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Tuesday, May 12, 2009

À espera...



Sentados em cadeiras de fundos gastos, em salas pouco arejadas onde os encostam às paredes para que aguardem, calados, a chegada do fim, os velhos fecham os olhos e viajam no tempo. É um movimento ao contrário; em meninos projectavam-se nos dias que estavam para vir, agora não há dias para além do dia; já não lhes importa que alguém venha, depois de terem lutado em vão para que alguém os levasse. Agora ouvem, em registo longínquo, as músicas encantadas dos dias antigos ou sentem discretamente os beijos, de tão distantes. Agora recuam à infância e esquecem o que se passou ontem. Agora, destapam apenas as extremidades de uma pele que se gastou no fazer das coisas e que se amaciou nos afagos. E a mão forte, longa de agarrar, não é mais do que a mão velha que aguarda, de olhos fechados, o passar do tempo.


Tuesday, February 05, 2008

desfocagem

Picasso


Que deu ao pintor para se pôr a colorir as lágrimas?
Quem lhe disse que elas são confetis ou cones de gelados infantis? E os chapéus barcos de lançar aos charcos nos Invernos lamacentos?
Quem o mandou desfocar os olhos e pôr saliências nos dentes?
Com que mãos limpou o rosto da mulher chorosa e lhe pôs fragilidades nos lábios e depois lhe alisou os cabelos.


Maldigo-te pintor pelos teus olhos embaciados.

Assimetrias

Picasso

São ainda muitos os dias em que abençoamos o sol; contudo não conseguimos evitar as madrugadas frias, quem sabe se por um certo finalizar trazido pelo avançar dos anos, gelos mal distribuídos, quando antes era o calor a derreter os excessos. Lacrimeja um pouco a pálpebra, defendendo-se calada, e se fechamos os olhos nem tão pouco é para conservar o calor do lado de dentro mas para os poupar apenas.
Desconstrução maldita, diria a pessoa, enquanto o pintor se deliciava no desmantelar da realidade.
Criação, repartição, gozo fiel, sem tirar nem pôr; ou punha as cores, o artista e triangulava as formas de fugida.

No fechar dos olhos encerramos a bênção do sol que agora é um desejo, mais do que o calor que regenera, e pedimos ao dia seguinte que nos ceda um milímetro de espaço para minimizar a desengraçada e pungente assimetria dos gestos.


Sunday, February 03, 2008

pequenas conversas, grandes enigmas ou de como é difícil sorrir


Não forces o sorriso que te estragas; não olhes, não fixes o real mais do que o necessário; não pronuncies as palavras inúteis, nem todos os ouvidos as merecem. Segura a lágrima, que te faz falta à secura das horas mais amargas; fecha os olhos, se puderes: uns dias de cegueira clarificam a vida ou ela é sempre clara e são as pálpebras demasiado abertas que não permitem visões certeiras.
Não sorrias ainda, a vida espera um pouco enquanto te seguras e te retrais; aligeira a carga, espalha os cabelos ao vento, estica a pele enrugada, movimenta a face trôpega; desfruta, se fores capaz, das horas inactivas: pára, paira, pasma, descansa, cria.
Aguarda o tempo necessário ao retorno da normalidade. Ela virá.