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Thursday, February 26, 2009

Outono

Foto de Elipse


Foi um desafio lançado aqui. Tinha de partir do texto dado e escrever a réplica.


“O Outono chegou, húmido e frio; os jardins cobriram-se de uma cor de ferrugem, e as florestas negras, direitas como ferro, mancharam-se, aqui e além, de castanho; um vento molhado soprava, empurrando para o rio pequenos ramos cortados. Todas as manhãs, chegavam ao alpendre carros cheios de linho, puxados por cavalos macilentos.”
in Máximo Gorki, A Família Artamonov

Vinham num trotear desengonçado, eles e o mundo todo, queixosos de um cansaço sem sol, que homens e bichos sofrem da mesma privação, uns mais na alma e outros mais no corpo, quando a ferrugem cobre os jardins e o vento sopra molhado e fustiga o caminho que traz o rio às manhãs e as cobre de névoa.
E eu, sentada no alpendre, esperava a nesga de sol que me tirasse da letargia e me trouxesse as memórias. A garota pusera-me o xaile sobre as pernas e a bengala ao alcance da mão. Disse-me para não sair dali, que o chão estava escorregadio e o meu equilíbrio já conhecera melhores dias. Um lagarto entre as frinchas, pensava, enquanto esticava as pernas e olhava os troncos das árvores, direitas como ferro em desafio humilhante à minha curvatura.
Todas as manhãs a cor da ferrugem dos jardins me recordava a impossibilidade da renovação. Porque eu sabia, entre as muitas coisas que eles diziam que eu esquecia e perguntava repetidamente, eu sabia que havia um Outono que chegava húmido e frio e se instalava, teimoso, nos meus ossos deformados, empurrando para o rio pequenos ramos cortados à minha lucidez. E o que ficava era um esqueleto desarticulado, que me fazia repetir a pergunta todos os dias: e ele, a que horas chega?





Thursday, January 22, 2009

Simpatia

Um blog de ouro é demasiada responsabilidade para quem não dá sentido às palavras há tantos dias.
Obrigada Cláudia. Eu volto em breve.

Tuesday, May 27, 2008

Horizonte

- E nos teus sonhos, como está o mar?
- Agora está sereno. Vejo-lhe, na transparência, os novelos das águas; e soltam-se as bolhas de ar à superfície. Apetece-me explorá-lo até perder o pé.
- E não tens medo?
- Claro que tenho. Mas ficar em terra é mau. Ali naquele lugar onde rebentam as ondas até a espuma se desfaz na areia.

Friday, February 22, 2008

Palavras desafiadas


Foi um desafio que veio de um jardim. Tinha de construir um texto com doze palavras escolhidas.
Como falava de palavras, aqui estão elas:



.búzios. olhos. filhos. palavras. labirinto. memória. tempo. asas. bruma. poesia. verdade. sorriso.

Antes usar as palavras todas; escolher é tarefa difícil e eliminar é cortar o significado, embora seja bom jogar com os sons e não apenas com os sentidos.
Por isso digo bruma como se fosse música; e labirinto a prolongar o eco pelos caminhos da imaginação; depois digo búzios, deslizando num areal de murmúrios ao ouvido.
Mas se disser memória penso num lugar desordenado pelo tempo; lugar onde a verdade é construída à distância das emoções e para onde as asas nos levam mesmo sem querermos. E se disser sorriso rasgo a dimensão da pele, já refeita das assimetrias dos últimos dias, com os olhos sempre a ver redonda a realidade.
Porém, quando digo filhos digo poesia.


Saturday, September 15, 2007

Os livros


A maria_arvore sugeriu-me a selecção dos 10 livros que ajudaram a estruturar esta que hoje sou.

Antes de os enumerar tenho de dizer uma coisa que não é exclusiva do meu sentir: os livros marcam-nos consoante a idade que tínhamos quando os lemos, havendo alguns relativamente aos quais nos perguntamos, uns anos depois, "como foi possível que eu tivesse lido aquilo"? Por outro lado, deve ser difícil a cada um de nós eleger apenas dez...

Aqui vão aqueles de que mais me lembro...

1. A Náusea, de J. P. Sartre, lida por volta dos 14-15 anos, quando me perseguiam as primeiras crises existenciais, ainda antes de certos pensamentos terem nome;
2. A um Deus desconhecido, de J. Steinbeck, pela mesma altura, quando procurava desesperadamente entender a crença e incorporá-la;
3. O Doutor Jivago, de B. Pasternak, há muitos anos, porque já me interessava pela História mas sobretudo pela surpreendente entrada no labirinto dos sentimentos;
4. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, numa altura em que ainda não sabia que o neo realismo era literatura datada; apenas lhe sentia o gosto, acompanhado pelo sentimento de revolta;
5. As Brumas de Avalon, de M. Zimmer Bradley, a alimentar-me as fantasias...
6. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em leitura compulsiva, num fim de semana em que até me esqueci dos filhos...
7. A Obra ao Negro, de M. Yourcenar, como testemunho exímio de uma época, escrito com o coração e com o saber de uma das melhores escritoras de todos os tempos;
8. Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, numa feliz descoberta de uma poderosa arte irónica;
9. A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, construção ficcional perfeita, o romance dentro do romance e a vida vista por dentro e por fora, com a inversão de todas as regras como caminho necessário à escrita de uma obra-prima; e depois também O Cais das Merendas, O dia dos Prodígios, O Vale da Paixão e mais recentemente Combateremos a Sombra. Escrita indispensável ao meu crescimento literário; mas também visão crua, farpa infalível cravada na realidade que não escapa aos olhos e ao coração.
10. A Casa e o cheiro dos Livros, de Maria do Rosário Pedreira, poesia para ler a toda a hora;
... e todos os livros daquela poesia que me enche a alma...


... e agora? Onde ponho os Eças, particularmente Os Maias e A correspodência de Fradique Mendes, numa analogia perfeita com os nossos dias. E o Fernando Pessoa? E os outros?


E agora passo o desafio a todos os que gostam de livros...


Saturday, May 05, 2007

se eu fosse...


A Ivamarle desafiou-me a revelar um pouco de mim:


Se eu fosse uma hora do dia, seria ... a madrugada
Se eu fosse um astro, seria ... uma estrela muito distante
Se eu fosse uma direcção, seria...o caminho bifurcado
Se eu fosse um móvel, seria ... uma secretária desarrumada
Se eu fosse um liquido, seria ... água do mar
Se eu fosse um pecado, seria ... a ira
Se eu fosse uma pedra, seria ... pedra de lioz
Se eu fosse uma árvore, seria ... um salgueiro
Se eu fosse uma fruta, seria ... um cacho de uvas
Se eu fosse uma flor, seria ... um narciso
Se eu fosse um clima, seria ... polar
Se eu fosse um instrumento musical, seria ... um piano
Se eu fosse um elemento, seria ... ar
Se eu fosse uma cor, seria ... verde
Se eu fosse um animal, seria ... uma garça
Se eu fosse um som, seria ... o vento (às vezes brisa, às vezes temporal)
Se eu fosse música, seria ... uma balada
Se eu fosse estilo musical, seria … clássica
Se eu fosse um sentimento, seria ... sensibilidade
Se eu fosse um livro, seria ... A Náusea
Se eu fosse uma comida, seria ... um gelado a derreter no prato
Se eu fosse um lugar, seria ... uma praia
Se eu fosse um gosto, seria ... agridoce
Se eu fosse um cheiro, seria ... lilás
Se eu fosse uma palavra, seria ... memória
Se eu fosse um verbo, seria ... aprender
Se eu fosse um objecto, seria ... um livro
Se eu fosse peça de roupa, seria ... uma écharpe
Se eu fosse parte do corpo, seria ... o cérebro
Se eu fosse expressão facial, seria ... a surpresa
Se eu fosse personagem de desenho animado, seria … ???
Se eu fosse filme, seria ... Magnólia
Se eu fosse forma, seria ... elíptica
Se eu fosse número, seria ... 5
Se eu fosse estação, seria ... primavera
Se eu fosse uma frase, seria ... todas as frases são fragmentos; eu quero as palavras todas



Saturday, April 22, 2006

Aproximação a Brecht? Hummm...só se for pelos elos de uma corrente...


A Wind deixou-me o desafio mas a origem veio daqui. Para quê? Para seguir as palavras de um poema de Brecht ( a bold) e acrescentar outras que rimassem à minha vontade. Segui a métrica e rimei desta forma...


Alegrias, são benvindas em todos os dias
Dores, se pudesse vestia-lhes cores
Casos, se te desse a escolher que farias
Conselhos, são inúteis em casos de amores

Meninas, as dos olhos, às vezes são luz

Mulheres, todas juntas complicam a vida
Orgasmos, se é para hoje não há que hesitar
Ódios, se os cultivas é guerra perdida
Domicílios, posso ir, se não for p’ra ficar

Adeuses, já me vi a acenar sem coragem
Artes, dou-lhes forma alinhando as palavras
Professores, sei de perto o que são e o que fazem
Prazeres, vias férteis em plena viagem

Projectos
, construções à medida dos sonhos

Inimigos, já esgotei as raivas, já não vejo
Amigos, o prazer da conversa e o gosto
Cor, é com ela que pinto o desejo
Meses, numas férias na praia, em Agosto

Elementos, natureza em jeito de obra-prima
Divindades, já caídas dos céus, por descrença
Vida, raio de sol que desponta e anima
Morte, a dos sonhos traz sempre falência.


Ivamarle, Bastet, Fausta, querem tentar?

Sunday, March 12, 2006

Asas paradas são penas

Fotografia de Tozé

Não me apetecia vir falar de penas. Embora as tenhas desfocado na imagem que o teu olhar representou. Aliás não sabes bem por que razão as desfocaste, mas a verdade é que quando viste a imagem, depois de apanhada a realidade dentro de linhas fechadas, presa no tempo, olhaste e viste que as penas não tinham nitidez.
Coisa estranha, pensaste!
Tinhas tentado captar as asas pensando que a simbologia, sendo especial, te deixaria uma fabulosa recordação. A recordação do momento em que o velho se rendeu ao voo e ficou parado. Porque foi o velho que o teu olhar visualizou, foi nele que pensaste, na sua pose rendida, de olhos no chão, a lembrar tempos em que tinha asas e voava.
Então eu explico-te: dentro das linhas prisioneiras da imagem não cabem asas.
Asas paradas são coisas trágicas.
Ficaram as penas.

Tuesday, February 07, 2006

Coisas estranhas

Sou uma pessoa normal. É isto que te digo, menina sem cantigas , que me desafiaste a esta exposição pública.
Tão normal como todas as outras pessoas e, por isso, com as minhas estranhezas que, por serem normais, me aparecem como coisas que são de mim e que sou eu. Contudo, às vezes são sem graça. Ou é assim que eu acho, porque me queria outra. Mas nem sempre… há dias em que me gosto.

E…

1. Tenho a lágrima fácil. Detesto ser assim porque dou comigo embargada à mínima coisa, seja de alegria seja de tristeza. Mas agora já não disfarço, pronto!
2. Gosto de fazer tudo muito bem feitinho mas sou desorganizada e depois ando sempre a dizer que não sou capaz, etc.
3. Passo a vida a “arrumar” a secretária mas nunca encontro as coisas quando as procuro;
4. Sou acelerada no ritmo: em alturas de nervosismo começo a falar tão depressa que os outros têm de fazer esforço para me perceberem (acho que isso já não tem remédio);
5. Não tenho paciência para ouvir pessoas que relatam tudo com detalhes e demoram o dobro do tempo que eu levaria a contar o mesmo;
6. Tenho dificuldade em lidar com as coisas do passado. E elas estão sempre atrás das portas, que não sei fechar;
7. Os desafios sorriem-me. Raramente lhes volto as costas, havendo umas alturas melhores que outras;
8. Embirro com o Outono. E ele comigo;
9. Fico insuportável nas vésperas de qualquer coisa que foge do trivial, embora vá dizendo que gosto de quebrar rotinas;
10. Não gosto de pedir nada a ninguém. É por isso que tenho sempre o dobro do trabalho… mas também isso já não tem cura!

E sei lá que mais! Haverá tantas outras coisas que os outros vêem e eu não!

E agora, menina JP , menina Leo, senhor Carlos e senhor Zumbido ... é a vossa vez.

Monday, January 16, 2006

Estavam sentados lado a lado e era Verão...


Estavam sentados lado a lado e era Verão...


Comecei a escrever...
Porém nem as cores me inspiravam e tudo ia parar ao lugar das ausências. Depois pensei que outros fariam melhor. Enquanto vou pensando noutro texto, aguardo os vossos...
(Podem deixá-los nos comentários. Eu passo-os para aqui).


E escrevi...

Sentavam-se lado a lado e era cedo. Roubavam o brilho ao sol e escreviam Futuro com as cores do Verão. Depois apertavam as mãos e percorriam em voo harmonioso todas as certezas.
Descobriam, ainda, as primeiras estrelas e, em segredo, os espelhos dos olhos diziam Desejo.
Dali seguiram para os mares e fizeram viagens. Primeiro os navios eram robustos e voltavam sempre ao cais. Aos poucos as amarras ensaguentavam os pulsos e doía ficar. E doía partir.
Passadas as estações do Tempo ainda os viram sentados lado a lado. E apertavam as mãos. Mas já se escapavam delas as certezas e os olhos, que eram espelhos, reflectiam suspiros secos.

Disseram depois que as cadeiras permaneceram no mesmo lugar. E que os olhos dela reflectiram todas as cores do verão quando se sentou.




À sombra, enviado pela Wind

Mas onde estavam, por baixo daquela sombra, fazia fresquinho. Era um casal dos seus cinquenta anos, com os filhos já criados e casados.Viviam agora a paz de umas merecidas férias. Ele parou de ler o jornal e olhou-a. Pensou em como ainda amava aquela mulher, mesmo depois de 28 anos de casados. Não se via sem ela. Ela sentiu o olhar dele, sorriu e encostou a sua cabeça ao braço dele. Deram as mãos e em silêncio foram mais uma vez cúmplices do amor.

E a Ivamarle deu sequência ao tema:

...e apreciavam ambos o voo das aves que ele ia identificando, com o seu olhar educado para o reconhecimento delas, pelo voar, pelo piar, e ia descrevendo o que faziam: - olha aquele é um macho e está a tentar acasalar; aquela ali é uma fêmea, vês o que leva no bico? são materiais para construir o ninho... - são tão lindos - dizia ela- não entendo como consegues identificá-los a uma tão grande distância. - é facil, dizia, olha as cores e o bater das asas, são tão diferentes umas das outras, bem como o piar de cada uma delas, já reparaste que mudam consoante, estão a acasalar ou simplesmente a defender o ninho? - há anos que tento distinguir, mas confesso que não consigo educar o ouvido ou o olhar para isso; no entanto admiro-as, como admiro o teu conhecimento desses pormenores.- ao fim de 24 anos ainda me admiras? perguntou com um sorriso trocista?- admiro sobretudo a tua persistência em aturar-me há tantos anos, e responderes com carinhos aos meus maus humores...- sabes, disse ele, eu sou como os pombos.- como os pombos? inquiri...- sim, quando acasalam é para toda a vida.

E a Fatyly escreveu também:


Olho através da vidraça do meu quarto. A buganvília sempre florida, pintada como só ela sabe fazer e tentando chamar a atenção de quem a observa. As cadeiras vazias, as mesmas cadeiras que o tempo jamais destruiu. Lembranças...- Manel, já viste como o tempo passa? Ainda há pouco os filhos andavam por aqui! - Oh Maria deixa-os lá viver a vida deles e não tarda aparecem aí com os netos! Hoje é domingo e está um dia tão lindo! - Tu quando estás a ler o jornal és um xato não me ligas nenhuma.Manel na sua infinita calma, tira os óculos, dobra o jornal, ajeita os cabelos brancos, enche o peito de ar, olhos de carneiro mal morto e com as suas mão calejadas... retira do colo os trapos que Maria cosia a abraçou-a. - Maria tu continuas linda, ainda me lembro do primeiro beijo, queres fazer amor, ou melhor como dizem os nossos filhos...queres dar uma keka?? - Aqui? Tu és doido? Larga-me pá, mas agora deu-te p'ra isso, já vistes que falas como eles? - Sabes que sempre fui louco por ti e tu por mim não é e o amor não tem idade não é?- Se tivesses dúvidas não estavas aqui pois não? Manel...olha os vizinhos, tem juízo homem de Deus e se os filhos aparecem? - A!AH!AH! e que importa? ‘Tá um calor tão gostoso e eu gosto tanto de ti! A bunganvília começou a abanar-se com uma aragem tão aconchegante e sobre ambos deixou cair algumas florzinhas abençoando aquela união de corpos e almas, sem idades, sem tabus, o mundo era apenas dos dois. Os filhos entraram e ao verem... deixaram-nos na sua felicidade, porque Manel e Maria estavam na sua cumplicidade, entrega, carinho e amor...tanto amor! - Gostaste Maria? - Gostaste Manel? Silenciosamente levantaram-se, recompuseram-se e de mãos dadas entraram em casa onde foram recebidos com aplausos e numa só voz: papá e mamã não cuscamos nada, respeitámos a vossa privacidade... aguardamos aqui dentro, porque quando se ama... todos os lugares são nossos, tão nossos e de mais ninguém! Parabéns Pai parabéns Mãe e obrigado por serem tão felizes!

Os vidros da janela ficaram embaciados pelas minhas lágrimas... Manel porque deixaste-me tão sozinha? Os filhos pintaram tudo, mas deixaram p'ra sempre aquele canto, como um santuário.Vou fazer o almoço, pois os cinco netos vêm almoçar e têm escola de tarde! Depois mais loguinho venho falar contigo Manel e relembrar vivências tão nossas! Beijos meu AMOR!

Nota: estou com um problema no espaçamento das linhas... tem de ficar assim, espero que não se importem.

Depois veio a Stela, assim:

Sentavam-se ali há anos, os dois, sempre os dois... primeiro sós, enamorados e ofuscados pela presença do outro. Mais tarde vieram os filhos e alternavam então entre as cadeiras e as brincadeiras dos miúdos, sempre com pedidos: - Pai vem jogar à bola... Enquanto isso, as cadeiras ficavam vazias, a Mãe preparava o jantar. Os miúdos foram crescendo... naquelas cadeiras, teceu-se o futuro imaginário dos filhos, discutiu-se a educação, sonhou-se o futuro, chorou-se o passado... quando ficaram sós novamente, as cadeiras voltaram a desempenhar o papel fundamental de sempre nas suas vidas... nessa altura, já não tecia o futuro dos filhos, já então construido por eles, sonhava-se então com os netos, que depressa vieram... os anos passaram, passaram tão rápido, que hoje de toda uma vida, feita de sonhos e castelos, restaram as cadeiras para os imortalizar...

E o Prólogo escreveu os Efeitos:

Estavam sentados lado a lado e era Verão. No Outono sentavam-se frente a frente e no Inverno costas com costas. Na Primavera não se sentavam. Andavam pelas bermas dos passeios e ora num pé ora noutro, iam gastando a alegria em passos de dança e variações sobre dois corpos.

Estavam sentados lado a lado porque era Verão. Não por causa dos excessos da estação, do calor , da luz, do aroma, da indolência. Por uma razão habitual. Por uma razão nenhuma. Porque assim olhavam na mesma direcção e é provável, deve mesmo estar demonstrado, por algum monstro, que no Verão os dois olham para a mesma imagem. Propensão genética, impulso divino, força astral, tradição, o escudo da sombra, a boca que fala e o ouvido que ouve.

Estavam sentados lado a lado porque era Verão. Não sei que Verão. Não sei o que verão daquele lugar sentado que é quase sempre o lugar da espera. Mas estavam sentados lado a lado. Quando, no Outono se sentavam frente a frente era para se olharem um ao outro, fixamente, deliberadamente à procura do mistério. Porque há no Outono de cada um um mistério que é mistério para o próprio e revelação para o outro. No Inverno, costas com costas, olhavam para sentidos opostos mas os sentidos libertos da pressão omnipotente do olhar, sentiam com mais intensidade e escorraçavam o frio que penetrava ameaçador pela frincha da porta.

Estavam sentados lado a lado e era Verão. Poderia ter sido ao contrário, poderia ter sido de muitas maneiras diferentes. Mas o Verão era depois da Primavera, depois dos saltos pueris que os faziam dispensar os assentos e em que o alvoroço que brotava da terra parecia chamar às coisas alegria.

Estavam sentados lado a lado e era Verão. Era por estarem sentados lado a lado que era Verão.

E a j.p. , do Faz de Conta, também colaborou:

O cheiro da buganvília entra-me sem pudor nos sentidos. Reporta-me a cheiros de terra nuances de doces mel. No tempo das fugas rápidas, era a enterrar as mãos nuas na terra, que a harmonia e o contraste me paravam no tempo que teimava em andar depressa demais. E todos os dias a espiava, certa de que o meu olhar guardião a estimulava a crescer. E todos os anos floriam, uma e outra camada de papel lilás. Nunca me sentei debaixo dela na invasão do seu espaço. E agora que a vejo por detrás do muro, sorrio. E penso sempre, se um dia alguém se interrogará, corpo num lado e pés no outro das cadeiras brancas, quem foi o jardineiro de pés descalços e óculos de sol que a plantou.


A Maria, das Estórias do Bicho da seda, escreveu um "conto" :

Estavam sentados lado a lado e era Verão...aquele Verão que mudou para sempre as suas vidas e a sua forma de olhar o mundo.
Artur estava tão bem humorado que, no entusiasmo dos seus vinte e quatro anos, o mundo lhe parecia um lugar quase perfeito. Segurando com carinho na mão de Matilde, que estava a um mês de se tornar sua mulher, levava-a numa visita guiada ao futuro imaginado, sob aquelas bungavílias que lhes conheciam todos os segredos e sobre as quais a PIDE/DGS nunca tivera ascendência alguma.
A revolução de Abril trouxera-lhes potencialidades nunca sonhadas. O clima de alegria com a liberdade recém conquistada impregnava-se no sangue e na alma de um povo inteiro e todos os sonhos pareciam agora possíveis. Artur conseguira trabalho como jornalista num novo jornal havia dois meses e sonhava com o tempo em que a gerência o viesse a enviar como correspondente ao estrangeiro. Matilde acompanhá-lo-ia para todo o lado como já fazia agora, a menos, claro, que o jornalismo não a interessasse e se quisesse dedicar ao seu objectivo de fundar uma pequena editora.
Matilde ria-se, contagiada pela alegria do seu amor e pelo optimismo dos seus dezanove anos, que queria ainda estudar Letras e depois se veria. Mas então e hoje, não tens trabalho para fazer? Ah sim, claro (naquele seu jeito sempre despreocupado), tenho uma delegação do PCP para entrevistar. Aliás, o plano para os próximos dias é falar com representantes locais de todos os partidos e recolher as suas opiniões sobre como o país deve ser gerido. Agora todos têm direito a ser ouvidos, tal como antes todos tinham o direito de se reduzirem ao silêncio. Mas vens comigo, claro! Preciso da minha assistente e da minha musa, além de que a tua curiosidade é sempre uma mais valia, quando não é inconveniente...
Fingindo-se amuada com o comentário ela abandonou um tanto ou quanto relutantemente a sombra das bungavílias e foi preparar as suas coisas. Daí a pouco iam os dois na motoreta emprestada pelo futuro sogro a caminho da tal delegação regional do PCP, as cabeças já fervilhando de perguntas sobre as medidas práticas que aquele partido pensava implementar. Nenhum deles tinha qualquer filiação política, achavam-se livres pensadores e gostavam de analisar primeiro todas as variantes e só depois escolher. Apesar de todo o seu entusiasmo e fé no futuro Artur trazia no fundo de si uma sombra plantada por alguns excessos que já tinha presenciado. Uma parte podia ser atribuída ao facto de as pessoas depois de tanto controlo durante tantos anos se verem subitamente livres e, tal como um filho finalmente longe da disciplina dos pais, a liberdade sobe à cabeça. Mas ele temia que os excessos se tornassem o sistema e que afinal alguns entendessem apenas substituir uma ditadura por outra.
Ninguém lhes cantou o Grândola Vila Morena na recepção, mas foram recebidos com o título de camaradas e com abraços como se fossem conhecidos há longos anos. Havia bandeiras vermelhas por todo o lado e era notório o entusiasmo dos camaradas que por ali se encontravam.
A entrevista, contudo, nunca chegou a ocorrer. Enquanto Matilde analisava umas fotografias da Revolução numa das paredes e Artur voltava à motoreta para ir buscar o saco onde transportava o material fotográfico, houve uma explosão junto à secretária do entrevistado. Matilde pouco sofreu, praticamente apenas ficou em estado de choque com o susto e com o horror do que viu depois, apesar de Artur ter sabido por um amigo seu da polícia que houvera um problema na detonação da bomba que, da forma que tinha sido preparada, deveria ter provocado muito mais estragos.
Artur teve, naquele dia, informação que não procurava. E, contra aquilo em que acreditava – que a informação devia ser apresentada tal como era, preto no branco, sendo as opiniões mencionadas em artigos próprios para o efeito – viu o seu artigo modificado pelo redactor-chefe, transformado num relato na primeira pessoa, manifestando opiniões que nem sequer eram as suas, como aliás era característico de todos os grandes jornais da época.
Mas, mais do que tudo, incomodava-o uma coisa – que liberdade era esta, que se tinha conquistado sem o peso da morte e do sangue e em que agora se espezinhavam cravos e vidas?
Desiludidos com o caminho que as coisas tomavam e por verificarem que ninguém parecia interessado em apurar a verdade dos factos, já que a investigação sobre o que acontecera não chegou a conclusão nenhuma que não fosse o óbvio, acabaram por tornar-se ambos jornalistas de investigação, determinados a evitar que certas verdades ficassem reduzidas a pó e silêncios comprometidos.
Casaram sim, e foram felizes. Mas a sombra daquelas bungavílias nunca mais lhes conseguiu devolver a paz da inocência roubada.




Wednesday, January 11, 2006

Quem me dera ser ainda ontem

A fotografia é do
Quem me dera ser ainda ontem.
Lembro os anos da infância como se fossem hoje. E sinto-me menino ainda.
É estranho dizê-lo, ninguém compreende esta sensação de apetecer deitar na areia, de rebolar até sentir tontura e olhar os cavalos marinhos desenhados nas nuvens. Ou o risco de um avião que passa rumo ao outro lado do mar. Como se fosse hoje.
Aqui estou de corpo ainda meu mas já mal comandado.
Quem me dera ser ainda ontem e estar assim como tu, menino meu, acocorado a sonhar formas nos desenhos que as mãos deixam na areia solta.
Sonha.
O tempo é teu.

Sunday, December 18, 2005

Uma Sopa e duas Vidas

(O ToZé mandou-me a foto e sugeriu-me um texto... aceitam-se imterpretações para uma imagem tão bonita.)

Fica um pouco comigo não te vás já. Bem sei que a vida corre depressa e o tempo não chega para cuidares de tudo o que é o teu sentido, os miúdos, a casa, o tempo… ginásio, cabeleireira, viagens, reuniões… e diversões.
Já me deste a sopa, caldo atrasado para animar um pouco o corpo cansado; caldo entornado quando chegas e me vês desanimada, quase desamparada; é como me sinto quando me olhas e eu te digo com os olhos – fica um pouco comigo.
Já me deste a sopa e correste para o carro dizendo que o tempo é pouco. Fique bem, disseste tu de fugida, contra os meus olhos que agora são miudinhos e já não brilham como no dia em que te dei ao mundo; e tu tão pequenina, tão dentro das minhas mãos onde agora pões um malga de sopa antes de te ires a correr. Vivo das lembranças, eu sei que tens muito que fazer.
Fica um pouco comigo, digo eu calada, desolada, quase culpada por estar ainda aqui e ser o teu desassossego de todos os dias.
Mas sabes, eu fico bem assim. Deixa-me aqui entretida. E vai, que tens a tua vida.

No lugar do Escárnio e Maldizer faz-se assim uma legenda:

vê como estou, como a sopa que me dão antes era eu que a fazia, nem me sento nem saboreio, engulo a sopa que me dão, vês, antes era eu que a fazia e deitava-lhe pedaços de carne quando havia e couve todos os dias. fazia o caldo no pote ao lume, agora como a sopa que me dão, vês? é assim a vida filha, já não me deixam fazer a sopa e como a que me dão... e tu? 'tás magrinha, tens comido bem? lembras-te das sopas que eu fazia? quando podia era caldo, mas sempre no pote ao lume! ai filha vês?

E veio o Ivo Cação, do Zumbido, que disse:

Podemos olhar para um rosto e ver nele o tempo. Imaginar que esse tempo foi todo ele como se nos apresenta agora. Pensar que nos interstícios de cada ruga se alojou um desgosto. Mas também podemos ver no olhar firme o traço intenso da vontade e a fruição íntima de um gesto ou de uma memória. Digo eu. Que gosto de olhares fixos no horizonte, abandonados a uma reflexão que parece concentrar num instante todos os destinos. O nosso olhar é o momento do nosso olhar. E no rosto instantâneo, aliviado pela tigela de caldo, paira, naquela impressão primeira que me autorizou um sorriso terno, a posse de um passado cheio de acontecimentos, de acasos, de sortes e de perdas. Isso mesmo. Tal e qual como eu, tal e qual como nós. Um rosto que sobreviveu ao tempo, e que aparece agora recheado de idade, aconchegado pela roupa quente, alvo e quieto, imune às velocidades de quem ainda espera muito, lembra-me, às vezes, como neste caso, sabedoria. Parece-me, pelo menos nos dias bons, que não devo lamentar o tempo nem os cabelos brancos. A 'alma', essa animação que nos identifica e percorre um intervalo de tempo, tomando da terra a matéria emprestada, termina um dia. Mas cada um de nós é, enquanto é, só e apenas essa animação. E isso é extraordinário.

A Bastet viu assim:

Tenho nos olhos a ironia do que fui e ninguém sabe ou lembra. Tenho por vezes a tristeza desse esquecimento. Sei que este velho invólucro não ajuda à memória ou ao amor dos outros e, por isso, vivo sobretudo de recordações. Sinto o mundo da mesma maneira, o pulsar da terra e a diferença de um dia a mais. Tenho a vontade de gritar que ainda sou a mesma mas a certeza da estranheza desse grito. Porque somos sempre os mesmos. Iguais. A mesma essência numa matéria que se faz em brancos, dores e rugas. Esperei anos em vão pela suposta transformação. A que faria de mim alguém mais próximo do meu corpo. A que me transformaria na consciência da minha idade. E como é cruel ver-me como vi outros em outros tempos, quando então passava lesta e indiferente ao futuro. Quando o futuro nos chega às mãos e ao rosto apanha-nos desprevenidos. Porque somos a criança vestida de anos. Esperava eu que pudesse ser de outra forma. Que houvesse um lento descarregar das baterias da vida e da vontade para que me fosse indiferente o lugar que me cedem ou a beata compaixão que me concedem. Queria então justificar o jovem orgulho que me resta, sem o patético desprendimento que finjo. Ou que por milagre me vissem por dentro, para que lessem a origem desta arrogante agressividade. Põe-me nas mãos o caldo, a sopa que me alimenta a persistência mas que não me dá forças para me por fim. Pusessem-me na boca um beijo e escolhas nos dedos, chamassem-me ainda mulher e eu entenderia a roupagem deste meu destino.

E a joaninha viu-se assim:

Quando entro na sala de aula e vejo todos os seniores de olhos postos em mim, sinto-me como essa malga de sopa, ainda a fumegar, para reconfortar não estômagos, mas espíritos… e como é revigorante para mim o sentir isso…Pode ser uma forma de me libertar dos desamores… assim, eles são a minha tigela de caldo quente… Quando toca para a saída e me vêm beijar, sinto que cada beijo é um pedido de fica mais um pouco comigo… mas tenho de sair e dar lugar ao professor que segue… e senti isso, quando turmas imensas de adolescentes, ávidos de satisfazer as suas curiosidades, me vinham com canções da “berra”, para traduzir… para terem a minha atenção… são saudades que ficam… e eu, quase a chegar a um limite, quando vejo aqueles olhos, também gostaria que o grito interior fizesse eco, para lhe pedir para ficar mais um pouco comigo… mas apenas sou a imagem animada que o tempo deixou sem data… porque em cada novo rosto, ele vai encontrando uma nova paixão…Em linha também fui deixando as minhas palavras… e acabei por escrever demais, mas com tão magnífica foto e tão belos dizeres, não me contive.

A imagem chamou também a sensibilidade da Nokinhas:

Envelheci. O tempo teceu como rendas as rugas que já marcam o meu rosto e a neve poisou sobre a minha cabeça cobrindo-a com um véu branco. Os braços, que embalaram os filhos já não têm o mesmo vigor mas as minhas mãos, aquecidas pelo calor deste caldo partilhado contigo, com alguma tremura acariciam o teu rosto. Os meus olhos, que já não são o que foram antes, ainda te olham, embevecidos, e cintilam abrasados pelo calor da tua presença pois tu serás sempre o meu "menino". Deitando um olhar de relance à minha vida vejo um longo caminho percorrido com grandes provações mas, com a força que Deus me deu, hoje ainda estou aqui. Tenho casa, tenho esta sopa que muitos mendigam e que eu ainda faço com as minhas próprias mãos. O coração, esse está cheio de amor para dar. Envelheci. Mas só por fora. Por dentro ainda acalento a criança que há em mim. Vou do riso à lágrima, conforme me tocam o coração. Remo muitas vezes contra a maré e luto contra o desalento que teima em bater-me à porta querendo entrar. Espero ter forças para terminar a "caminhada". Estou viva!

E a Ivamarle, igualmente sensível nas suas palavras, viu também uma mãe saudosa.
Encosto-me à claridade, para que ela me aqueça um pouco o esquecimento vazio a que me votaram. Perde-se no murmúrio o meu olhar que já só vê memórias, e aqueço as mãos na taça de sopa, que me aquece, mas já não saboreio. Por vezes até penso: ao menos tenho uma sopa...na juventude quantas vezes quis e não tive, quando as senhas de racionamento não davam para matar a fome, e uma sardinha tinha que dar para quatro e à minha mãe só calhava a broa com o molho da sardinha cortada e dividida.Tantos sacrifícios...tanta luta, tanta noite em branco a pensar como iríamos arranjar-nos no dia seguinte, e eu ia para o pé do borralho aquecer-me e matar a cabeça: como? Onde? Ai os meus ricos filhos que não têm que comer, e eu não tenho quase força para cavar mais terra, para acarretar mais estrume, não tenho mais força para esquecer a morte do meu homem...ai os meus ricos filhos...E de manhã acordava acocorada no frio, e , sem saber como, levantava-me e fazia um chá de carqueja ou de tília, bebia um gole e deixava o resto, para os meus queridos meninos terem com o que enganar a fome. E saía e procurava o onde e o como, enganaríamos o estômago mais um dia. Recosto-me mais um pouco à claridade que se vai sumindo, e as memórias gelam-me as mãos e a sopa. Tanto sacrifício pelos meus meninos, e agora, há já anos que não vêm ver-me, ao princípio mandavam um xaile ou umas meias no Natal, e um postal a desejar Boas Festas, o último tem a data de há dois anos...queixam-se muito da vida, que lhes rouba o tempo e do dinheiro que só chega para as férias no Algarve e pouco mais; coitadinhos dos meus meninos, será que estão bem? E nem sequer me mandaram a fotografia do meu neto mais novo, que nem sequer conheço...encosto-me na espera, espero, desisto... a sopa está fria, mas ao menos, tenho uma sopa...

Wednesday, December 14, 2005

Novelo marinho

No Voz em Fuga voltou a haver desafio.


Parti do Novelo Triste e compus o Novelo Marinho, correspondendo ao mote da Hipátia.

(desenho de Gaivina)

Tinha-te dito que há dias em que precisamos de ver a nossa tristeza inundar os céus, afrontar os deuses, fazer-se matéria inteira, grosseira, gume afiado sobre uma pele desbotada.

Digo-te agora que desci dos céus aos mares, onde sou barco sem velas, parada, contrariada, incapaz de bolinar para alcançar o que está longe. Mesmo com vento. Astrolábio da desdita o meu que nada ensina. Nem me fascina.

Tinha-te dito que me deixasses sentir que estou só comigo.

Digo-te agora que sou mulher e espero sempre que outros ouvidos ouçam inversos daquilo que a boca diz. Caravela de esperança dentro de um coração apertado. Assumo.

Tinha-te dito que queria apenas ser coisa pura, talvez novelo.

Digo-te agora que só me vejo neste enrolar de mim para mim e que me afronta ser corpo em chamas sem que me toques. Por isso eu canto ainda. Calada. Por isso me detenho nesta almofada feita de fundos de mar. Depois deito-me numa cama gelada a ouvir o eco da ausência que me traz perdida, velha desdita de ser, sem ter contrapartida.




Wednesday, November 30, 2005

Re-viver

Estava descalça no areal vestida ainda de espanto; quebrado o búzio as mãos estavam vazias e eu deixei soltar o grito sob os açoites do vento. Baixei então os olhos e a lágrima prendeu-se ao choro calado, envergonhada.
Sob os meus pés, as ondas murmuravam que não, que não, que não tens culpa e o sol continuava quieto no seu espaço absoluto.

Amanhã todas as coisas estariam ali, mesmo que eu não voltasse.
Ergui os olhos, ergui os braços, silenciei o queixume e avancei, serena.
Atrás deixava as águas e os meus pés trilhavam o caminho certo.



Foi assim que respondi à Diva, em mensagem de alegria à vista, mais uma vez, mas agora já sem rimas, que a prosa também é poética.

Depois veio a bastet, límpida nas suas frases lindas, e disse que eu tenho razão.

Tomei a areia nos braços,
e o mar sentia-o no ventre,
sorvendo as lágrimas de sal
com as ondas do meu desalento.
Traguei a vida num sopro,
até à banalidade da morte,
fiz de pouco a minha sorte
e do amor amuleto...
Despi-me de roupas e credos,
vesti-me do verso, de errado,
não fosse o destino ofertar-me
o teu corpo por presente...
Que mais fiz que não faria?
Que vagas rebentaram cá dentro,
quando nua me vi deitada
ardendo de fogo e tremendo...
Troquei seixos por promessas,
rezei, chorei e pedi
que a espuma da maré vaza
te trouxesse de novo até mim.
Cinji a cintura de algas,
cobri o rosto de véus
quando na praia te vi as pegadas
e te senti os braços nos meus...
Das febres, das seivas, dos gestos
dos risos, gemidos, odores,
calou a noite o segredo
guardou o mar os sabores...

Monday, November 28, 2005

Desgarrada


Tudo começou quando a Addiragram, no Aguarelas de Turner, ofereceu esta gravura ao poeta desconhecido que há em cada um de nós, a propósito do Escritor Famoso.



1. Primeiro foi ela :


I
Em dias assim envolvida neste choro do tempo
ouso sair
Que são tantas as lágrimas que as minhas se perdem

II
que ramos quebrados são esses
que força usámos para nos perdermos

Chicotes de vento
Chicotes de tempo

III
atravessa o vidro, trespassa a árvore
desventra a nuvem e a neblina
percorre a casa que é um fantasma
e o meu olhar não encontra nada.


2. Depois eu...

I
Em dias assim
Seco as lágrimas nos cantos da boca

E risco a face de arco-íris sem vento;

II
Depois trago para dentro o olhar,
Ponho ramos secos no centro das mágoas
E neles prendo flores viçosas;

III
Ganho o dia,
Ganho tempo;
Amaino o bater dos chicotes nas memórias
E sento-me na calma das palavras.


3. E ela aceitou a desgarrada, dizendo que ía continuar no registo à "Madalena":

Em dias assim
o vento rasga os arco-íris

que nascem nos meus olhos

Mas se acaso algum escapa
e desce à foz que são meus lábios
sinto que o tempo o congela
e nem a mão o afaga

e não há mão que me afague
nem manto que me dê asas
nem fogueira que me aqueça
até que esta mágoa passe

Arcos-lágrima que perduram
por sobre sóis e palavras
espelham tua íris negra
despojada de ternura.

4. E eu, de novo...

E não há mão que me afague
Sem conhecer os meus beijos
Nem afago que resista
Ao arco-iris que ponho
No braseiro dos desejos;
Nem manto que me dê asas
Porque cavalgo com o vento

Porque aproveito os despojos
E não deixo o pensamento
Rasgar a luz dos meus olhos;
Não há mal que me destrua
Nem fogueira que me queime
Quando amanheço na foz
Porque o tempo é meu amigo
E traz-me sempre no vento
Luas novas, sóis diferentes
Iluminando-me a Vida
Até que esta mágoa passe.


5. E pois, agora eu, disse ela de novo:

em dias assim
olho os girassóis na tela
meus olhos que seguem os teus
olhos que levam os meus pela trela

em dias assim
abafo as fogueiras
minhas mãos que querem apenas arder nas tuas
mãos que se fecham n' algibeira

em dias assim
escondo-me neste manto
meu corpo marcado pelo espanto do teu
corpo animal de puro sangue


espasmos, danças, achas, cheias
que em dias assim
rodopiam nos meus olhos como areia.


6. E eu tinha de responder...

Em dias assim
Ponho girassóis nos olhos
E sopro, no som dos búzios,
O apelo do meu corpo;

Sigo depois em dança
Tacteando a neblina;

Em dias assim
Fecho a noite à beira das marés
E componho a minha dança
Na caligrafia das ondas;

Solto os sentidos
Rasgo-te a pele
Soltam-se os gritos
...
Sente-se a calma;

Nesse instante acordo o espanto
E sento-me, descalça, no areal.


7. E a desgarrada parece ter-se transformado em maratona, disse a Diva:

Descalça no areal
parei para sentir a noite
esse instante em que o vento é mais nu

o teu corpo fica frio de vento
os odores caiem c'os açoites do ar
esse instante em que a palavra é mais crua

os olhos erguem-se para a palavra o céu desce até nós
tocam-me as luzes que tremem

e nesse instante quebras um búzio
e suspiras adeus.

8. Depois veio a maria e meteu-se aqui no meio...

descalça no areal
parei para sentir a noite,
grávida de sonhos
que a mão da consciência
sente pontapear

naquele instante
em que suspiraste adeus
vi que na ampulheta dos teus beijos
se media o meu tempo

e levito no vácuo da espera
ansiando que um búzio qualquer
te sussurre “vem”na minha voz de mar.


Wednesday, November 16, 2005

Vem aí Poesia



I
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco onde possas guardar,
Sempre que queiras, coisas da ordem do incomunicável ao próximo.
Depois da morte, voltaremos ambos a estas páginas
E procuraremos renascer no apagar das palavras.


II
O prédio está em silêncio, no seu repouso
Erigido à beira da estrada.
Sou capaz de imaginar alguma brisa,
Folhas de arbustos a correr assustadas.
No quarto ao lado, tu, adormecida e ausente,
Em sonhos. Levanto-me e apalpo
O trajecto reconhecido, a luz apagada.

(...)

VIII
Olho o poema, não me entendo na decisão do seu início.
Talvez o poema não comece exactamente na primeira palavra.
Talvez devêssemos virar tudo isto ao contrário.


IX
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco,
O meu recado. Vais fingir que eu nunca existi
E eu não vou voltar a procurar como dizer
Coisas que me doem. Depois da morte,
Talvez.

Luís Filipe Cristóvão



E se fôssemos todos a Torres Vedras, no dia 26 de Novembro à Livraria Livrododia, para cumprimentar o poeta?

Wednesday, November 02, 2005

Desafios



Ao passarmos pelo Divas e Contrabaixos somos desafiados.

Vale a pena ir espreitar e aceitar o(s) desafio(s).

Sunday, October 30, 2005

Novelo Triste



A Hipatia da Voz em Fuga, lançou um desafio, a partir deste desenho.

Porque estás triste? Não te dei já o sumo de laranja que querias?

Respondi...

Gosto de coisas puras, perfeitas, autênticas.
Não suporto que me enganem, que finjam gostar de mim ou do que eu faço com dizeres amáveis, prestáveis, insuportáveis.
Por que vieste com a conversa do sumo? Mais parecias um miúdo inseguro nos actos, inconsequente, carente de mãos meladas.
Respeita as minhas lágrimas; há dias em que precisamos de ver a nossa tristeza inundar os céus, afrontar os deuses, fazer-se matéria inteira, grosseira, gume afiado sobre uma pele desbotada.
Não me toques nos cabelos; deixa-me sentir que estou só comigo, não quero ânimo servido em mãos adoçadas, enganadas de tanto pensar que podem salvar os outros das suas grades antigas.
Não me olhes, não me estendas um copo da cor das chamas; deixa-me arder por dentro que rebento se não consumo este sentir angustiado. Já me vi ao espelho, não precisas de me lembrar que o canto é grito calado; são assim os cantos dos meus olhos quando estou triste. O mais certo é teres andado desatento se nunca viste como sou planta sem viço.
Seguro o meu pé, viste bem; é certamente porque me enrolo neste feitiço de ser assim. Ser coisa pura, nua, talvez novelo. Assumo.