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Monday, April 12, 2010

O poema da dor

foto de Elipse



Trazes contigo toda a nostalgia e toda a dor e o meu entendimento ainda vive na penumbra.
Trazes a cruz dos dias e das noites e a mancha amarga da tristeza que os deuses não ouvem; o rastejo da flor esmagada e o pomar prematuramente seco, o dilúvio de uma chuva que secou na foz e a nuvem transfigurada do silêncio agredido.
Trazes contigo o medo e sobre ti o cardo maduro, as palavras da resignação e o porquê dos sentidos sempre acesos.
Transportas um penhasco roubado às marés vivas e uma espiral de pesadelos rubros, a lápide da força e a prudência dos segredos.
Migram em ti as asas e as penas, a folhagem primaveril e o pilar quebrado, a robustez da arquitrave e a triangulação por apagar.
Que serei eu face à variação devoradora do teu sentir? Que farei no terreno da fronteira com a dor?
Não sei se deveria ter entrado mas já me vi em aparição na encosta onde os cardos te ferem.
Serei caminho ou luz ou tão apenas mão encostada à tua.


Friday, April 02, 2010

Prisão

foto de Elipse

Teia da espera, teia do estar por estar.
Teia elíptica, ácida, áspera.

Coisa colada ao nome das coisas com fios de simulação.

Sacrifício de silêncio e baba, jogo solitário da memória.
Substância difusa, resguardo obscuro alinhado conta o estar.
Corola desfeita pelo sopro do tempo. Versão original de uma arte extinta.
Ardil sangrento sobre a sepultura de um cântico redentor.
Prisão.
Tecida pelo lado de dentro.

Friday, March 19, 2010

entre a mente e o coração

foto de Elipse

Gotejantes, as sílabas combinam-se
simétricas, vivas, renovadas
e sentam-se alinhadas, à beira do poema
pingos de tinta em tina de água limpa.
Jurei que lavaria as mãos e me sentaria
no degrau da espera sem ouvir o tempo
mas desejei sucumbir à emoção.



Saturday, March 21, 2009

Venerando a divindade


Espero-te, ainda e sempre, no lugar dos mitos.


Para mim és água fresca em fim de tarde,

folha de hortelã, barro molhado;



Vejo-te por dentro das pálpebras

Coluna grega a dobrar-se em vénia graciosa.


Quando te penso invento a perfeição.



Sunday, November 30, 2008

entrando em Dezembro...

Tamara de Lempika

Não me dêem flores nem tecidos vermelhos.
As flores envelhecem em jarras depois do momento em que aqueceram as mãos.
As cores vivas alegram as noites e depois gelam, caídas pelo chão.

Antes não as ter …

Prefiro a realidade bruta das palavras, a cólera dos acentos agudizando a voz, o engaste da sílaba na frase espontânea, o gemido abraçado ao frio da madrugada, a banalidade que tilinta suave nos ouvidos, o murmúrio soprado sobre a luz de uma vela, o lugar-comum enraizado no espinho da inquietação ou o dizer acenado no instante da partida.
Não há flores que preencham os espaços gelados do silêncio.


Thursday, November 20, 2008

As cariátides (outra vez)


Sem cabeça seria apenas corpo;
corpo flexível, arrumado, curvo
corpo em movimento, girassol abrindo.

Sem cabeça não me deitaria fora
todos dias ao final da tarde
para no dia seguinte acordar fingindo.

Saturday, October 18, 2008

Enquanto os deuses proibiam o prazer

Blue nude - Picaso


Sei que não me alcanças as palavras
por mais que eu conjugue o verbo, ou diga os ecos das últimas sílabas;
Nem eu te alcanço o pensamento
aprisionado no silêncio dos cigarros fumados no quarto;
Difícil entrar nessa calma acesa e arredondar o espanto.
Difícil amansar os gumes da interdição sem magoar a crença.
Podíamos colocar as palavras sobre a mesa
correndo o risco de as deixar para sempre inacessíveis
Mas fizemos levedar os gestos.
Tocavas-me ao de leve, amedrontado ainda
e os olhos iam serenando na entrega
depois das ondas rebentarem no desenho do teu peito

Friday, October 10, 2008

Culto muito antigo

Da primeira vez louvei-te os olhos
Se te lembrares ainda soa a minha voz surpresa
Ante a frieza aparente do teu rosto;

Mais tarde apreciei-te a divindade
Mas era em mim que morava a tentação;

Em ti nada sobrava; nada se deixava amar
Embora o fogo vivo dos silêncios
Chamasse o verso musicado do poema.




Saturday, October 04, 2008

Intervalo

foto de Elipse

Desinquietou-me o silêncio e a penumbra dos meses frios.

Ocupou-me o pensamento, severamente gasto em coisas inúteis como a tristeza.

Aconchegou-se a mim, ou fui mais eu, saída da sombra, em busca do tempo que ficou atrás das ousadias.

Por momentos fechei a porta ao mundo e deixei adensar-se a névoa dos incensos.

Olhos nos olhos, tínhamos o corpo todo à espera e o fascínio triunfava.

Monday, March 24, 2008

Bordando sombras

Ao fim de tantos anos o vento ainda uiva na varanda
Enquanto eu bordo as palavras num linho desbotado.

Não é que me apeteça ser esta ilusão de repouso na noite
Posso sempre fechar a porta ou esconder o corpo
Entre o linho e as palavras

Não é que me surpreenda a súbita chegada das sombras;
A memória das coisas é sempre o dia claro
Mesmo que seja noite.

Porém morro ainda no instante verbal
Sendo a morte apenas a palavra acorrentada.

O resto é o uivar do vento por dentro da solidão.





Thursday, March 13, 2008

Perspectivando caminhos




















Mesmo que se vagueie há um caminho
trilhado justamente no eixo principal
onde costumam estar os dias e as noites
seguindo-se, sem surpresas acrescidas;

Perdem-se os passos na indecisão cruzada
dos caminhos secundários
ao encontro de noites vagamente fingidas
ou da viuvez massacrada das árvores seculares.

Analogia discreta e vagamente torpe
já que é diurna a escolha
sendo as noites lugares de desassossego
e promessa de eixos seguros...


... ou apenas desejo de vida.



Thursday, February 14, 2008

o colo que cria ou a criação do colo

Picasso

Pus-me em segredo no teu colo e tricotei um rosto

e assim sonhei ternura
e bordei trevos às escondidas.



Sunday, January 20, 2008

as cariátides



Sem cabeça seria apenas corpo;
corpo flexível, arrumado, curvo
corpo em movimento, girassol abrindo.

Sem cabeça não me deitaria fora
todos dias ao final da tarde
para no dia seguinte acordar fingindo.







Wednesday, December 26, 2007

se alguma coisa rompesse a penumbra


A mão que escreve tem a mesma exigência que macera a alma
como se fosse uma respiração mal conquistada
ou um coágulo maldito a bloquear a veia
que pulsa avassalando cada noite;

Nada me merece a vista; nada me aquece o frio dos olhos;
nada me surpreende a lassidão do estar,
nem tão pouco veneno que corre em regatos
ou a rosa branca pendente dos espinhos

Uma avenca rompe da fenda dos tijolos
e eu sinto-lhe o contorcer da força
como um pulsar exigente; o veneno da beleza
invadindo a penumbra que flagela a vida.

Monday, December 24, 2007

E como... se as flores nascem todos os dias

Arranco da terra esta pedra e esta pressa
Cansada de lugares comuns e presa à espera

Vagueio com os mortos e sinto-lhes a fome
E mesmo o nascer das flores ressoa na imperfeição do instante

São comerciais as alegrias alheias
Vendidas sob as máscaras da utilidade dos gastos

Das canções desbotadas retenho as vírgulas
Que pouso nos lutos geminados com a loucura

E não sabendo como cantar, digo baixinho um grito
Obscuro, veemente, negro, gasto…

Sunday, December 16, 2007

tempo


Vestiu-se de folhagem o Outono e era verde o sol nos intervalos.
Percorríamos ainda os labirintos em busca de deuses impossíveis.
Ficou suspenso o tempo enquanto as estações se sucederam.



olhares de pedra

Todo o caminho para os deuses é um labirinto
Percorrê-lo pode demorar a vida toda
Para ter como prémio a pedra dos olhos.


Sunday, November 18, 2007

Olhos claros

Há dias de Outono em que nos apetece semear a Primavera.

Friday, November 09, 2007

Hibernação 2.


Salpica-me o sol destes dias pequeninos.

Dói-me o corpo de lagarto escondido nas frinchas.


Tuesday, October 09, 2007

Imitação do Outono



Se é um tronco posso imitar-lhe a robustez
e copiar-lhe o castanho forte;

Se é uma raiz posso pedir-lhe a força
e ligar-me veementemente ao chão; somos irmãs.

Depois virá Zéfiro e levar-me-á nas folhas douradas,
abanando-me os ramos mansamente.

Com elas irei, asas sábias de aves migratórias,
ou tapete estaladiço sob os pés de meninos em corrida.