
Os anos passavam e eu perguntava-me, sempre que colhia as laranjas ou as apanhava do chão, grandes, maduras, vivas, onde estarias e como seria a tua vida. Via ainda a espingarda de madeira nas tuas mãos brincalhonas, mas já procurava o teu nome nas listas dos alunos que frequentavam a minha escola, sabendo que os anos nos teriam mudado as feições de miúdos e que não seria possível reconhecermo-nos se nos cruzássemos na rua. As turmas eram só femininas ou só masculinas lembras-te?, mas naquele dia em que o senhor ministro visitou a escola e nos enfileiraram no corredor, de bandeirinha na mão, menina ao lado de menino e menino ao lado de menina, a comitiva toda a passar e nós compenetrados na nossa missão de infantes da Pátria, quase como os militares que desfilavam antes de embarcarem rumo às Áfricas, como a televisão mostrava, fazendo chorar a minha mãe, naquele dia eu procurei-te com os olhos, pensando sempre que podia ser possível descobrir-te. E dar-te as ler as cartas vindas de França.
11 comments:
amanhã venho ler este texto com calma. hoje, deixo-te só a mensagem: pois sim, há desgarrada! :)
beijuuuuu
...árvores, laranjas e espingardas de pau, e eu a lembrar-me dos barcos do cheiro dos gasóleos das algas e do gritar dos pássaros.
Vá lá tentar perceber estas associações.
Beijo
Sempre gostei das memórias dos outros, talvez por não ter muitas...
Adorei!
Beijos
As laranjeiras eram o meu esconderijo preferido... eram as que tinham a copa mais fechada!
A melancolia de vez em quando assalta-me, mas sorrio para ela!
Tinha uma em casa da minha avó onde eu me deitava a ouvir os melros em cima de uma manta sobre um colchão de fetos. o perfume a rosmaninho pairava no ar juntamente com o monótono zumbido das abelhas numa tarde de preguiça...
Beijinhos
CSD
A 1ª ilustração da "desgarrada"já chegou. As próximas...o tempo o dirá.
Há sempre um tempo perdido dentro de cada um de nós.Se o conhecemos ele não nos surpreede
Palavras,
... tão liquidas e calidas as memorias! assim como um orvalho à superfície daquilo que somos. A dar-lhe brilho.
Adorei.
Abracicos!
Parabéns pelo lindíssimo poema que passa hoje no Aguarelas de Turner.
É de uma coragem tocante!
mas queria que continuasses esta memória. o que diziam as cartas?
fiquei enleada nestes rigorosos enleios teus.
somos, como dizes, irmãs nas cartas e não só, digo eu.
soube-me a pouco, mas soube-me muito bem, este teu texto.
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