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Wednesday, October 22, 2008

A escrita e os símbolos

Escher

O exercício da escrita tem de ser um exercício de prazer. Podemos senti-lo como fonte de maior ou menor sofrimento se nos centramos nos nossos dramas ou nas nossas dores. Mas isso seria demasiada exposição trazida aqui a um lugar visível.
Criamos, então, personagens vivas e falamos por elas. Personagens que não se aclimatam ao normal curso do tempo e declinam com o voar das folhas secas; ou que se atrevem a desafiar a modorra estival gritando sobre a extensão dos mares; ou que se aconchegam, saídas do tempo, em pequenos nadas que transformam em grandezas de encher vaidades.
Neste acto criativo usam-se as palavras em jogos se sentimento e culpa; em distracções de bem-estar e anseio; em exercícios de representação do que não foi mas podia ter sido; em projecções dos nossos desejos ou dos desejos dos outros, já que os adoptamos e adaptamos.
Na Elipse há dois centros, nunca se sabendo qual dos dois corresponde ao que está para além do ficcionar. Ou o que fica aquém e ela converte em linha que se curva, certinha, sobre um e outro foco. Nada se pode colar à fidelidade do que aconteceu. Tudo símbolos.
Aqui o exercício da escrita é prazer puro.





Wednesday, April 19, 2006

"Sentir, sinta quem lê"

Toda a narrativa é um artifício e “sem a existência de um leitor os textos escritos não passam de marcas pretas em páginas brancas”. (1)

E o que faz quem escreve?
Deita mão às histórias alheias e torna-as suas, transforma-as, acrescenta-as e muda-lhes o final. Ou não.
Apropria-se do tempo e alisa-o; depois recorta-o e brinca com ele.

Por isso todo o texto exige um leitor, cujas reacções tomam a forma de sistema de palavras, depois agrupadas associativamente no seu espírito.
É a interpretação a afirmar-se sobre a criação.
Sendo assim, quem tem verdadeira importância neste jogo é quem está do lado de lá.


(1) Linda Hutcheon, Uma teoria da Paródia, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 35

Wednesday, January 04, 2006

A criação

Volto às histórias planas. De vez em quando tiro-as do bolso onde a mão envergonhada as tinha espalmado, limpo-lhes o pó da espera e acrescento-lhes palavras. O segredo são sempre as palavras, que levedam no interior das mãos e depois passam em voo para o coração das coisas. Ou é ao contrário?
Mas dizia que volto sempre às histórias de passados. Não confio em magias e as escritas do momento são coisas a correr sem que o sabor se fixe, embora possam conter o essencial sendo ele matéria de alívio.
Histórias planas dobram-se por terem a dimensão de coisa mal começada. Há que eliminar os adjectivos que as desqualificam e criar estranhamentos que prendam olhos mais distraídos. Coisa de labor. E se o adjectivo ganhar gumes sem se mostrar aos olhos diremos que o contrato foi celebrado suspendendo-se a descrença. Depois é colorir as personagens de verosimilhança e tornar reais os subterfúgios. Mesmo com subversões.
Se voltar sempre às histórias planas e as encher de palavras como se fossem coisas plásticas criarei fingimentos sérios e neles serei lida como se fosse eu.
Não há, pois, real nas palavras que levedaram e enformaram os planos rasos. Porém, há que dizer as coisas como as sabemos

Thursday, October 27, 2005

Construções Narrativas

Histórias planas dobram-se e metem-se no bolso onde a mão envergonhada as espalma até deixarem de ter a dimensão de coisa mal começada. Reduzidas a pó ainda incomodam, contudo.
Não era, pois, de estabilidade que queria falar. Nem creio que quisesse falar de alguma coisa concreta. O caso era esse. Faltava-me adequar a personagem ao seu perfil, não tinha ainda definido as cores nem as linhas do vestido mas sabia que teria de ser amplo como convinha a personagens redondas; isso sim, que as queria anafadas de adjectivos omissos. Por isso nesse dia não tinha bolsos.

Disseram também que eram precisos antagonistas – só o vilão nos convence da bonomia – e que os devíamos encher de sedução. E eu, que apenas via o sorriso sério e franco metido nas páginas, entre asas de pássaros e o aroma velho de flores secas, não desencantava ali o natural engodo. E desesperava já de tanto me dividir: conto ou mostro? Estaria aí, se a encontrasse, a solução para o decoro; mas o que eu queria mesmo era ver o adjectivo ganhar gumes sem se mostrar aos olhos. Coisa de engenho.
Só faltava, pois, fixar-me no desenlace, inventar um artifício, criar, em suma o estranhamento que prendesse o infiel às palavras.