foi para França.
Se ela me deixou a chorar nas escadas a culpa foi de alguém. De Helena, que quis nascer para me anular a existência? Talvez a culpa tenha passado daquela mãe para ela. Ambas inimigas. No baloiço eu sentia que ela era minha e a pouco e pouco prolonguei esses minutos até me encher do seu perfume e da transparência da sua pele, até sentir a tontura de todas as emoções mal contidas. Fraco entendimento de menino, disseram também, e eu não sei se tinham razão, mas quando lhe empurrava os ombros para que o baloiço se levantasse no ar e pairasse no azul do céu da nossa escola, tinha sempre a visão daquelas duas ruas, de casario esboroado de telhados baixos e janelas com postigos, entre uma encosta de socalcos e uma parede velha em cujas brechas nascera musgo. Era para aí que dava a janela emperrada. Tinha de a levar a esse lugar. Era lá que iríamos abraçar-nos, rendidos à cumplicidade dos nossos verdes anos. Era lá que tudo iria passar-se. Se faria o mesmo? Como é que a gente pode dizer se faria o mesmo? É tudo uma questão de ausência. Ou de uma presença forte sobre essa ausência. Disseram também que construí a minha vida de vinganças e essa pode ser a razão de tudo, incluindo este lugar onde me vêem, que é um lugar de desassossego. Não gosto de vasculhar no passado: em cada estrato, quando estamos a libertar-nos de coisas inúteis, como a areia e as pedras, escolhos que camuflam pequenos cacos, encontramos indícios, enigmas que não nos deixam dormir em paz sem que lhes adivinhemos um sentido. Não sei porque lhe estou a contar isto, talvez a minha história sirva para a sua história, para a sua escrita. Registe nela, com as palavras que eu deixei no passado, a face branca de uma menina que eu vi depois no caixão, de longe, porque já nessa altura a culpa me matou também a mim. Mas nada do que se disse foi verdade.
Thursday, August 11, 2005
O problema do começo
Quando me telefonou com a urgência do encontro – tinha de ser para dali a meia hora, no máximo – já nem me dei ao trabalho de imaginar a situação. Disse ao gerente que descontasse uma manhã às minhas férias, tão longínquas sob a constância de uma chuva miudinha que inutilizava as duas horas gastas no cabeleireiro, e meti-me no carro.Ela já tinha pedido o meu café, sentada numa confusão de fumo de cigarros e gabardinas transpiradas. Da última vez era a consciência a derramar lágrimas, depois de uma noite de vingança programada para um hotel de Sesimbra, precisando a voz de gastar-se em justificações e pedidos de legitimação do acto. Mas antes tinha sido a descoberta dramática de que o Cláudio André a enganava, tudo contado com pormenores e ameaças de suicídio, depois de outra vez em que me pedira dinheiro urgente para as obras da cozinha. Vinte minutos depois ainda a Lurdinhas contava, detalhadamente, histórias que me escapavam ao entendimento. Tinha de lhe dizer qualquer coisa; reparava agora que estava muito branca, as olheiras muito dramáticas e o guincho de um choro magro a incomodar-me a concentração.
Na mesa ao lado a gravata de riscas enquadrava-se bem na camisa monogramada e o tom de voz era convincente na argumentação, embora viesse do interlocutor e eu não o visse. O da gravata dizia que sim, que sim, e o outro assegurava que o projecto era arrojado mas garantido. Compravam um barco, talvez dois, contratavam dois ou três marinheiros experientes para não se correrem riscos desnecessários, davam jantar a três ou quatro sem-abrigo, desses que quanto mais sujos melhor, faziam uma preparação intensiva dos indivíduos, uma ou duas semanas de formação, que os fundos previam-na, e ele próprio faria de capelão, ou missionário, esses pormenores ficavam para depois. O da gravata agitava-se na cadeira; avisava, pelo telemóvel, que ia chegar um pouco mais tarde, bem se via, com a manhã chuvosa o trânsito estava impossível; e começava a incomodar-se com a curiosidade que eu devo ter posto na forma como lhes escutava as palavras. O outro entusiasmava-se, antecipando naufrágios simulados no Tejo, que as pessoas já não sabiam como preencher certos vazios e a empresa de emoções iria ter muito sucesso. O da gravata desencarcerou-se da camisa, aliviando o botão que o fazia transpirar e ficou mais atento. O outro continuava a expor-lhe os seus propósitos.
Não sei porquê, veio-me à ideia a travessia do Canal da Mancha antecedida da aproximação ao porto de Calais, em estradas de casario antigo, em cujas paredes se viam marcas das balas de há meio século. Tínhamos combinado fazer os registos dos pormenores, como um diário de bordo, para que um dia a memória não nos traísse. Ficaria tudo escrito e é por isso que me lembro que a viagem se iniciou com sol e um vento cortante. Há uma fotografia em que estou a agarrar o lenço cor-de-rosa para que ele não se solte do pescoço. Lembro-me também que abandonei a ideia da escrita a meio da viagem, quando o nevoeiro envolveu o barco e só se viam janelas salpicadas. Foi nessa altura que os bardos vieram, bailando em carrocel, aliviando-me da rugosidade de umas quantas palavras naufragadas. Enquanto jogávamos às cartas para ajudar a passar o tempo, um deles surgia das brumas, puxava-me para a montada do cavalo e desaparecíamos no ar, já o Francisco me dizia que não me distraísse, que era a minha vez de jogar.
Dei comigo a fazer um exercício de racionalidade – a Lurdinhas chorava, o parceiro do da gravata propunha aventuras no Tejo e a minha memória levava-me para a travessia do Canal da Mancha – e a concluir que só podia ser por causa da chuva.
Normalmente abomino a chuva. Mas também me desgostam os dias de calor excessivo, fico como que abalroada nos gestos, sem acção para me movimentar e nem as páginas de um livro me devolvem a paciência. Estava à mercê da água, naquela manhã invernosa, dissolvendo-me numa sensação incómoda de cansaço. Tinha estado a ler contos até muito tarde: histórias de mar, umas com sinais premonitórios de tragédias sob ventos e tempestades; outras relatando ousadias sobre a ordem cósmica seguidas de imersões nos abismos. Antes mesmo de adormecer deixara que as palavras me mostrassem o corpo do capitão pirata a afundar-se em silêncio, os dois homens cuspindo para as mãos e continuando a remar. Premonição de chuva, tanto mar pela noite dentro e personagens de mãos gretadas.
Olhei para o canto da sala: sentada, muito direita, de mãos serenamente pousadas sobre a mesa, uma cara enrugada parecia estar à espera. Não sei se tinha já comido ou se aguardava o empregado, se esperava o fim da chuva ou se apenas que o tempo continuasse a passar. Havia nela qualquer coisa que se assemelhava à imobilidade de uma pedra. Senti uma estranheza, uma impressão de esgotamento das palavras. E, no entanto, ela poderia representar todas as variantes e alternativas, todos os acontecimentos contidos no espaço e no tempo. Como se a sua presença cristalizasse a singularidade ordenada da matéria. Mas sem palavras.
Há, de facto, personagens ideais para contos. A Lurdinhas servia alguns modelos, ideal no melodrama ou nos desfechos imprevisíveis. Podia pedir-me para a ajudar numa congeminação maquiavélica, a morte do Cláudio André ou, quem sabe, um suicídio no Tejo, de cima da ponte, acabando-se tudo num mergulho mediático. Rui Belchior também podia servir. O outro pusera-lhe ironia no nome, quando o chamava a ouvir atentamente a ideia da empresa de emoções; pelo menos foi o que me pareceu quando lhe ouvi a gargalhada. De facto o nome não lhe assentava bem, não condizia com a finura do rosto, barbeado e hidratado e muito menos com os dedos esguios que podiam dizer-se de um Mendonça ou de um Menezes. Belchior devia incomodá-lo, como uma unha encravada, um espinho que se tivesse alojado entre a carne e a pele, produzindo uma secreção purulenta.
E, pensando bem, que fazia ali um tal indivíduo, a não ser desempenhar o meu próprio papel de registadora das histórias alheias.
Por outro lado, tinha também o pormenor da ira do gerente perante a minha ausência, agravada por um problema complicado que só eu podia resolver. Um homem gordo de faces congestionadas por uma selva de capilares rosados, cabelo muito farto e teimoso e uma dose incontida de mau génio sempre pronto a surgir por debaixo dos pêlos rebeldes das sobrancelhas. A ira de um gerente numa manhã de chuva daria um bom começo para um conto.
Risquei a ira e sublinhei a chuva. Parei, olhei para o ar, mordisquei o plástico da esferográfica. Estava farta de fumo e guarda-chuvas a pingar.
Saí do café com a sensação de ter estado aprisionada em histórias e precisei de andar um pouco a pé. Tentei não olhar para ninguém, embora o movimento, nas ruas de uma cidade, seja normalmente cruzado; raramente duas pessoas se dirigem para o mesmo sítio ou, se se dirigem, os propósitos afastam-nas do eixo comum. Quanto a mim, não queria dirigir-me para lugar nenhum, precisava apenas de desbastar uma quantidade de condicionalismos que estavam a cortar-me os diálogos e criar pormenores que não fossem simples fragmentos ou rumores de factos sem importância.
E enquanto divagava sobre a importância das coisas visualizei a grande mesa de carvalho onde todos tínhamos pousado as mãos: dezoito pares de mãos em atitude de espera, cada uma delas querendo esconder das outras os projectos feitos para o uso do dinheiro que viria a ser distribuído após a celebração da escritura de venda do terreno sob o qual deveríamos deixar enterrada a discórdia dos últimos anos. À medida que a voz profissional da notária reproduzia nomes e valores as mãos agitavam-se: uma tirava o anel e voltava a pô-lo no dedo da outra, duas mãos pequeninas apertavam-se, encaixando-se, enquanto outra pressionava o par, fazendo estalar os dedos, um a um. Em algumas já se impacientavam as canetas aguardando o momento de derramar a tinta sobre a verdade material do papel timbrado. Penso que vi também uma mão precocemente aberta e outra imperturbável face à comparticipação nos rendimentos patrimoniais ali pronunciados.
E houve um momento em que me cruzei, na minha marcha, com uma mão que se acercava para depositar na minha, involuntariamente disponível, um papel que comecei a ler, distraída: “Já fizeste parapente, asa delta, escalada…”. Eu ia subindo a rua, sem direcção precisa, distraindo-me em duas ou três frases que não retive e detendo-me finalmente no apelo “…vem ter connosco e viverás a experiência mais louca nas águas do Tejo”. Reparei no título “Emoções Fortes” e, já no escritório, quando a urgência de um encontro veio pelo telefone – tinha de ser para dali a meia hora, no máximo – disse ao gerente que descontasse uma manhã às minhas férias e apressei-me para o café onde a Lurdinhas me esperava, levando na mão o prospecto para lhe dar.
