Wednesday, January 02, 2013
ruínas
Tuesday, January 01, 2013
Agasalhos de uma só estação
Vesti um agasalho quando os dias eram frios.
Não, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco.
Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.
E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.
Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?
São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.
Dizem que, por baixo, há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.
Tenho frio.
Sunday, March 18, 2012
Cárcere
Tuesday, February 07, 2012
Genocídios e afins

Wednesday, November 09, 2011
Tempo
Tuesday, November 01, 2011
Preocupações
Faz parte do meu dia-a-dia falar das personagens da História aos mais jovens, fazendo também parte da profissão de fé não emitir juízos de valor.
Não é muito fácil evitá-los quando se trata de acontecimentos ainda recentes. Chamar carniceiro a um qualquer chefe militar persa ou louco a um imperador romano não ofende ninguém.
Pior é ter de ouvir aos mais jovens hinos de louvor a ditadores como se o discurso dos seus avós passasse ao presente sem pagar portagem.
O que lhes digo é que se Salazar voltasse eles não poderiam entrar na escola com as calças a cair pelo rabo. Depois falo-lhes do ditador e do enquadramento de massas que o regime determinou de forma a ter cidadãos moldados para o cumprimento dos deveres pátrios.

O meu problema é apenas um, neste momento: como vou poder ainda raciocinar em função dos meus valores?
Que dizer agora, quando comparo o período da primeira república com os últimos trinta anos… e as medidas do Estado Novo com as do actual governo?
Bem sei que a Europa é que comanda mas também o salazarismo teve o seu contexto europeu, nos seus inícios.
Assustei-me com o cheiro a militares nesta história da Grécia e disse para comigo: “a confusão vai engrossar!”
Tuesday, October 18, 2011
Discurso proferido em 27 de Abril de 1928, no acto da posse de Ministro das Finanças.
Agradeço a V. Exa. o convite que me fez para sobraçar a pasta das Finanças (...). Não tomaria, apesar de tudo, sobre mim esta pesada tarefa, se não tivesse a certeza de que ao menos poderia ser útil a minha acção, e de que estavam asseguradas as condições dum trabalho eficiente. (...)
Esse método de trabalho reduziu-se aos quatro pontos seguintes:
a)que cada Ministério se compromete a limitar e a organizar os seus serviços dentro da verba global que lhes seja atribuída pelo Ministério das Finanças;
b) que as medidas tomadas pelos vários Ministérios, com repercussão directa nas receitas ou despesas do Estado, serão previamente discutidas e ajustadas com o Ministério das Finanças;
c) que o Ministério das Finanças pode opor o seu «veto» a todos os aumentos de despesa corrente ou ordinária, e às despesas de fomento para que se não realizem as operações de crédito indispensáveis;
d) que o Ministério das Finanças se compromete a colaborar com os diferentes Ministérios nas medidas relativas a reduções de despesas ou arrecadação de receitas, para que se possam organizar, tanto quanto possível, segundo critérios uniformes.
Estes princípios rígidos, que vão orientar o trabalho comum, mostram a vontade decidida de regularizar por uma vez a nossa vida financeira e com ela a vida económica nacional. Debalde porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de varinha mágica, mudassem as circunstâncias da vida portuguesa. Pouco mesmo se conseguiria se o País não estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários (...) Eu o elucidarei sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos os elementos necessários ao juízo da situação.
Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar.
(...)
Tuesday, October 11, 2011
Saturday, May 15, 2010
saltos em corrida

Era para evitar o precipício, nem que fosse no sonho mal dormido.
Acabei sentada no fio dos gumes.
Era para usar sapatos rasos e caminhar serena.
Acabei ofegante na inclinação do plano.
Era para deixar o registo de cada queda.
Sem memórias não podia ceder ao pudor ou estranhar as repetições.
Era para não forçar nada a não ser a salvação.
Arrastei todas as águas e todos os rochedos.
Ao ficcionar corria o risco de apagar as marcas escondendo-me nas páginas como se disfarçasse a identidade.
A consequência é morrer na vertigem por não saber dosear os momentos.
Monday, May 03, 2010
precipício

coragem e desafio ou apenas rumor de asa sem traçado de rumo nem fronteiras;
colina de viço e delito ou apenas natureza fulgurante em dia de primavera;
tinir de silêncios e melancolia de muitos lutos ou apenas lábios cerrados a pedir acordes novos;
poema novo ou talvez muito mais do que apenas solidões e ecos presos nas margens enquanto as águas correm no leito sem desvios;
tempo de hospedar no peito o sonho...
ou apenas tempo de partir...
Sunday, May 02, 2010
veio do mar...
Monday, April 12, 2010
O poema da dor
Trazes a cruz dos dias e das noites e a mancha amarga da tristeza que os deuses não ouvem; o rastejo da flor esmagada e o pomar prematuramente seco, o dilúvio de uma chuva que secou na foz e a nuvem transfigurada do silêncio agredido.
Trazes contigo o medo e sobre ti o cardo maduro, as palavras da resignação e o porquê dos sentidos sempre acesos.
Transportas um penhasco roubado às marés vivas e uma espiral de pesadelos rubros, a lápide da força e a prudência dos segredos.
Migram em ti as asas e as penas, a folhagem primaveril e o pilar quebrado, a robustez da arquitrave e a triangulação por apagar.
Que serei eu face à variação devoradora do teu sentir? Que farei no terreno da fronteira com a dor?
Não sei se deveria ter entrado mas já me vi em aparição na encosta onde os cardos te ferem.
Serei caminho ou luz ou tão apenas mão encostada à tua.
Sunday, April 04, 2010
Universos vazios
Sedes antigas. Ou antes, nunca uma sede igual a esta, nunca uma ânsia a agigantar-se assim na corrente dos dias, nunca uma desordem tão perfeita.
Sedes muito amplas e muito antes de todas as coisas perderem o sentido e o reverso; sedes de espuma e terra e oceano e astros.
Como posso ignorar a narrativa se ela e só ela me traduz o nunca de todas as coisas, o silêncio-rosário a correr entre os dedos.
Evadindo-se o pulso e o pulsar, restam as folhas de papel e as pausas, umas e outras matéria do mesmo universo vazio.
Friday, April 02, 2010
Prisão
Teia da espera, teia do estar por estar.
Teia elíptica, ácida, áspera.
Coisa colada ao nome das coisas com fios de simulação.
Substância difusa, resguardo obscuro alinhado conta o estar.
Corola desfeita pelo sopro do tempo. Versão original de uma arte extinta.
Ardil sangrento sobre a sepultura de um cântico redentor.
Prisão. Tecida pelo lado de dentro.
Friday, March 19, 2010
entre a mente e o coração
simétricas, vivas, renovadas
e sentam-se alinhadas, à beira do poema
pingos de tinta em tina de água limpa.
Jurei que lavaria as mãos e me sentaria
no degrau da espera sem ouvir o tempo
mas desejei sucumbir à emoção.
Sunday, March 07, 2010
Palavras (ainda) com chuva
embora o lastro pese ainda, trágico, incómodo, flagelante
e as palavras tenham chuva sobre as sílabas
dizem os poetas que as águas cantam os amores e correm calmas
mas nem sempre as janelas se abrem sobre os jardins;
às vezes o verso é demasiado profundo e cava
a própria natureza grita e as pedras rugem
a lembrar que abaixo há ainda a humana condição
e só depois a madrugada;
ou o uivo das folhas que o vento arrasta antes de derrubar as pontes
e só depois o regaço onde se curam as feridas.
Thursday, February 25, 2010
Regresso

Perguntei-lhe vezes sem conta se as palavras lhe estavam a fugir. Que não, que era apenas o vómito.
Não percebi muito bem, mas não fiz mais perguntas. Aguardei apenas.
Passou quase um ano.
Trago-a agora de volta, depois de ter rejeitado a ideia de a recriar, de lhe dar outra forma e outra natureza; depois de resistir mesmo à tentação de a colocar noutro espaço.
É que ela é daqui.
Thursday, June 04, 2009
Perspectiva...
Monday, June 01, 2009
Batem-me à porta e eu estou sentada
Batem-me à porta ao de leve, mesmo que o ferro toque o ferro, que os materiais ganham veludo quando lhes ordenamos o silêncio e ficamos presos na raiz dos pés e nas amarras de outros fios invisíveis que as paredes teceram no quadrado do silêncio.
Batem-me sempre à porta os fios das letras, com mão fechada em punhado de palavras e eu aguardo a noite, suspendo o ímpeto e fico sentada jogando as peças como se a vida fosse ainda a primeira onda no areal da manhã.
Batem-me à porta os caminhos de um mundo abraçado à vontade dos que podem partir e o fecho não descola da ferrugem do estar.
Wednesday, May 13, 2009
Vestidos de pedra
Demoro-me nas linhas das palavras, secas as letras, lento o rastejo.
Demoram-se-me os gestos, mais do que seria de esperar, na dimensão dos verdes e nos espectros que os enleiam. Ignoro os nomes das coisas e o texto enrola-se. Presença inútil a da música.
Petrificam-se as emoções; e a espuma dos sonhos, macilenta, térrea, despida de substância, é pedra igual.
Os ângulos dos dedos ferem a coragem; não há paz nem na sombra, nem nos claustros.
Roça a dor na demora dos gestos; fio de meada enleada, larva em casulo seco, veludo desbotado. Pedra.
Inquieta-se a lucidez, fermenta o rasgão no espelho, perde-se a semântica dos sentidos.







