Tuesday, October 14, 2008

Cantata de Outono

foto de Elipse

Não é por não te ter… é mais pelo castanho-claro das folhas que o vento empurra pelas ruas e pelo calor húmido que o ar carrega entre portas, onde o sossego exagera de tanto ser por fora e a inquietação por dentro.

Não é por não te ter… é mais pela crueldade diária do espelho matinal; pelo pó que se acumula na parte superior dos livros fechados, nas estantes; pela marca dos passos no mármore do chão; pela tinta que se vai gastando de tanto esconder o branco dos cabelos.

Não é por não te ter… que ter-te seria um excesso a todas as horas, não sobrando espaço para o sossego discreto que me aplaude a criação, de vez em quando.

Não é por isso, não. É pelo espaço reproduzido no vazio, pelas horas que o relógio multiplica, pela constância do silêncio a prolongar-se na mesma direcção, pelo sentido obtuso do riso unilateral, pela música sem eco no canto da sala cansada da cor dos móveis, pelo excesso de sossego em vez da festa, pelo desejo mal arrumado no canteiro adiado das sementes, pelos laços desfeitos nos presentes que ficam nas montras, pelas palavras que ditas seriam ouro e escritas ganham um peso inútil.

Não é por isso, não. Ter-te, à distância, seria ter ainda alguma coisa e mais a esperança de não definhar calada.

8 comments:

peciscas said...

Um belo e melancólico texto, sobre uma certa forma de solidão que o próprio Outono estimula.

leonor costa said...

" É pelo espaço reproduzido no vazio..."
É isto que estou a sentir no momento...

Beijinhos.

mfc said...

A melancolia é própria de quem é sensível... e há um certo prazer nela.

CNS said...

A aguarela melancolica de Outono...


um beijo

addiragram said...

Não é pela posse, é pela necessidade vital da partilha.

Claudia Sousa Dias said...

belo o teu texto,mas para comentá-lo na perfeição eu teria de ser o addigram...

CSd

Fatyly said...

Como te compreendo...e pode-se aplicar a qualquer estação do ano.
Melancolia...sinfonia que dói!

Mar Arável said...

Por vezes só

mas nunca isolado

Gostei do seu texto