Sentados em cadeiras de fundos gastos, em salas pouco arejadas onde os encostam às paredes para que aguardem, calados, a chegada do fim, os velhos fecham os olhos e viajam no tempo. É um movimento ao contrário; em meninos projectavam-se nos dias que estavam para vir, agora não há dias para além do dia; já não lhes importa que alguém venha, depois de terem lutado em vão para que alguém os levasse. Agora ouvem, em registo longínquo, as músicas encantadas dos dias antigos ou sentem discretamente os beijos, de tão distantes. Agora recuam à infância e esquecem o que se passou ontem. Agora, destapam apenas as extremidades de uma pele que se gastou no fazer das coisas e que se amaciou nos afagos. E a mão forte, longa de agarrar, não é mais do que a mão velha que aguarda, de olhos fechados, o passar do tempo.
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2 days ago


