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Tuesday, July 24, 2007

Brindemos à escola do futuro

(clicar na imagem)


Ainda não sei muito bem como é que vou trabalhar na sala de aula no próximo ano lectivo mas parece-me que vai haver uma grande revolução nos meus métodos de ensino e nos dos meus colegas professores.
Consta-me que vou ter um portátil na minha mesa.
Pagarei por ele 150 euros e depois, durante 36 ou 12 meses, terei um encargozito que vai depender do contrato de fidelização à TMN que eu “quiser” fazer. Nada de especial. Mas será o meu portátil, porque se o pago ele é meu.
Meu?
Mas o que farão 28 alunos dentro da sala enquanto eu faço as minhas pesquisas e selecciono imagens e explico como é que eles colocam os trabalhos feitos na plataforma interactiva?!
Bem, alguns deles – se estiverem matriculados no 10º ano e tiverem um rendimento familiar que ainda não percebi se tem de ser alto ou baixo – poderão ter também o seu portátil mas aí as coisas complicam-se, exactamente como quando se quer fazer um exercício ou trabalhar um texto e só quatro, em vinte e oito, é que trouxeram o livro o ou caderno de exercícios.
Quanto aos outros, será que farão uma invasão à minha mesa, com o respectivo alarido a acompanhar o trabalho? E que farei com o manual? Para que fim terão os pais deles gasto centenas de euros em manuais? E que farei quando passar pelas mesas deles e verificar que a maioria está “agarrada” ao “Messenger” ou à página do Hi5?
Ok, eu sei que todas as transições são assim, mas caramba, já ando em transições há tantos anos e os resultados a que tenho assistido não são lá de grande sucesso!
Bem sei que a formação na área das Tecnologias da Informação e Comunicação é a coisa mais importante do mundo e arredores neste momento; reconheço-lhes as vantagens.
Porém, o que falta para tudo isto fazer sentido é qualquer coisa que não sei explicar muito bem, mas deve ter a ver com um estrutura que não vejo, uma organização que não descortino, uma maneira de fazer as coisas sem que as empresas envolvidas corressem antes de tudo para o lucro pessoal, marimbando-se para os resultados que os meninos vierem a ter – quanto mais acríticos forem os futuros cidadãos melhor, desde que dominem as TIC – e para aquilo que os pedagogos agora chamam pomposamente as competências da aprendizagem, expressão que eu escrevi demasiadas vezes no ano lectivo que terminou, em documentos e formulários que enchem os dossiês nas prateleiras da minha escola.

Certamente terei mais umas grelhas para preencher com os dados relativos ao domínio das técnicas de pesquisa na net, à capacidade de seleccionar informação, à velocidade com que tecla, ao domínio do uso do corrector ortográfico… tudo isso e mais ainda, se houver tempo, umas coisitas relativas à formação de Portugal ou à bipolarização do mundo nos anos 50 ou mesmo à formação da União Europeia, já que é nisso que estamos metidos embora sem grande capacidade para fazermos face a todas as coisas da moda.


Thursday, March 01, 2007

o estado absoluto

Não, não vou outra vez queixar-me do meu dia-a-dia de professora. Andamos fartos de queixas e não é por aí que vamos mais longe. Afinal todos nos queixamos um pouco do trabalho que fazemos, neste país que em vez de nos incentivar só nos desvaloriza e nos impede a realização profissional.
Venho apenas dizer que é muito mau que os profissionais portugueses de qualquer área queiram e façam gosto em progredir nas suas carreiras, sejam elas quais forem, e acabem num lamaçal pouco dignificante que, imposto a partir do topo, lá onde se situam aqueles em cujas mãos deus depôs o poder, tem um único objectivo: dividir para reinar. (para não falar naqueles que querem trabalhar e só encontram portas fechadas ou naqueles que têm trabalho hoje e amanhã, à chegada, já lá não está nem o sítio!)
Era para vir falar disto com o mesmo sentido de humor que li aqui mas confesso que não fui capaz, até porque depois de um texto escrito assim não se sabe fazer melhor.
Em complemento e para não ser eu a dizer o mesmo que muitos já estão fartos de ouvir, recomendo também que ouçam esta crónica.
Não, não é corporativismo. Não me apoquenta só o meu grupo profissional.
Tudo isto é a parte de um todo que se chama estratégia, ou o que lhe quiserem chamar... estratégia para, no dizer do primeiro-ministro deste país, aumentar o desemprego em apenas quatro décimas (o melhor número dos últimos anos...), porque fechando maternidades, urgências, centros de saúde, esquadras de polícia e extinguindo serviços e postos de trabalho consegue-se, no dizer do iluminado, mais e melhor emprego, mais e melhor nível de vida.
E eu, que nos últimos cinco anos tive de ser sujeita a uma intervenção cirúrgica, tive problemas nas cordas vocais e tive filhos doentes... já não posso progredir na carreira. Aliás qualquer professor que tenha casado, que tenha tido filhos, que tenha “gozado” de três dias por morte de um familiar, que tenha estado verdadeiramente doente, como é comum acontecer pelo menos uma vez na vida de cada um, nunca deixará de ser um funcionário público menor. Com a vantagem de poder ser acompanhado a casa por um Encarregado de Educação de arma em punho.
Policiamento? Para quê? O Estado tem de diminuir a despesa... foi o que mais ouvi ontem no discurso e depois na “guerra” de palavras que encheu o Parlamento.

Sunday, January 14, 2007

a síntese

Há assuntos que, só por si, são controversos, especialmente se envolvem emoção na sua análise e isso acontece inevitavelmente quando somos parte do problema.
A cada um o lugar de opinião; a cada um o direito de exprimir razões e emoções.
Muitos passaram por aqui e deixaram sins e nãos. É fundamental que se abram espaços à opinião livremente expressa.
Contudo uma das pessoas que por aqui passou, deixou esta síntese que me satisfez pela maneira conhecedora e objectiva como equacionou as várias faces do mesmo problema.
Eu não reduziria a questão apenas ao nosso país, pois sei que toda a Europa Ocidental vive o mesmo drama. Contudo, ao lermos este esquema de causas, conseguimos entrelaçar um conjunto de coisas nas quais cada um de nós já pensou mas nunca escreveu desta maneira.

Disse a addiragram que "a jovem democracia também trouxe:

1- a confusão de papéis;

2- a implementação de modelos preversos - como o do ensino integrado;

3-a confusão entre autoritarismo e autoridade;

4-uma política de negação dos problemas sociais e suas gravosas consequências;
5- uma desresponsabilização progressiva dos vários intrevenientes (é sempre o Outro o culpado);
6- uma falência da função paternal (entenda-se aqui o fundamental que é a introdução de regras e limites) e um ênfase dado ao lado maternal (compreender, tolerar, não frustrar...);
7- a mentira da "mascarada" dos números e dos objectivos...

Só saneando este lado mentiroso da mente que está presente nos políticos, nos pedagogos, nos pais, nos professores e nos alunos retomaremos alguma lucidez para enfrenter esta montanha de escolhos."




Saturday, January 13, 2007

Haverá saída?


Há cerca de uma década comecei a sentir alguma relutância em ceder à ideia de que todos os alunos eram iguais dentro da sala de aula e que o ensino a ministrar devia ser o dos objectivos padronizados para o aluno médio, pressupondo-se que a mediania seria atingida por todos.
Nunca me dediquei com afinco ao estudo das teorias pedagógicas porque a sala de aula é um lugar por onde não passam os ideólogos; ou se passaram, foi uns anos antes da publicação das suas obras reguladoras de comportamentos e, por muito que se queira comparar o nosso tempo de estudantes com o momento presente, não vale a pena tentar. Seja qual for o tempo (e é das coisas que mais me incomoda é ter de aguentar esta conversa quando alguém se põe a estabelecer essas comparações…) eu, que estou no terreno, localizo a mudança num crescendo que começou há menos de uma década. Sou capaz de dizer que tudo começou a “descambar” de há uns seis a sete anos para cá. Se não tiveram contacto com uma escola dentro desta data, não precisam de dar opinião pois acreditem que não sabem do que falam.
Dizia eu que enfrentei por essa altura alguns colegas mais “pedagogos”, perfeitamente alinhados no espírito do aprender brincando. Mas vem mais de trás, esta brincadeira; desde os anos 80 as tentativas para reformar o que se sabe estar mal têm sido muitas, mas nenhuma com tempo para ser bem sucedida, como se tudo se passasse ao nível da tentativa-erro, mas sem que se pegue no erro para o emendar. Desconcertados, os ministros vão aparecendo e vão mudando, riscando daqui e escrevendo ali, sem nada acrescentar senão a necessidade de reduzir o nível de exigência. Mascarar o insucesso para que sejam atingidos os níveis europeus de escolaridade. Este ano lectivo transitei alunos do 8º para o 9º ano com sete disciplinas em estado negativo; considerando-se que só no 9º ano é que atingem o final do ciclo, etc, etc, e que o terceiro ciclo é um todo, etc etc, e que os pais não estão muito de acordo com a reprovação, etc etc... deu-se o jeito. Curioso é que a inspectora que fez a auditoria à escola em Dezembro questionou o exagero de negativas nas disciplinas de História e Geografia. Em Matemática já não espanta, é o que se sabe!, em Inglês também não! (se algum dia alguem pensou que 28 alunos conseguem aprenderuma língua estrangeira em 90 minutos semanais pensou MAL!). Na língua Portuguesa, por muito mal que escrevam, o que se testa são outras competências... por isso já sabemos que temos de continuar a abrir mão do rigor na conclusão do 9ºano. Depois chegam ao Secundário com ambições universitárias, não tanto eles que detestam estudar, mas os pais. Eu também sempre quis o melhor para os meus. (A questão é o conceito de "melhor" ligada aos estudos universitários... mas esse é outro assunto).
Mas, retomando o fio, nessa altura já me custava muito ter de estabelecer objectivos mínimos para os alunos com défice cognitivo. Cheia de boa fé e pensando que podia ser eu a ter um filho com essas dificuldades, fui cedendo… Mas quando eu digo “um filho” assim, refiro-me a um adolescente comprovadamente diferente, integrado num mundo de iguais. Quem está livre disso?!
A pouco e pouco a minha atenção teve de recair sobre os menos dotados (e se eles crescem em número!!!), a quem devia ser prestada mais atenção para que atingissem todos o mesmo patamar. A consequência imediata disso é uma coisa que me tem enchido a cabeça nestes últimos dias em que tenho reflectido sobre o que aqui relatei antes – eu esqueci-me dos alunos “normais” (perdão aos ouvidos mais sensíveis). Da redução dos objectivos à centralização do ensino nas competências, tudo acompanhado de muitos impressos, dados para gráficos de sucesso /insucesso, formulários, planos de recuperação, planos de acompanhamento, et cetera, a coisa ia sempre bater ao mesmo: aqueles que aprendem mais depressa e anseiam por conteúdos novos, aqueles que são capazes de saltar rapidamente do saber ouvir para o saber fazer e depois para o saber ser, têm estado positivamente ao abandono.
Numa sala de aula eu fixo os nomes dos mais rebeldes no primeiro dia, falo quase exclusivamente para eles em todas as aulas, mando que sejam eles a ler os textos em voz alta, preocupo-me em neutralizar aí os focos de perturbação e muitas vezes não replico, não respondo, faço que não lhes oiço certo palavreado, quase como se fosse eu a parte mais frágil do casal contratuado para viver em comunhão, a bem da duração do casamento. À conta disso sou capaz de ter tolerado menos coisas aos meus filhos porque lembro-me que o chegar a casa, depois de um dia de aulas, era de tal forma desejar o céu, que era a eles que cobrava o silêncio e o sossego de que vinha carente.
Dizem as novas orientações que temos de trabalhar as competências e eu, cumpridora, tenho procurado que se promova a educação para a cidadania, palavra linda que faz a abertura de toda a literatura chegada às escolas.
Porém, já dei comigo a pensar que ando a dar pouca atenção ao aluno X ou ao Y, porque esse é competente e há-de desenvencilhar-se sozinho. E sozinhos têm ficado aqueles que têm objectivos traçados e que, à partida, vão lá chegar. Por esses nada tenho feito. E, reconheço, esses bocejam, absortos, frustrados…
Há dias dei-me conta que o João anda a perder o brio. Não lhe foi fácil perceber que teria de deixar de fazer os trabalhos de casa e “mandar uma boca” de vez em quando, na aula, para ser aceite no grupo dos que agora são os “normais”. Doutra forma é marginalizado. Mas o João chegou lá, agora. Mandei recado pela directora de turma para que os pais ficassem atentos, no sentido do rapaz não perder os seus bons hábitos (porque os pais deste são dos que nunca faltam às reuniões). Só ontem, depois de escrever o meu “grito” e depois de ler algumas considerações lá deixadas é que me ocorreu que não é aos pais do João que eu tenho de pedir atenção. Eles até são atentos! Sou eu que tenho de mudar de agulha! Eu!!!!
Vou tentar olhar para os alunos que merecem. Foi isto que decidi, porque não quero abandonar ainda esta guerra. Não quero encostar-me à porta da sala, sem palavras perante a má educação. Terei de a aguentar, se conseguir canalizar a atenção para quem a merece!
Terei de preencher uns papéis (são às dezenas), traçando planos de recuperação para os outros, mas eu sei quantos desses papéis tive de arquivar o ano passado (estão lá, nada se extravia) sem que os pais tivessem posto a sua assinatura no respectivo espaço. A escola que os eduque, a escola que os prepare para a vida, a escola que os ature. Ah, e que os ponha a fazer serviço cívico, que em casa eles não o fazem, dá muito trabalho insistir!
Na minha digressão pelo mundo dos blogues li há umas horas um texto que me deixou a pensar muito. Por isso vou já concluir, dizendo que não há solução para esta questão complicada. Não a questão do ensino, porque essa, eu vou tratar dela à minha maneira, nas minhas salas de aula. Não posso meter atestado por incapacidade psicológica ainda (lá virá o tempo!). A questão é a da VIDA e a do FUTURO. A vida de uma geração que daqui a uns anos não saberá o significado da palavra esforço, ou persistência ou brio. Os pais deles acham que todo o esforço traumatiza e aligeiram, para não dizer que abandonam. Os pais deles, se me permitem o desabafo, não querem sair traumatizados da situação. Os pais deles estão centrados em si e nas suas carreiras e no seu bem estar e no "está bem, faz lá o que quiseres e não me chateies!". Muitas vezes são as mães, porque os pais têm a parte mais fácil que é a do fim-de-semana quinzenal e dão tudo para suprirem o que não podem dar...
Preocupa-me pois, o futuro de um mundo em que há jovens são capazes de me dizer que aquele aluno lá da escola que anda de cadeira de rodas não tinha nada que lá estar porque um dia ainda vai ser beneficiado por ser deficiente e vai tirar o trabalho a outro que o poderá fazer melhor do que ele.

E, já agora, eu, que sou naturalmente pelo sim à interrupção voluntária da gravidez, também seria pelo sim à laqueação de trompas de certas mães e à vasectomia de certos pais.

Tuesday, January 09, 2007

Amanhã tenho de voltar lá!

Edvard Munch, O Grito

Pego no livro de ponto, na mala, no casaco e subo a escada. Passo pelos intervalos, desviando-me. Faço que não ouço nem vejo, ou às vezes já nem ouço e já não vejo... mas a linguagem é "de caserna", já não é novidade.
Eles entram. Tourada. Se eu não impuser autoridade ninguém se cala, mesmo depois de sentados – recados, mensagens no telemóvel, 'phones' nos ouvidos, mochila nas costas, cadeira que cai, ó stora olhe o Diogo!, stora posso ir ao cacifo buscar o livro?, stora não tive tempo de beber água, posso?, é pah, levaste nos cornos ontem, o Porto não sei quê, olhe lá o Paulo stora, PARVO!, PARVA ÉS TU!, aqui não se diz parvo, a stora ‘tá à espera, CALEM-SE, estúpidos. Daniel, quando eu precisar de assessor peço e pago, ok? Ordem e vamos começar, cadernos, canetas, livros e vontade de trabalhar, Ruben, tira os phones dos ouvidos, que mal é que tem, estão desligados, quero silêncio pelo menos durante os próximos cinco minutos…quantos livros há na sala – só? Paciência, um livro em cada mesa, mesmo assim há 5 mesas sem livro; mas viste o frango que o gajo deixou entrar, viste?, Cala-te … (entre dentes), stora não admito que digam coisas da minha mãe aqui (levanta-se)… eu não lhe disse nada ele é que é estúpido!... Consigo que escrevam o sumário que acabei por escrever eu própria no quadro (ou teria de repetir pelo menos 10 vezes) e a aula arranca. Começo a falar nos regimes autoritários dos anos 30, Ivan, presta atenção, se não queres ouvir não distraias o teu colega!, falo com a voz toda, uso o quadro, as mãos, os olhos, as fotocópias, os cartazes que trago ampliados, Marina, é na página 78, não mandei já abrir o livro?, peço que interpretem um imagem, Ana cala-te , mas eu não 'tava a falar, estavas sim, e presta atenção!, mas era só eu, não! os outros falam e eu é que pago porque sou preta?É sempre comigo é que se mete!ah, é preta...e eu sou amarelo, e eu sou encarnado, e eu sou águia, e eu leão, cala-te lá com isso, fogo!, ignoro-os e continuo a falar da militarização dos regimes, peço-lhes apenas que interpretem as imagens, há material bastante e interessante para se chegar onde quero, Ana, é para te calares, não me ouviste? (continua a reesmungar), Já viram como a imagem mostra os militares em perfeita ordem, ANA!!!!!, outra vez eu! Fónix!... mas stora há um que está fora da fila! Ai... eheheh está fora da pila´?, é pah, é mesmo estúpido, isto é só para me provocar, stora, e ri-se, ela, piscando-lhe o olho. Insisto na autoridade que caracterizava os regimes dos anos 30, na repressão; vou direita ao holocausto, ou pelo menos era essa a intenção, queria falar de tolerância e respeito, de valores... gostava que percebessem como era a vida dos pais deles ou dos tios mais velhos, ou dos avós, a minha avó já é velha, a minha tem 80 anos, a minha tem 100, eheheh, 100 anos, parece que é tótó; não me diga que isto era assim, os cotas mandavam naquilo tudo? POIS MANDAVAM, não mandavam nada, quem manda aqui sou eu, Heil Hitler, Salazar também era amigo dele? CALA-TE PARVO, Cala-te tu, oh!, eu tenho dúvidas tenho de perguntar. Dou meia volta, conto até 10 em silêncio, explico qualquer coisa, quero continuar a falar, elevo o tom de voz acima das deles, stora posso ir lá fora? quanto tempo falta p'ra tocar?! Se ela vai eu também quero... stora é verdade que amanhã falta? Não falta nada!, falta sim, eu ouvi dizer... Engulo o desespero, faço das tripas coração, não suporto os risos das três que se juntam lá atrás, pouco me importa se é de mim que riem, mas duvido, devem estar a contar as novidades, ontem uma dizia para a outra que nem os ossinhos escaparam, comi-o todo; faço que não oiço, faço que não vejo, procuro entusiasmar-me e dar a aula para alguns que estão interessados. não, não podes ir lá fora, então quer que faça aqui? Ignoro. Continuo. Vejo interesse na atenção e custa-me a maneira como alguns, em silêncio, aturam o mesmo que eu, mas estamos em minoria. Joana muda de lugar, traz para aqui as tuas coisas, EU!!, Porquê?, Porque EU QUERO! Olha, g’and’abuso!!, Joana sai, se faz favor. Ainda por cima, uma pessoa não 'ta a fazer nada, os outros é que falam e eu é que saio... mas vai ver, vou fazer queixa ao Conselho! Preencho um impresso, tenho de chamar a empregada e mandá-la acompanhar a aluna à sala da "gestão de conflitos", mas preciso de escrever a razão da expulsão e mandar tarefa a cumprir. (circula por lá um inquérito de um grupo de trabalho para saber que tipo de actividades os professores desenvolvem nestas salas de gestão de conflitos, onde se pensa pôr a funcionar uma bateria de actividades de carácter lúdico-pedagógico). Enquanto faço isso já a turma se esqueceu, já se dispersou. Retomo o fio à meada, estou a falar da maneira como os regimes faziam a sua propaganda. Voltaram a engrenar, minimamente. Entra uma empregada com uma ordem de serviço para ser lida que menciona uns alunos a quem foram aplicadas penas. Corajosamente e depois de muitas suspensões e outros tantos paninhos quentes, aquele Bruno do sétimo ano acabou por ser transferido para outra escola: primeiro instruiu-se o processo, ouviram-se os pais, os professores, a aluno, etc, etc, perguntou-se à DREL se era possível, se a ministra não nos mandava prender a todos com aquela decisão, agora é preciso saber se alguma escola o aceita, não se vai deixar o "menino" em casa porque está dentro da escolaridade obrigatória e os pais não iriam aguentar! Talvez agora já se consiga dar aula naquela turma.
A leitura da ordem de serviço desestabiliza… era o que faltava, g’andabuso! Havia de ser comigo, partia a escola toda, foda-se! Ricardo sai, agora tua vez, eu também sei dizer asneiras, Ricardo, mas aqui na sala não as digo, ok? Repito os procedimentos…
Não tenho cara para continuar a sorrir, gostava de ser simpática ou carinhosa ou sei lá o quê, para com alguns deles, os que me olham, à espera. Mas não tenho palavras para continuar.
Uma vez uma médica, a quem me queixei da frustração que às vezes me causa vontade de chorar quando chego ao portão da escola e me apetece voltar para casa, falava-me das histórias da indisciplina nos hospitais e dos doentes abusadores e dizia: “nunca mais quis aquele senhor no meu gabinete!”.
Eu tenho de estar ali todos os dias, eles têm de entrar, têm de ter aulas, têm de ser bem tratados… têm de ter planos de recuperação se têm mais de duas negativas, ok, eu escrevo isso tudo nas dezenas de impressos que aparecem por mês.
Apetece-me fazer como fazem os pais deles “não me chateies, faz lá o que quiseres e deixa-me em paz”.
Continuo a aula. Ainda procuro falar da Mocidade Portuguesa e de como era impossível a uma geração que aprende na escola a divinizar o chefe, ter outra atitude que não fosse a do respeito. Gostava de os levar ao estabelecimento do contraponto: o antes e o agora, o extremo da autoridade e o extremo da falta dela. Noutros anos era possível, eles gostavam de ouvir as histórias, traziam testemunhos das famílias…
De repente: stora, a Irina peidou-se! E zás, o Jorge levanta-se e muda para o outro canto da sala. A Irina tem 16 anos, o Jorge também. ahahahah, a Irina peidou-se… eheheheheeheh…. e a Irina joga a cabeça para trás a rir-se muito alto. Cheira muito mal quando me dirijo para a porta. Fico ali encostada, sem palavras. A Carla goza: ai peidou-se, eheheheh, peidou-se ... riem todos… saio, volto a entrar, digo que não tenho palavras e que os quero ver desaparecer todos da minha frente. Pego nas coisas, fecho a porta e desço a escada. Bebo um copo de água, não converso, não conto, não digo nada; apenas escrevo uma folha para o Director de Turma, mais uma… dou uns passos por ali, já não suporto a conversa das mulheres, somos quase todas mulheres que falam muito alto. E depois passam os dez minutos do intervalo e pego no livro de ponto para voltar a subir a escada e entrar noutra turma. Cumpro o dia. Estou debaixo de telha, tenho emprego, recebo o 13º mês, ganho mais do que o ordenado mínimo...
Amanhã tenho de voltar lá.


Não vim aqui choramingar para receber mimo. Não quero que venham dizer que tenho razão ou que não tenho. Não digam nada, leiam apenas e não escrevam nada!
Fiquem a saber que isto não é uma lamúria, um desabafo, um grito de socorro, não, isto é apenas um chegar à noite e pensar assim: amanhã tenho de voltar lá. Aquela (esta) é a minha realidade.
Bem sei que poderia ter de estar a trabalhar ao relento de fato-macaco ou a lavar escadas ou a perseguir ladrões, arriscada a levar um tiro ou a assistir aos que entram na urgência deitados, sem lhes poder valer. Bem sei que trabalho é trabalho e que o ganha-pão na maior parte das vezes não é aquilo que se quer, que se gosta ou com que se sonha.
Garanto-vos que no meu caso funcionou o gosto e a devoção, depois da vocação, há 24 anos.
Faltam ainda quantos?

Thursday, January 04, 2007

"Entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda"

Escher


“Impelido por outra situação talvez Einstein tivesse fuzilado gente em vez de descobrir tempos físicos e astrofísicos. Os carrascos de Auschwitz poderiam ter estado perto de uma importante descoberta no domínio da Bioquímica, e a prova é que se haviam interessado tão vivamente pela decomposição dos corpos. Assim a ciência e o crime poderiam ter entre si apenas uns passos de dança ou umas flexões de ginástica. Entre o bem e o mal uma mortalha de papel de seda.”

Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios


São apenas referências, estas, a excertos de um livro de que gosto muito pelo seu conteúdo reflexivo ou a pedir reflexão. Já tenho dito, em alguns comentários que deixo por aí, que sou leitora exigente e não é uma qualquer Rebelo Pinto que me faz perder horas de vida. Melhor, muito melhor do que isso temos aqui, e aqui e aqui e aqui, que me perdoem muitos outros mas hoje não os vou citar todos. Tudo a seu tempo.
Vem isto a propósito da notícia que há pouco ouvi acerca de mais duas execuções esperadas no Iraque para os próximos dias.
“Entre o bem e o mal uma mortalha de papel de seda”, diz ela numa obra que para mim é ímpar na sua teia narrativa, que parte de um relato escrito a posteriori por um não interveniente nos eventos relatados, e vai desmontando o relato louvando-o, mas provando, página a página, que aquilo que se diz depois "não vale a casca de um pêssego", e tudo o que fica do que passou é "uma memória fluida".
Ora para que ando eu às voltas com estas frases?

É que nas minhas andanças pela História acabo a concluir, vezes sem conta, que o passado é tão irrepresentável como a verdade; e por isso, o que se disser daqui a uns tempos não equivale nunca ao que se passou, quando o próprio jornalismo acaba por ser um rol de interpretações, a gosto (e a interesse) e de quem escreve e de quem manda escrever, referindo-se a coisas do presente…
Estaline apagou os sucessivos inimigos das fotografias (e nem photoshop tinha…); Auschwitz é dado como uma falsidade judaica pelas novas frentes nacionalistas austríacas e alemãs; Hitler mandou enterrar cacos para que os seus arqueólogos descobrissem nas escavações a lendária origem ariana do povo eleito, marcada por uma suástica que vai buscar as origens aos cultos celtas, aztecas ou hindus, entre outros.
Que outros exemplos? São inúmeros.
Lembro-me da estátua de Saddam Hussein a cair quando da chegada americana e lembro com igual espanto o que li há menos de uma semana sobre as declarações de Bush acerca da execução ocorrida: um passo para o processo de instalação da democracia no mundo, ou qualquer coisa assim… (o que se disser depois disto "não vale a casca de um pêssego")...

Questiono-me, como ela, acerca do bem e do mal.

E termino esta reflexão com um exemplo mais actual – Cavaco Silva diz que vai estar atento à actuação do governo. Referiu uma das áreas críticas (que me toca, naturalmente), dizendo que é hora de se começarem a ver resultados. Ele, que teve 5 ministros da Educação nos seus governos, qual deles o que deixou um rasto de maior mediocridade no acerto das reformas sucessivas que vieram a desembocar no ensino que hoje temos, ainda à nora com a melhor teoria para melhorar os resultados... ("entre o passado e o presente, uma memória fluída"). Há que fazer transitar os alunos para que se vejam resultados. Não importa que não saibam ler nem escrever. O que importa, isso sim, é que não saibam pensar. Cidadãos autómatos, colados às tecnologias, que não saibam ouvir um telejornal sem que o comentador respectivo venha ajudar a interpretar a notícia (qual notícia? O fait-divers, claro!)… Talvez venham a fuzilar gente, os meus alunos mais inteligentes, se o caminho que continua a ser apontado excluir o conhecimento da História, da Filosofia e de outras coisas importantes para se perceber outras razões para se estar aqui que não sejam apenas as teclas de um computador que, efectivamente, nos ligam ao Mundo.
"Entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda".
Teria pano para mangas se continuasse a escrever...

Deixo isso para quem quiser. Siga a dança!

Wednesday, October 11, 2006

Aristóteles - Sobre a Educação

É claro que venero os gregos.
Em linguagem mais ou menos lírica, na medida do meu próprio estilo, tenho deixado aqui hinos aos deuses. Sabe-me bem louvá-los na sua harmonia e na perfeição das suas formas. A figura humana é de uma beleza admirável.
Gosto também das simbologias presentes nos mitos e das suas explicações fundadoras.
Contudo, há outros aspectos que não merecem menor destaque no modo de pensar dos antigos gregos e as palavras de Aristóteles que hoje aqui deixo estão mais actuais do que nunca:


Que o legislador se deve ocupar antes de tudo da educação da juventude, isso ninguém pode contestá-lo. E efectivamente os Estados que se desinteressem deste dever causam um grave dano às respectivas constituições, pois é necessário que a educação recebida seja adaptada a cada forma particular de constituição. (…) E dado que há um fim único para o Estado no seu todo, é evidente que também a educação deve necessariamente ser uma e a mesma para todos, e que o cuidado de a assegurar cabe à comunidade e não à iniciativa privada; (…) E não é sequer exacto pensar que um cidadão se pertence a si mesmo; na realidade, todos pertencem ao Estado, pois cada cidadão é uma parte do Estado, e o cuidado de cada parte está naturalmente orientado com vista ao cuidado do todo.”
Aristóteles, A Política

Tuesday, July 25, 2006

Por onde andam os sonhos?

Li o texto. O assunto interessava-me e precisava de ocupar as duas horas em que o único aluno presente (faltaram quatro) fazia o seu exame de Francês.
André Comte-Sponville escrevia sobre o Maio de 68: «Mai 68, un souvenir de bonheur».
Depois resolvi o teste de exame e fui percorrendo as minhas memórias, não as do Maio, porque o não vivi (estaria na escola primária e era cedo para ouvir os ecos, se eles tivessem chegado) mas a de uma revolução, a de Abril, em que eu própria, muito jovem ainda, me vi de bandeira no ar, dentro da multidão, num ambiente caloroso e promissor. Sonhava. Eu e os da minha idade.
«Mais il y avait de la misère. Mais il y avait des bourgeois arrogants et des ouvriers harassés», diz Sponville na sua recordação, interrogando-se «comment un rêve prendait-il le pouvoir ?»
Enquanto o aluno resolvia as questões de escolha múltipla e contava as palavras que resumiam o outro texto, sobre o baby-boom dos anos 40, questionei-me também: onde estão agora os sonhos?
Olhei para ele. Foi meu aluno há oito anos, talvez menos, e estava ainda com o Francês por fazer para conseguir terminar o Secundário. Nessa altura já eu começava a queixar-me da indisciplina provocatória, ele próprio era rebelde, mas agora… “eles hoje são piores, não são stora?”
Certamente têm sonhos – terminar o Secundário, arranjar emprego, Universidade para alguns, uns por convicção, outros porque os colegas também vão, outros para adiarem o momento do desemprego, ainda que sem essa consciência expressa.
«Cours, Camarade, le vieux monde est derrière toi!», era o slogan pintado a letras grossas numa parede, lembra Sponville no texto do exame do Rui.
E agora ? Que pensará o Rui, ali às voltas com o dicionário, procurando a positiva que o ano passado não conseguiu ter? Sonha com o seu futuro? Com os desejos das pessoas da sua geração?
Sonhará que é possível mudar a sociedade? Melhorar o Mundo?
Porque converso com eles diariamente, tenho a noção de que não é isso que os preocupa.
Sim, alguns falam de Israel e do Líbano, mas não creio que a palavra Hezzbolah lhes diga alguma coisa. Raros são os que vêem ou ouvem notícias e não sei quem, de entre eles, compra um jornal. A Bola, talvez, ou um equivalente. À noite entregam-se aos Morangos com açúcar e sonham fazer um casting para aparecerem na TV e terem sucesso.

Sonhos? Cada vez mais os de CADA UM. Os dos outros são DELES e ELES estão todos muito longe. Salve-se quem puder!

Tão longe que estás Maio de 68!

Sunday, June 25, 2006

Começa a falar-se daquilo que me preocupa, a mim e a outros profissionais do ensino, há muito tempo

Não são as minhas palavras e ainda bem, para que não se pense que defendo irracionalmente a classe.
Também sou Encarregada de Educação, para além de ser professora. Estou, pois, dos dois lados.

(...) Porque entre nós, em Portugal, se verifica a maior das confusões neste domínio, presumindo-se, erradamente, que o aumento do número de anos de escolaridade acarreta, necessariamente, uma melhor preparação dos alunos, o que é estatisticamente falso porque um aluno "aprovado", em 1955, no exame da quarta classe, tinha grande probabilidade de saber: ler, compreender o que tinha lido, escrever sem erros de ortografia, contar, executar as quatro operações aritméticas básicas quer com inteiros, quer com quebrados, resolver problemas, de alguma complexidade, envolvendo o uso dessas mesmas operações e também das diversas unidades de medida de comprimento, área, volume, peso, tempo e ângulo, e, ainda, de saber uma série de coisas, úteis ou inúteis, sobre Geografia e História. Um aluno "transitado", em 2005, do nono para o décimo ano de escolaridade tinha grande probabilidade de não possuir nenhuma destas competências. (...).
Público, 23 de Junho de 2006, Avaliação de docentes, discentes e parentes, por Álvaro Pereira Athayde


(...) Anos e anos - décadas ! - de pedagogia romântica, assente no pressuposto de que as crianças são vítimas inocentes de uma sociedade repressiva e de que albergam na pureza dos seus espíritos imaculados tesouros de intuição e até de sabedoria ainda não contaminada pelo cinismo do mundo, mergulharam a escola numa anarquia. As pedagogias libertárias de finais da década de 60 - "é proibido proibir" - pegaram de estaca num país dominado por uma cultura cívica e política esquerdista, que prega a irresponsabilidade individual e só aponta o dedo à responsabilidade social. Ao longo dos anos e das décadas, o Ministério da Educação encarregou-se de esvaziar as escolas e os professores das suas competências disciplinares, na crença idiota de que os meninos e as meninas se poderiam corrigir com doçura, através de bons conselhos e benignas acções de recuperação. As punições foram praticamente abolidas. Alunos com 20 e mais participações disciplinares não são expulsos. Quando se abrem inquéritos, os alunos são ouvidos em pé de igualdade com os professores; ao cabo de vários meses redundam, na melhor das hipóteses, numa suspensão - que não conta para as faltas dadas: os prevaricadores são presenteados com alguns dias ou uma semana de férias. Em suma, a indisciplina na escola tem medrado a coberto da mais completa impunidade.(...)
Público, 23 de Junho de 2006, Vamos aumentar o descalabro?, por Maria de Fátima Bonifácio


A avaliação é imperativa. Avaliação dos professores, da escola, do sistema. Mas o projecto de avaliação dos professores implicando os pais seria a medida mais insensata de que alguém se poderia lembrar se não fosse, como é, um expediente demagógico para desviar a atenção do país da questão central da educação – a ideologia igualitarista e, ramos da mesma genealogia, as teorias pedagógicas delirantes impostas totalitariamente que transformaram a escola numa escola do faz de conta. Seria mais uma acha na fogueira da desvalorização do ensino, do descrédito e da humilhação dos professores, ferindo também aqueles que fazendo o impossível em condições tão adversas continual a salvar muitos alunos (...).
É claro que os professores têm responsabilidade na tragédia dos resultados, mas não são uma ilha.(...)
Repito: sem varrer o eduquês, sem varrer os especialistas sem emenda do ministério, não haverá sucesso educativo.
Público de 25 de Junho de 2006, O Inimigo Externo, por Guilherme Valente

Monday, June 19, 2006

Hoje foi dia de exame de Português


Onde está o sentido?
O mais directo, escondido nas estrofes de Pessoa.
Também eles são meninos da sua mãe e estão ali no cumprimento de um dever. Malhas que o Império tece?
É de malha o texto que articulam na folha da prova para se desenvencilharem das malhas da vida. As primeiras. Malhas grossas, digo eu que resolvo a prova já fora da teia, mas suspensa noutras, mais finas porque são as minhas.
Há sempre Impérios sobre a nossa razão mas nunca da mesma maneira; mas eles, que estão no meio de uma história, olham as estrofes e procuram-lhes o sentido; escrevem sobre a guerra em palavras sucintas, contando-as, uma a uma, para não excederem as normas, que as guerras não se querem longas nem detalhadas. E enfrentam a guerra pelo sucesso que tentam nas estrofes de Pessoa ou na virtude de Gomes Freire de Andrade, exemplo que se quer comparativo, por ser combativo.
Sabem de lutas? Sim, as da História, vagamente. Ler o passado ainda faz pouco sentido. É no futuro que o procuram, os meninos das suas mães, e agora, aqui, nas estrofes do poeta.

Wednesday, May 24, 2006

Sobe que sobe, sobe a calçada…

Depois fui trabalhar, mas já tinha ido às compras e deixado o almoço feito. Antes tinha estado a ajudar um dos filhos a rever um trabalho mais exigente cuja apresentação era hoje, no IST. (correu bem, já sei). Tinha estado também a ler até tarde, coisas de trabalho, também, mas outro, um que faço por conta própria e sem remuneração. E não é só por prazer, porque isso seria ter um livro para ler e não o fazer. É que não me apetece estar no mundo por ver os outros, e a preparação das aulas mais a correcção dos trabalhos e a organização de materiais é coisa de pouco desafio, ao fim de uns anos. Absorve tempo, sim, mas não satisfaz. Podia dizer que é para estar melhor preparada, que é pela exigência do meu público, pela boa preparação que lhes quero dar. E quero. Só que não tenho resposta. Mas, ainda assim, não se pode entrar numa aula de 90 minutos e esperar que 20 e tal adolescentes nos oiçam. Teoria? Nada disso. Levava, pois, a mala cheia de papelada, textos, cartolinas com imagens, bostik para as colar no quadro, fichas de trabalho…
Dormi pouco, portanto. E a escola já não é o lugar para onde costumava ir com gosto e vontade de novidade. Apetecia-me tudo menos confusão.
À chegada, ainda antes de entrar ao portão, dei de caras com muitos e muitas, todos ao monte junto aos carros estacionados. A maior parte dos carros são deles e é vê-los à saída todos inchados porque vão pegar no popó e fazer figura. Os professores (os que têm carro) têm de estacionar onde calha…
Estou a falar de uma escola secundária, onde agora também se misturam meninos do ensino básico, tudo junto e em guerra.
Ali estavam umas dezenas de cabeças com bonés, reparei nisso, pareciam equipas diferenciadas, uns de lá e outros de cá, assistidos por terceiros que esfregavam as mãos porque ia haver porrada…
Vi-me metida no meio, jé eles se empurravam. Fiquei com os ouvidos cheios das palavras que eles mais sabem dizer. Não me atrevo a repreender ninguém, não resulta, já fui insultada quando o fiz. Eles não chegam a perceber porque é que é incorrecto dizerem “foda-se” e “caralho” 799 vezes por dia, em todos os lugares públicos e privados; e não acredito que todos os progenitores sejam trabalhadores da construção civil.
Chamou-se a polícia. Não vieram.
Depois passei a tarde a fazer telefonemas porque os que eram meus alunos podiam ser meus filhos e se fosse eu a mãe ficaria grata a quem me dissesse que à porta da escola se fazem esperas, um gang de cada lado e os carros cheios de paus e ferros.
Só me faltava dar uma aula para acabar a tortura. Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade. Direitos do Homem e do Cidadão… e eu entusiasmada com as analogias que ia trazendo à conversa. Meia dúzia a ouvir e os outros em pleno galinheiro. Um canta baixinho. Quando me calo, cala-se; quando recomeço, recomeça. Uma derrama o tubo de cola sobre a mesa e põe-se a guinchar. Separo dois. Amuam e dizem que já não trabalham mais. Um deles ainda diz “Pois agora é que vou mesmo portar-me mal”. Ponho alguém fora da sala? Quem???
Quero continuar a esquematizar, no quadro, aquilo que muda num país com uma revolução. Gostava de lhes explicar o que é uma constituição e o que é o poder legislativo e quem o desempenha nos países democráticos…
Uma voz diz “Nós também somos povo e devíamos era fechar na sala de professores os cotas todos que nos atrofiam com estas tretas”.
Cansei-me. Parei. Tentei brincar… às vezes resulta.
Saí.
Amanhã volto para o mesmo lugar.

Monday, April 17, 2006

Pela dignidade da Língua Portuguesa


É um assunto muito sério.
Quem está ligado ao ensino tem plena consciência de estar a contribuir para a formação de cidadãos que não sabem apreciar a beleza de um texto pela falta de contacto com a literatura.
Se ao menos eles saíssem em condições de preencher um formulário ou redigir um requerimento, podia dizer-se que tinha tido efeito a reforma aplicada de há seis anos para cá. Porém, eles têm de contar palavras em pleno exame, porque lhes é pedido que redijam um texto argumentativo a metro, entre outras coisas.
De futuro parece que vão ter de usar também cruzinhas, porque as perguntas de escolha múltipla vão fazer parte dos exames de Português.
E o saber escrever, o saber usar a palavra ou apreciá-la no seu valor literário?
Precisamos apenas de cidadãos que saibam usar o teclado para redigir abreviaturas? Ou para escrever em blogues, ainda que com erros ortográficos?
Há uma petição aqui, originária de uma professora de português que se tem recusado a cumprir os novos programas. Com um pouco de paciência e alguma vontade lê-se e toma-se posição. A bem do uso da língua portuguesa.

Thursday, March 02, 2006

Os irmãos dos irmãos

Carina – Vou passar o fim-de-semana com a minha irmã mais nova, em casa do meu pai.
Professora – E dás-te bem com ela?
Carina – Sim, a minha mãe é que não se dá, mas eu gosto de ir lá!
Catarina – Ai eu também costumo ir, mas eu tenho um irmão do lado da minha mãe e uma irmã do lado do pai. Já viu, professora, que grande família.
Rita – Eu então é assim: somos duas irmãs dos mesmos pais, mas cada uma vive com uma avó; a minha mãe não mora cá e a mulher do meu pai teve bebé a semana passada. Agora somos três raparigas e dois Fábios.
Diana – Dois?
Rita – Sim, um Fábio que é filho da minha mãe e outro Fábio que é filho da Beta.
Professora – E quem é a Beta?
Rita – É a namorada do meu pai, a que teve a menina.



A Rita é a recordista das negativas na turma – teve 12. Já conseguiu subir a duas. Está proposta para aulas de apoio, ela e os outros 13 alunos que têm negativas em número aproximado. Mas não vai. Já chega de secas, diz ela!
Provavelmente passa para o 9º ano porque o 3º ciclo é constituído por 3 anos e reter um aluno exige planos de recuperação, justificações do insucesso, declarações de autorização da parte dos pais e outras coisas relativamente burocráticas. Além disso o Encarregado de Educação devia tomar conhecimento de que a Rita, que tem 15 anos e está fora da escolaridade obrigatória, já excedeu o número limite de faltas que pode dar. Mas como a avó nunca veio à escola e nunca levantou a correspondência registada, não se pode dar sequência ao processo.

Wednesday, March 01, 2006

Que fazer?

"A formação dos alunos para a cidadania (...) A tomada de consciência da personalidade própria e dos outros, a participação na vida da comunidade, o desenvolvimento de um espírito crítico, a construção de uma identidade pessoal, social e cultural instituem-se como eixos fundamentais nesta competência. Estes factores implicam a promoção de valores e atitudes conducentes ao exercício de uma cidadania responsável num mundo em permanente mutação, onde o indivíduo deve afirmar a sua personalidade sem deixar de aceitar e respeitar a dos outros, conhecer e reivindicar os seus direitos, sem deixar de conhecer e cumprir os seus deveres. Trata-se, em suma, de levar o indivíduo-aluno a saber viver bem consigo e com os outros".
(do programa de Português)


"Ora, os jovens, na fase de desenvolvimento em que se encontram durante a frequência deste nível de ensino, necessitam de referentes seguros que lhes permitam interpretar as realidades sociais que com eles interagem; que proporcionem fios de inteligibilidade entre as grandes questões nacionais e os problemas decorrentes de uma globalização cada vez mais envolvente; que se constituam como apoio para as escolhas que inevitavelmente terão de realizar. Nesta perspectiva, a História, cujo objectivo último é, afinal, a compreensão da vida do homem em sociedade, configura-se como uma disciplina de eleição"
(do programa de História)



Ao fim de alguns anos de trabalho gratificante...
... estou quase a render-me!

Alguém sabe dizer-me porquê?