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Sunday, March 18, 2012

Cárcere

Foto de Elipse


Cárcere

Vindima de ilusões, composição filtrada.

E, para além dele, o céu pesado e a luz quase apagada.




Sunday, April 04, 2010

Universos vazios

foto de Elipse

Sedes antigas. Ou antes, nunca uma sede igual a esta, nunca uma ânsia a agigantar-se assim na corrente dos dias, nunca uma desordem tão perfeita.
Sedes muito amplas e muito antes de todas as coisas perderem o sentido e o reverso; sedes de espuma e terra e oceano e astros.
Como posso ignorar a narrativa se ela e só ela me traduz o nunca de todas as coisas, o silêncio-rosário a correr entre os dedos.
Evadindo-se o pulso e o pulsar, restam as folhas de papel e as pausas, umas e outras matéria do mesmo universo vazio.







Monday, November 17, 2008

Memórias vivas

Salvador Dali, Persistência da Memória

Só sei que a memória nunca se embaciou, nem nos dias mais turvos nem nas noites mais brancas; hora a hora afaguei as lembranças, mesmo as dos lugares mais pálidos ou as dos tempos mais azafamados. E foi no presente daqueles dias – os dias que hoje ainda respiram na penumbra – entre quartos vazios e o luar abandonado, que sorvi o luto, gota a gota, bebendo as pedras, arranhando as vísceras e sangrando o suficiente para saber que quando o tempo passa sobre as horas de todos os presentes, a alma, solta do peso, cola-se ao corpo e chama-lhe matéria fúnebre.
Só sei que já me curei do teu cheiro dentro das paredes e do rumor da tua presença nos degraus da minha casa. Quando falo de amor, se falo, recuo muito mais do que esperava e mesmo assim já não sei preencher espaços vazios. É como se falasse de uma história de outras personagens e a fechasse depois numa lombada descosida, bolorenta.
Só sei que já não é a mesma lua, a que se levanta do lado do jardim e depois sobe para o centro dos meus olhos que antes assustavam o silêncio frio das madrugadas. E há dias em que já não sei se era o teu perfil que eu esperava, ou os nós dos teus dedos a baterem ao de leve na janela da cozinha; ou se esperava o perfil do teu perfil.

Se pudesses voltar não haveria nada de meu que te aguardasse junto à porta, esse lugar onde demorei a perceber a verdade da tua ausência.
Se pudesses voltar eu não voltaria a esse corpo que, sendo meu, me aleijava nos abraços; não voltaria ao silêncio amarfanhado das cedências e menos ainda ao desconforto das partidas.
Se pudesses voltar eu diria que te inventei; porque sempre inventamos a perfeição.

Saturday, July 28, 2007

Dias definhados

Chegaram mesmo agora os dias sem poesia
Chegou a acidez do osso frágil
A vista enrugada, encovada, enevoada;
Mais a lentidão dos passos curtos
Em sapatos rasos.

Chegaram quilos a mais, agora mesmo
Chegou a letargia do desejo
As mãos atrapalhadas, presas, ressequidas;
Mais a lentidão das ideias quebradiças
E mal articuladas.


Devia ser possível recusar o invólucro enrugado
Ou recuar sobre as pernas definhadas.

Tuesday, January 30, 2007

entre as paredes pintadas a branco sujo

Van Gogh

Repito-me, repito-me…
Nasço todos os dias no mesmo lugar e giro em círculo. Nasço depois do sono, depois do sonho, depois das horas sonhadas para o repouso de tanta repetição. Nasço antes do desejo, todos os dias no mesmo lugar; e repito o movimento andando à pressa, que de pressa é feito o verso e o reverso deste andar à volta de mim mesma antes do desejo ou com ele a passo lento, a par comigo.
Repito-me passando por entre estas paredes pintadas a branco sujo depois do tempo passar sobre o dia do começo, dia de sonho e depois o sono a esconder a pouquidão do espaço, que de pouco é feito o estar aqui parada.
Repito-me sempre nas palavras; apenas as coloco de outra maneira para que o efeito não pareça repetir-se; mas o que nasce depois do sono e antes do sonho é um lugar escuro. Memória brava, encolhida à pressa e repetida nos degraus que subo e desço.
E se tropeço?