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Thursday, April 06, 2006

O cheiro da Igreja


Podemos ver nesta história que a minha avó me contou e à qual eu acrescentei as cores, os sons e os cheiros, um qualquer filme português ao estilo neo-realista (porque o António Silva já não é vivo; se o fosse dar-lhe-ia o tom desconcertante da comédia prosaica).

Mas é com este acto de cinema (ou argumento?) que apresento a minha segunda participação para o concurso promovido aqui.




Quando as alpercatas iam chinelando sobre a areia, abrandava o passo, mas se as carrasqueiras rareavam o sol castigava e andava mais depressa. Debaixo do chapéu de palha ainda tinha a protecção do lenço, atado em duas pontas debaixo do queixo, misturando-se o cheiro fresco das estevas com o da transpiração e colando-se as meias à magreza das pernas.
Seguia apressada, as mãos a darem o impulso da marcha, de trás para a frente, da frente para trás. Sentia a pieira no peito e o respirar era ofegante mas já avistava as primeiras casas da vila. Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos, à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas. Depois os palheiros, casinhas de adobe rasteiras ao chão, com telha muito gasta, as empenas a esboroarem-se gastas da esturração do estio e do salitre que soprava do suão, nos temporais invernosos. Dos poiais caíam cachos de malvas e alegrias da casa, dispostas em restos de vasos, ou metidas dentro de cestas de palma entrançada. À roda das casas corriam os moços pequenos, zurzindo latas, caras sujas e pés descalços, os paninhos das camisas a saírem dos suspensórios com que seguravam o cotim gasto das calças, transformadas pelas mãos destras das mães, que vinham para a rua ao fim das tardes – era a hora da lazeira, diziam –, sentadas nas cadeiras de vime, com a ceirinha das linhas e das agulhas, onde havia sempre um ovo de madeira para remendar as meias.
Destacavam-se os caboucos do casario, de encontro aos cerros que fechavam a vila, vendo-se no chão as fendas da terra seca. E ouvia-se o canto das cigarras. Os cães vinham ladrando ao caminho enquanto Justina se afogueava e limpava o suor com as pontas do lenço.
- Ó ti Juliana! Chegue-me daí um cucharrinho de água!
A mãe da comadre levantou-se largando a empreita e lançou a corda à cisterna, ouvindo-se o eco do balde batendo na água fresca. Justina levou a cortiça à boca e refrescou depois as mãos e as maçãs do rosto.
- Vou à Igreja, ti Juliana.
- Mode quê, filha? Hoje nã é dia de missa.
Não ia pela missa, ti Juliana, mas pelas velas. Não, não era promessa; os moços estavam bem, lá andavam guardando as ovelhas e Constantino ficara deitado. Não era homem de muita azáfama, desde que tivera de salvar uma ovelha das águas da ribeira e desmanchara as costas. Para isso lá estavam os rapazes que, na escola, não tinham futuro. O mais velho não podia, que os rebanhos precisavam de mão firme. No princípio ainda foi, mas fugia da professora e subia às figueiras, escondendo-se dos puxões de orelhas. Era mau de aprender. Os outros eram tenrinhos e a escola era longe.
Justina entrou na igreja e soube-lhe bem o contacto com a frescura. Sentou-se, aliviando o lenço, abanou-se com a palhinha do chapéu e fez as contas, mais uma vez: o António estava a mamar há um ano. Enquanto amamentava, o corpo ia engrossando, nunca sabia se era o leite que lhe inchava o ventre ou se já engenhava o próximo filho. Respirou fundo. Era ali que costumava tirar as dúvidas.
- Comadre ‘Estina!
Era a Maria da Venda, de lencinho preto em jeito de bico na cara enrugada; fazia a limpeza da Igreja e tinha ajudado a lançar água benta sobre o mais velho, quando ainda tinha o homem com ela.
-‘Tá uma calma lá fora!
- E eu nã sê? Vim por aí à pressa…
Fora a companheira dos bailes, em dias de festa. Lavavam a roupa na ribeira, de manhã, as pernas metidas na água durante horas, enquanto a espuma corria pelas pedras; depois lançavam os trapos coloridos às cordas, estendidas entre duas pernadas de alfarrobeira. À noite vestiam cores garridas e iam dançar. Constantino fazia tinir o ferrinho no triângulo, suspenso na outra mão, enquanto lhe deitava sorrisos pelos olhos, ao som do baile mandado: “Tudo certo e devagar; palminhas, mãos ao ar!”. E elas batiam as palmas acertando o passo corrido com o deles. Constantino puxava-a pela cintura e fazia-a rodopiar, enlouquecendo-a com a música dos beijos prometidos: “Palminhas acabou e ninguém se enganou!”
Justina pegou numa vela e acendeu-a, virando-a sobre o coto de uma outra. O lenço deslizara-lhe para os ombros e o carrapito empinava-se na nuca, basto e muito negro.
Das outras vezes, quando vinha na dúvida, mal entrava na Igreja sentia-se agoniada, ou pelo cheiro das velas ou pelo incenso queimado. Qualquer coisa, lá dentro, lhe despertava os sentidos.
Sentou-se de novo e esperou. Depois franziu a cara; aquele enjoo voltava; a água crescia-lhe dentro da boca e o bucho a revirar-se, a revirar-se. Fincou as mãos na barriga e depois levou-as aos olhos, escondendo o rosto.
- Que tens, mulher? Valha-me Deus, estás toda branca!
- Vem aí mais um, Maria, valha-me Deus a mim.

Tuesday, April 04, 2006

Toda a infância cabe numa caixa enferrujada


Inspirei-me numa cena ou numa ideia colhida no filme
"Le fabuleux destin d'Amélie Poulain".
Sei que é um filme que dá para mil e uma abordagens mas resolvi pegar na
caixinha das memórias...
E é com este acto de cinema que vou concorrer ao Escritor Famoso que está a ser promovido no blog Divas e Contrabaixos.


Nesse dia tinha sonhado com o pai. Dir-se-ia que andava enleada nos caminhos da reconciliação com as memórias. Ela ou a parte de si que se escondia da racionalidade.
Foi depois do sonho que sentiu desejo de voltar à casa antiga. Vestiu-se de roupas novas e recuou no tempo. Paradoxo certeiro mas eficaz nas intenções porque foi na estação do comboio que o passado começou, enquanto o cheiro das travessas da linha se alojava no sentir antigo, quase até ao silvo da locomotiva e à “pouca-terra” anunciada ao longe. A viagem deu-lhe tempo para desejar ter pressa e por isso empurrou com força a porta, depois de ter estado presa ao brilho que o sol reflectia nos vidros. Ofuscada, talvez, ou à procura da paz que lhe guiasse os passos, frente à entrada.
Estava escuro e cheirava a mofo. Lembrava-se agora que tinha prometido uma limpeza aos móveis e às paredes, mas já não sabia há quanto tempo. O que sabia era de um cheiro próprio dali, um cheiro que vinha do lado de dentro. Todas as casas têm um lado de dentro mas ela sempre lhe tinha virado as costas. E foi nessa posição que fotografou as nuvens com a imaginação, vezes sem conta, prometendo a si própria que havia de seguir com elas. Cumpriu a promessa, num dia de céu carregado, antes de desabar o temporal. Ou foi por isso que ele desabou.
Agora, porém, virada para a entrada, conseguia ver o caminho a vir na sua direcção. Era curiosa a percepção de um simples exercício a inverter a perspectiva das coisas por explicar.
Entrou no quarto e percorreu devagarinho a familiaridade do espaço, enchendo as narinas de infância. Abriu depois as portadas, devagar, e olhou para o sítio onde sabia estar pousada a caixinha. Sentou-se na cama e pô-la no colo. E assim ficou.
Antecipou a primeira recordação. Sabia que a fotografia lhe iria mostrar o vestido branco de saia muito rodada, saltitante dentro daquele momento que o pai captou num dia de festa.
“Ela gosta de andar aos saltinhos pela casa e de furar os bolos quando saem do forno. E não se queima. Mas não gosta de ajudar a mãe nem de arrumar os brinquedos depois de estar uma tarde inteira a imaginar personagens”. Era assim que o pai dizia às visitas.
Contudo ela sabia que gostava de muito mais coisas.
Gostava de soprar serpentinas para as ver soltarem-se, livres; de encostar o dedo com cola à madeira ou às capas dos livros para sentir a proximidade das coisas; de ver a pedra a fazer ricochete nas águas do charco e sorrir da irreverência de um objecto pesado a soltar-se em voo. De colocar no colo uma pilha de livros para começar a saborear o primeiro, sobre o cheiro das folhas dos outros. E de deixar as suas personagens nos lugares das histórias, não fosse perder-se a vida que lhes criara.
Abriu a caixa. Olhou os objectos um por um e levou o búzio ao ouvido. “Pai, deita-te nas ondas e pousa-me nas tuas costas. Faz-me sentir que estou a nadar, que as águas são transparentes e eu hei-de dar-te amor pela vida fora”.
Depois o boneco de barro que tinha enfeitado os presépios, ano após ano. Tantas vezes brincara com ele deitando-o nas palhinhas para o proteger do mal. E tanta era a solidão herdada que tinha de olhar as caras dos outros no escuro do cinema; e os abraços dos outros dentro dos carros, ao sol-posto; ou andar pelas ruas cheias de gente, ao domingo, para lhes ouvir as vozes. E sentia-se quase como a figura feminina de Renoir – estava no centro mas a ver de fora. Por isso via como o passar do tempo a tinha feito recusar o enleio do todo e como as horas passadas à mesa eram sempre as mais penosas por estarem juntos e em família. “Jesus faz com que eles se dêem bem e não discutam”.
Pegou na conta de vidro verde e sentiu, através dela, o pêlo branco do gatinho de corda trazido de um país frio. E na caixinha de baton, a cheirar a maquilhagem velha, junto dos brincos de pendentes pretos com lantejoulas a lembrar a tia. Tomara-lhe a entoação e dizia como ela, enquanto fazia falar as personagens de plástico sem cabelo “Nunca existe a felicidade completa”.
Pegou também no lenço roxo que a mãe usava e cheirou-o de novo. E sentiu nele a alegria dos fins de tarde, quando a mãe inventava esconderijos pela casa à espera que ela a descobrisse; riam-se as duas, riam-se tanto… até que a mãe dizia “O que será que está para acontecer?” Depois o pai chegava e não havia mais brincadeira.
Foi nessa altura que deu consigo a limpar as lágrimas ao lenço roxo dos dias frios.

Depois fechou tudo, caixa, janelas, memórias e por fim a porta da entrada. E foi mais uma vez de costas para a casa que partiu, ao ritmo das nuvens.

Thursday, October 06, 2005

As palavras da memória

Texto para concurso - Divas e Contrabaixos - a propósito das memórias do Escritor Famoso.


Há momentos em que paramos. Subitamente. Como se o corpo estivesse em exaustão e precisasse de recompor-se da corrida diária que é a vida.
Não se trata de parar para pensar, para desbastar a ideia que anda há semanas a ocupar a mente como onda espraiando-se sobre o areal da praia em dia de Agosto. Paragens dessas tive-as amiúde. Resultaram em páginas saídas das minhas mãos como pedaços de mim e espalhadas depois pelos olhos dos outros, olhos atentos, olhos de converter palavras em coisas acabadas com desfechos estranhos à minha compreensão.
O que deixamos escrito sai de nós para não nos pertencer mais. O que conservamos na memória permanece em nós e, se não o dizemos, é como se nunca tivesse acontecido. E dizemo-lo quando paramos.
Por isso trata-se, agora, de parar mesmo. Exercício de pacificação do espírito, memória que se acende em busca dos cheiros e dos gostos, das cores e dos brilhos que ficaram na infância e vão ressoando no tempo. Tempo de menino a combater os piratas, de espada em punho, num cantinho do quarto, herói de histórias inventadas, reais no espaço mágico do cavalinho de baloiço e da mesa redonda à volta da qual se sentavam os cavaleiros feitos de casacos sobre o espaldar das cadeiras. Tempo de mãos de mãe sobre os olhos, sobre a lágrima que molhava a face, sobre o bocejo do cansaço que sobrevinha às horas de brincadeira. E de voz de mãe a embalar nas cantigas. Tempo de janela fechada ao voo dos monstros que povoavam os pesadelos dos dias mais frios, quando o Outono derramava sombras amareladas e o cair da tarde deixava desenhos sobre o papel da parede. Tempo de colo, tempo de passos contados sobre o xadrez do ladrilho a caminho do baloiço pendurado na árvore mais robusta do jardim. E de gnomos sob a folhagem, ao fundo da sebe, aguardando a minha visita. E de línguas de sol a fazerem soar os bons dias, melodia da brisa que entreabria a copa das árvores e chegava a tempo de aquecer o gelo dos caminhos onde os homens pequeninos obedeciam às minhas ordens. Tempo de regressar a casa, ao cheiro dos livros, imponentes no couro das lombadas e nas letras que a minha infância já sabia serem tesouros. Tempo de azinho queimado em labaredas que atraíam os gatos e com eles os meus olhos que já escreviam palavras no cheiro dos veludos da sala.
Tempo em que a memória se enche de palavras. E de saudade.

Wednesday, October 05, 2005

O escritor famoso


Temos mais uma edição do concurso " O Escritor Famoso" no Divas e Contrabaixos. O mote são as imagens da memória do escritor. Participemos.