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Thursday, February 26, 2009

Outono

Foto de Elipse


Foi um desafio lançado aqui. Tinha de partir do texto dado e escrever a réplica.


“O Outono chegou, húmido e frio; os jardins cobriram-se de uma cor de ferrugem, e as florestas negras, direitas como ferro, mancharam-se, aqui e além, de castanho; um vento molhado soprava, empurrando para o rio pequenos ramos cortados. Todas as manhãs, chegavam ao alpendre carros cheios de linho, puxados por cavalos macilentos.”
in Máximo Gorki, A Família Artamonov

Vinham num trotear desengonçado, eles e o mundo todo, queixosos de um cansaço sem sol, que homens e bichos sofrem da mesma privação, uns mais na alma e outros mais no corpo, quando a ferrugem cobre os jardins e o vento sopra molhado e fustiga o caminho que traz o rio às manhãs e as cobre de névoa.
E eu, sentada no alpendre, esperava a nesga de sol que me tirasse da letargia e me trouxesse as memórias. A garota pusera-me o xaile sobre as pernas e a bengala ao alcance da mão. Disse-me para não sair dali, que o chão estava escorregadio e o meu equilíbrio já conhecera melhores dias. Um lagarto entre as frinchas, pensava, enquanto esticava as pernas e olhava os troncos das árvores, direitas como ferro em desafio humilhante à minha curvatura.
Todas as manhãs a cor da ferrugem dos jardins me recordava a impossibilidade da renovação. Porque eu sabia, entre as muitas coisas que eles diziam que eu esquecia e perguntava repetidamente, eu sabia que havia um Outono que chegava húmido e frio e se instalava, teimoso, nos meus ossos deformados, empurrando para o rio pequenos ramos cortados à minha lucidez. E o que ficava era um esqueleto desarticulado, que me fazia repetir a pergunta todos os dias: e ele, a que horas chega?





Sunday, July 15, 2007

No 52 já ninguém mora




A sugestão veio daqui.

A inspiração veio dali.


Quando por lá passo afasto os passos, como se me fosse ainda penoso espreitar os dias. Piores as noites, não as primeiras porque dessas ficaram raios de sol e búzios a murmurar segredos ao ouvido. Segredos bons, segredos do prazer aprendido a dois, rendição ao amor descoberto nos gestos novos, nos arrepios da pele sob os lábios inflamados, no gemer contido ainda pela estranheza do sentir.
Quando por lá passo preferia não passar. Não fosse este apelo dos passos a conduzir-me direita ao lugar de todas as coisas e eu fugia, escapava-me por entre a maré de memórias misturadas em azul e negro, os olhos baços perante as luzes intermitentes e ele a pedir-me perdão; e a ter de ir, de mãos presas e olhar assustado.
Nada fazia sentido. Nada faz ainda sentido a não ser a impossibilidade da casa ser lar.
Agora passo ao largo como se espreitasse não os búzios mas as pedras, as dores do frio das pedras a entranhar-se na memória. Passo de passos largos, a fugir de um aroma que se fez passado, a lembrar o dia em que o levaram dos meus braços; e as lágrimas em silêncio num pedido de desculpa surdo e côncavo.
No 52 já ninguém mora. Lá dentro, aprisionado pela tranca, ficou o amor. Não sei se resistirá ao mofo e ao silêncio.

Sunday, July 01, 2007

(des)agasalho

Fotografia de Aguarelas de Turner

Vesti um agasalho quando os dias eram frios.
Não, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco. Lá onde chegavam ao fim as minhas folhas era como se um sorriso se soltasse de cada dedo; e cada dedo agarrasse o infinito.
Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.

E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.

Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?

São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.

Dizem que por baixo há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.

Tenho frio.

Sunday, January 21, 2007

"sol de inverno"


Foto e título gentilmente cedidos por Tinta Permanente


Prendem-se nos cabelos fios de espuma; e ficam, descolorando o fulgor das labutas antigas, agora em braçadas mais lentas.

Se estou cansada? Não me vês o cair dos braços? Mas ainda seguro a panela sobre as brasas e sopro. Prova! Prova que são boas!
Não me quero encostada à parede do fundo d’uma garagem à espera da morte. Nunca os viste? Basta que não possam mexer as pernas e zás, escondem-nos em buracos, fecham-nos a dizer que são lares aquelas caves húmidas. Antes a minha que é velha mas tenho lá nas gavetas a minha vida toda.

No início é um desejo quase lume que consome a precipitação tornando-a erro. Mas só depois a vista o descortina e o aponta; tarde demais e ainda bem. Se o futuro fosse uma tela transparente a emoção morria.

Tenho filhos mas eles têm a vida deles. Que mais dá? Não quero que me dêem ainda a sopa à boca, nem sei se dão, que a vida leva as pessoas para longe e a gente já não espera nada. Espera-se a morte, menina, espera-se a morte!

A meio caminho, quando as madrugadas acordam e chega a lucidez, intervalada pela cedência ponderada ou pelo ímpeto do desejo amadurecido, constroem-se as chegadas, calmamente. Compensação, às vezes; permuta consentida, diz depois a razão. Mas só depois.

Estou cansada, sim: aqui no ombro a dor ferra que nem cachorro bravo e formigam-me as mãos. O que me custa mais é não ter forças, senão começava tudo de novo... sei lá se fazia igual! A vida não escolhe a gente nem a gente a escolhe a ela e estes trapos pretos, já não sei bem por quem os visto... são muitos anos...

Tarde demais, diz a espuma nos fios dos cabelos encurtando o tempo e rindo-se do desejo. Compaixão e frio na placidez dos gestos, apesar do carvão aceso em dia de feira.