Sunday, July 15, 2007

No 52 já ninguém mora




A sugestão veio daqui.

A inspiração veio dali.


Quando por lá passo afasto os passos, como se me fosse ainda penoso espreitar os dias. Piores as noites, não as primeiras porque dessas ficaram raios de sol e búzios a murmurar segredos ao ouvido. Segredos bons, segredos do prazer aprendido a dois, rendição ao amor descoberto nos gestos novos, nos arrepios da pele sob os lábios inflamados, no gemer contido ainda pela estranheza do sentir.
Quando por lá passo preferia não passar. Não fosse este apelo dos passos a conduzir-me direita ao lugar de todas as coisas e eu fugia, escapava-me por entre a maré de memórias misturadas em azul e negro, os olhos baços perante as luzes intermitentes e ele a pedir-me perdão; e a ter de ir, de mãos presas e olhar assustado.
Nada fazia sentido. Nada faz ainda sentido a não ser a impossibilidade da casa ser lar.
Agora passo ao largo como se espreitasse não os búzios mas as pedras, as dores do frio das pedras a entranhar-se na memória. Passo de passos largos, a fugir de um aroma que se fez passado, a lembrar o dia em que o levaram dos meus braços; e as lágrimas em silêncio num pedido de desculpa surdo e côncavo.
No 52 já ninguém mora. Lá dentro, aprisionado pela tranca, ficou o amor. Não sei se resistirá ao mofo e ao silêncio.

14 comments:

RB said...

Talvez resista ao mofo e até ao silêncio. À solidão é que ele não resiste de certeza, só se ficar preso numa memória como bolor incrustado numa parede,

Toze said...

Obrigado amiga Elipse, gostei muito deste "duro" texto :)

Um Beijo

addiragram said...

Como sempre, a esplêndida capacidade
de dizer a dor da perda e da separação!

Mustafa Şenalp said...

ÇOK GÜZEL BİR SİTE.

mfc said...

As memórias não desaparecem,mas consegue-se conviver com elas.

Claudia Sousa Dias said...

lindo...

...forte.


A fazer lembrar um relato de Sepúlveda.


CSD

peciscas said...

Amiga: hoje parto daqui emocionado.
Não só pela beleza das palavras mas pela inspiração que as motivou.
De facto a condição que o Zé "Prisas"( e os seus companheiros de reclusão) assume neste momento, é merecedora da nossa compreensão e da nossa solidariedade.
Porque, afinal, qualquer um de nós, de um momento para o outro, pode esbarrar numa situação dessas.
Entre a chamada legalidade e a ilegalidade, quantas vezes a distância não mede mais do que um passo?

Fatyly said...

Fantástico!!!

mixtu said...

o 52
um dia tirei fotos de muitas portas, uma delas, de uma cave com uma portinhola redonda para entrar os pipos...
ninguém mora lá, talvez com o antónio costa lisboa volte a ser habitada, yaya

abrazo europeo

Zé "Prisas" Amaral said...

Ficámos contentes por termos contribuído para a inspirar, Elipse.

Grey Moon Wolf said...

Resistir? sim, permanecer amor ou veneno? não sei...

Tangerina said...

Emocionei-me.
Está muitíssimo bem escrito. Obrigada por este texto.
Beijo citrus:)

Boop said...

Fiz uma ligeirissima alteração... Larguei a Betty e fiquei só com a Boop!
Não me estranhes por aí...

(é que todos os dias tinha 20 pesquisas do Goggle à procura de "tatuagens da Betty Boop" "ponto cruz da Betty Boop" "Betty Boop na praia" "malas da Betty boop"... Não há paciência!)
Sinto-me devassada!
E contra grandes males... grandes remédios!

Yardbird said...

Os românticos diziam que o amor resistia a tudo...