Monday, September 08, 2008

Ficcionar 4. (captando o silêncio)

foto de Elipse

Não se podia dizer que o quarto fosse acolhedor. Os quartos de hotel são sempre iguais. A diferença está exactamente na maneira como o dizes. Podes deixá-la à entrada da porta, ainda a colocar na ranhura o cartão que permite que as luzes se acendam; mas também podes deixá-la no escuro, já livre da pega da mala de viagem, entregando-se ao beijo que tardava. Agora sim, livres para soltarem as outras palavras, eles deixavam no silêncio o encontro dos lábios e das mãos. Mas não digas assim a saudade tão rente à pele, não te desvies tão flagrantemente da intenção do relato. O teu ofício não é narrar o que aconteceu, mas representar o que podia ter acontecido. E aqui era necessário que a colocasses à entrada da porta e que as luzes deixassem ver as marcas fundas das horas de viagem nos olhos; pintados de azul, como ele lhos louvara na primeira vez, fascinado pela presença de outro mundo naquele olhar.
E ele? Onde o colocas no espaço do quarto de hotel?
Não esperes que te diga tudo, concebe a trama; mas para a história ser verosímil deves deixá-lo também ali no reflexo que a lua fazia na janela, porque o quarto era num dos pisos superiores; no elevador ela tinha já roçado ao de leve nos seus lábios e ele fechara olhos.
Depois ela perguntou mais uma vez porquê e ele voltou a beijá-la.
Captaste o silêncio? Era importante que o fizesses porque no relato terás de escrever tudo em voz muito baixa para não quebrares o encanto do momento em que fizeram amor.



6 comments:

addiragram said...

É no silêncio que se alojam as mais valiosas pérolas. Continua...

© Piedade Araújo Sol said...

este texto deixou-me, sem palavras.

belo.

beij

Claudia Sousa Dias said...

estou a imaginar os diversos cenários...


CSD

Fatyly said...

.......
.....
...

e fiquei em silêncio

Mónica said...

a anti-história ou os bastidores da história

Eclipse com Amor said...

....(Silêncio)

Obrigada por este texto tão belo.
Não sabemos quem és, mas és um artista das palavras!

Um abraço

Lua e Sol