Friday, June 30, 2006

Razões dialogadas

Se te pedi uma razão é porque quero subir a escada sem o terror da queda, nadar em águas que não sejam fossos cercadios, correr de pé e depressa até me pôr a salvo, deixar soltar o grito com som audível.

Por isso também me pões à prova.

Se te pedi uma razão é porque não me apetece que ouças as palavras que não digo ou as que brotam da forma elíptica do meu dizer e que eu não sei aguçar sem sair ferida ou as que me forças a dizer colocando a grade onde o caule se enrola tenro.

Fere-me. Já te ouvi falar de esgrima.

Por mais razões que me dês hás-de saber que eu não ajoelho diante dos altares por não ser capaz do gesto.

Estes deuses são só meus. Estás protegida.

Não. Estou despida.

Thursday, June 29, 2006

Diálogo emprestado à razão


Dá-me uma razão para continuar a contar os passos sobre a espuma das ondas em vinte minutos de reflexões antecipadas enquanto aguardo o momento de te olhar de frente para uma conversa de palavras escolhidas.

Não sei a razão por que vieste…

Dá-me uma razão para me manteres refém do verbo no pretérito imperfeito ignorando o meu desconforto ou estimulando-o ante a perspectiva da revelação que pode não ser surpresa.

Não tranquei a porta, foi tudo uma coincidência.

Dá-me uma razão para a descrença, nem que tenhas de me analisar os genes para descobrir neles a raiz das minhas construções sem alicerces ou das escadas de onde me sinto cair lentamente quando tento subir.

Não te fiz crescer nem posso sem que tu queiras. Mas não fiques aí em baixo. Sobe.




Sunday, June 25, 2006

Começa a falar-se daquilo que me preocupa, a mim e a outros profissionais do ensino, há muito tempo

Não são as minhas palavras e ainda bem, para que não se pense que defendo irracionalmente a classe.
Também sou Encarregada de Educação, para além de ser professora. Estou, pois, dos dois lados.

(...) Porque entre nós, em Portugal, se verifica a maior das confusões neste domínio, presumindo-se, erradamente, que o aumento do número de anos de escolaridade acarreta, necessariamente, uma melhor preparação dos alunos, o que é estatisticamente falso porque um aluno "aprovado", em 1955, no exame da quarta classe, tinha grande probabilidade de saber: ler, compreender o que tinha lido, escrever sem erros de ortografia, contar, executar as quatro operações aritméticas básicas quer com inteiros, quer com quebrados, resolver problemas, de alguma complexidade, envolvendo o uso dessas mesmas operações e também das diversas unidades de medida de comprimento, área, volume, peso, tempo e ângulo, e, ainda, de saber uma série de coisas, úteis ou inúteis, sobre Geografia e História. Um aluno "transitado", em 2005, do nono para o décimo ano de escolaridade tinha grande probabilidade de não possuir nenhuma destas competências. (...).
Público, 23 de Junho de 2006, Avaliação de docentes, discentes e parentes, por Álvaro Pereira Athayde


(...) Anos e anos - décadas ! - de pedagogia romântica, assente no pressuposto de que as crianças são vítimas inocentes de uma sociedade repressiva e de que albergam na pureza dos seus espíritos imaculados tesouros de intuição e até de sabedoria ainda não contaminada pelo cinismo do mundo, mergulharam a escola numa anarquia. As pedagogias libertárias de finais da década de 60 - "é proibido proibir" - pegaram de estaca num país dominado por uma cultura cívica e política esquerdista, que prega a irresponsabilidade individual e só aponta o dedo à responsabilidade social. Ao longo dos anos e das décadas, o Ministério da Educação encarregou-se de esvaziar as escolas e os professores das suas competências disciplinares, na crença idiota de que os meninos e as meninas se poderiam corrigir com doçura, através de bons conselhos e benignas acções de recuperação. As punições foram praticamente abolidas. Alunos com 20 e mais participações disciplinares não são expulsos. Quando se abrem inquéritos, os alunos são ouvidos em pé de igualdade com os professores; ao cabo de vários meses redundam, na melhor das hipóteses, numa suspensão - que não conta para as faltas dadas: os prevaricadores são presenteados com alguns dias ou uma semana de férias. Em suma, a indisciplina na escola tem medrado a coberto da mais completa impunidade.(...)
Público, 23 de Junho de 2006, Vamos aumentar o descalabro?, por Maria de Fátima Bonifácio


A avaliação é imperativa. Avaliação dos professores, da escola, do sistema. Mas o projecto de avaliação dos professores implicando os pais seria a medida mais insensata de que alguém se poderia lembrar se não fosse, como é, um expediente demagógico para desviar a atenção do país da questão central da educação – a ideologia igualitarista e, ramos da mesma genealogia, as teorias pedagógicas delirantes impostas totalitariamente que transformaram a escola numa escola do faz de conta. Seria mais uma acha na fogueira da desvalorização do ensino, do descrédito e da humilhação dos professores, ferindo também aqueles que fazendo o impossível em condições tão adversas continual a salvar muitos alunos (...).
É claro que os professores têm responsabilidade na tragédia dos resultados, mas não são uma ilha.(...)
Repito: sem varrer o eduquês, sem varrer os especialistas sem emenda do ministério, não haverá sucesso educativo.
Público de 25 de Junho de 2006, O Inimigo Externo, por Guilherme Valente

Monday, June 19, 2006

Hoje foi dia de exame de Português


Onde está o sentido?
O mais directo, escondido nas estrofes de Pessoa.
Também eles são meninos da sua mãe e estão ali no cumprimento de um dever. Malhas que o Império tece?
É de malha o texto que articulam na folha da prova para se desenvencilharem das malhas da vida. As primeiras. Malhas grossas, digo eu que resolvo a prova já fora da teia, mas suspensa noutras, mais finas porque são as minhas.
Há sempre Impérios sobre a nossa razão mas nunca da mesma maneira; mas eles, que estão no meio de uma história, olham as estrofes e procuram-lhes o sentido; escrevem sobre a guerra em palavras sucintas, contando-as, uma a uma, para não excederem as normas, que as guerras não se querem longas nem detalhadas. E enfrentam a guerra pelo sucesso que tentam nas estrofes de Pessoa ou na virtude de Gomes Freire de Andrade, exemplo que se quer comparativo, por ser combativo.
Sabem de lutas? Sim, as da História, vagamente. Ler o passado ainda faz pouco sentido. É no futuro que o procuram, os meninos das suas mães, e agora, aqui, nas estrofes do poeta.

Saturday, June 17, 2006

É menina!

Liga-nos um fio para sempre, ainda que ele seja cortado num momento de mistura de demasiadas sensações para se ter a verdadeira percepção do facto.
Depois disso, a novidade inteira. Em mim, a estranheza da palavra, pronunciada pela primeira vez com rosto à vista, dentro de uma roupa cor-de-rosa e tão pequena que assustava. E alegrava.
Nela a dimensão do desafio desde o primeiro minuto.


Faz hoje vinte e três anos mas foi há tão pouco tempo!

Visita a uma mãe muito bonita


Ela só pode ser uma mulher muito bonita porque a luta que trava é a de uma mãe que não desiste.
Visitá-la faz todo o sentido.

Em busca de formas perfeitas


Foram as voltas que me fizeram fugir do lugar das fugas, sem que elas tenham um lugar ou um destino porque se foge sempre para um lugar de onde se foge a seguir para outro que também não é de permanência.
Voltei, pois, ao lugar onde uma estranha divindade me fala de envolvimento, não sei ainda se disposta a dar-me, se disposta a perceber por que nunca me dou. Não procuro, contudo, os ecos divinos pois nem latentes os trago às madrugadas ou às promessas de manhãs frescas.
Se houver ecos para ouvir serão os dos meus gritos, mesmo que o bem-estar seja esmagado na procura de uma sequência que explique as coisas inatingíveis. Deixarei de ser elíptica neste exercício que mais se assemelha ao curso de uma espiral de entendimento.
Pode haver lugares de esconderijo com vista à revelação? Parece que é simples, afinal: esconder joga com mostrar e mostrar encaixa bem na exibição acidulada dos lugares da dor.
Depois deixarei de falar de mim.

E não peço que comentem as palavras volteadas que tenho necessitado de escrever à volta das minhas construções narrativas ou em vez delas. Aqui, neste espaço narcísico de exposição pública, tenho sido deliberadamente cifrada como se quisesse dizer-vos que as vidas, ainda que publicadas, não deixam de ser privadas.
E nunca se esqueça que tudo isto são exercícios formais, já que o que procuro para mim é a forma perfeita.

Thursday, June 15, 2006

palavras elípticas

Também gosto de andar às voltas com o começo das coisas sendo que o fecho delas se me avizinha sempre perto, muito perto, sem que eu o possa ou queira adiar.
Começo todos os dias uma história mas nem sempre quero ou desejo dar-lhe a continuidade que podia levá-la ao final feliz. Continuidade lembra que é preciso voltar aos lugares do passado, mas é daí que chegam os ecos do desconforto.

E era preciso, sim. A omissão dos ecos gera coisas descontínuas mas a recusa em ouvi-los é visceral; o confronto com as palavras pronunciadas esmaga o bem estar e faz estremecer a estrutura vertebral da sequência.

Gostava – penso que gostava – de ter uma história para contar que fosse uma história verdadeira, tanto quanto a verdade pode ser alcançável (ou fiável?); mas para isso teria de a contar a várias vozes e o exercício é duro para duas mãos apenas. O labor das mãos não vence o ardil das vozes, não lhes desvela o assombro, não as aceita na desconstrução dos enredos. Sobra, pois, a circularidade elíptica oculta no esconderijo da dissimulação e na discrição dos gestos.

Estou cansada de começos; e de arredondar as linhas rectas ao sabor dos crepúsculos, aguardando as madrugadas para inverter o curso linear das construções.

Friday, June 09, 2006

ensaiando (des)harmonias


Preferia o som de uma harpa

Mas ainda cato o vento
Na distância que vai, medida em graus,
Da minha porta ao lugar
Dos ângulos agudos.

E solto o vento
Sem a brandura dos pretéritos perfeitos.

Tuesday, June 06, 2006

Os tumores





Ele costuma aconselhar a leitura de algumas pérolas mas hoje é ele que é a pérola, com um magnífico texto que nos leva aos tumores mais abjectos que a humanidade conhece.

Friday, June 02, 2006

Ensaiando fugas

Fico assim encostada ao incómodo enquanto a farpa aponta o lugar onde se têm ensaiado as explicações. Sem elas não encontro a garantia da roupa adequada. Visto uns trapos, disfarço a nudez, não a resolvo.E continuo sem saber em que momento vou sentir a frieza do gume, enquanto outra frieza, a da sombra, me enlaça num nó quase cego.
Fico assim encostada à cegueira e impeço-me de captar o momento em que deixei o corpo ceder ao fio e me embalei no aperto. É um longe muito longe este de que falo. Mas os trapos estão soltos, deixando a descoberto um lugar inacessível.
Fujo?
De quê? De quem? Do fio? Do nó? Da farpa?

Fico encostada ao espaldar impaciente de um assento à sombra. Tédio ou esforço, não sei de entrega mais esgrimida. E continuo sem explicação. E sem saber se a quero.
Corro a cortina ou fujo?
De quê? De quem?

De mim…

Tuesday, May 30, 2006

Um dia destes passo-me!

Só precisava de registar uma carta e foi por isso que tive de tirar uma senha e aguardar a minha vez no posto de correios mais próximo. Uma única funcionária onde havia lugar para quatro (ou cinco?), lenta e pouco atenta – talvez por causa do calor – estava há mais de dez minutos com a mesma pessoa e um segundo funcionário vinha a chegar, mas antes de começar a atender foi pedir saquinhos de moedas à colega, colocou as moedas na caixa, gesto normal para quem vai atender o público, e encheu o balcão de livros infantis e saquinhos com pirilampos. Colocou tudo metodicamente. Só depois olhou para quem esperava e marcou um número. Ainda faltavam seis para chegar a minha vez.
Para me entreter fui vendo o que havia à volta: expositores de livros – Estampa, Pergaminho, Europa-América… muitos deles para jovens, tipo “as minhas borbulhas” ou “será que estou apaixonada por ele”; mas também muitos “códigos…”. Uma parede cheia de canetas, lápis, afias, borrachas, caderninhos de papel reciclado e outros brindes. Do lado de dentro do balcão, na parede, duas bandeiras de Portugal e uns volumes de qualquer coisa como “tudo sobre o mundial” e outras coisas que a minha mente não conseguiu reter, tal era a quantidade de informação, embora olhasse para tudo a pensar para comigo “isto dava um belo post”.
“Não tem netinhos?” perguntava a senhora ao idoso que foi atendido antes de mim. “Compre um livrinho, já viu estes de pintar, até trazem lápis de cor”.
O outro empregado vendeu um pirilampo à idosa. Perguntou-lhe também se tinha netinhos. Penso que estes (e outros) idosos recebiam a sua “reforma”. Contavam duas ou três notas para ver se o dinheiro estava certo.
Depois a senhora pesou-me a carta, pediu-me a quantia e apontou-me os livros:
“Qual destes é que vai levar?”
“Nenhum”
“Não me diga que não vai comprar nada”
“Não vou comprar nada”
“Nem este?”…
Não ouvi mais nada. Acho que fui mal-educada, mas foi apenas porque saí.
À tarde ligaram-me para o telemóvel para me ajudarem a escolher a melhor tarifa.
Há dias era para ir levantar um prémio por causa de um inquérito a que respondi num hipermercado (respondi??).
Ontem à noite tinha posto fim a um telefonema de um banco (sei lá qual!) ainda antes do rapaz continuar a conversa, porque não uso cartões de crédito.
Na caixa do correio há correspondência afim, dia-sim, dia-não.
Na escola (sim, no meu local de trabalho), estava um casal sentado a uma das nossas mesas a chamar cada um de nós para publicitar um outro cartão de crédito, o mais vantajoso de todos. Nem me cheguei, mas ainda assim fui aliciada.
“Não”.
“Mas não tem anuidade, pode desistir ao fim de seis meses e ao menos ajudava-me a mim”.

Um dia destes passo-me!

Wednesday, May 24, 2006

Sobe que sobe, sobe a calçada…

Depois fui trabalhar, mas já tinha ido às compras e deixado o almoço feito. Antes tinha estado a ajudar um dos filhos a rever um trabalho mais exigente cuja apresentação era hoje, no IST. (correu bem, já sei). Tinha estado também a ler até tarde, coisas de trabalho, também, mas outro, um que faço por conta própria e sem remuneração. E não é só por prazer, porque isso seria ter um livro para ler e não o fazer. É que não me apetece estar no mundo por ver os outros, e a preparação das aulas mais a correcção dos trabalhos e a organização de materiais é coisa de pouco desafio, ao fim de uns anos. Absorve tempo, sim, mas não satisfaz. Podia dizer que é para estar melhor preparada, que é pela exigência do meu público, pela boa preparação que lhes quero dar. E quero. Só que não tenho resposta. Mas, ainda assim, não se pode entrar numa aula de 90 minutos e esperar que 20 e tal adolescentes nos oiçam. Teoria? Nada disso. Levava, pois, a mala cheia de papelada, textos, cartolinas com imagens, bostik para as colar no quadro, fichas de trabalho…
Dormi pouco, portanto. E a escola já não é o lugar para onde costumava ir com gosto e vontade de novidade. Apetecia-me tudo menos confusão.
À chegada, ainda antes de entrar ao portão, dei de caras com muitos e muitas, todos ao monte junto aos carros estacionados. A maior parte dos carros são deles e é vê-los à saída todos inchados porque vão pegar no popó e fazer figura. Os professores (os que têm carro) têm de estacionar onde calha…
Estou a falar de uma escola secundária, onde agora também se misturam meninos do ensino básico, tudo junto e em guerra.
Ali estavam umas dezenas de cabeças com bonés, reparei nisso, pareciam equipas diferenciadas, uns de lá e outros de cá, assistidos por terceiros que esfregavam as mãos porque ia haver porrada…
Vi-me metida no meio, jé eles se empurravam. Fiquei com os ouvidos cheios das palavras que eles mais sabem dizer. Não me atrevo a repreender ninguém, não resulta, já fui insultada quando o fiz. Eles não chegam a perceber porque é que é incorrecto dizerem “foda-se” e “caralho” 799 vezes por dia, em todos os lugares públicos e privados; e não acredito que todos os progenitores sejam trabalhadores da construção civil.
Chamou-se a polícia. Não vieram.
Depois passei a tarde a fazer telefonemas porque os que eram meus alunos podiam ser meus filhos e se fosse eu a mãe ficaria grata a quem me dissesse que à porta da escola se fazem esperas, um gang de cada lado e os carros cheios de paus e ferros.
Só me faltava dar uma aula para acabar a tortura. Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade. Direitos do Homem e do Cidadão… e eu entusiasmada com as analogias que ia trazendo à conversa. Meia dúzia a ouvir e os outros em pleno galinheiro. Um canta baixinho. Quando me calo, cala-se; quando recomeço, recomeça. Uma derrama o tubo de cola sobre a mesa e põe-se a guinchar. Separo dois. Amuam e dizem que já não trabalham mais. Um deles ainda diz “Pois agora é que vou mesmo portar-me mal”. Ponho alguém fora da sala? Quem???
Quero continuar a esquematizar, no quadro, aquilo que muda num país com uma revolução. Gostava de lhes explicar o que é uma constituição e o que é o poder legislativo e quem o desempenha nos países democráticos…
Uma voz diz “Nós também somos povo e devíamos era fechar na sala de professores os cotas todos que nos atrofiam com estas tretas”.
Cansei-me. Parei. Tentei brincar… às vezes resulta.
Saí.
Amanhã volto para o mesmo lugar.

Tuesday, May 23, 2006

País desfocado ou um todo que é uma parte que não interessa a ninguém

Glórias... as da permanência no Índico, à força de guerras sangrentas para saquear a pimenta e as outras mercadorias que vinham para enriquecer a corte.

E as do futebol... nos sonhos.

Bandeiras... os estandartes exibidos na frente das batalhas contra os mouros no Norte de África, em razão da razão divina.

E as mais belas... nos estádios.


Arte... a de furtar. Nossa, muito nossa.



"As artes, dizem seus autores que são emulações da natureza; e dizem pouco, porque a experiência mostra que também lhe acrescentam perfeições. Deu a natureza ao homem cabelo e barba, para autoridade e ornato; e se a arte não compuser tudo, em quatro dias se fará um monstro. Com arte repara a mulher as ruínas que lhe causou a idade, restituindo-se de cores, dentes e cabelo, com que a natureza no melhor lhe faltou. Com arte faz o escultor do tronco inútil uma imagem tão perfeita que parece viva. Com arte tiram os cobiçosos, das entranhas da terra e do centro do mar, a pedraria e metais preciosos, que a natureza produziu em tosco e, aperfeiçoando tudo, lhes dão outro valor. (...) Não perde a arte seu ser por fazer mal (...) e tal é a arte de furtar (...) que é ciência verdadeira, porque tem princípios certos e demonstrações verdadeiras para conseguir seus efeitos. (...) E se os ladrões não tiverem arte busquem outro ofício por mais que a este os leve e ajude a natureza."
Anónimo (do séc XVII), Arte de Furtar


Não tenho espaço para os exempos possíveis, mas esta notícia lembrou-me muitas outras situações em que este país parece uma coisa desfocada, quase sem existência, ou reconhecendo a sua incapacidade nas opções que toma, como é o caso daquela que leva a Badajoz as mães portuguesas para terem filhos no outro lado da fronteira.


Sunday, May 21, 2006

O todo em partes

Escher


Sofrer é uma tragédia.
Não sofrer também é porque a palha seca nos prados desmazela a paisagem.
Até os gatos sofrem quando estão especados diante de uma gaiola de hamsters e não lhes podem chegar.
Se os gatos não sofressem assemelhavam-se a um campo de ervas agrestes e eu, que não sou gata, parecer-me-ia com uma casca de laranja engelhada.
No viço da minha loucura e enquanto Stravinski sagra a sua Primavera eu componho a minha, mesmo sobre o restolho, sem tragédias mas com iguais dissonâncias.

Thursday, May 18, 2006

A parte e o todo


Escher
Todos os dias sinto que o tempo se subtrai a um todo antigo e no entanto tudo parece ter acontecido ontem, tendo sido há décadas. Décadas são intervalos de duração prolongada, quando ainda se está no lado de trás do fio esticado. Para a esquerda a.C., para a direita d.C., linha infinita, sem sinais de começo a não ser o toque do giz na pedra. O fim é o resultado da subtracção, embora se acredite sempre no prolongamento das horas sobre os dias e sobre os meses e sobre os anos.

Todos os dias a materialidade das operações numéricas me surge como afronta e no entanto os ponteiros do relógio prosseguem o seu curso trazendo invariavelmente a noite antes das manhãs. Noites são desperdício, são horas subtraídas à parte do fio que ficou no lado da frente.

Todos os dias me parecem começos de fios rasgados ou mãos que ensaiam nós para remendar o avesso de um todo antigo dividido em décadas. Décadas são ciclos de curta duração se nos colocamos em observatório piramidal abarcando superfícies alagadas de tempo.

Todos os dias relativizo a minha existência em função de um todo. Mas não esqueço a minha dimensão em nenhum dos dias.


Sunday, May 14, 2006

Abrir o espaço

Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.
E foi nesse exacto momento que alisou os gemidos; meteu-os no bolso de um casaco velho e guardou-o para quando chegassem Outonos a pedir lágrimas.
Ouviu o eco das palavras a dizer que nunca se fecham portas e pensou que sim, que nunca se eliminam memórias porque elas coabitam entre si e o apagamento não sabe de escolhas.
Imaginou que um café tomado à beira-rio podia ajudar os olhos a ir com as águas, a foz ali ao lado, abertura de espaço, para começar o dia. E foi.
Na outra margem crescia o casario; gente, muita gente, pensava, gente que adia decisões e se enrola no passar das horas.
Sabia de angústias, de noites mal dormidas, de amigos calados à espera das palavras para decidirem das respostas, ou antes, das propostas. Também sabia de marés vazias e das ondas a dizerem depois “que não, que não, que não tens culpa”. Contemplação de céus para matar o tempo de espera.
Depois foi tempo de dar as mãos de novo. Não é que as soltasse de si; era apenas a vida a crescer de dentro para fora. E a licença expressa para ser feliz naquele instante.

Saturday, May 13, 2006

Pintar as palavras


Há um ano que ela pinta as palavras dos poetas com a mesma energia e a mesma paixão que Turner punha nas suas aguarelas.

Parabéns, Addiragram.

Wednesday, May 10, 2006

Rimas pobres


Na prática eu apenas tardo diante das letras impressas
Apenas ou ainda, o difícil é saber
E não é por desamor ou por inércia
É talvez porque me guia a proporção das coisas.
E a inquietação antiga do querer e do não querer.

Folheio as palavras e verto-as depois. E bebo-as;
Sirvo-me delas para agitar a seiva nos meus dedos
E ao senti-las percorrer todos os lados do meu corpo
Detenho-me na sede satisfeita
E deixo sair das mãos desenhos e segredos

Seguindo a direcção das minhas mãos abertas
Componho, em letras fáceis, os degraus do meu prazer.
E em dias cheios de planos por cumprir
É este o único amor a que me rendo.
A única cedência que acabo por fazer.

Monday, May 08, 2006

À procura de uma história

- Não escreva nenhuma dessas histórias!
Incrédula, olhei para ela e depois para o meu caderno. Tinha medo de estar a sucumbir à minha própria fantasia e não ousei levantar os olhos durante uns minutos. Olhei de novo para o canto da sala: sentada, muito direita, de mãos serenamente pousadas sobre a mesa, uma cara enrugada abria os olhos na minha direcção. E repetiu:
- Já lhe disse, não escreva nenhuma dessas histórias!
Não voltei a olhar para os papéis. Fixei o olhar na figura pequenina e creio ter visto o necessário. Esqueci todas as ideias, todos os começos, todas as fantasias que me tinham enredado as quadrículas do caderno, procura inútil de uma invenção, à beira de uma realidade completa. O seu rosto era a verdadeira história, a história que se contava como um tempo que tinha acontecido sem se estar à espera. Olhando-a era como se visse, subitamente, a solução. Assemelhava-se à imobilidade de uma rocha, mas era também flor ou estrela. Dei-me conta que nela estava tudo em ordem, até mesmo a geografia das rugas onde o indizível se lia sem rumor nem fragmentos. Representava tudo o que estava excluído das palavras, todas as variantes e alternativas, todos os acontecimentos contidos no espaço e no tempo. Estava ali o conteúdo, a trama, a estrutura; tudo escrito nos olhos.

Sunday, May 07, 2006

Thursday, May 04, 2006

O amor é uma tarefa árdua e indecifrável que vagueia ao sabor dos dias

O texto que a seguir transcrevo foi-me deixado aqui, a propósito do que escrevi sobre a deficiência. Mas a autora apagou-o.
Eu gostei dele e pedi-lhe autorização para o editar porque vale a pena.
A Fatyly também sabe do que falo.

E é exactamente à minha amiga damelum que lanço o desafio de continuar a divulgação de instituições de solidaridade, que o Rui me passou .

E depois...
...é que terá de escrever.






Lembro-me das perguntas repetitivas e controladoras, das regras impostas e nunca discutidas, dos gritos e das exigências e de como eu não compreendia. Lembro-me das fugas e dos devaneios e das culpas murmuradas entre dentes, quando achamos que somos donos da verdade, e de pensar que a vida não era justa e que todas as famílias cabiam no modelo que eu imaginara. Lembro-me da sensação dos papéis trocados, dos pedidos de conselhos, de como eram indefinidas e desajustadas as funções de cada um e sentia-me crescer demasiado para o meu tempo. Depois recordo o dia da troca definitiva de papéis, dos olhos a implorarem colo, dos pedidos desajustados de ajuda e da fuga para o outro lado do nada. E não a vi, não a encontrei mais. Nem a presença controladora e impositiva que me marcava os dias nem o discurso, por vezes desconexo, mas revelador de um amor imenso. Nada estava lá, fugira para uma outra margem, muito fora do meu alcance.

Chama-se L. e é a minha mãe. Hoje está de volta, provando-me que o amor é uma tarefa árdua e indecifrável que vagueia ao sabor dos dias.


texto de damelum.

Wednesday, May 03, 2006

Os Maios da Liberdade


Já têm mais de dois séculos os Maios da Liberdade, festas comemorativas da República e da soberania popular francesa no período da Revolução.
Comemorava-se o que calhava: as vitórias, a juventude, a velhice, a agricultura, entre muitas outras coisas. Bastava que o povo se juntasse em massa, espontaneamente, para que elas ocorressem, sem preparação prévia nem sujeição a qualquer lei ou instituição. Cantos, danças, banquetes facultavam entre as gentes revolucionárias francesas o contágio afectivo que tornava a sociedade mais harmoniosa e os homens mais iguais.
Plantavam-se as árvores da liberdade, tradição que radica, certamente, nas festividades pagãs da celebração do equinócio da Primavera. Era como se a multidão, reunida, propagasse a ideia de unanimidade de que a Revolução era portadora.

…depois vieram os poetas e cantaram o Maio.


... e nós aqui, sem saber o que esperar dos Maios que estão para vir.

Tuesday, May 02, 2006

Como lidar com isto?

Clicar na imagem

Arrastava o corpo pelas paredes e uivava em dias de contrariedade. Mas isso era quando era jovem. Contam que em tempos de infância dominava os irmãos mais pequenos caindo sobre eles com os dentes.
Do que me lembro é das brincadeiras e de uma memória fabulosa, apenas entendida por quem convivia de perto com ela, porque os grunhidos eram difíceis de ouvir. E ria, estridente, de boca escancarada, deixando à mostra as gengivas descarnadas.
Pedia água, sempre e sempre, como se o corpo fosse uma esponja seca; depois a água escorria do púcaro de alumínio pelos cantos da boca e ela pedia mais, não fosse o mundo acabar sem estar saciada.
Tinha um caixote com bonecas sujas, e beijava-as, ao mesmo tempo que entoava um embalar medonho. Eu era menina mas não podia chegar-me perto. O espaço era sagrado.
Por pouco ficava-me de herança, porque a longevidade cumpriu ali uma promessa desumana. Chamava-se Isilda e era minha tia.

Não creio que lhe tenha faltado amor, mas se fosse hoje poderia ter desenvolvido algumas das suas frágeis capacidades numa CERCI.
E foi assim que respondi ao desafio do Rui, mencionando uma instituição de solidariedade cuja acção me toca particularmente.


Saturday, April 29, 2006

Histórias 3.

Contaram-lhe que depois se enrodilhou na noite como um morcego e contornou a estátua, tomando a direcção oposta. Para o lado do caminho possível, disse ele, mas ela sabia do desejo de mudança que lhe atravessava a vida. Por isso não acreditou nas interpretações que eram muitas, múltiplas, resumindo-se tudo a uma acusação de malquerença que tinha de declinar ou ficaria refém desse sentimento de perda. Nada fácil, contudo, essa tarefa.
Contaram-lhe também que na direcção oposta residiam as coisas que sucedem por acaso, mas ela acreditava na solidez das construções e conhecia-lhe a capacidade de erguer das ruínas outras fachadas, mas com desenho prévio. Pelo menos era nisso que pensava enquanto preparava o tear para o cumprimento da tarefa. Precisava, pois de robustez, não fosse a peça afrouxar nos terminais e romper-se por falta de estrutura.
Ainda lhe trouxeram novidades, dia após dia, em tudo semelhantes ao despeito que teceu em pontos deliberadamente mal rematados.
Alimentou-se, pois, de cóleras até esgotar os argumentos e mesmo assim ainda lhe foi difícil aceitar que as mãos só adquirem a perfeição quando se soltam.

Thursday, April 27, 2006

Podíamos jogar à cabra-cega

Santa-Rita Pintor
Onde estão os meus olhos agora que me despedaçaram as formas?
Como faço para recuperar os sentidos se o que sinto são tímpanos opacos e a visão engole as palavras sem as diferenciar?
Terá sido o efeito maléfico dos sonhos ao acordar ou o incómodo de viver para além do passar das horas?

Wednesday, April 26, 2006

Ponto pé de flor

As mães bordam rosáceas
E compõem pés de flores nos linhos
Que arrecadam junto à esperança.

São formigas laboriosas,
Pontos de apoio ou degraus suspensos
Ou a mão que vai lançando os alicerces
Em betão marcado pelas ausências.

Também costumam desenhar janelas nas madrugadas

Enquanto remendam alguns pensamentos
Aguardando o alívio da manhã.
Depois acordam cansadas e cozinham pratos exigentes
Nos intervalos das rotinas mais primárias.

E sabem o canto das cigarras.

As mães passam pelo espaço às escondidas

Para que lhes sintam apenas a sombra e o resultado.


Tuesday, April 25, 2006

Sunday, April 23, 2006

lengalenga


Mal dos poetas perdidos no palavrear libertador próximo da dor espumosa; mal dos que amam sem que o tempo os deixe permanecer aconchegados no querer eterno; mal de todos os seres pensantes do universo desgastados pela sucessão das marés que se impõe ao cansaço dos olhos; mal dos que procuram a razão das coisas sem conseguir ir além da definição de invernias repletas da mais criativa escuridão; mal dos cérebros que concebem a genialidade de uma lucidez estrangeira, cruzada a preto e branco; mal da gentileza da mão prodígio feita de traições e fugas, deliberadas ambas pelo costume de avançar até ao fundo das coisas; mal dos propósitos estratégicos para afastar a irmandade com aquilo que é o mundo e é o eu de cada um disperso através da direcção do olhar; mal da logística que desceu em nós por força do nascimento, obrigada desde então a albergar a alma num corpo que lhe é estranho; mal das caligrafias sublimes que evitam o borrão no papel; mal dos pórticos decorados sobre cantos misteriosos; mal das máscaras; mal dos ouvidos semi-cerrados; mal dos espelhos; mal do mal

Saturday, April 22, 2006

Aproximação a Brecht? Hummm...só se for pelos elos de uma corrente...


A Wind deixou-me o desafio mas a origem veio daqui. Para quê? Para seguir as palavras de um poema de Brecht ( a bold) e acrescentar outras que rimassem à minha vontade. Segui a métrica e rimei desta forma...


Alegrias, são benvindas em todos os dias
Dores, se pudesse vestia-lhes cores
Casos, se te desse a escolher que farias
Conselhos, são inúteis em casos de amores

Meninas, as dos olhos, às vezes são luz

Mulheres, todas juntas complicam a vida
Orgasmos, se é para hoje não há que hesitar
Ódios, se os cultivas é guerra perdida
Domicílios, posso ir, se não for p’ra ficar

Adeuses, já me vi a acenar sem coragem
Artes, dou-lhes forma alinhando as palavras
Professores, sei de perto o que são e o que fazem
Prazeres, vias férteis em plena viagem

Projectos
, construções à medida dos sonhos

Inimigos, já esgotei as raivas, já não vejo
Amigos, o prazer da conversa e o gosto
Cor, é com ela que pinto o desejo
Meses, numas férias na praia, em Agosto

Elementos, natureza em jeito de obra-prima
Divindades, já caídas dos céus, por descrença
Vida, raio de sol que desponta e anima
Morte, a dos sonhos traz sempre falência.


Ivamarle, Bastet, Fausta, querem tentar?

Wednesday, April 19, 2006

"Sentir, sinta quem lê"

Toda a narrativa é um artifício e “sem a existência de um leitor os textos escritos não passam de marcas pretas em páginas brancas”. (1)

E o que faz quem escreve?
Deita mão às histórias alheias e torna-as suas, transforma-as, acrescenta-as e muda-lhes o final. Ou não.
Apropria-se do tempo e alisa-o; depois recorta-o e brinca com ele.

Por isso todo o texto exige um leitor, cujas reacções tomam a forma de sistema de palavras, depois agrupadas associativamente no seu espírito.
É a interpretação a afirmar-se sobre a criação.
Sendo assim, quem tem verdadeira importância neste jogo é quem está do lado de lá.


(1) Linda Hutcheon, Uma teoria da Paródia, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 35

Tuesday, April 18, 2006

À volta das dores

Podia até dizer-te que tenho pena e que me doem as tuas dores. Mas também tenho em mil pontos de vista dispersa a verdade das coisas, sem saber em certos dias se a verdade é o que vejo ou se não é isso mais do que a criação de um querer que não diviso dentro da consciência, por omisso ou camuflado.

Podia até dizer-te que penso em ti. E penso. Mas se o faço é por piedade, sendo já este o sentimento inócuo de te ver à distância, sentado na cadeira onde buscas o conforto impossível embora continues a fazer o planeamento da vida que para ti nunca parou, nem agora que estás parado.

Podia até dizer-te que sei o que sentes. Mas não sei disso por solidariedade ou por analogia; sei-o porque as senti ferradas, essas dores que silenciei a maior parte das vezes ou que gemi calada enquanto as lágrimas corriam para dentro e ilusoriamente as suavizavam.

E assim andamos à volta das dores. Tu porque as sentes. E eu sentida.

Monday, April 17, 2006

Pela dignidade da Língua Portuguesa


É um assunto muito sério.
Quem está ligado ao ensino tem plena consciência de estar a contribuir para a formação de cidadãos que não sabem apreciar a beleza de um texto pela falta de contacto com a literatura.
Se ao menos eles saíssem em condições de preencher um formulário ou redigir um requerimento, podia dizer-se que tinha tido efeito a reforma aplicada de há seis anos para cá. Porém, eles têm de contar palavras em pleno exame, porque lhes é pedido que redijam um texto argumentativo a metro, entre outras coisas.
De futuro parece que vão ter de usar também cruzinhas, porque as perguntas de escolha múltipla vão fazer parte dos exames de Português.
E o saber escrever, o saber usar a palavra ou apreciá-la no seu valor literário?
Precisamos apenas de cidadãos que saibam usar o teclado para redigir abreviaturas? Ou para escrever em blogues, ainda que com erros ortográficos?
Há uma petição aqui, originária de uma professora de português que se tem recusado a cumprir os novos programas. Com um pouco de paciência e alguma vontade lê-se e toma-se posição. A bem do uso da língua portuguesa.

Sunday, April 16, 2006

Em Abril de 1506




“A multidão, que naturalmente é dessisuda e assomada, eivada agora com vislumbres de religião, entrou a bramar de ouvir um cristão denegar crédito a um milagre. Tratam-no de aleivoso e malvado judeu, traidor à fé, cruel e desorado inimigo, digníssimo de todos os tormentos e da morte. Foram crescendo sobre ele os vitupérios de toda a parte; e tanto se escandece a cólera naquela mó de povo, que arremetem com o homem, travam-lhe dos cabelos, levam-no de rastos, e atormentando-o até ao rossio, ali crudelissimamente morto o despadaçam; erguem súbito uma fogueira, onde arremessam os troços do cadáver. Acorreu a tal motim toda a gentalha, à qual um frade fez uma pregação acomodada a despertar vinganças da religião (…) atravessados de ruindade e desatino, se arremessam e investir ferina e brutalmente com os míseros judeus: degolam, apunhalam, e ainda palpitantes e com vida os arrojam nas labaredas. (…) Quebrariam corações de bravias gentes os prantos lamentosos das mulheres, as magoadíssimas súplicas dos homens e os maviosíssimos clamores tão gerais. Mas tão despidos andavam de humano os enfrascados naquele morticínio, que sem perdoar nem a idade nem a sexo, com antolhos para tais resguardos, algozavam por maneira que, naquele dia, foram mortos e queimados além de 500 pessoas dos hebreus. (…) E em razão de tôda a família judaica se ter, de temerosos, escondido em casa, lhes arrombavam portas e entravam dentro a degolar, como carniceiros, homens e mulheres e as donzelas mesmas, esmigalhando contra as paredes as criancinhas, tirando pelos pés uns mortos, outros expirando, para os lançarem nas fogueiras (…)”

Jerónimo Osório, Da Vida e Feitos d’ El-rei D. Manuel, Porto, Livraria Civilização, 1944, vol. I, pp. 194,195

Friday, April 14, 2006

Brrrr..... que frio!


- Calatrava?
- Sim, o espanhol que desenhou a Gare do Oriente.
- Espanhol? Mas… nós não temos?
- Bem… temos, mas um dos nossos faria aquilo mais ... sei lá!, e o que se queria era um open space.
- Mas… ali? E não é frio?
- Dizem que sim. Mas é bonito!

Thursday, April 13, 2006

Sobre a conservação

Conímbriga

Era uma vez um grupo de pessoas que tiveram necessidade de construír casas para habitar. Já lá vão muitos anos. Tantos, que as casitas acabaram por ficar em ruínas e depois as ruínas arruinaram-se a tal ponto que hoje quando lá vamos encontramos tudo espalhado pelo chão e só com muita imaginação conseguimos perceber que eram romanos, que tinham tanques de água a que chamavam termas, que forravam o chão com azulejos, etc. Das paredes não se sabe muita coisa, porque já não existem. Da altura das colunas, só por analogia com outras paragens, pensando-se que quem faz um cesto faz um cento e que aquilo estava tabelado para que a arquitectura não fugisse do padrão mais económico. Longe da metrópole tinha de se poupar algum e o que interessava era seguir as normas imperiais mas à distância. Isto dizemos nós, que nem sabemos o que diziam e o que pensavam, ou a que hora do dia acordavam e com que disposição ali faziam a guerra, ou o amor...
Porém as pedras estão dispersas num local em que se abrasa no Verão. Vá lá saber-se como é que os romanos resistiam ao sol. Os visitantes ainda vá que não vá, só lá vão uma vez na vida e chega, mas quem lá morava devia ter de se proteger e refrescar.
É então que nos surge um criativo nacional ou um conjunto deles, porque o trabalho em equipa sempre pode chamar-se projecto, engendrando maneira de embelezar a zona para maior atracção turística ou porque assim imaginou a coisa e mandou colocar protecção solar ao estilo Calatrava mas mais de trazer por casa, que aquilo é campo e p’ra quem é bacalhau basta; mandou também refrescar o ambiente com repuxos, não se sabendo muito bem se os autarcas se inspiraram nas ruínas ou as ruínas nas rotundas e muito menos se os romanos já tinham rotundas, podendo bem ser que sim. A verdade é que repuxos e plantas decoram o cenário e qualquer criancinha pode perguntar à mãe, sem que ninguém lhe possa levar a mal, se era ali naquela água que os romanos se lavavam.
Ora não seria melhor tapar tudo e deixar umas pedrinhas para ficarem expostas numa das montras de um shoping que ali seria uma mais valia económica com um nível de visitas por hora de longe superior a qualquer amontoado de pedras?

Wednesday, April 12, 2006

Abrir o verbo


Às vezes é o tédio que se instala de tanto os afazeres deixarem de ser gratos; como se a repetição dos gestos agastasse e o cansaço do fim do dia nascesse com o sol.

Outras vezes é a metamorfose que tarda. Assisto, espectadora, à permanência da forma e não me apetece contrariar o desagrado. Custa amainar a vontade ou fazer dela a vela de um navio torcendo-se contra o vento.

Também acontece que o verbo se fecha quando devia arredondar-se sobre os vértices das pedras, fluindo nem que fosse por teimosia.

Ponham vinho na mesa. Já oiço o tinir dos copos; acompanhem-me mortais, que me fartei de solidão.

Aguardemos o efeito da mudança e o reforço dos vidros ao cair da tarde. Manhã serôdia mas ainda a tempo de captar os ângulos das marés donde emergem relvados em pleno viço.

Tuesday, April 11, 2006

Espanto?

Magritte

O passado é sempre o mesmo passado e as pedras estão sempre nos mesmos sítios. Mãos engenhosas podem mudá-las ou transformá-las; até os olhos podem escolher o ângulo de observação. Porém, tudo permanece.

Sunday, April 09, 2006

Mnemotecnias

Dali


São areias da praia onde repousam poças de água muito transparente com relva a despontar do fundo ou escarpas a pique com abismos à vista.
E eu percorrendo os areais ou sentada na rugosidade da rocha, mas sempre sob a ameaça da queda lenta e eterna.
Também podem ser escadas que me transportam para os lugares cimeiros donde caio invariavelmente como se o filme passasse devagar e nunca acabasse; ou caio para um lugar vertical muito elevado que dificilmente me acolhe, tal é a estreiteza, estando de novo a queda à vista. Devagar.
Outras vezes são passagens apertadas onde poderia caber o corpo de uma ave, nunca o meu; contudo eu teimo e fico aprisionada em sufoco porque algum perigo me apressa na passagem e eu tropeço na roupa ou corro de joelhos e nunca chego ao meu destino.
Ou barcas perto das margens mas sem leme. Ou gritos abafados numa voz que não existe. Mas sempre com perseguição ou outro perigo que não identifico por falta de tempo.
Aflijo-me também perante folhas e folhas de palavras que não decifro. Mas estão lá à minha espera.
Convoco pois os relógios deformados e os violinos dobrados sobre as areias dos desertos, os cavalos de dorso suspenso ou as gavetas dos corpos putrefactos, a beleza comestível e as ruínas dos poços iniciáticos. Eterno retorno este, que os mecanismos do invisível operam no teatro da memória.
Ah, mas recuso os deuses pregados nas paredes em crucifixos dourados. Não me sujeito aos modelos, embora finja.

Saturday, April 08, 2006

Não há ecos no vazio

Botticelli


Deves ter ouvido os teus murmúrios soprados por Zéfiro e embora digas que não há ecos no vazio sabes que são os silêncios que propagam as vozes. A verdade é que a concha não estava fechada e a tua casa não é lá dentro. Por isso é que as palavras acordaram, quando a deusa te mostrou a Primavera nas grinaldas de mirtilos e agitou no manto o cheiro a flor de laranjeira.
Acorda Vénus. Deixa esse ar de quem está prisioneira em pensamentos e aproxima o olhar. A paisagem é plana, modesta, fresca em verdes e azuis suavizados pelos \/\/\/ das ondas e a Hora tem os pés pousados em espuma. Mas repara que o filho do deus do vento carrega uma ninfa com a harmonia de quem flutua porque só o amor tem asas.

Thursday, April 06, 2006

O cheiro da Igreja


Podemos ver nesta história que a minha avó me contou e à qual eu acrescentei as cores, os sons e os cheiros, um qualquer filme português ao estilo neo-realista (porque o António Silva já não é vivo; se o fosse dar-lhe-ia o tom desconcertante da comédia prosaica).

Mas é com este acto de cinema (ou argumento?) que apresento a minha segunda participação para o concurso promovido aqui.




Quando as alpercatas iam chinelando sobre a areia, abrandava o passo, mas se as carrasqueiras rareavam o sol castigava e andava mais depressa. Debaixo do chapéu de palha ainda tinha a protecção do lenço, atado em duas pontas debaixo do queixo, misturando-se o cheiro fresco das estevas com o da transpiração e colando-se as meias à magreza das pernas.
Seguia apressada, as mãos a darem o impulso da marcha, de trás para a frente, da frente para trás. Sentia a pieira no peito e o respirar era ofegante mas já avistava as primeiras casas da vila. Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos, à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas. Depois os palheiros, casinhas de adobe rasteiras ao chão, com telha muito gasta, as empenas a esboroarem-se gastas da esturração do estio e do salitre que soprava do suão, nos temporais invernosos. Dos poiais caíam cachos de malvas e alegrias da casa, dispostas em restos de vasos, ou metidas dentro de cestas de palma entrançada. À roda das casas corriam os moços pequenos, zurzindo latas, caras sujas e pés descalços, os paninhos das camisas a saírem dos suspensórios com que seguravam o cotim gasto das calças, transformadas pelas mãos destras das mães, que vinham para a rua ao fim das tardes – era a hora da lazeira, diziam –, sentadas nas cadeiras de vime, com a ceirinha das linhas e das agulhas, onde havia sempre um ovo de madeira para remendar as meias.
Destacavam-se os caboucos do casario, de encontro aos cerros que fechavam a vila, vendo-se no chão as fendas da terra seca. E ouvia-se o canto das cigarras. Os cães vinham ladrando ao caminho enquanto Justina se afogueava e limpava o suor com as pontas do lenço.
- Ó ti Juliana! Chegue-me daí um cucharrinho de água!
A mãe da comadre levantou-se largando a empreita e lançou a corda à cisterna, ouvindo-se o eco do balde batendo na água fresca. Justina levou a cortiça à boca e refrescou depois as mãos e as maçãs do rosto.
- Vou à Igreja, ti Juliana.
- Mode quê, filha? Hoje nã é dia de missa.
Não ia pela missa, ti Juliana, mas pelas velas. Não, não era promessa; os moços estavam bem, lá andavam guardando as ovelhas e Constantino ficara deitado. Não era homem de muita azáfama, desde que tivera de salvar uma ovelha das águas da ribeira e desmanchara as costas. Para isso lá estavam os rapazes que, na escola, não tinham futuro. O mais velho não podia, que os rebanhos precisavam de mão firme. No princípio ainda foi, mas fugia da professora e subia às figueiras, escondendo-se dos puxões de orelhas. Era mau de aprender. Os outros eram tenrinhos e a escola era longe.
Justina entrou na igreja e soube-lhe bem o contacto com a frescura. Sentou-se, aliviando o lenço, abanou-se com a palhinha do chapéu e fez as contas, mais uma vez: o António estava a mamar há um ano. Enquanto amamentava, o corpo ia engrossando, nunca sabia se era o leite que lhe inchava o ventre ou se já engenhava o próximo filho. Respirou fundo. Era ali que costumava tirar as dúvidas.
- Comadre ‘Estina!
Era a Maria da Venda, de lencinho preto em jeito de bico na cara enrugada; fazia a limpeza da Igreja e tinha ajudado a lançar água benta sobre o mais velho, quando ainda tinha o homem com ela.
-‘Tá uma calma lá fora!
- E eu nã sê? Vim por aí à pressa…
Fora a companheira dos bailes, em dias de festa. Lavavam a roupa na ribeira, de manhã, as pernas metidas na água durante horas, enquanto a espuma corria pelas pedras; depois lançavam os trapos coloridos às cordas, estendidas entre duas pernadas de alfarrobeira. À noite vestiam cores garridas e iam dançar. Constantino fazia tinir o ferrinho no triângulo, suspenso na outra mão, enquanto lhe deitava sorrisos pelos olhos, ao som do baile mandado: “Tudo certo e devagar; palminhas, mãos ao ar!”. E elas batiam as palmas acertando o passo corrido com o deles. Constantino puxava-a pela cintura e fazia-a rodopiar, enlouquecendo-a com a música dos beijos prometidos: “Palminhas acabou e ninguém se enganou!”
Justina pegou numa vela e acendeu-a, virando-a sobre o coto de uma outra. O lenço deslizara-lhe para os ombros e o carrapito empinava-se na nuca, basto e muito negro.
Das outras vezes, quando vinha na dúvida, mal entrava na Igreja sentia-se agoniada, ou pelo cheiro das velas ou pelo incenso queimado. Qualquer coisa, lá dentro, lhe despertava os sentidos.
Sentou-se de novo e esperou. Depois franziu a cara; aquele enjoo voltava; a água crescia-lhe dentro da boca e o bucho a revirar-se, a revirar-se. Fincou as mãos na barriga e depois levou-as aos olhos, escondendo o rosto.
- Que tens, mulher? Valha-me Deus, estás toda branca!
- Vem aí mais um, Maria, valha-me Deus a mim.

Tons difusos e chicotes


I
Em dias assim
Seco as lágrimas nos cantos da boca
E risco a face de arco-íris difusos
À espera de encontrar o lugar dos tesouros;




II
Mas trago para dentro o olhar
E arredondo a pequenez das vistas.

III

Pego nos ramos secos alojados no centro das mágoas
E desenho flores para espantar as raivas;

IV
Não ganho o dia
Mas gasto o tempo;
Amaino o bater dos chicotes na memória
E vou adormecendo a violência das palavras.

Tuesday, April 04, 2006

Toda a infância cabe numa caixa enferrujada


Inspirei-me numa cena ou numa ideia colhida no filme
"Le fabuleux destin d'Amélie Poulain".
Sei que é um filme que dá para mil e uma abordagens mas resolvi pegar na
caixinha das memórias...
E é com este acto de cinema que vou concorrer ao Escritor Famoso que está a ser promovido no blog Divas e Contrabaixos.


Nesse dia tinha sonhado com o pai. Dir-se-ia que andava enleada nos caminhos da reconciliação com as memórias. Ela ou a parte de si que se escondia da racionalidade.
Foi depois do sonho que sentiu desejo de voltar à casa antiga. Vestiu-se de roupas novas e recuou no tempo. Paradoxo certeiro mas eficaz nas intenções porque foi na estação do comboio que o passado começou, enquanto o cheiro das travessas da linha se alojava no sentir antigo, quase até ao silvo da locomotiva e à “pouca-terra” anunciada ao longe. A viagem deu-lhe tempo para desejar ter pressa e por isso empurrou com força a porta, depois de ter estado presa ao brilho que o sol reflectia nos vidros. Ofuscada, talvez, ou à procura da paz que lhe guiasse os passos, frente à entrada.
Estava escuro e cheirava a mofo. Lembrava-se agora que tinha prometido uma limpeza aos móveis e às paredes, mas já não sabia há quanto tempo. O que sabia era de um cheiro próprio dali, um cheiro que vinha do lado de dentro. Todas as casas têm um lado de dentro mas ela sempre lhe tinha virado as costas. E foi nessa posição que fotografou as nuvens com a imaginação, vezes sem conta, prometendo a si própria que havia de seguir com elas. Cumpriu a promessa, num dia de céu carregado, antes de desabar o temporal. Ou foi por isso que ele desabou.
Agora, porém, virada para a entrada, conseguia ver o caminho a vir na sua direcção. Era curiosa a percepção de um simples exercício a inverter a perspectiva das coisas por explicar.
Entrou no quarto e percorreu devagarinho a familiaridade do espaço, enchendo as narinas de infância. Abriu depois as portadas, devagar, e olhou para o sítio onde sabia estar pousada a caixinha. Sentou-se na cama e pô-la no colo. E assim ficou.
Antecipou a primeira recordação. Sabia que a fotografia lhe iria mostrar o vestido branco de saia muito rodada, saltitante dentro daquele momento que o pai captou num dia de festa.
“Ela gosta de andar aos saltinhos pela casa e de furar os bolos quando saem do forno. E não se queima. Mas não gosta de ajudar a mãe nem de arrumar os brinquedos depois de estar uma tarde inteira a imaginar personagens”. Era assim que o pai dizia às visitas.
Contudo ela sabia que gostava de muito mais coisas.
Gostava de soprar serpentinas para as ver soltarem-se, livres; de encostar o dedo com cola à madeira ou às capas dos livros para sentir a proximidade das coisas; de ver a pedra a fazer ricochete nas águas do charco e sorrir da irreverência de um objecto pesado a soltar-se em voo. De colocar no colo uma pilha de livros para começar a saborear o primeiro, sobre o cheiro das folhas dos outros. E de deixar as suas personagens nos lugares das histórias, não fosse perder-se a vida que lhes criara.
Abriu a caixa. Olhou os objectos um por um e levou o búzio ao ouvido. “Pai, deita-te nas ondas e pousa-me nas tuas costas. Faz-me sentir que estou a nadar, que as águas são transparentes e eu hei-de dar-te amor pela vida fora”.
Depois o boneco de barro que tinha enfeitado os presépios, ano após ano. Tantas vezes brincara com ele deitando-o nas palhinhas para o proteger do mal. E tanta era a solidão herdada que tinha de olhar as caras dos outros no escuro do cinema; e os abraços dos outros dentro dos carros, ao sol-posto; ou andar pelas ruas cheias de gente, ao domingo, para lhes ouvir as vozes. E sentia-se quase como a figura feminina de Renoir – estava no centro mas a ver de fora. Por isso via como o passar do tempo a tinha feito recusar o enleio do todo e como as horas passadas à mesa eram sempre as mais penosas por estarem juntos e em família. “Jesus faz com que eles se dêem bem e não discutam”.
Pegou na conta de vidro verde e sentiu, através dela, o pêlo branco do gatinho de corda trazido de um país frio. E na caixinha de baton, a cheirar a maquilhagem velha, junto dos brincos de pendentes pretos com lantejoulas a lembrar a tia. Tomara-lhe a entoação e dizia como ela, enquanto fazia falar as personagens de plástico sem cabelo “Nunca existe a felicidade completa”.
Pegou também no lenço roxo que a mãe usava e cheirou-o de novo. E sentiu nele a alegria dos fins de tarde, quando a mãe inventava esconderijos pela casa à espera que ela a descobrisse; riam-se as duas, riam-se tanto… até que a mãe dizia “O que será que está para acontecer?” Depois o pai chegava e não havia mais brincadeira.
Foi nessa altura que deu consigo a limpar as lágrimas ao lenço roxo dos dias frios.

Depois fechou tudo, caixa, janelas, memórias e por fim a porta da entrada. E foi mais uma vez de costas para a casa que partiu, ao ritmo das nuvens.

Monday, April 03, 2006

Histórias 2.

Ela dizia que o estímulo pode encontrar-se no desencanto e insistia em encantar-se com o abraço morno e o cheiro a quase tu. Depois acordava e entrava nas manhãs sem chegar a encontrar-se nelas; nem nas tardes invariavelmente enevoadas de fumo de cigarro e de incerteza.
Porém era fluente ao longo dos dias e em quase todas as situações, gostando de se colocar no centro, num quase palco de representações genuínas.
Chamava, pois, toda a gente para junto de si e o eco das palavras e dos risos amansava-lhe os silêncios. Tudo menos as horas vazias, pensava.
Andava por ali o ardil da triangulação; por isso ia inventando satisfações no pragmatismo que lhe era oferecido em bandeja dourada, fingindo aceitação. Melhor uma construção sólida, nem que seja pelo lado de fora, do que o nada.
Havia dias em que se convencia de não ser preciso usar as palavras, mas doía-lhe prescindir do verdadeiro encanto, embora a palavra desassossego lhe estivesse colada às mãos tecedeiras. Era por isso, pelo hábito de tecer sentidos cruzados em desenhos complexos, que a vida simples lhe atormentava os dias.
Não há tréguas para quem começa muito cedo a querer descortinar o mundo que está para além do fim da rua.

Sunday, April 02, 2006

A Gaivota, de Tchekov





Tudo metido entre as asas ensanguentadas de uma gaivota morta: o sentido da existência, a dificuldade das relações entre as pessoas e entre o dinheiro e as pessoas, o isolamento rural que finge ser bucólico mas enlouquece, o talento e a falta dele, o conflito entre o novo e o velho que é um conflito de forma e de conteúdo, o egoísmo, o engano, a ilusão, e expectativa, o desânimo. E o desejo de cada um e de todos que é o desejo de felicidade. Ou antes, o direito à Felicidade.

Questões escritas por Tchekov no século XIX que são ainda as questões de sempre, num texto límpido, luminoso e clarividente.

Mas talvez o escritor não tenha de anotar num caderninho as palavras ou as frases para depois lhes dar uso.
Mais uma vez e sempre… o sentido da criação.
A genialidade de Tchekov toda condensada num gesto. E a nós … o dever da reflexão.

Palavras longas e muito bem ditas pelo grupo da Cornucópia, encenado por Luís Miguel Cintra.

Friday, March 31, 2006

Corrosão do Tempo

Amei-te com paixão de menina; e depois com a calma de quem sabia todos os segredos.
Era de partilhas o primeiro sonho e por isso emergiam flores do nosso chão conjunto.
Foi contigo que desenhei as paredes e o forro de um abrigo à sombra, com varandas suspensas na solidez de duas ou três traves.
E assim ficámos, vendo passar as manhãs sobre as noites alongadas; talvez com frio ou com metáforas a gastarem-se nos gestos. Ou nos abraços.
Pousávamos carinhos sobre o corpo, cada vez mais à beira do silêncio ou do gelo que sobrava de cada noite.
Não sei se foi o vento ou a maldade que desenhou um barco sobre as águas a caminho da margem mais atenta.

No cais havia um palco e muitas mãos exibindo o fulgor de outros segredos plantados nos degraus. E tu seguiste.
Subitamente quebrou-se o meu perfil e as águas agitaram-se.

Wednesday, March 29, 2006

V Edição do concurso O Escritor Famoso - Actos de Cinema




Ele voltou. O Escritor Famoso.


Foi ela que o trouxe ao Divas e Contrabaixos.


Imagens sonoras, sensações-pensamentos ... actos de cinema.

Vale a pena ir ver... aqui.


Sunday, March 26, 2006

Histórias 1.

Ela dizia que não suportava ser a segunda. Ou a terceira, que não sabia exactamente de quem era o cheiro que ele trazia colado à pele quando chegava. Mas abria-lhe a porta e a primeira parte do serão era feita de agressividade. Pensava sempre que era a última noite, que a seguir se despedia do corpo dele para sempre e que partia, de madrugada, para outra terra ou para outro céu. Era mais fácil procurar outro céu e entrar nele de braços escancarados. Há sempre carinho a entrar pelos braços abertos de uma mulher. Ou neles. E depois o céu. Mas quando beijava outro corpo era nele que pensava e não havia céu que justificasse o conforto emprestado aos braços; parecia-lhe que só aquele toque oxigenava as suas células e que nada mais existia para além da violência dos corpos a amainar depois da satisfação. Era quando faziam as pazes ou ele falava de paz e de trazer as roupas e ficar para sempre naquele quarto. Invariavelmente partia antes do dia começar e ela acordava sozinha a repetir que tinha sido a última vez. Depois o dia começava. E os braços que se apertavam um no outro, fechando-se todo o espaço pelo lado de fora, eram os dela.

Thursday, March 23, 2006

Desafio ao Outono

Reedição do Poema ao Outono (editado em Novembro, mês profícuo em produção poética...), escrito para o concurso do Escritor Famoso... lembram-se?

Só para lembrar que também sei usar o registo menos nostálgico...


Costumávamos ficar deitados à beira do Outono
Como se quiséssemos guardar o fermento das palavras
Usávamos a voz na margem das penumbras
Não fossem os deuses acordar zangados
E escrevíamos páginas de silêncios
Sobre folhas engelhadas;
Cruzávamos as mãos sob o declinar do sol
Os corpos fundiam-se com a terra e cheirava a barro fresco
Se chovia molhávamos os lábios depois dos beijos
As folhas inchavam apercebendo-se do calor dos olhos
E no céu, por entre os intervalos da folhagem velha
Os deuses liam-nos as mãos, pausadamente
Determinando as palavras que me dirias
Por entre as linhas descontínuas, quebradas
Éramos presas fáceis depois do fim do verão
Sem tardes de abraço quente à sombra das falésias
Nem passeios de aves
Em silêncio ofereci-te a minha mão
E sobre ela despontaram as sílabas da palavra amor.

Wednesday, March 22, 2006

culpas sem valor

E não me venhas falar de culpas, que já me desgastei em penitências bárbaras sem olhos que me vissem ou mãos que me agarrassem no caminho.

Fala-me antes de prazer que a vida é esse vestido em tons de cinza deslavada se não se encontra a arte de inverter o curso imundo das coisas consentidas.

E não me digas que devia fixar-me em coisas simples, que outra coisa não desejo há décadas, incapaz de baixar os olhos para a leveza das marcas na areia mesmo sabendo que é esse o trilho.

Diz-me antes que também posso encontrar satisfação noutros lugares mesmo que a aridez dos caminhos me retardem a vista das coisas complicadas. Hei-de chegar-lhes.

Religião e culpa

Nas viagens marítimas, a partir de 1568 estipulou-se, para mareantes e passageiros, a obrigatoriedade da confissão e comunhão prévias, de modo a que, quando embarcassem, se encontrassem em estado de graça. Esta exigência tinha como fundamento a crença de que os pecados eram a causa mais frequente da perdição das naus.
Do cumprimento dessa obrigatoriedade deviam os párocos das freguesias passar certidão, que seria apresentada às autoridades no momento do embarque.
Acontecia, em algumas viagens, alguém ter um sonho premonitório. Dizia tratar-se de um aviso de Deus e procurava-se o sacramento da penitência como salvação.
Realizavam-se, ao longo da viagem, novenas e trezenas em devoção a Santo António, S. Francisco de Xavier, Santa Helena, S. Joaquim, Santa Ana, Senhora das Brotas, Anjo da Guarda ou outro. Os ofícios religiosos eram realizados com todo o rigor do ritual católico, incluindo sermão, vigílias, procissão com flagelantes, penitências e confissões.
Em momentos de desespero, perante o naufrágio, todos se colocavam sob a protecção da virgem e prometiam nunca mais voltar a pecar. E quando nada mais restava que a perspectiva do fim, podia morrer-se de braços abertos para o retábulo de Maria, fixado no mastro grande, porque morrer é o destino do Homem.