
Cárcere
Vindima de ilusões, composição filtrada.
E, para além dele, o céu pesado e a luz quase apagada.
"(...) não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer; quer dizer: o que é possível segundo a verosimilhança e a necessidade" (Aristóteles,Poética)
Chegaram mesmo agora os dias sem poesia
Chegou a acidez do osso frágil 
A vista enrugada, encovada, enevoada;
Mais a lentidão dos passos curtos
Em sapatos rasos.
Chegaram quilos a mais, agora mesmo
Chegou a letargia do desejo
As mãos atrapalhadas, presas, ressequidas;
Mais a lentidão das ideias quebradiças
E mal articuladas.
Devia ser possível recusar o invólucro enrugado
Ou recuar sobre as pernas definhadas.
Van Gogh
Repito-me, repito-me…
Nasço todos os dias no mesmo lugar e giro em círculo. Nasço depois do sono, depois do sonho, depois das horas sonhadas para o repouso de tanta repetição. Nasço antes do desejo, todos os dias no mesmo lugar; e repito o movimento andando à pressa, que de pressa é feito o verso e o reverso deste andar à volta de mim mesma antes do desejo ou com ele a passo lento, a par
comigo.
Repito-me passando por entre estas paredes pintadas a branco sujo depois do tempo passar sobre o dia do começo, dia de sonho e depois o sono a esconder a pouquidão do espaço, que de pouco é feito o estar aqui parada.
Repito-me sempre nas palavras; apenas as coloco de outra maneira para que o efeito não pareça repetir-se; mas o que nasce depois do sono e antes do sonho é um lugar escuro. Memória brava, encolhida à pressa e repetida nos degraus que subo e desço.
E se tropeço?