Thursday, September 11, 2008

Ficcionar 5. (afogando a consciência)


Deixa ficar como está, não retires nada. Eu não cairia na tentação do relato tão romanceado. Não penso que a chegada ao quarto tivesse sido o momento mais importante da história. Contudo tinha-te sugerido que alongasses a descrição das cenas de amor.
Se captaste o silêncio estás em condições de passar ao momento anterior, imaginando que foi apenas naquele momento que nela se fez aquele alívio e tomou a decisão. É certo que só o que vem depois justifica a ousadia e ambas sabemos que o que vem depois não é necessariamente a recompensa. Foi talvez por isso que a manhã do dia seguinte despertou neles a consciência da escassez do tempo. Isto se permitirmos que a consciência tenha entrada nesta história, sendo que o melhor é deixá-la onde o preconceito lhe dá voz de comando e afogá-los a ambos no mar. A imagem surgiu-me quando ela me descreveu o caminho que fizeram juntos para chegar à praia mas fica bem aqui esta imersão das inquietações.
Não te peço que descrevas o azul do mar; o mar é sempre azul quando o céu está limpo. Mas não deixes de mencionar a tromba obtusa que emergia da transparência das águas. E ela a fugir-lhe, a fugir-lhe.
Neste ponto a protagonista pedir-te-á ajuda. Terás de intervir, poderás até entrar em diálogo ameno para que se percebam as conexões entre o mundo real e o mundo possível. Na possibilidade ela desejaria que tudo começasse e acabasse ali, sem mais espaço nem distância, resolvidos os elos de outros afectos. Na realidade, terás de ser tu a resolver as situações com as palavras. Tu, que escreves.

6 comments:

© Piedade Araújo Sol said...

andei a ler tudo.

estou a seguir.

gosto imenso como consegues colocar as frases sempre tão ricas.

obrigada pela partilha!

beij

Claudia Sousa Dias said...

eu...!estou em transe...


CSD

Fatyly said...

e eu rendida ao fluir da tua escrita optando pelo silêncio.

Mónica said...

sim, sim a ordem nem sempre é a que se conta. e por causa disto e daquilo introduz-se a pincelada que não vem ao momento mas até calha bem. e o leitor gosta :D

Mónica said...

a consciência e a racionalidade da protagonista são f***** :DDDD mas é de certo isso que lhe dá a graça que tem

Mónica said...

decerto?