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Wednesday, October 22, 2008

A escrita e os símbolos

Escher

O exercício da escrita tem de ser um exercício de prazer. Podemos senti-lo como fonte de maior ou menor sofrimento se nos centramos nos nossos dramas ou nas nossas dores. Mas isso seria demasiada exposição trazida aqui a um lugar visível.
Criamos, então, personagens vivas e falamos por elas. Personagens que não se aclimatam ao normal curso do tempo e declinam com o voar das folhas secas; ou que se atrevem a desafiar a modorra estival gritando sobre a extensão dos mares; ou que se aconchegam, saídas do tempo, em pequenos nadas que transformam em grandezas de encher vaidades.
Neste acto criativo usam-se as palavras em jogos se sentimento e culpa; em distracções de bem-estar e anseio; em exercícios de representação do que não foi mas podia ter sido; em projecções dos nossos desejos ou dos desejos dos outros, já que os adoptamos e adaptamos.
Na Elipse há dois centros, nunca se sabendo qual dos dois corresponde ao que está para além do ficcionar. Ou o que fica aquém e ela converte em linha que se curva, certinha, sobre um e outro foco. Nada se pode colar à fidelidade do que aconteceu. Tudo símbolos.
Aqui o exercício da escrita é prazer puro.





Friday, April 27, 2007

Leituras


Gosto da maneira como ela diz “devíamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento”.
Não li tudo ainda, mas a qualidade do registo é a mesma que me cativou desde o primeiro romance e o assunto é melindroso, como são melindrosos todos os assuntos de que é composta a vida.
Na parede de um gabinete, em Lisboa, projecta-se a sombra de Freud e quem lá entra já não pode viver fora dali. Porque ali há alguém que “ouve como um vivo e age como um morto”. Conforto no alongar dos relatos. Conforto no tecer das grades de uma prisão feita de cumplicidade profissional. Conforto no estar ali.
Isto é o que eu leio. Provavelmente outros lerão ali as soluções e ela, a autora, deixa que sejamos nós a ler. Até porque depois do tempo passar a leitura é ainda mais difícil – tema recorrente na escrita de Lídia Jorge – e o que se recorda “não vale a casca de um pêssego” ...
Porém, é do lado de fora que tudo se passa ; é no lado de fora que as pessoas estão; e é nesse lado que se passam as histórias concretas e se vivem as vidas concretas.
No gabinete as sombras prolongam fantasias ocultas pelo pudor e facilitam as invenções oníricas: do nada para o nada (digo eu.)

Quando acabar virei dizer se é assim ou se ela me vai trocar as voltas.
Leiam também.

Wednesday, August 09, 2006

O Verão também tem horrores



Quando Agosto chega e com ele este calor entediante e cansativo, não posso deixar de me lembrar de um relato soberbo de Mário de Carvalho em

Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto:

“E ei-los assim a altercar a travessia do Sado, alheados dos golfinhos, a caminho do seu primeiro dia de férias, como sempre, na Costa da Caparica, em Santo António, num rés-do-chão que arrendavam há anos a uma velha rabugenta, proprietária de muitos gatos, cujo odor continuava a impregnar a alcatifa, ainda que no Verão estivessem carinhosamente recolhidos noutro lugar qualquer, para dar lugar a veraneantes.
E, por ora, ponto final.

Joel Strosse tinha agarrado numa revista francesa, Ça Ira! E procurava concentrar-se num artigo intitulado “La gauche post-moderne, une déconstruction em marche?”, mas não conseguia passar do primeiro parágrafo. Era à tarde, cirandavam moscas em de permeio, umas melgas franco-atiradoras, prontas a atacar pela calada da noite, com aquele ruído característico da Fórmula 1, mais irritante que as alergias da matadura.

(…) pela janela gradeada via passar os veraneantes que regressavam da praia, dobrados ao peso dos guarda-sóis, basto enfadados , num carreiro sem fim. Pareciam zombies, de carnadura flácida, jeito mortiço e olhar vazio. Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta.

(…) Cremilde, sentada num sofá estampado de flores, cujos castanhos e cinzentos não se sabia bem se eram obra do artista desenhador ou do uso continuado, ia folheando a Elle e perorando destarte:
─ Vem aqui que as varizes não têm cura. A operação pode aliviar um bocado mas cura é que não há. É um médico que diz. Traz fotografia e tudo.
Joel chegou-se à janela com o intuito de baixar a gelosia, tarefa árdua, científica e complicada, com aqueles fios todos num emaranhamento marujo.
(...)

As ruas ficavam cheias de gente, (...) os contentores transbordavam de lixo (...). Ainda por cima, havia bichas no supermercado e o ambiente estava impregnado por fumos de churrasco de frango dos restaurantes improvisados, geralmente governados por bigodaças imundos, com barretes às três pancadas, muito refractários às inspecções dasactividades económicas."

Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, ed Caminho, 1995, pp. 42-45

Wednesday, April 19, 2006

"Sentir, sinta quem lê"

Toda a narrativa é um artifício e “sem a existência de um leitor os textos escritos não passam de marcas pretas em páginas brancas”. (1)

E o que faz quem escreve?
Deita mão às histórias alheias e torna-as suas, transforma-as, acrescenta-as e muda-lhes o final. Ou não.
Apropria-se do tempo e alisa-o; depois recorta-o e brinca com ele.

Por isso todo o texto exige um leitor, cujas reacções tomam a forma de sistema de palavras, depois agrupadas associativamente no seu espírito.
É a interpretação a afirmar-se sobre a criação.
Sendo assim, quem tem verdadeira importância neste jogo é quem está do lado de lá.


(1) Linda Hutcheon, Uma teoria da Paródia, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 35

Saturday, January 14, 2006

O prazer do texto


“Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque todas foram escritas no prazer (este prazer não entra em contradição com os lamentos do escritor).
Mas o contrário? O escrever no prazer garantir-me-á – a mim, escritor – o prazer do meu leitor? De modo nenhum. Esse leitor, é necessário que eu o procure (que eu o “engate”), sem saber onde ele está. Cria-se então um espaço de fruição. Não é a “pessoa” do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do fruir: que os dados não estejam lançados, que exista um jogo”.

Roland Barthes, O Prazer do Texto




Não é que preparar a Primavera no Outono seja omitir o prazer do lamento. Esse é de todos os dias e subtraí-lo à escrita é anular o sentido do exercício. O meu. O do leitor é outro bem diverso mas esse deixa de me pertencer no momento exacto em que o texto lhe surge aos olhos. É de interpretações que depois se faz a mensagem. Podendo ser de desagrado, não obstante o prazer do meu fingimento ou da minha verdade, que de um ao outro não vai grande distância.
Sobra, pois, o espaço de fruição. Este.
E o jogo.

Thursday, October 27, 2005

Construções Narrativas

Histórias planas dobram-se e metem-se no bolso onde a mão envergonhada as espalma até deixarem de ter a dimensão de coisa mal começada. Reduzidas a pó ainda incomodam, contudo.
Não era, pois, de estabilidade que queria falar. Nem creio que quisesse falar de alguma coisa concreta. O caso era esse. Faltava-me adequar a personagem ao seu perfil, não tinha ainda definido as cores nem as linhas do vestido mas sabia que teria de ser amplo como convinha a personagens redondas; isso sim, que as queria anafadas de adjectivos omissos. Por isso nesse dia não tinha bolsos.

Disseram também que eram precisos antagonistas – só o vilão nos convence da bonomia – e que os devíamos encher de sedução. E eu, que apenas via o sorriso sério e franco metido nas páginas, entre asas de pássaros e o aroma velho de flores secas, não desencantava ali o natural engodo. E desesperava já de tanto me dividir: conto ou mostro? Estaria aí, se a encontrasse, a solução para o decoro; mas o que eu queria mesmo era ver o adjectivo ganhar gumes sem se mostrar aos olhos. Coisa de engenho.
Só faltava, pois, fixar-me no desenlace, inventar um artifício, criar, em suma o estranhamento que prendesse o infiel às palavras.

Thursday, October 13, 2005

Em memória de Florbela Espanca

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os Homens! Morder como quem beija
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino se Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!”





Se eu fosse ela...








Disseram que eu acendo as fogueiras dentro de mim própria com as palavras que invento. Que coabito comigo e tenho tudo dentro de mim, como se fosse hermafrodita. E que me impus amarras que ninguém quebra.
Disseram também que eu faço temer com o poder das minhas palavras, que pode ser o poder dos olhos, se não as digo.
Disseram muitas coisas, tantas quantas cada um quer dizer se me intercepta a meio caminho, entre mim e o que não contenho.
Também disseram que sou mitificadora. Pouco importa.
Há qualquer coisa de autofágico em pessoas assim, talvez loucura ou qualquer coisa situada a meio caminho entre mim e o que não sei dizer à vida, dizendo-o em palavras que apenas vão de mim para o meu amor pelo próprio amor.

“Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor
Passa por ele a luz de todo o amor…
E nunca em meu castelo entrou alguém”.
(Castelã da Tristeza)

Uma sensibilidade assim vem da loucura ou conduz a ela, não sei ainda qual é o sentido do processo. Mitificação do amor; amor querendo sentir-se sabendo da sua impossibilidade porque está gelada a capacidade de entrega; gelada ou arrefecida pelo medo. Ou pela vontade de mitificar uma coisa que, se for concreta, perde a essência.
Uma sensibilidade que gera a vontade de ver amor em tudo, de sentir amor por tudo, sem nada ser capaz de sentir.
É talvez essa a razão feroz da procura (ou a razão da feroz procura).
Haverá qualquer coisa no mundo que quebre o gelo?
Talvez o braseiro das fogueiras, por isso as incendeio deixando que elas consumam o que me pertence e que ninguém pode tirar de mim porque ninguém soube ainda quebrar as amarras.
Talvez o sofrimento do próprio processo criativo, o voar lento e brando das aves de asas longas, em vez do voar picado da gaivota.
Talvez a procura do prazer pelo prazer, engano dos que pensam que me entrego, engano dos próprios homens a quem amei, porque o que amei neles não foram eles mas o amor que queria ter sentido. Tudo dentro de mim.
Talvez a vingança de qualquer coisa obscura que passa pelo domínio do outro. O prazer do domínio. O desafio de ocupar o lugar cimeiro destronando o outro com o fluir das palavras-frases, olhos abertos ao lugar das confissões e do despir fácil, fragilizando quem quer que esteja para além de mim, sem sequer lhe ver o rosto. Ou inventando estátuas em chamas à força de lhes sentir o gelo, recusando o calor dos olhos próximos.
Quem inventa consegue ser o começo e o fim das coisas, chegando a confundir-se a si próprio com a imaginação criadora.
Amar o amor é uma cruxificação.

“ Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!”
(A minha tragédia)

Monday, August 08, 2005

Sobre Florbela Espanca



1894: A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa.
1915: Casa com Alberto Moutinho.
1919: Entra na Faculdade de Direito, em Lisboa.
1919: Primeira obra, Livro de Mágoas.
1923: Publica o Livro de Soror Saudade.
1927: A 6 de Junho, morre Apeles, irmão da escritora, causando-lhe desgosto profundo.
1930: Florbela morre, em Matosinhos.
1931: Edição póstuma de Charneca em Flor, Reliquiae e Juvenilia e ainda das colectâneas de contos Dominó Negro e Máscara do Destino. São reeditados os dois primeiros livros.

Florbela conheceu três mães: a sua própria, Antónia Lobo, “rapariga exposta”, Mariana Toscano, a mulher legítima de João Maria Espanca, que não lhe deu filhos e por isso adoptou os ilegítimos (Florbela e Apeles) e depois Henriqueta de Almeida, segunda mulher de seu pai.
Poderá ver-se nesta insuficiência da imagem materna a origem da sua permanente evasão da realidade. E também da passividade com que desempenha a sua função de esposa, em casamentos tempestuosos: Alberto Moutinho, António Guimarães e Mário Lage terão convivido com uma mulher que mitificou o amor, não achando, nunca, satisfação nele, coabitando até à morte com a sua tragédia narcísica.
Exprimiu assim o carácter sublime do amor feminino:

“Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.”

E exprimiu também assim, paradoxalmente, como só a alma feminina sabe fazer, a ânsia de amar da procura sem retorno:

“Mesmo a um velho eu perguntei: _ Velhinho,
Viste o amor acaso em teu caminho?
E o velho estremeceu… olhou… e riu
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!”

Doente desde muito cedo, Florbela poderá ter nascido de uma mãe sifilítica, sendo essa uma possível razão para os seus males pulmonares ou para um temperamento neurótico que se traduzia em tremores, angústias, analgia, excesso de sensibilidade, a irritabildade e insatisfação. Impulsos exigentes são-lhe também apontados, quase caprichos de menina a quem o pai faz as vontades, chamando a si a urgência do amor em explosões de alma intranquila.
Conhecemos-lhe uma rede de desejos em delírio discordante, quase uma permanente tragédia narcísica, que a leva a chorar as dores de si para si porque acende fogueiras com palavras inventadas, porque é umbral da sua própria dor, consumindo-se a si própria. Tem tudo dentro de si – hermafrodita, como lhe chamou José Régio – da sensualidade à catalização, da animosidade perante o eu até ao instintivo processo criativo. Ela cumpre a paixão do poeta, a de sentir a sua dor, ou melhor, as suas dores, a escrita e a referencial.

“A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.”

Nas terras alentejanas, outrora dominadas por uma elite intelectual e guerreira de origem celta, terá permanecido uma certa concepção da influência feminina dentro dessas estruturas jurídicas, sendo que o casamento não tinha um carácter sagrado. Terá Florbela sido herdeira, como avança Agustina Bessa-Luís, do conceito celta de divindade feminina que depois as sociedades romano-cristãs condenaram? O que é facto é que a poetiza não foi escrava do homem nem dos contratos de casamento; nela houve sempre a exibição explícita de uma sexualidade que assumiu um lugar de símbolo ou de mito, mais do que de objectivo. Emoção exaltada é a expressão das suas cartas para Apeles, de conteúdo intenso, na linha da intensidade com que usa as palavras nos seus sonetos, quer sejam de natureza exaltada, quer funesta, uns e outros desencontrados da felicidade.
O seu ideal era de completa fusão de dois amores, de duas almas, de dois corpos:

“Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua”

Mas o desengano nunca tarda:

“Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Que terá acontecido quando a 7 de Dezembro de 1930,ocorreu a tragédia final? Uma neurótica que ingere uma dose suplementar de comprimidos ou uma mulher doente que os toma para se livrar da dor física e de todas as outras, bem piores, por certo. Ou não o soubéssemos nós, mulheres, que passamos a vida a discursar sobre a solidão, cumprindo sempre a paixão do poeta, que é a eterna paixão da dor.

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e Alem Dor!”