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Tuesday, May 12, 2009

À espera...



Sentados em cadeiras de fundos gastos, em salas pouco arejadas onde os encostam às paredes para que aguardem, calados, a chegada do fim, os velhos fecham os olhos e viajam no tempo. É um movimento ao contrário; em meninos projectavam-se nos dias que estavam para vir, agora não há dias para além do dia; já não lhes importa que alguém venha, depois de terem lutado em vão para que alguém os levasse. Agora ouvem, em registo longínquo, as músicas encantadas dos dias antigos ou sentem discretamente os beijos, de tão distantes. Agora recuam à infância e esquecem o que se passou ontem. Agora, destapam apenas as extremidades de uma pele que se gastou no fazer das coisas e que se amaciou nos afagos. E a mão forte, longa de agarrar, não é mais do que a mão velha que aguarda, de olhos fechados, o passar do tempo.


Thursday, June 12, 2008

Im(perfeições)


Os romances chegam sempre ao fim demasiado depressa
e os heróis estão caídos sob o efeito de um calor precoce;

No horizonte repousam as horas
e as esperas ansiosamente lentas
agitam-se num rumor de águas revoltas.


Os rios correm sempre para o mar demasiado depressa
E os peixes contorcem-se silenciosamente;

No céu as nuvens desfazem-se outra vez
sem forma que as contenha
nem rumo que as empurre.



Friday, October 19, 2007

quadrantes e luas em cruzamentos quase possíveis


Era a propósito dos quadrantes; os do vento e os da vida, que os quatro cantos de tudo são sempre a possibilidade esquartejada, tendo em conta a unidade impossível.
Era possível ter sido diferente, pelo menos na contingência dos “ses”, sendo eles os caminhos excluídos e, só por isso, os que se adivinhariam a alternativa perfeita. Ou a diferença poderia estar nesta consideração, decalcada da rosa-dos-ventos e por isso limitada ao rigor das quartas partes, sendo a vida mais do que isso.
Quatro vezes excluí de mim o quarto crescente. Nem sempre fui voluntária mas, avaliação feita, cruzaram-se o mal e o bem, como se cruza o céu com a terra ou a lua com as marés.
À primeira foi como perder um membro. De vantagem apenas a robustez da cicatriz. Ponto quase final.
Depois a paz, brisa – não vento – a entorpecer até ao excesso. Sossego inquieto depois de quase perfeito.
A meio, a exigência de torvelinhos enviesados, vulcões vindos de dentro, ânsias recalcadas, ousadia, desafio quase completo.
Depois o quarto céu, a zurzir num cais ventoso, quase real.
Assomaram ainda algumas orientações colaterais mas não me lembro do sopro.
O mais, foram quartos minguantes.




Wednesday, December 13, 2006

Pensamentos catatónicos




Se em Portugal o sol nascesse assim às onze da manhã os portugueses que começassem a trabalhar às nove provavelmente pediriam um subsídio ao Estado pelo exercício de trabalho em regime nocturno.


Desculpa lá Bagaço Amarelo pelo uso abusivo deste título, mas depois pago-te os direitos de autor.

Saturday, October 14, 2006

Lenga-lenga-lenga

Escher

Dou um passo no espaço, colo os pés às areias, prendo os passos e os braços, localizo as estrelas, fecho os olhos e canto, dou um salto no escuro, olho a lua a nascer, sinto o mar à distância, ouço os montes e os vales, as colinas, as rias, a folhagem que mexe; sinto as asas que nascem, debutando nos braços, sinto as ondas que galgam, as fronteiras riscadas, os ribeiros que correm, os rebanhos que aninham, gotas de água nas nuvens, as gaivotas rasando, o mar em tons de bruma e a forma a perder-se, entranhada na névoa; sei de um rio que brotou, sei de um peixe dourado, sei da ponte que liga, sei dos eixos da vida, sei dos passos parados a lembrar as viagens, sei do sangue nas águas e das lutas eternas; vi os homens nas naus, vi o vento nas velas e o sangue a espalhar-se sobre as águas sagradas; e uma barca sem quilha e uma arma disforme disparando às escuras sobre os povos sem culpa, sem uma nesga de espaço, que se diga inocente, sem um metro de terra ser poupado à sangria, sem que um deus ilumine a fadiga dos dias, sem que um passo no espaço diga ao corpo que avance, diga ao corpo que exija, que antecipe a surpresa, que consagre o momento em que o espaço se alarga e a vida se espraia.
Dou um passo no espaço, dou um salto no escuro, solto os eixos da vida, digo ao corpo que dance e às asas que voem.

Sunday, August 20, 2006

fatalismos a preto e branco

Ouves lá fora a água sobre as poeiras das conversas?
É chuva.
Mas ouves a brisa que baila em volta da inércia pedindo danças?
É o vento. Aqui é raro o dia que não há vento.
Mas as danças…
É apenas o movimento do Universo.
E os sonhos? Consegues ouvir que ressoam nos diálogos?
Tenho os pés assentes no chão.
E o chão? Sentes ao menos que o chão existe?
Sim, o meu. Se estiveres neste círculo está tudo conforme os desígnios.
Mas há teorias a mais nos livros que cobrem o teu chão!
Alimentemo-nos desse pão.
E o mundo? Lá fora há um mundo por viver.
Tu tens asas. Rasga as nuvens. O meu plano está resvés a base entediante do nível do mar.