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Sunday, March 07, 2010

Palavras (ainda) com chuva

foto de Elipse
Já se inclina para mim a melodia
embora o lastro pese ainda, trágico, incómodo, flagelante
e as palavras tenham chuva sobre as sílabas
dizem os poetas que as águas cantam os amores e correm calmas
mas nem sempre as janelas se abrem sobre os jardins;
às vezes o verso é demasiado profundo e cava
a própria natureza grita e as pedras rugem
a lembrar que abaixo há ainda a humana condição
e só depois a madrugada;
ou o uivo das folhas que o vento arrasta antes de derrubar as pontes
e só depois o regaço onde se curam as feridas.

Monday, June 01, 2009

Batem-me à porta e eu estou sentada

Fotografia gentilmente cedida por

Batem-me à porta ao fim da tarde, sempre à mesma hora e eu não vou; sentada me contenho, apesar do sonho correr veloz até ao infinito e regressar ao quadrado gasto dos meus olhos, paredes brancas sem adornos e eu como flor plantada de raiz.
Batem-me à porta ao de leve, mesmo que o ferro toque o ferro, que os materiais ganham veludo quando lhes ordenamos o silêncio e ficamos presos na raiz dos pés e nas amarras de outros fios invisíveis que as paredes teceram no quadrado do silêncio.
Batem-me sempre à porta os fios das letras, com mão fechada em punhado de palavras e eu aguardo a noite, suspendo o ímpeto e fico sentada jogando as peças como se a vida fosse ainda a primeira onda no areal da manhã.
Batem-me à porta os caminhos de um mundo abraçado à vontade dos que podem partir e o fecho não descola da ferrugem do estar.

Wednesday, May 13, 2009

Vestidos de pedra

foto de Elipse

Demoro-me nas linhas das palavras, secas as letras, lento o rastejo.
Demoram-se-me os gestos, mais do que seria de esperar, na dimensão dos verdes e nos espectros que os enleiam. Ignoro os nomes das coisas e o texto enrola-se. Presença inútil a da música.
Petrificam-se as emoções; e a espuma dos sonhos, macilenta, térrea, despida de substância, é pedra igual.
Os ângulos dos dedos ferem a coragem; não há paz nem na sombra, nem nos claustros.
Roça a dor na demora dos gestos; fio de meada enleada, larva em casulo seco, veludo desbotado. Pedra.
Inquieta-se a lucidez, fermenta o rasgão no espelho, perde-se a semântica dos sentidos.








Sunday, April 22, 2007

olhos acesos em páginas por escrever




estava sentada entre as páginas quando chegaste;
tremia sem temer mas o sorriso era ainda inverso à proporção da espera.
trazias a paz nas sílabas e nas mãos organza, algodão doce, linho festivo e música.
as aves esvoaçaram e fizeram arabescos no azul;
o tempo limitou-lhes o voo e vi que descansaram à beira mar antes da partida.
há detalhes que convém omitir, contudo, não vão as imagens ferir-se nos espelhos.
vou deixar ficar os olhos acesos, só os olhos.

Monday, January 02, 2006

Cai a noite sobre as águas do rio (da minha aldeia)





Olhos postos na terra, tu virás
No ritmo da própria primavera,
E como as flores e os animais
Abrirás nas mãos de quem te espera.
Eugénio de Andrade



Olhos postos num céu pintado de laranja à beira-mar; anúncio de sol em outro amanhecer e eu ainda sem a luz das palavras-dias.
Agora é Inverno, eu sei, e o frio corta as faces de quem contempla os céus e morre de tanto olhar para o lado de lá das nuvens.
A terra está ainda fria e os troncos cheiram a musgo. Os ventos deixaram desarrumadas as folhas secas ao longo das ruas e há janelas com vidros partidos, atrás, rente à muralha.
Olhos postos na terra à beira-mar. E uma ave sobre os pensamentos. Como as flores, abrindo as pétalas ao sol do dia seguinte, enquanto a noite chega.
Agora ainda é Inverno; é por isso que protejo as mãos, arredondadas dentro dos bolsos.

Bem sei que é exactamente o Tejo o rio que corre pela minha aldeia. É por isso que não consigo estar ao pé dele pensando apenas nas flores que se abrem como mãos. Ou nas mãos.
Ao pé do rio, com os olhos postos no céu e as mãos guardadas, não consigo estar sem pensar em nada.

Thursday, December 29, 2005

Anúncio de Janeiro com Primavera ainda adormecida

Eu dizia:
“Nenhuma brisa é triste”,
e procurava água, lábios,
um corpo
onde a solidão fosse impossível.*


Eu dizia que todos os ventos vêm carregados de tristeza. E que os silêncios pesam quando os ventos acalmam, fazendo sentir a distância a que estamos dos lábios ou do corpo. Ou apenas da música cativa nos dedos, quando os dedos acariciam. Ou ainda e tão só a distância que construímos para fugirmos de nós próprios e tornarmos possível a solidão.

Mas quem sabe dessa música
cativa nos meus dedos?
E depois, como guardar um beijo
mar doirado ou sombra
desolada?*

E dizia ainda de um beijo saudoso em tempo de festas ou de memórias acesas pelas iluminações que encantam almas outras que não esta, saudosa e inquieta, a guardar beijos como quem guarda folhas secas dentro de uma gaveta.

Recordava um rio
álamos
o sabor da chuva,
tropeçava em lágrimas e soluços
e lágrimas, e procurava.*

E digo ainda que o sabor da chuva tropeça também nas preces soluçadas, persistentes na procura dos álamos guardados em folhas-memórias, ainda frescas, ou em palavras-lágrimas que afectam a memória dos afectos.

Como quem se despe
para amar a madrugada nas areias,
eu dizia: “Nenhuma brisa é triste,
triste”, e procurava.

E procurava.*

Digo-o, ainda, como se me despisse para depois procurar uma brisa de sabor novo e me vestir com ela.


* Eugénio de Andrade - Ah, falemos da brisa

Wednesday, November 16, 2005

Vem aí Poesia



I
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco onde possas guardar,
Sempre que queiras, coisas da ordem do incomunicável ao próximo.
Depois da morte, voltaremos ambos a estas páginas
E procuraremos renascer no apagar das palavras.


II
O prédio está em silêncio, no seu repouso
Erigido à beira da estrada.
Sou capaz de imaginar alguma brisa,
Folhas de arbustos a correr assustadas.
No quarto ao lado, tu, adormecida e ausente,
Em sonhos. Levanto-me e apalpo
O trajecto reconhecido, a luz apagada.

(...)

VIII
Olho o poema, não me entendo na decisão do seu início.
Talvez o poema não comece exactamente na primeira palavra.
Talvez devêssemos virar tudo isto ao contrário.


IX
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco,
O meu recado. Vais fingir que eu nunca existi
E eu não vou voltar a procurar como dizer
Coisas que me doem. Depois da morte,
Talvez.

Luís Filipe Cristóvão



E se fôssemos todos a Torres Vedras, no dia 26 de Novembro à Livraria Livrododia, para cumprimentar o poeta?