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Friday, March 19, 2010

entre a mente e o coração

foto de Elipse

Gotejantes, as sílabas combinam-se
simétricas, vivas, renovadas
e sentam-se alinhadas, à beira do poema
pingos de tinta em tina de água limpa.
Jurei que lavaria as mãos e me sentaria
no degrau da espera sem ouvir o tempo
mas desejei sucumbir à emoção.



Thursday, February 14, 2008

o colo que cria ou a criação do colo

Picasso

Pus-me em segredo no teu colo e tricotei um rosto

e assim sonhei ternura
e bordei trevos às escondidas.



Saturday, January 05, 2008

dias ásperos


Modificações, mudanças, promessas, cinco tostões de ódios já digeridos e outras coisas sem valor amontoadas a um canto, histórias que nunca mais se repetirão, as melhores e as outras, e a vontade a acender-se contra as rugas das paredes; ásperas também as recordações e os desejos, esses menos porque toda a tempestade amaina, tarde ou cedo; e as vidas a resolverem-se, nem bem nem mal que o bem-estar alheio só o é para os olhos menos avisados; tomara ter a menos o peso do lastro que fica fechado entre muros ou ser herdeira de portas encerradas e estar para lá das fechaduras, sem esta demora na ousadia ou esta vontade miudinha de desistir, que a vida não pode adiar-se nem fechar-se entre o sol filtrado e o gelo que se instala quando cai a noite.

Saturday, June 09, 2007

... à espera


Sabias, se me escutasses, que aguardo o verão com a ansiedade do guerreiro na hora da batalha ou o desassossego da adolescente antes do grande encontro; como se tivesse estado de joelhos, durante toda a noite, atenta ao murmúrio do oráculo e fosse agora o momento de desvendar o enigma.

Sabias, se me adivinhasses, de uma existência mais do que escrita nas folhas de um caderno ou de um palavrear de insatisfação em linhas curvas; como se as palavras fossem eu e quisessem vida depois de anos amarradas aos cabelos da esfinge, exposto agora o desejo à nudez do amanhecer.

Sabias, se me visses, do viço dos rebentos em vésperas da floração, ou da energia de uma estrela mal pousada no espaço, a querer abraçar a terra; como se o romance não tivesse ainda começado mas o seu halo já pairasse por cima da pose inquieta e do fogo a arder nos lábios.


Tuesday, May 29, 2007

Não estejas triste...


Não estejas triste, a vida não parou para ninguém
Ou antes, vive a tristeza por um dia e depois canta
Vês lá ao fundo o rio?
Ele tem margens e vai revolvendo o lodo velho
E, tu sabes, o mar que te espera é muito grande.

Eu também morri uma vez nas paredes de uma casa
E balancei-me depois num barco à deriva
Lembras-te dos tombos?
Amanhã não haverá mais vento a fustigar-te o rosto
Pelo menos a nortada vai aliviar. Tu sabes.

Wednesday, May 16, 2007

é durante a madrugada que as folhas crescem


Já de madrugada vieram os pássaros em chilreios de despertar
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer;

Para lá da porta conseguia ver-se o verão incendiando as planícies
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia, ave desabrida

Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora a esperança se converta em pressa
E queira ultrapassar o fim dos labirintos.

Tuesday, September 26, 2006

... que foi que me disseste?

Depois passaram dias, muitos dias, disse eu como só os velhos dizem quando contam histórias que os outonos agigantam; e dos dias passados ficaram memórias aplacadas pelos ventos de todos os quadrantes, sementes perdidas nas dunas a aguardar as gotas de água.
E depois dos dias embrulhados nas memórias, gravados nelas como riscos afundados no lado de dentro da pele, diz o acaso que aos olhos não falta muito para verem a luz dos dias novos; que às mãos está destinado o toque mágico do final do dia e que o beijo é capaz de voar a distância e fazer-se calor no momento da chegada.
Se vieres do lado do mar estarei no cais. Se for ao contrário serei barco. Ao fim de uns dias um e outro encontram-se. Invariavelmente um parte. Ou partem-se os dias, despedaçando-se os sentidos. Não importa. Nada no mundo pode deixar de ter sentido enquanto os dias passam.
Se me disserem que vivo de encantamentos acredito.
Ilusórias são todas as palavras e o que nelas passa a símbolo não é mais do que a construção de quem as lê. Mas a mim que as escrevo e nelas me fascino, não me preocupam os sentidos.
Basta que o dia chegue.

Saturday, July 15, 2006

Esta noite venceu o aroma esverdeado


Hoje mudei o ângulo de observação, sentei-me do outro lado e encarei a fachada sob o efeito do aroma das flores que abrem à noite.

Isto promete, foi o que pensei, enquanto me desprendia das camadas de pó que me obscureciam o vestido.

Só então me apercebi que estava vestida de verde.

Sunday, May 14, 2006

Abrir o espaço

Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.
E foi nesse exacto momento que alisou os gemidos; meteu-os no bolso de um casaco velho e guardou-o para quando chegassem Outonos a pedir lágrimas.
Ouviu o eco das palavras a dizer que nunca se fecham portas e pensou que sim, que nunca se eliminam memórias porque elas coabitam entre si e o apagamento não sabe de escolhas.
Imaginou que um café tomado à beira-rio podia ajudar os olhos a ir com as águas, a foz ali ao lado, abertura de espaço, para começar o dia. E foi.
Na outra margem crescia o casario; gente, muita gente, pensava, gente que adia decisões e se enrola no passar das horas.
Sabia de angústias, de noites mal dormidas, de amigos calados à espera das palavras para decidirem das respostas, ou antes, das propostas. Também sabia de marés vazias e das ondas a dizerem depois “que não, que não, que não tens culpa”. Contemplação de céus para matar o tempo de espera.
Depois foi tempo de dar as mãos de novo. Não é que as soltasse de si; era apenas a vida a crescer de dentro para fora. E a licença expressa para ser feliz naquele instante.

Wednesday, April 12, 2006

Abrir o verbo


Às vezes é o tédio que se instala de tanto os afazeres deixarem de ser gratos; como se a repetição dos gestos agastasse e o cansaço do fim do dia nascesse com o sol.

Outras vezes é a metamorfose que tarda. Assisto, espectadora, à permanência da forma e não me apetece contrariar o desagrado. Custa amainar a vontade ou fazer dela a vela de um navio torcendo-se contra o vento.

Também acontece que o verbo se fecha quando devia arredondar-se sobre os vértices das pedras, fluindo nem que fosse por teimosia.

Ponham vinho na mesa. Já oiço o tinir dos copos; acompanhem-me mortais, que me fartei de solidão.

Aguardemos o efeito da mudança e o reforço dos vidros ao cair da tarde. Manhã serôdia mas ainda a tempo de captar os ângulos das marés donde emergem relvados em pleno viço.

Saturday, April 08, 2006

Não há ecos no vazio

Botticelli


Deves ter ouvido os teus murmúrios soprados por Zéfiro e embora digas que não há ecos no vazio sabes que são os silêncios que propagam as vozes. A verdade é que a concha não estava fechada e a tua casa não é lá dentro. Por isso é que as palavras acordaram, quando a deusa te mostrou a Primavera nas grinaldas de mirtilos e agitou no manto o cheiro a flor de laranjeira.
Acorda Vénus. Deixa esse ar de quem está prisioneira em pensamentos e aproxima o olhar. A paisagem é plana, modesta, fresca em verdes e azuis suavizados pelos \/\/\/ das ondas e a Hora tem os pés pousados em espuma. Mas repara que o filho do deus do vento carrega uma ninfa com a harmonia de quem flutua porque só o amor tem asas.

Sunday, March 19, 2006

Para onde?

Escher

Pousei as mãos sobre a mesa e soltei as imagens inventadas.
Disseram que abrindo as portas chegaria ao meu destino, ou descobri-lo-ia. Mas devagar.
Disseram que as mãos têm de sair de dentro das gavetas. E eu trouxe-as, sim, mas o pó da espera ocultava-lhes a forma e mesmo desdobradas eram ainda espessas. Tudo obscuro e indiferenciado.
Todos os começos são assim.
Não sei se me apetece abrir as portas. Do que me recordo, sempre, é de querer passar por espaços demasiado pequenos para a dimensão do meu corpo físico. Por vezes, porém, passei as paredes saltando-as. Nessas alturas creio que as asas funcionaram.
Recordo-me também de escadas, para além das paredes.
O mais certo é ficar fechada por detrás de um muro que deixa passar os sons de fora para dentro, aninhando-me na dissimulação.
Ou tentarei as escadas.

Saturday, January 28, 2006

Inspiração sobre aguarelas


Trouxe-te de novo as cores, amiga. E aproveitei as circunstâncias (as minhas, que de outras não sei) para umas palavras que hoje nada têm de belo.
É natural (e desejável) que daqui a dias venha mudar o registo.

Gostei de ver as Aguarelas de Turner no novo espaço.




(Picasso)


Primeiro vão querer ver-te inteira. E saber como a tua forma te enforma.
Depois dirão que podes ser mais do que uma. Di-lo-ão sem que ouças. Mas é pior porque começas a temer que a exigência te ultrapasse.
Muito cedo serás tu a exigir. Dirás para ti, também sem que te ouças:
Multiplica-te, diversifica-te, geometriza os teus papéis e decalca-te neles pintando com cores discretas as margens de cada um.
Divide-te, desintegra-te, distribui abraços, dá os braços, reparte as mãos por quem te solicita, agita e parte o tempo.
Esconde-te, resguarda-te, espreita, aproveita o recato e observa. Não te mostres sem que te desejem.
...
Dir-te-ão sempre que foi insuficiente.


Em todas as circunstâncias colocarás a fasquia acima da tua cabeça.

Dirás sempre que foi insuficiente.

Friday, December 30, 2005

Quase



Veste a brisa, veste a alma; veste-te de brisa; veste a mágoa de flores e aguarda os frutos. Aceita.
Abre as gavetas, abre os desejos; abre os sentidos. Desdobra as folhas secas e dá-lhes terra fresca. Rejeita a ira.
Tropeça na chuva, tropeça no pranto; levanta-te e ilumina esse espanto em que a luz tropeça quando te foca; e se te espantas é bom ainda.

Mudaste as roupas, mudaste o tom, mudaste o rumo; muda o sentido. Muda o sentir.

As estações sucedem-se e sucede que é bom ainda; veste o desejo; veste-te de alma.
E acalma.