Mas havia também o som de outras vozes. Foi por isso que se rendeu à racionalidade do fim da noite e fez o caminho do regresso.Ligou o rádio em gesto de procura – a companhia de uma música, talvez, ou de um som que afastasse o incómodo do fim de noite. Fez rodar o carro sobre um eixo incendiado que lhe vinha das entranhas, no escuro e viu-se a percorrer as mesmas ruas.
Era tarde quando chegou. O gato fê-la tropeçar, presença inesperada na confusão de mãos a saber a beijos sob o incêndio das dúvidas.
Sentada, aconchegou o pêlo ao bicho que lhe procurou o colo e teve a noção exacta do momento em que chegaram as memórias. Não gostava destas visitas que vinham de noite e aproveitavam o silêncio para trazer gemidos. Gemidos não, pensava. Era como se das paredes saíssem até os cheiros encostados às palavras; evidências em voo a apoquentar a chegada da manhã. Gemidos não, dizia.
Não era justo que continuasse a dar guarida ao mal. Depois pensou no bem e não soube a quem acolher.
Levantou-se e decidiu que o dia iria começar ali. Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.
7 comments:
Confesso que li três vezes e ainda assim estou a pensar no que li!!! Parece que fiquei a ouvir vozes do além! :) um beijinho e um bom fim de semana :)
"tinha o direito à ousadia"...seja bem vinda a ousadia sem dar guarida ao mal...gostei muito
Obrigada pela boleia :) Mas não posso mesmo... snif (fica para a próxima)
És uma vencedora do Escritor Famoso. Parabéns!
Beijo grande
maravilhoso este teu diálogo interior.Já tive diálogos assim só k nunca soube falar deles tão bem como o fazes aqui. Vim também dar-te os parabésn pelos DOIS prémios no O Escritor Famoso . Bom f.s Bj de luz e paz
Eu também digo que sim...que te linkei por razões óbvias! Beijos
És mesmo uma Escritora! Obrigada, mil vezes obrigada, pelas palavras que deixaste escorregar como quem beija! Estou feliz por ti. Parabéns!
Post a Comment