Sentados em cadeiras de fundos gastos, em salas pouco arejadas onde os encostam às paredes para que aguardem, calados, a chegada do fim, os velhos fecham os olhos e viajam no tempo. É um movimento ao contrário; em meninos projectavam-se nos dias que estavam para vir, agora não há dias para além do dia; já não lhes importa que alguém venha, depois de terem lutado em vão para que alguém os levasse. Agora ouvem, em registo longínquo, as músicas encantadas dos dias antigos ou sentem discretamente os beijos, de tão distantes. Agora recuam à infância e esquecem o que se passou ontem. Agora, destapam apenas as extremidades de uma pele que se gastou no fazer das coisas e que se amaciou nos afagos. E a mão forte, longa de agarrar, não é mais do que a mão velha que aguarda, de olhos fechados, o passar do tempo.
Tuesday, May 12, 2009
À espera...
Sentados em cadeiras de fundos gastos, em salas pouco arejadas onde os encostam às paredes para que aguardem, calados, a chegada do fim, os velhos fecham os olhos e viajam no tempo. É um movimento ao contrário; em meninos projectavam-se nos dias que estavam para vir, agora não há dias para além do dia; já não lhes importa que alguém venha, depois de terem lutado em vão para que alguém os levasse. Agora ouvem, em registo longínquo, as músicas encantadas dos dias antigos ou sentem discretamente os beijos, de tão distantes. Agora recuam à infância e esquecem o que se passou ontem. Agora, destapam apenas as extremidades de uma pele que se gastou no fazer das coisas e que se amaciou nos afagos. E a mão forte, longa de agarrar, não é mais do que a mão velha que aguarda, de olhos fechados, o passar do tempo.
Friday, May 01, 2009
espaços vazios
e as novas não se colam às palavras
ou as letras são poucas
ou o espaço cada vez mais amplo...
Sunday, December 21, 2008
em Dezembro...
Devastam-me os silêncios que atravessam as tardes de Dezembro
e a pressa com que o sol se põe quando aparece;
Afunda-me a luz crua da razão que traz o tempo e o projecta sobre árvores
de ramos completamente despidos e sem pássaros.
Antes me surpreendessem as noites mas nem isso;
nem tão pouco o reflexo no vidro da janela que não dá para lugar nenhum;
Contudo as manhãs prometem dias longos
ou é talvez o nada a convertê-los em intermináveis labirintos.
Monday, June 16, 2008
Reformulando as formas da lua

Era a propósito dos quadrantes da lua e eu perdia-me em narrativas de palavras levemente musicadas para produzirem o efeito harmonioso da leitura fácil. Dizia de quatro cruzamentos do astro com as marés e de quatro exclusões cicatrizadas. Dizia, como se diz na leveza das palavras fáceis, de um torpor de brisa e de uma paz de sossego inquieto. Dizia – invocando os quadrantes do vento – da orientação magnética, certeira depois de cada perda. Tudo em quadrantes de quatro fases, dizia, afirmando aos olhos a visão dos céus.
E digo agora, sob o peso da dificuldade de dias exageradamente quentes – dias que queimam a calma e deixam o rasto das cinzas no cabelo – digo agora, vencida a cegueira dos excessos, escritas na areia as certezas (não venhas ainda mar), lavradas em sílabas ditas, repetidas, repisadas; digo agora que nego a visão dos céus nos seus quadrantes e invoco os deuses mais antigos, pedindo-lhes os néctares do discernimento, para afirmar que a lua tem apenas duas faces.
E digo ainda que findou o tempo faseado em dois.
E depois disto a vista enrugou, encovou, enevoou; as ideias mascararam-se, quebradiças, informes, submersas; o tempo gastou-se em todos os relógios e deixei ir com ele os meus dois braços.
Wednesday, December 26, 2007
se alguma coisa rompesse a penumbra

como se fosse uma respiração mal conquistada
ou um coágulo maldito a bloquear a veia
que pulsa avassalando cada noite;
Nada me merece a vista; nada me aquece o frio dos olhos;
nada me surpreende a lassidão do estar,
nem tão pouco veneno que corre em regatos
ou a rosa branca pendente dos espinhos
Uma avenca rompe da fenda dos tijolos
e eu sinto-lhe o contorcer da força
como um pulsar exigente; o veneno da beleza
invadindo a penumbra que flagela a vida.
Sunday, October 28, 2007
Hibernação 1.
Basta reduzir a actividade ao mínimo exigido pela sobrevivência, respirar devagar, deixar o coração bater devagar, sentir baixar a temperatura do corpo, devagar. Ficar assim durante a estação fria, ouvir o cair da chuva ao longe, se houver chuva e deixar passar por cima das palavras adormecidas as folhas velhas.
Wednesday, July 25, 2007
Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo

Normalmente a estrutura já nos esmagou antes do acordar
Sabendo-se que o sono nunca é mais do que o refúgio.
Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo
Mas a tarde apenas fecha o dia
Quando a manhã se perde num desejo que foi ontem
Tudo inútil como um trapo velho
E ainda assim conservado, não vá um dia fazer falta.
Tudo em falta, hoje, tendo o ontem ficado atrás do sonho
Nunca se sabe se foi cedo ou se foi tarde
E o pior de tudo é deixar-se em branco o espaço do ponto final
E vê-lo sempre passar para a outra página.
Saturday, May 26, 2007
pálpebras pesadas
escreveram-me nas pálpebras

um conjunto inteiro de mentiras
e devem ter-me dito
para não pestanejar
às vezes, à noite,
quando tento manter abertos os olhos
com medo da verdade
há uma montanha
pousada em cada pálpebra
e eu resisto
olhando a floração das madressilvas;
se fecho os olhos
vai-se o viço tenro das guias
que hão-de fazer-se troncos
Saturday, May 19, 2007
antes da madrugada
os pássaros adormecem
e os morcegos
assustados
atiram-se contra as paredes brancas
deslizando
devagarinho
até ao chão.
Sunday, May 06, 2007
ligações difíceis
prendo as mãos na esperança
cravo os olhos no céu, sem prece que ampare a subida
entro no diálogo difícil dos elementos
desisto.
Thursday, April 19, 2007
projectos
primeiro deseja-se ter, depois deseja-se ser;não há regras que normalizem a mente; só talvez quando se tem o necessário ou quando se sobe o patamar do desprendimento.
houve dias, antes do conforto, em que desejei apenas amoras silvestres, depois a compota, depois a prateleira, depois a parede… depois a casa;
Tuesday, January 09, 2007
Amanhã tenho de voltar lá!
Eles entram. Tourada. Se eu não impuser autoridade ninguém se cala, mesmo depois de sentados – recados, mensagens no telemóvel, 'phones' nos ouvidos, mochila nas costas, cadeira que cai, ó stora olhe o Diogo!, stora posso ir ao cacifo buscar o livro?, stora não tive tempo de beber água, posso?, é pah, levaste nos cornos ontem, o Porto não sei quê, olhe lá o Paulo stora, PARVO!, PARVA ÉS TU!, aqui não se diz parvo, a stora ‘tá à espera, CALEM-SE, estúpidos. Daniel, quando eu precisar de assessor peço e pago, ok? Ordem e vamos começar, cadernos, canetas, livros e vontade de trabalhar, Ruben, tira os phones dos ouvidos, que mal é que tem, estão desligados, quero silêncio pelo menos durante os próximos cinco minutos…quantos livros há na sala – só? Paciência, um livro em cada mesa, mesmo assim há 5 mesas sem livro; mas viste o frango que o gajo deixou entrar, viste?, Cala-te … (entre dentes), stora não admito que digam coisas da minha mãe aqui (levanta-se)… eu não lhe disse nada ele é que é estúpido!... Consigo que escrevam o sumário que acabei por escrever eu própria no quadro (ou teria de repetir pelo menos 10 vezes) e a aula arranca. Começo a falar nos regimes autoritários dos anos 30, Ivan, presta atenção, se não queres ouvir não distraias o teu colega!, falo com a voz toda, uso o quadro, as mãos, os olhos, as fotocópias, os cartazes que trago ampliados, Marina, é na página 78, não mandei já abrir o livro?, peço que interpretem um imagem, Ana cala-te , mas eu não 'tava a falar, estavas sim, e presta atenção!, mas era só eu, não! os outros falam e eu é que pago porque sou preta?É sempre comigo é que se mete!… ah, é preta...e eu sou amarelo, e eu sou encarnado, e eu sou águia, e eu leão, cala-te lá com isso, fogo!, ignoro-os e continuo a falar da militarização dos regimes, peço-lhes apenas que interpretem as imagens, há material bastante e interessante para se chegar onde quero, Ana, é para te calares, não me ouviste? (continua a reesmungar), Já viram como a imagem mostra os militares em perfeita ordem, ANA!!!!!, outra vez eu! Fónix!... mas stora há um que está fora da fila! Ai... eheheh está fora da pila´?, é pah, é mesmo estúpido, isto é só para me provocar, stora, e ri-se, ela, piscando-lhe o olho. Insisto na autoridade que caracterizava os regimes dos anos 30, na repressão; vou direita ao holocausto, ou pelo menos era essa a intenção, queria falar de tolerância e respeito, de valores... gostava que percebessem como era a vida dos pais deles ou dos tios mais velhos, ou dos avós, a minha avó já é velha, a minha tem 80 anos, a minha tem 100, eheheh, 100 anos, parece que é tótó; não me diga que isto era assim, os cotas mandavam naquilo tudo? POIS MANDAVAM, não mandavam nada, quem manda aqui sou eu, Heil Hitler, Salazar também era amigo dele? CALA-TE PARVO, Cala-te tu, oh!, eu tenho dúvidas tenho de perguntar. Dou meia volta, conto até 10 em silêncio, explico qualquer coisa, quero continuar a falar, elevo o tom de voz acima das deles, stora posso ir lá fora? quanto tempo falta p'ra tocar?! Se ela vai eu também quero... stora é verdade que amanhã falta? Não falta nada!, falta sim, eu ouvi dizer... Engulo o desespero, faço das tripas coração, não suporto os risos das três que se juntam lá atrás, pouco me importa se é de mim que riem, mas duvido, devem estar a contar as novidades, ontem uma dizia para a outra que nem os ossinhos escaparam, comi-o todo; faço que não oiço, faço que não vejo, procuro entusiasmar-me e dar a aula para alguns que estão interessados. não, não podes ir lá fora, então quer que faça aqui? Ignoro. Continuo. Vejo interesse na atenção e custa-me a maneira como alguns, em silêncio, aturam o mesmo que eu, mas estamos em minoria. Joana muda de lugar, traz para aqui as tuas coisas, EU!!, Porquê?, Porque EU QUERO! Olha, g’and’abuso!!, Joana sai, se faz favor. Ainda por cima, uma pessoa não 'ta a fazer nada, os outros é que falam e eu é que saio... mas vai ver, vou fazer queixa ao Conselho! Preencho um impresso, tenho de chamar a empregada e mandá-la acompanhar a aluna à sala da "gestão de conflitos", mas preciso de escrever a razão da expulsão e mandar tarefa a cumprir. (circula por lá um inquérito de um grupo de trabalho para saber que tipo de actividades os professores desenvolvem nestas salas de gestão de conflitos, onde se pensa pôr a funcionar uma bateria de actividades de carácter lúdico-pedagógico). Enquanto faço isso já a turma se esqueceu, já se dispersou. Retomo o fio à meada, estou a falar da maneira como os regimes faziam a sua propaganda. Voltaram a engrenar, minimamente. Entra uma empregada com uma ordem de serviço para ser lida que menciona uns alunos a quem foram aplicadas penas. Corajosamente e depois de muitas suspensões e outros tantos paninhos quentes, aquele Bruno do sétimo ano acabou por ser transferido para outra escola: primeiro instruiu-se o processo, ouviram-se os pais, os professores, a aluno, etc, etc, perguntou-se à DREL se era possível, se a ministra não nos mandava prender a todos com aquela decisão, agora é preciso saber se alguma escola o aceita, não se vai deixar o "menino" em casa porque está dentro da escolaridade obrigatória e os pais não iriam aguentar! Talvez agora já se consiga dar aula naquela turma.
A leitura da ordem de serviço desestabiliza… era o que faltava, g’andabuso! Havia de ser comigo, partia a escola toda, foda-se! Ricardo sai, agora tua vez, eu também sei dizer asneiras, Ricardo, mas aqui na sala não as digo, ok? Repito os procedimentos…
Não tenho cara para continuar a sorrir, gostava de ser simpática ou carinhosa ou sei lá o quê, para com alguns deles, os que me olham, à espera. Mas não tenho palavras para continuar.
Uma vez uma médica, a quem me queixei da frustração que às vezes me causa vontade de chorar quando chego ao portão da escola e me apetece voltar para casa, falava-me das histórias da indisciplina nos hospitais e dos doentes abusadores e dizia: “nunca mais quis aquele senhor no meu gabinete!”.
Eu tenho de estar ali todos os dias, eles têm de entrar, têm de ter aulas, têm de ser bem tratados… têm de ter planos de recuperação se têm mais de duas negativas, ok, eu escrevo isso tudo nas dezenas de impressos que aparecem por mês.
Apetece-me fazer como fazem os pais deles “não me chateies, faz lá o que quiseres e deixa-me em paz”.
Continuo a aula. Ainda procuro falar da Mocidade Portuguesa e de como era impossível a uma geração que aprende na escola a divinizar o chefe, ter outra atitude que não fosse a do respeito. Gostava de os levar ao estabelecimento do contraponto: o antes e o agora, o extremo da autoridade e o extremo da falta dela. Noutros anos era possível, eles gostavam de ouvir as histórias, traziam testemunhos das famílias…
De repente: stora, a Irina peidou-se! E zás, o Jorge levanta-se e muda para o outro canto da sala. A Irina tem 16 anos, o Jorge também. ahahahah, a Irina peidou-se… eheheheheeheh…. e a Irina joga a cabeça para trás a rir-se muito alto. Cheira muito mal quando me dirijo para a porta. Fico ali encostada, sem palavras. A Carla goza: ai peidou-se, eheheheh, peidou-se ... riem todos… saio, volto a entrar, digo que não tenho palavras e que os quero ver desaparecer todos da minha frente. Pego nas coisas, fecho a porta e desço a escada. Bebo um copo de água, não converso, não conto, não digo nada; apenas escrevo uma folha para o Director de Turma, mais uma… dou uns passos por ali, já não suporto a conversa das mulheres, somos quase todas mulheres que falam muito alto. E depois passam os dez minutos do intervalo e pego no livro de ponto para voltar a subir a escada e entrar noutra turma. Cumpro o dia. Estou debaixo de telha, tenho emprego, recebo o 13º mês, ganho mais do que o ordenado mínimo...
Amanhã tenho de voltar lá.
Não vim aqui choramingar para receber mimo. Não quero que venham dizer que tenho razão ou que não tenho. Não digam nada, leiam apenas e não escrevam nada!
Fiquem a saber que isto não é uma lamúria, um desabafo, um grito de socorro, não, isto é apenas um chegar à noite e pensar assim: amanhã tenho de voltar lá. Aquela (esta) é a minha realidade.
Bem sei que poderia ter de estar a trabalhar ao relento de fato-macaco ou a lavar escadas ou a perseguir ladrões, arriscada a levar um tiro ou a assistir aos que entram na urgência deitados, sem lhes poder valer. Bem sei que trabalho é trabalho e que o ganha-pão na maior parte das vezes não é aquilo que se quer, que se gosta ou com que se sonha.
Garanto-vos que no meu caso funcionou o gosto e a devoção, depois da vocação, há 24 anos.
Faltam ainda quantos?
Sunday, January 07, 2007
Buscas

Limei-me em fios de navalha, gumes de arrasto e raiva, quando os tempos passavam rente aos olhos sem rumo, rodas abertas de assombro.
Arranquei as crostas sempre antes do tempo ou as feridas instalaram-se em má carnadura, marcas ferradas em telas frágeis.
Bebi em malgas de aresta, contacto rugoso com lábios que secavam na contenção do pranto, superfícies ásperas a macerar flores mordidas.
Talhei bolos de terra e água contra a parede irregular do fundo do quintal e entalei os dedos no portão de ferro, vergão a doer sem lágrimas.
Pulei as cercas da imaginação, parada no mesmo lugar, sem que ninguém soubesse, fantasmas no escuro sobre o peito e eu deitada.
Puxei para cima da cabeça o cobertor dos Invernos de pés frios na humidade das paredes escassas, cheiro soluçado a casa triste.
Tapei os ouvidos com um crivo esburacado e contive o grito, tristeza amontoada em cruz nos olhos, riso frouxo na névoa.
Assanhei a voz para dentro, estilhaços de rouquidão sobrepostos, a pesar nos escombros da vontade.
Vesti asas e fingi voos enquanto a outra se colava ao chão, peso a mais sobre as pernas magras, escarpas entrecortadas por abismos a amedrontar as descobertas.
Roubei o sossego aos deuses e converti-me em tempestade, neblina, maré em fundo cinza, espuma desfeita.
Sunday, November 26, 2006
Dezembro = Incómodo
Comecei cedo e já enquadrei objectivos em matrizes, antes de enquadrar imagens e equacionar a exigência, diminuindo-a cada vez mais, não vá a frustração dos resultados ser tão grande como a desta manhã de sábado; acordei tarde e o frigorífico está vazio. Começa a pesar-me a consciência por ter dormido mais uma hora.
Agito o dia, agito a pressa; ponho as compras no porta-bagagens e quando o vulto se aproxima digo apressada: "Hoje não, hoje já não dou mais nada a ninguém". Ele diz então que dará ele e deixa-me nas mãos um cartão com desejos de um Bom Natal. E sorri depois, quando eu torço as mãos para desfazer a curva e sigo em corrida. Tenho pressa. Penso no assunto ou sigo? Era para recuperar toxicodependentes ou para lhe alimentar o dia?
Dentro do supermercado já as renas me tinham enfastiado e as cercaduras de bolas brilhantes eram excessivas. Música de Natal e gente de olhos enrolados nas prateleiras à procura das prendinhas; desculpe, desculpe, quero chegar à fruta e ao leite mas a estratégia é colocar na entrada tudo o que não faz falta e mais os miúdos do banco alimentar que não deixam escapar uma só pessoa sem lhe porem nas mãos um saco. Por que é que tenho de ser eu?
Sou privilegiada por não cumprir a saída diária depois das seis da tarde? Ao serão compenso e não me deito sem ter na pasta os materiais que saem destas teclas e de uma imaginação quase gasta, quase apagada, para que a manhã seguinte não me apanhe desprevenida.
Ao sábado, porém, deveria ir ao cinema. Ou ver o mar. Não tenho camisas para engomar nem quem as vista e ainda bem porque posso prolongar o serão sem me chamarem para a obrigação nocturna com hora marcada. Alívio!
Agito a pressa, agito, agito, agito. Se vou ao cinema tenho de passar pela multidão que se passeia pelas montras à procura das prendinhas; e ver o brilho das bolas presas ao verde fingido das árvores de Natal. Se vou ver o mar falta-me tempo para os papéis amontoados na secretária. E, pior do que isso, vejo no mar os Dezembros que passaram... e a memória do som dos risos e do cheiro dos fritos e das luzes a piscar nas árvores de Natal do passado nunca me animam.
Dezembro traz sempre o mesmo incómodo, anos a fio, anos a fio…
Friday, November 24, 2006
Neblina na hora tardia do serão, enquanto chove.
Salvador Dali - City of Drawers
Declina o dia e com ele os retalhos emendados na neblina destes pensamentos velhos; não gosto do anoitecer precoce quando a hora se faz tardia nem deste gosto embaciado do serão inútil. O gato roça-se e aninha; e eu sem serenar remexo nas entranhas da saudade e vou organizando os papéis eternamente dobrados sob a tentativa da harmonia.
Dezembro aproxima-se no vento que hoje assaltou o meu quintal enquanto eu recuso o cansaço e digo que está tudo bem. Detesto as trivialidades mas também não me apetece que me tomem pelo destaque das palavras semeadas nos alfobres das minhas inquietações. E no entanto alimentei a terra antes das sementes e cuidei delas com o desvelo de quem só harmoniza a geometria das construções no momento em que o dia já percorre a outra latitude.
Não me apetece repousar o corpo sabendo que dentro dele a paz foi tomada de assalto pela desagregação das frases estruturadas a preceito; repousarei as mãos, apenas, depois destas palavras. A mente é mais tenaz, não cede, não se deita, não se deixa levar nem leva em si mais do que os retalhos emendados teimando em dizer inteira a fórmula da saudade que é a forma repetida do sonho sem uma única incógnita por resolver.
Deito o corpo, prometo; deito-o ali ao lado, na largura da cama, estendo-me serena; e depois enrolo-me em mim apertando o pesadelo: sei que hei-de começar a queda lá em cima, no topo das escarpas e que vou acordar ainda a meio, pela manhã, quando tudo recomeça.
Tuesday, November 21, 2006
Pôr fim à dor ou trazer mais dor? (eu não sei a resposta!)
Sim, podia até colaborar na morte como bênção, como finalização digna de uma vida vegetativa onde a qualidade, para além de não existir, nem pode ser avaliada pelo ser que está vivo porque de um vegetal se trata. Seria o desligar da máquina. Ponto final.Sim, podia colaborar na morte como bênção, como finalização de uma vida sofrida, sem perspectivas como era a de Ramon Sampedro, vinte e cinco anos de um ponto final no mais leve movimento físico: “ un tetrapléjico es un muerto crónico que tiene su residencia en el infierno”, disse ele, ou deixou escrito, desesperado pelo reconhecimento de um suicídio assistido porque nem as mãos o socorriam para levar à boca o veneno mortal, à falta de pernas que o levassem a um lugar qualquer. Seria o satisfazer de uma vontade de pôr fim ao nada. Ponto quase final … ficando por saber da minha coragem para o acto “abençoado”.
Sim? Sobre uma criança? Uma criança com deficiência profunda, com os dias de vida contados, em fase terminal e sem esperança de retorno? O meu filho ou a minha filha?
Para mim que vivi o drama de uma deficiente próxima que quase me ficou em herança porque a longevidade instalou-se ali como que colada ao corpo deformado de um ser semi-gente… semi-nada…
Teoricamente parece fácil, mas quando tem de ser a nossa mão a decidir…
Na Holanda (é sempre na Holanda) fala-se nisso. A polémica está instalada:
Reviveram os médicos alemães dos anos 30?
Mas…
Vale a pena ser privado de vida própria para toda a vida porque se teve um filho que não tem vida?
O que é que vale a pena nesta vida tão curta e tão pesada onde a matriz judaico-cristã nos deixou acreditar que o sofrimento liberta, ou é saudável, ou dignificante, ou encaminhador da vida eterna…
Sunday, November 05, 2006
... entre a porta e a lua cheia
Tenho sempre a sensação de ter ficado à porta. Entre a porta e o tempo que vai escurecendo as paredes. O lado de dentro. Entre a porta e a lua cheia que as marés transportam. Chamam-me do lado de fora as marés de arrasto e eu firmo os pés.Tenho sempre a sensação de ter uma porta entre mim e o que não fiz; entre mim e o que não faço. E um relógio nas mãos.
Procuro com os olhos um lugar especial, um lugar como o lugar antigo onde o tempo não deixa regressar. Queria sentar-me, inteira, do lado de dentro, na calma de um lugar paciente. Tenho saudades de estar completa nos risos e nas brincadeiras a quatro, quando éramos quatro. Saudades que o tempo agrava em vez de aligeirar.
Vejo-me; observo-me; ali entre a porta e o lado de dentro onde nunca estou inteira. E no lado de fora está sempre uma temperatura que me incomoda.
A lua ao alcance das mãos e eu entre o abrir e o fechar da porta.
Frases elípticas; frases de não sair daqui, de não chegar a lugar nenhum.
À porta, sem saber para onde dirigir os ponteiros do relógio.
Friday, September 15, 2006
ciclos, círculos e linhas rectas
A vida é feita de ciclos ou anda em círculos. Menos na duração, que essa é uma linha recta a sumir-se na continuidade que nos fica ao lado direito que, sendo futuro, não deixa de ser imperfeito e acaba num ponto final. Não é verdade aquilo dos infinitos que nos ensinaram na escola. Maldita matemática que nos engana redondamente, argumentando com a coerência interna, quando nos obriga a deduções lógicas.Deve ser por ter iniciado agora as tarefas rotineiras, ainda há tão pouco tempo quebradas e aliviadas.
Mas antes não era assim; parece que tudo se transformava em novidade e eu vibrava com os começos das mesmas coisas confiando na minha capacidade para mudar a visão do que parecia vir a ser igual.
E eu, que senti o calor do verão como um castigo, sinto agora o fresco que se aproxima como a vingança do tempo, no seu voo irónico..
Tuesday, August 29, 2006
"mulher fragmentada"
Ela fez o desenho e ofereceu-mo. Pediu um texto e ele saíu, verdadeiro, mas um pouco forçado nas rimas...Fui tecida num tear de madeira crua e depois enformada num invólucro de numeração errada, um número abaixo das minhas dimensões. Cheguei ao mundo apertada.
Cresci com vontade de saber o que estava para além do fim da rua mas tive sempre medo de atravessar a floresta e descobri-la desencantada. Nasci incrédula.
Compus-me de timidez, fio a fio, linha tecida e retorcida numa mente insatisfeita mas contida; devo ter crescido encarcerada.
Aos poucos fui vestindo tecido acetinado, enfadada de tanto me encerrar na pequenez herdada. Pequenos complementos em fios de seda, escondidos, sentidos, vistos; e depois o gosto de me sentir recompensada.
Sorri quem sabe ser desejada. Investe quem tem um espelho grande e tece nele linhas cruzadas, desenleadas pela sublime sensação de ser amada.
É claro que fui feliz, da paz dos dias novos ao nascimento da prole desejada. Casa cheia de gritaria numa alegria abençoada.
Não sei se é problema deste espelho, ou se sou eu que me vejo numa imagem desfocada, mas os fios com que me visto agora são estas linhas quebradas, fios enleados, emaranhados, mal acabados …
Onde está a parte que me falta, as partes que me compõem: o corpo, as pernas, a cintura antes tão bem desenhada, as minhas mãos engenhosas e a saia fantasiada?
Não, não me digas que é uma tristeza inventada. É que a casa está vazia, tudo agora é um espelho descomposto, ou são os olhos que o quebraram e eu estou nele assim fragmentada.
Desalentada?
O coração está inteiro! Direi ao espelho que recomponha a minha parte apagada.



