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Tuesday, June 17, 2008

Pregar aos peixes

Foi um Visionário, um diplomata, um pregador da Capela Real, um conselheiro avisado, um humanista, um lutador pelo respeito da dignidade humana, à frente do seu tempo, e um artífice, como houve muito poucos, da palavra dita e escrita.
(excerto do enunciado de um exercício da Prova Escrita de Português, hoje, a propósito do Padre António Vieira)


É Visionário quem efectivamente vê para além do visível.
O Padre António Vieira via, na cor da pele do outro, não o sinal da diferença geradora da recusa que leva ao domínio, mas tão só o sinal do respeito que um ser humano adquire à nascença.
Era também um conselheiro avisado que advertia os governantes num manejo assertivo da palavra escrita, arte de apenas alguns, os que são depois lembrados pelos séculos dos séculos: “ou vedes ou não vedes: se o vedes como o não o remediais e se não o remediais como o vedes?”, escrevia Vieira no século XVI. E dizia, pregando aos peixes: “Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam 100 pequenos, nem 1000, para um só grande.”
E hoje?
Sujeição ao politicamente correcto; respeito institucional, cumprimento da lei, preconceito, ganância, medo.
O politicamente correcto espartilha-nos na polidez imposta; o respeito institucional limita-nos nos anseios de sobrevivência; o cumprimento da lei cega-nos a criatividade; o preconceito envenena-nos a racionalidade; a ganância faz com que nos continuemos a comer uns aos outros como se o mundo acabasse amanhã; o medo bloqueia-nos a acção.
Por que incentivo à fuga?
Não se trata de culto gratuito ao desrespeito mas sim de defender o pensamento e a razão, valores quase perdidos numa sociedade virada para as tecnocracias e para a facilidade do ir atrás dos outros. Questiono as atitudes, não o dever de cidadania.
Onde está a valorização do lado humanista de cada um de nós?

Tuesday, February 19, 2008

às vezes é o que apetece...

“Quando a última carruagem saiu do pátio de entrada de Queluz, o que um dia fora um retiro sagrado da realeza começou a ganhar o ar de edifício condenado. Da coluna em movimento lento, o palácio via-se cada vez mais longe, as paredes molhadas pela chuva já não pareciam imponentes, as sebes aparadas, a intrincada escultura dos arbustos, as fontes e as estátuas esvaziadas de poder simbólico.
Na cidade um enorme número de pessoas movimentava-se entre o emaranhado de ruas e (…) apinhava-se no cais (…).
Na manhã de 29 de Novembro (1808) foi dada ordem para levantar âncora. (…) Atrás de si, o esquadrão real deixava um cenário desolador; bagagens, papéis ensopados em água e caixotes abandonados espalhavam-se pelo cais; a lama, muito pisada, começava a secar, deixando marcas da recente agitação – um caos de pegadas, torrões e linhas em espiral. Entre os detritos jaziam artigos inestimáveis do património da coroa, deixados para trás na pressa de partir. Coches luxuosos com arreios em belíssimo estado, muitos ainda cheios de valores retirados dos palácios, estavam parados nas docas vazias; catorze carradas de prata das igrejas foram abandonadas aos franceses e os sessenta mil volumes da biblioteca real da Ajuda espalhavam-se na lama (…)
Podemos nunca vir a saber ao certo quantas pessoas conseguiram embarcar na frota, mas parece que cerca de dez mil saíram de Portugal para o Brasil, na primeira vaga – um número impressionante se tivermos em conta que a população de Lisboa naquela época não ultrapassava as 200 mil almas. A um vasto séquito de cortesãos – cirurgiões reais, confessores, damas de honor, guarda-roupas do rei, cozinheiros e pagens – juntava-se a melhor sociedade lisboeta – conselheiros de estado, sacerdotes, juízes e advogados, juntamente com os seus familiares. Do núcleo original da coroa e dos funcionários governamentais, subornos e pedidos de favor tinham alargado o grupo para incluir funcionários subalternos, homens de negócios, familiares distantes e penduras variados. (…)”
Patrick Wilcken, Império à deriva, ed. Civilização, 2004

Monday, October 08, 2007

Eslovénia





É de facto um país pequeno e pouco populoso – um pouco mais de 2 milhões de habitantes, estando cerca de 1 milhão e meio na República da Eslovénia e os restantes dispersos como minorias nas regiões fronteiriças com a Itália (Friuli-Venetia Giulia e Trieste), com a Áustria (Carinthia), Hungria (Porojabe) e Croácia.
Resultado de um longo processo histórico cujas últimas mudanças ocorreram em 1991 – quando se tornou um Estado independente – e em 2004, quando se torna parte da União Europeia, a Eslovénia é uma surpresa para quem, como nós, se habituou a ter apenas uma fronteira a leste. Aqui o resto é mar e é no mar que está parte da nossa História. Lá, há toda uma riqueza de influências que são o resultado de movimentos sucessivos de povos e do cruzamento de ideias e culturas diferentes.
Foi tardio, ali, o despertar da consciência nacional. O peso do Império Áustro-Húngaro foi longo e só depois da Primeira Guerra Mundial surge um esboço de projecto político.O papel das minorias? Grande, porque foi das comunidades que viviam no exterior deste espaço que veio a força organizativa que visava impedir o extermínio da etnia eslovena pela Jugoslávia federal. Ocupação militar e depois tentativa de neutralização da língua foram as estratégias tentadas mas a resistência surtiu efeito e hoje não é só no solo pátrio que os eslovenos o são: são-no também nas regiões fronteiriças onde, apesar de minoritários, a língua, os costumes e o direito de se ser esloveno está consignado na lei.
E depois é surpreendente como uma cidade pequeníssima (Maribor) tem uma Universidade tão grande e tão organizada e tão cheia de departamentos de tudo e mais alguma coisa. Para não falar no teatro e na ópera e nessas coisas que não estamos habituados a ver funcionar entre nós.
Cansada da distância, mas mais rica depois de ter lá estado.
E sim, correu tudo muito bem!



Sunday, September 30, 2007

A Intolerância

Um dos casamentos de D. Manuel

Tudo começa quando o rei D. Manuel, para satisfazer os «escrúpulos religiosos» de D. Isabel – a noiva castelhana filha de Fernando e Isabel, os Reis Católicos – decide expulsar os judeus do território nacional.
Os cronistas relatam pormenorizadamente a questão da expulsão, descrevendo os pareceres – que o próprio monarca pediu – divididos entre os que eram favoráveis à permanência dos judeus em Portugal e os que defendiam a sua expulsão.
Diziam os primeiros que se o papa permitia a permanência deste povo nas suas terras, tal como o permitiam a Hungria, a Boémia, a Polónia e a Alemanha, por que não seguir-lhes o exemplo? A expulsão levá-los-ia directamente para o norte de África onde a esperança da conversão se perderia e, pior do que isso, onde eles iriam ensinar aos mouros os “truques” a usar contra os cristãos. De igual modo o rei perderia serviços e tributos e o reino perderia talentos.
Diziam os segundos que se a França, a Inglaterra, a Escócia, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia os expulsaram e sendo Portugal vizinha de Castela e de França, corriam-se sérios riscos de se verem prejudicadas as relações com estes países. Por outro lado as vantagens, tendo em conta os tributos e os serviços que podiam prestar ao reino, eram menores que os riscos que se corriam.
Tomada a decisão, no início de Dezembro de 1496 o rei determina: “que os judeus se fossem do reino, com suas mulheres e filhos e bens, mas também os mouros pelo mesmo modo", para que lhes limitou o tempo e lhes nomeou os portos de embarque.

Friday, September 28, 2007

A tolerância

Lisboa no séc. XVI

Desde a criação do Reino de Portugal até à promulgação do Édito de Expulsão (1496) supõe-se que terá havido um clima de relativo convívio entre as populações cristãs e judaicas; a existência de judiarias (sempre que a comunidade era superior a dez elementos) nem sempre foi extra muros, embora com o passar dos tempos se tornasse comum essa localização.
Sabe-se que D. Afonso Henriques nomeia um judeu como seu almoxarife-mor.
Os primeiros reis protegem-nos e contam com eles (e com os mouros) para o povoamento do reino, por isso são-lhes dadas terras, assistindo-se a uma certa prosperidade social e económica em virtude desse clima de integração. Muitas vezes são utilizados como diplomatas ou espiões dos reis portugueses, entre os turcos e os mouros, pela facilidade com que se relacionavam com os poderosos no comércio.
D. Manuel chegou a recorrer a Abrãao Zacuto, conceituado astrónomo judeu expulso de Espanha, para saber da possibilidade de uma viagem até à Índia.
Chega a questionar-se este ambiente de tolerância religiosa sob a alegação de que a violência constitui um traço central da relação entre cristãos, judeus e muçulmanos, uma violência exercida de forma constante na vida quotidiana.
De facto há conhecimento de vários assaltos, particularmente o de 1449, ocorrido na judiaria grande, em Lisboa; porém, também há notícia de medidas exercidas sobre os cristãos que roubam. São episódios esporádicos e, ao que parece, não directamente relacionados com questões religiosas.
Até ao reinado de D. Manuel a convivência foi, pois, relativamente pacífica.
Sobre a comunidade mourisca sabe-se pouco. Seriam uma minoria de condição modesta a viver em mourarias, diminuindo em número durante toda a Idade Média, devido à conversão e assimilação progressiva de uma parte (mínima) e à emigração para a Espanha Islâmica e Maghreb. A maior parte destes mouriscos constituíam mão-de-obra escrava.
No Paço Real havia músicos mouriscos que cantavam e tangiam com alaúdes e pandeiros, charamelas, harpas, rabecas e tamboris – ao som dos quais dançavam os moços fidalgos durante o jantar e a ceia.
Além de bailarem, ocupavam-se de serviços do campo, tratavam dos animais e cozinhavam. Podiam dedicar-se ao comércio mas se o faziam era para vender produtos de raiz agrícola, vinho, azeite ou fruta seca. Quando escravizados podiam constituir sinal de riqueza para quem os possuía: podiam ser emprestados, oferecidos ou mesmo constar nas heranças dos seus donos.
As mulheres faziam o acompanhamento de senhoras em saídas festivas, trabalhavam na seca do peixe ou como lavadeiras: a limpeza da cidade era assegurada pelas mil "negras da canastra" enquanto outras mil carregavam água dos chafarizes para as casas: um vintém para o senhor e outro para a trabalhadora escrava ou forra. Mil e quinhentas lavadeiras e ensaboadeiras por conta de outrem – “mulheres e negras” – tratavam da roupa de seus donos.

Monday, September 24, 2007

Sem tempo para nada





Durante uns dias não consigo fazer mais nada.

Por agora circulo entre luzes e sombras... enquanto me preparo para ouvir falar sobre Discriminação e Tolerância, no âmbito da temática das Minorias.

Também vou falar mas não é sobre blogues, nem sequer sobre poesia. É acerca das minorias em Portugal no século XVI, particularmente Judeus e Mouros.


Depois de regressar dir-vos-ei como foi.

Wednesday, April 25, 2007

Conta como foi

O que mais me custa, passados 33 anos, é o distanciamento a que vamos ficando dos acontecimentos.
Os mais novos podem sempre dizer que foi assim, mas não estiveram lá.
Sim, é o passar do tempo e toda a História se faz de relatos; mas os factos são manipuláveis, dependendo da intenção ou até da emoção de quem o faz.
Para mim, há uma verdade. Aquela que testemunhei porque estava perto. E... dar vivas à Liberdade fazia tanto sentido!
Por mais que tente não consigo explicar aos mais novos o que era viver sem ela. Não há termo de comparação para eles...





Tuesday, March 20, 2007

A dimensão ecológica do Imperialismo

Polinésia


Visões novas da História velha.
É fascinante a maneira como outros olhos vêem as mesmas coisas. Não que nunca as tivéssemos pensado, não é isso! É o desenho feito com outras cores, às vezes as mesmas que costumamos usar, mas noutros esboços.
Há uma dimensão ecológica no colonialismo. A instalação dos europeus no mundo não europeu acarretou muitas e variadas catástrofes – erosão dos solos, tempestades de pó, desaparecimento de espécies animais e vegetais, introdução de outras, importação de modelos paisagísticos…
Eram paraísos as ilhas (e ainda o são, pelo menos nos mitos) e todos os lugares situados abaixo dos trópicos. Lugares semelhantes a um qualquer Éden onde se encontrava o sossego mas também a possibilidade de pôr em prática a exploração capitalista, fosse de um cultivo rentável, fosse da rentabilização da actividade turística, se quisermos aproximar-nos das ambições actuais.
A expansão imperialista vai provocar profundas alterações nos sistemas ecológicos: a introdução do cavalo nas Américas, dos coelhos na Austrália ou até das simples batatas na Europa mudou a ecologia do planeta. É claro que não foi a primeira vez que tais mudanças alteraram a ecologia à escala planetária; o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, no Neolítico, devem ter feito “estragos” maiores; porém, o ritmo de aceleração e a escala a que as mudanças ocorreram nestes últimos séculos não tem comparação possível.
Jardins decorativos cheios de plantas exóticas alimentavam o imaginário barroco e depois o romantismo, por isso a procura de novas espécies intensificou-se nos séculos XVIII e XIX: Cook e Bougainville viajam nessa busca e o espaço sub-tropical é devastado, como o são as vidas dos seus habitantes.
A História cultural da Natureza é tão significante como a História ecológica da cultura.
História ambiental? Pode ser que sim, que esteja a surgir uma nova área de estudos. Pelo menos trata-se de um campo de estudos interdisciplinares que envolve as relações entre cultura, tecnologia e natureza.



Os Impérios 2.

D. Manuel I

Tudo começa com a instalação dos países ibéricos nas ilhas atlânticas, no século XIV.
A partir daí a Europa achou que tudo lhe era possível. Progressivamente a extensão do sistema global faz com que os europeus acreditem que não há fronteiras para o comércio, primeiro, e para a instalação política, depois.
Primeiro são as ilhas desabitadas; depois as terras dos outros que vêem sair de barcos com asas os deuses brancos, ameaça que os antepassados previram e anunciaram. As armas favoreceram o domínio e a partir daí assistimos à marginalização, à escravatura e depois à extinção das pequenas culturas indígenas. Desde as florestas às espécies animais, passando inevitavelmente pelos homens, o domínio europeu impôs-se destruindo mais do que construindo. Ou se alguma coisa construíram foi sempre em prol dos seus interesses “civilizacionais”.
No Oriente, porém, a imposição era menos fácil. Quando muito havia a possibilidade de domínio dos circuitos comerciais, com a chegada da pimenta à Europa, via rota do Cabo, a preços mais baixos e o consequente desvio dos centros económicos das republicas italianas para Lisboa.
Mas isto foi só o começo.
Muitos Impérios se constituíram depois disso como se o modelo romano herdado pudesse ser retomado e continuado.
D. Manuel intitulava-se Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia.
Dos Algarves, sim, que eram as terras do ocidente andaluz (al garb al andaluz); d'aquém e d'além mar também, porque Ceuta e as outras praças marroquinas podiam ser o começo do alargamento da terra e da fé (é difícil de estabelecer uma ordem entre elas); senhor do comércio e navegação era desejo de um rei “venturoso” que mandou para o Índico as embarcações que iriam estabelecer o nosso domínio sobre as rotas muçulmanas. Engano de quem governava com os olhos no Tejo, mas ainda assim sem ter saído a barra. Megalomania condizente com a pequenez amaldiçoada…

Wednesday, March 14, 2007

Os Impérios 1.


Estou de partida mesmo.
Por uns dias.

Vamos falar de Impérios, em Brighton.

Depois conto...

Sunday, March 04, 2007

Sobre a globalização

imagem daqui


Comentário promovido a post


A preponderância de modelos e a sua transposição, às vezes cega, para outras culturas, não será também resultado de uma, quase íntrinseca, falha narcísica?


Saturday, March 03, 2007

Globalização

imagem daqui

O corpo é o lugar onde antropólogos e historiadores registaram maior influência do estabelecimento de modelos “globais”, podendo dizer-se que o crescimento das manufacturas na Europa Ocidental, a partir do século XIX, é o imperativo económico que comanda esta uniformização
A mudança nos hábitos do corpo leva a que rapidamente tenhamos os funcionários japoneses do regime Meiji (1894) vestidos à maneira Ocidental, para que a integração nos imperialismos seja perfeita. Porém, o uso do fato passou a trazer também a uniformização dos procedimentos burocráticos e uma marca interna de confiança e respeitabilidade associada ao modelo.
É nesta altura que o uso do relógio se estende a toda a Europa e respectivas colónias possibilitando uma standartização do tempo. Até as cidades indianas começam a ter grandes torres com relógios que regulamentavam o tempo e o ritmo do trabalho e dos negócios.
São ligações multilaterais as que se estabelecem desde que a Europa inicia o seu processo expansionista, no século XVI e isto a que hoje chamamos globalização não é de agora.
Desportos como o football, o rugby e o cricket são levados da Europa para o resto do mundo e da Ásia vêm para o mundo ocidental o pólo e o hockey; os padrões de cozinha, a etiqueta e a diplomacia política partem da França; do mundo Germânico são os conceitos de ordem bem como o conhecimento científico e humanístico.
Depois os jornais fazem o resto: de cerca de 3168 jornais em 1828 passa-se a cerca de 31026 em 1900. E também o telégrafo, que liga em 1863 a Europa à Ásia e em 1866 ao outro lado do Atlântico.
Tomika Te Mutu, o chefe Maori da tribo Ngaiterangi, da Nova Zelândia, deixa-se retratar vestido de fato e gravata, o que contrasta significativamente com as tatuagens que lhe cobrem todo o rosto e as penas que ostenta na farta cabeleira.

De que se fala, então, quando se fala de globalização?


Estou a ler Christopher Bayly, The birth of the Modern World, London, Blackwell, 2004


Monday, December 18, 2006

Lá onde nunca estiveste é que está a sorte...



“Dort wo Du nicht bist, dort ist das Glück.” (Goethe)

Atravessar as fronteiras é coisa que os gregos já faziam e o seu estatuto não era muito diferente daquele que têm hoje os cidadãos estrangeiros: chamavam-se “metecos” todos aqueles que vinham de outra cidade-estado, sem que a mistura alguma vez fosse possível.
Os germânicos, esses levaram a tarefa mais a sério e acabaram por dar início ao processo do nascimento da Europa, depois de destruído o Império Romano.
A fixação de um povo, em massa, num determinado local, muda (quase) tudo: os Normandos formaram a França, os Ostrogodos o espaço italiano, os Visigodos andaram por aqui na mistura da qual nós resultámos, os Saxões arranjaram o seu espaço para lá do Canal da Mancha… enfim… a Europa foi-se “fazendo” e depois desfazendo e refazendo.
Há dias a polémica das fronteiras deu para o “torto”, na Bélgica, quando a parte flamenga brincou em directo com a declaração unilateral de independência da Flandres.
Ontem sobreviveram 25 dos cento e tal senegaleses que se aventuraram em direcção às Canárias, numa jangada.
As migrações são tão velhas como o primeiro homem, são parte da História, são, aliás, um elemento da História trans-nacional. As razões são várias, não sei se as conseguimos enumerar: exílio, trabalho, perseguição política ou religiosa, busca… busca daquele lugar em que não se está, aquele lugar onde mora a sorte.
Os primeiros a chegar não se questionam: nunca vêm para ficar, talvez voltem, quem sabe. Depois têm filhos e os filhos aprendem a língua, fazem amigos, integram-se na escola. São estes que se perguntam: “quem sou eu?”; “serei desta terra ou de uma outra que os meus pais têm como referência?”. São estes que se fragmentam entre dois mundos, não sabendo se a sua identidade está aqui ou lá: se está lá o que fazem aqui? E se está aqui, por que não podem ter e ser o que os outros têm e o que os outros são?

A questão que deixo é esta: como é que estes movimentos migratórios lidam com a identidade histórica de um povo?


Monday, December 11, 2006

We must go away to find ourselves and then we must return home

Reikjavick

A Europa envelhecida, a que antes descobriu e dominou outros mundos, a contar histórias de Impérios.
Curiosa esta Europa que treme diante de um boião de creme na mala de uma cidadã que apenas quer manter a pele hidratada num país frio. Um creme hidratante poderia transformar-se em nitroglicerina e fazer explodir um avião. Ou… quem sabe, dentro do soutien podia estar escondida a pólvora!
Noutros tempos as bombardas disparadas das naus matavam infiéis e talvez não tenha tido importância nenhuma que milhões de africanos tenham sido levados para lá do Atlântico.
Hoje a Europa queixa-se de um défice populacional e sabe que precisa de abrir as fronteiras aos que nada têm para além da vontade de partir. Nada de novo, afinal nessa vontade: as migrações são tão antigas como a história dos homens. Porém rejeita-os depois, a pretexto de que o trabalho falta para os naturais. E preocupa-se em mantê-los nos seus lugares: integrados no mundo do trabalho; cidadãos contribuintes para manterem o visto no passaporte; porém, coesos nos seus hábitos porque a globalização da informação não os deixa perder o contacto com os lugares de origem. Nem sei se interessa a integração ou a assimilação - não sei bem que palavra usar. Às vezes, muitas vezes, veda-se-lhes a entrada. Chega de invasores, diz a Europa.

E aí temos a multiculturalidade apregoada há décadas. Ou aí a tememos?

No intervalo lembrei-me que estava noutro mundo. O lago estava gelado. O sol nasceu às 11 horas da manhã e às 4 da tarde era já noite. A luz era, aliás, sempre frouxa e as cores eram outras. A única coisa que sugeria claridade era o branco da montanha. E o frio. O frio também é branco.

Mas a Europa… o que é a Europa?
Tão diferente o gesticular da espanhola e a posição rígida do finlandês, sentados à mesma mesa!
Como acertar conceitos: integração, aculturação, assimilação… que significado têm as palavras para o italiano ou para a islandesa?
Metodologias comuns no trabalho documental com que fazemos a História? Difícil a questão.
Falta-me saber se a Europa é uma unidade ou uma diversidade para além de tantas outras coisas que me faltam ainda saber para poder saber alguma coisa.

Sunday, December 10, 2006

Europe and the World

Háskóla Íslands - Universidade de Reikjavick

In the world there are two kinds of people: those who stay and those who leave.


O tópico seria de grande utilidade para qualquer tipo de desenvolvimento. Entrava bem na minha tendência para as generalizações (que, na maior parte das vezes, partem de mim e a mim retornam) como daria um excelente poema ou uma excelente página ensaística.
Serve, contudo, para dizer que trouxe pano para mangas da Universidade de Reikjavick e que prometo desenvolvimentos e fotografias para os próximos dias.
Por agora - e porque amanhã de manhã a minha realidade são adolescentes ainda pouco sensíveis a este tipo de abstracções - fico-me por aqui. Vou tentar assentar as poeiras. Ou antes, os efeitos dos flocos de neve que o vento arrastava em assobio, ontem, ao fim da tarde que era noite quase desde que o dia nasceu.
Depois virei falar das migrações e daquilo que eles disseram: uns mais ou menos imperialistas; outros mais ou menos conscientes de que a Europa multicultural pode não durar muito mais anos…
É que estou mesmo muito cansada e o dia ainda não acabou.

Wednesday, October 11, 2006

Aristóteles - Sobre a Educação

É claro que venero os gregos.
Em linguagem mais ou menos lírica, na medida do meu próprio estilo, tenho deixado aqui hinos aos deuses. Sabe-me bem louvá-los na sua harmonia e na perfeição das suas formas. A figura humana é de uma beleza admirável.
Gosto também das simbologias presentes nos mitos e das suas explicações fundadoras.
Contudo, há outros aspectos que não merecem menor destaque no modo de pensar dos antigos gregos e as palavras de Aristóteles que hoje aqui deixo estão mais actuais do que nunca:


Que o legislador se deve ocupar antes de tudo da educação da juventude, isso ninguém pode contestá-lo. E efectivamente os Estados que se desinteressem deste dever causam um grave dano às respectivas constituições, pois é necessário que a educação recebida seja adaptada a cada forma particular de constituição. (…) E dado que há um fim único para o Estado no seu todo, é evidente que também a educação deve necessariamente ser uma e a mesma para todos, e que o cuidado de a assegurar cabe à comunidade e não à iniciativa privada; (…) E não é sequer exacto pensar que um cidadão se pertence a si mesmo; na realidade, todos pertencem ao Estado, pois cada cidadão é uma parte do Estado, e o cuidado de cada parte está naturalmente orientado com vista ao cuidado do todo.”
Aristóteles, A Política

Friday, October 06, 2006

evolucionismo e/ou criatividade?

Quantas milhas terá Calatrava percorrido, desde o engenho romano ...




Ponte de Lima (ponte romana sobre o rio Lima)

Bilbao (ponte pedonal sobre o rio Nervión)

Tuesday, October 03, 2006

Bilbao



Espelhei-me em vidro robusto, inteira nas convicções, confiante no domínio das palavras. E tudo foi acontecendo, desde os passeios descontraídos que a cidade permitiu, à exibição pública do resultado de esforços entrecortados por deveres quotidianos, meses a fio.
Agosto foi de recolhimento; algumas vezes de desespero; agora é já Outono outra vez, parecendo ter-se cumprido um ciclo de destemperos. Foi por isso o tempo certo para fazer saltar para fora da curva elíptica a natureza graciosa que invento e visto em dias de voz cristalina. Tudo dobrado no recorte da água. Tudo numa sala fechada no espaço mas aberta ao mundo ali presente e às ideias que chegaram até mim como se fosse ainda e só adolescente curiosa.
Venho enriquecida desta viagem à Universidade de Deusto, onde o saber parece forrar as paredes antigas dando-lhes ainda mais imponência. E creio ter enriquecido também o conhecimento dos outros. É tempo de registar sem dramas a chegada do Outono e procurar nele as cores do sucesso.
Não tem de ser o brilho metálico e desalinhado do Guggenheim. Contudo, na irregularidade das linhas e das formas achei a coerência e a beleza que a água espelha.


Tuesday, May 23, 2006

País desfocado ou um todo que é uma parte que não interessa a ninguém

Glórias... as da permanência no Índico, à força de guerras sangrentas para saquear a pimenta e as outras mercadorias que vinham para enriquecer a corte.

E as do futebol... nos sonhos.

Bandeiras... os estandartes exibidos na frente das batalhas contra os mouros no Norte de África, em razão da razão divina.

E as mais belas... nos estádios.


Arte... a de furtar. Nossa, muito nossa.



"As artes, dizem seus autores que são emulações da natureza; e dizem pouco, porque a experiência mostra que também lhe acrescentam perfeições. Deu a natureza ao homem cabelo e barba, para autoridade e ornato; e se a arte não compuser tudo, em quatro dias se fará um monstro. Com arte repara a mulher as ruínas que lhe causou a idade, restituindo-se de cores, dentes e cabelo, com que a natureza no melhor lhe faltou. Com arte faz o escultor do tronco inútil uma imagem tão perfeita que parece viva. Com arte tiram os cobiçosos, das entranhas da terra e do centro do mar, a pedraria e metais preciosos, que a natureza produziu em tosco e, aperfeiçoando tudo, lhes dão outro valor. (...) Não perde a arte seu ser por fazer mal (...) e tal é a arte de furtar (...) que é ciência verdadeira, porque tem princípios certos e demonstrações verdadeiras para conseguir seus efeitos. (...) E se os ladrões não tiverem arte busquem outro ofício por mais que a este os leve e ajude a natureza."
Anónimo (do séc XVII), Arte de Furtar


Não tenho espaço para os exempos possíveis, mas esta notícia lembrou-me muitas outras situações em que este país parece uma coisa desfocada, quase sem existência, ou reconhecendo a sua incapacidade nas opções que toma, como é o caso daquela que leva a Badajoz as mães portuguesas para terem filhos no outro lado da fronteira.


Wednesday, May 03, 2006

Os Maios da Liberdade


Já têm mais de dois séculos os Maios da Liberdade, festas comemorativas da República e da soberania popular francesa no período da Revolução.
Comemorava-se o que calhava: as vitórias, a juventude, a velhice, a agricultura, entre muitas outras coisas. Bastava que o povo se juntasse em massa, espontaneamente, para que elas ocorressem, sem preparação prévia nem sujeição a qualquer lei ou instituição. Cantos, danças, banquetes facultavam entre as gentes revolucionárias francesas o contágio afectivo que tornava a sociedade mais harmoniosa e os homens mais iguais.
Plantavam-se as árvores da liberdade, tradição que radica, certamente, nas festividades pagãs da celebração do equinócio da Primavera. Era como se a multidão, reunida, propagasse a ideia de unanimidade de que a Revolução era portadora.

…depois vieram os poetas e cantaram o Maio.


... e nós aqui, sem saber o que esperar dos Maios que estão para vir.