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Wednesday, October 22, 2008

A escrita e os símbolos

Escher

O exercício da escrita tem de ser um exercício de prazer. Podemos senti-lo como fonte de maior ou menor sofrimento se nos centramos nos nossos dramas ou nas nossas dores. Mas isso seria demasiada exposição trazida aqui a um lugar visível.
Criamos, então, personagens vivas e falamos por elas. Personagens que não se aclimatam ao normal curso do tempo e declinam com o voar das folhas secas; ou que se atrevem a desafiar a modorra estival gritando sobre a extensão dos mares; ou que se aconchegam, saídas do tempo, em pequenos nadas que transformam em grandezas de encher vaidades.
Neste acto criativo usam-se as palavras em jogos se sentimento e culpa; em distracções de bem-estar e anseio; em exercícios de representação do que não foi mas podia ter sido; em projecções dos nossos desejos ou dos desejos dos outros, já que os adoptamos e adaptamos.
Na Elipse há dois centros, nunca se sabendo qual dos dois corresponde ao que está para além do ficcionar. Ou o que fica aquém e ela converte em linha que se curva, certinha, sobre um e outro foco. Nada se pode colar à fidelidade do que aconteceu. Tudo símbolos.
Aqui o exercício da escrita é prazer puro.





Saturday, October 14, 2006

Lenga-lenga-lenga

Escher

Dou um passo no espaço, colo os pés às areias, prendo os passos e os braços, localizo as estrelas, fecho os olhos e canto, dou um salto no escuro, olho a lua a nascer, sinto o mar à distância, ouço os montes e os vales, as colinas, as rias, a folhagem que mexe; sinto as asas que nascem, debutando nos braços, sinto as ondas que galgam, as fronteiras riscadas, os ribeiros que correm, os rebanhos que aninham, gotas de água nas nuvens, as gaivotas rasando, o mar em tons de bruma e a forma a perder-se, entranhada na névoa; sei de um rio que brotou, sei de um peixe dourado, sei da ponte que liga, sei dos eixos da vida, sei dos passos parados a lembrar as viagens, sei do sangue nas águas e das lutas eternas; vi os homens nas naus, vi o vento nas velas e o sangue a espalhar-se sobre as águas sagradas; e uma barca sem quilha e uma arma disforme disparando às escuras sobre os povos sem culpa, sem uma nesga de espaço, que se diga inocente, sem um metro de terra ser poupado à sangria, sem que um deus ilumine a fadiga dos dias, sem que um passo no espaço diga ao corpo que avance, diga ao corpo que exija, que antecipe a surpresa, que consagre o momento em que o espaço se alarga e a vida se espraia.
Dou um passo no espaço, dou um salto no escuro, solto os eixos da vida, digo ao corpo que dance e às asas que voem.

Tuesday, August 01, 2006

Os diálogos do desejo (mas também o desejo dos diálogos ou a sua impossibilidade por pequenas diferenças de formato)

Magritte

Por causa das reflexões dela, aqui.
Não temos que comprar o pano e esperar que a modista trabalhe as formas elas existem feitas para se nos moldarem ao corpo e nos decepcionarem quando não cabemos nos padrões vindo daí o sofrimento de não podermos ser como os outros que por sua vez cabem nas formas mas viram apagar-se subitamente o fogo da paixão que dias antes ardera em prazer partilhado e consumira depois a cabana ainda sem tecto.

Poder dar forma aos dias sem ter de inventar os outros para que a realização pudesse ser real; poder usar todas as formas de egoísmo sem que o fosse ou se lhe assemelhasse por mais que os braços se cruzassem sobre o peito fechando neles o desejo satisfeito.

Não temos que nos fechar sob um tecto de vigas sólidas quando sabemos que aqueles que conseguiram afirmar a transparência das paredes correram o risco da claustrofobia e acabaram por lhe sentir o peso inteiro quando as vigas desabaram e os esmagaram em vez de os protegerem da dor que continuamente combateram com pílulas e outras invenções que aliviam o mal-estar do dia-a-dia que desejavam leve e solto como a corrente de um rio que os levasse ao rumo certo sem que alguma vez tenham sabido o que é certo por inventarem as certezas projectando no outro ou nos outros o que neles pede a forma.

Poder dar solidez a uma casa deixando-lhe as aberturas certas para entrar e sair nas alturas certas sem que os alicerces oscilassem mesmo quando apetecesse mudar a forma e cruzar os braços sobre o peito fechando neles o desejo satisfeito.

Não temos de ficar permanentemente à espera que na vida exista muito mais do que isto ou aquilo a que chamamos sonhos sendo eles nada mais do que coisas de desejo que para tornarmos nossas exige que tenhamos de envolver o outro ou os outros cada um deles com os seus sonhos-desejos inventados também numa medida que devia ser a nossa mas não nos serve vindo daí outra vez o sofrimento de não podermos ser como aqueles que aos nossos olhos são como pétalas que a corrente mansa leva a rumo certo.

Poder usar todos os verbos na primeira pessoa de todos os tempos e modos;
Poder trazer a segunda pessoa ao modo que mais satisfaça sem que isso seja uma forma de egoísmo e dizer que nada foi invenção mas comunhão e que a vida é isto e muito mais sem que falte o cruzar de braços sobre o peito depois de fechar neles o desejo satisfeito...

Friday, July 21, 2006

Deixa-me ficar na sombra


Não tinhas necessidade de me prender ao corrimão das palavras que eu não sou capaz de dizer para aí me deixares refém das tuas interpretações; não, não trouxe os phones desta vez, ouço tudo o que dizes e adivinho-te também, não penses que és o dono dos olhos alheios ou do som das palavras que eles dizem a ressoar na ampliação dos teus modelos. Grades.
Nem tinhas necessidade de me encaminhar para os degraus de um incómodo que em certos dias é dilacerante, particularmente se antes ouvi uma música já de si melancólica, que nem é tanto a música, mas as palavras com que ela é dita. Ecos.
Estou cansada dos círculos com que me envolves e da corrente que prendeste à estante para que as minhas mãos lá fossem ter e eu a querer soltar-me de gradeamentos antigos e a prender-me noutros que ameaçam eternidade em folhas já lidas. Repetições.

Sei que quanto mais me olhas mais confirmas a ordem de prisão, sabendo da fragilidade da minha teimosia.

Viste como me encantei com a palavra teimosia mesmo vestida de fragilidade?

Friday, June 30, 2006

Razões dialogadas

Se te pedi uma razão é porque quero subir a escada sem o terror da queda, nadar em águas que não sejam fossos cercadios, correr de pé e depressa até me pôr a salvo, deixar soltar o grito com som audível.

Por isso também me pões à prova.

Se te pedi uma razão é porque não me apetece que ouças as palavras que não digo ou as que brotam da forma elíptica do meu dizer e que eu não sei aguçar sem sair ferida ou as que me forças a dizer colocando a grade onde o caule se enrola tenro.

Fere-me. Já te ouvi falar de esgrima.

Por mais razões que me dês hás-de saber que eu não ajoelho diante dos altares por não ser capaz do gesto.

Estes deuses são só meus. Estás protegida.

Não. Estou despida.

Thursday, June 29, 2006

Diálogo emprestado à razão


Dá-me uma razão para continuar a contar os passos sobre a espuma das ondas em vinte minutos de reflexões antecipadas enquanto aguardo o momento de te olhar de frente para uma conversa de palavras escolhidas.

Não sei a razão por que vieste…

Dá-me uma razão para me manteres refém do verbo no pretérito imperfeito ignorando o meu desconforto ou estimulando-o ante a perspectiva da revelação que pode não ser surpresa.

Não tranquei a porta, foi tudo uma coincidência.

Dá-me uma razão para a descrença, nem que tenhas de me analisar os genes para descobrir neles a raiz das minhas construções sem alicerces ou das escadas de onde me sinto cair lentamente quando tento subir.

Não te fiz crescer nem posso sem que tu queiras. Mas não fiques aí em baixo. Sobe.




Thursday, April 27, 2006

Podíamos jogar à cabra-cega

Santa-Rita Pintor
Onde estão os meus olhos agora que me despedaçaram as formas?
Como faço para recuperar os sentidos se o que sinto são tímpanos opacos e a visão engole as palavras sem as diferenciar?
Terá sido o efeito maléfico dos sonhos ao acordar ou o incómodo de viver para além do passar das horas?

Sunday, April 09, 2006

Mnemotecnias

Dali


São areias da praia onde repousam poças de água muito transparente com relva a despontar do fundo ou escarpas a pique com abismos à vista.
E eu percorrendo os areais ou sentada na rugosidade da rocha, mas sempre sob a ameaça da queda lenta e eterna.
Também podem ser escadas que me transportam para os lugares cimeiros donde caio invariavelmente como se o filme passasse devagar e nunca acabasse; ou caio para um lugar vertical muito elevado que dificilmente me acolhe, tal é a estreiteza, estando de novo a queda à vista. Devagar.
Outras vezes são passagens apertadas onde poderia caber o corpo de uma ave, nunca o meu; contudo eu teimo e fico aprisionada em sufoco porque algum perigo me apressa na passagem e eu tropeço na roupa ou corro de joelhos e nunca chego ao meu destino.
Ou barcas perto das margens mas sem leme. Ou gritos abafados numa voz que não existe. Mas sempre com perseguição ou outro perigo que não identifico por falta de tempo.
Aflijo-me também perante folhas e folhas de palavras que não decifro. Mas estão lá à minha espera.
Convoco pois os relógios deformados e os violinos dobrados sobre as areias dos desertos, os cavalos de dorso suspenso ou as gavetas dos corpos putrefactos, a beleza comestível e as ruínas dos poços iniciáticos. Eterno retorno este, que os mecanismos do invisível operam no teatro da memória.
Ah, mas recuso os deuses pregados nas paredes em crucifixos dourados. Não me sujeito aos modelos, embora finja.

Wednesday, March 22, 2006

culpas sem valor

E não me venhas falar de culpas, que já me desgastei em penitências bárbaras sem olhos que me vissem ou mãos que me agarrassem no caminho.

Fala-me antes de prazer que a vida é esse vestido em tons de cinza deslavada se não se encontra a arte de inverter o curso imundo das coisas consentidas.

E não me digas que devia fixar-me em coisas simples, que outra coisa não desejo há décadas, incapaz de baixar os olhos para a leveza das marcas na areia mesmo sabendo que é esse o trilho.

Diz-me antes que também posso encontrar satisfação noutros lugares mesmo que a aridez dos caminhos me retardem a vista das coisas complicadas. Hei-de chegar-lhes.

Wednesday, March 15, 2006

Peso a mais ou balanças mal aferidas

Não me venhas falar de estruturação, que a vida é muito mais do que um esquema, muito mais do que as linhas de um gráfico, ainda que flutuante.
Não me venhas dizer que a harmonia passa pelos modelos explicativos, que eu já confrontei os anos que passaram com os anos que ainda faltam e não vejo registo de balanços, embora possa dizer-te que houve ganhos e houve perdas.
Não me venhas sugerir o cheiro do mar em dia de ondas batidas, ou a respeitabilidade do universo, que já relativizei a minha permanência até ao infinito e não sei de outra pequenez mais naufragada.
Não me venhas mostrar as palavras editadas, que a minha ambição reside no conteúdo de mim mesma e a balança não tem fidelidade que me satisfaça.
Não me venhas afirmar possibilidades, que as alvoradas são ainda fáceis antes da dificuldade de sucumbir ao não querer mais do que o desejo feito fragilidade.
Não me venhas escutar ao fim do dia, que esse é o momento em que não sei dizer de mim mais do que a gradação do silêncio dentro de uma catedral sem sinos.

Thursday, December 29, 2005

Anúncio de Janeiro com Primavera ainda adormecida

Eu dizia:
“Nenhuma brisa é triste”,
e procurava água, lábios,
um corpo
onde a solidão fosse impossível.*


Eu dizia que todos os ventos vêm carregados de tristeza. E que os silêncios pesam quando os ventos acalmam, fazendo sentir a distância a que estamos dos lábios ou do corpo. Ou apenas da música cativa nos dedos, quando os dedos acariciam. Ou ainda e tão só a distância que construímos para fugirmos de nós próprios e tornarmos possível a solidão.

Mas quem sabe dessa música
cativa nos meus dedos?
E depois, como guardar um beijo
mar doirado ou sombra
desolada?*

E dizia ainda de um beijo saudoso em tempo de festas ou de memórias acesas pelas iluminações que encantam almas outras que não esta, saudosa e inquieta, a guardar beijos como quem guarda folhas secas dentro de uma gaveta.

Recordava um rio
álamos
o sabor da chuva,
tropeçava em lágrimas e soluços
e lágrimas, e procurava.*

E digo ainda que o sabor da chuva tropeça também nas preces soluçadas, persistentes na procura dos álamos guardados em folhas-memórias, ainda frescas, ou em palavras-lágrimas que afectam a memória dos afectos.

Como quem se despe
para amar a madrugada nas areias,
eu dizia: “Nenhuma brisa é triste,
triste”, e procurava.

E procurava.*

Digo-o, ainda, como se me despisse para depois procurar uma brisa de sabor novo e me vestir com ela.


* Eugénio de Andrade - Ah, falemos da brisa