
Cárcere
Vindima de ilusões, composição filtrada.
E, para além dele, o céu pesado e a luz quase apagada.
"(...) não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer; quer dizer: o que é possível segundo a verosimilhança e a necessidade" (Aristóteles,Poética)

Faz parte do meu dia-a-dia falar das personagens da História aos mais jovens, fazendo também parte da profissão de fé não emitir juízos de valor.
Não é muito fácil evitá-los quando se trata de acontecimentos ainda recentes. Chamar carniceiro a um qualquer chefe militar persa ou louco a um imperador romano não ofende ninguém.
Pior é ter de ouvir aos mais jovens hinos de louvor a ditadores como se o discurso dos seus avós passasse ao presente sem pagar portagem.
O que lhes digo é que se Salazar voltasse eles não poderiam entrar na escola com as calças a cair pelo rabo. Depois falo-lhes do ditador e do enquadramento de massas que o regime determinou de forma a ter cidadãos moldados para o cumprimento dos deveres pátrios.

O meu problema é apenas um, neste momento: como vou poder ainda raciocinar em função dos meus valores?
Que dizer agora, quando comparo o período da primeira república com os últimos trinta anos… e as medidas do Estado Novo com as do actual governo?
Bem sei que a Europa é que comanda mas também o salazarismo teve o seu contexto europeu, nos seus inícios.
Assustei-me com o cheiro a militares nesta história da Grécia e disse para comigo: “a confusão vai engrossar!”
Agradeço a V. Exa. o convite que me fez para sobraçar a pasta das Finanças (...). Não tomaria, apesar de tudo, sobre mim esta pesada tarefa, se não tivesse a certeza de que ao menos poderia ser útil a minha acção, e de que estavam asseguradas as condições dum trabalho eficiente. (...)
Esse método de trabalho reduziu-se aos quatro pontos seguintes:
a)que cada Ministério se compromete a limitar e a organizar os seus serviços dentro da verba global que lhes seja atribuída pelo Ministério das Finanças;
b) que as medidas tomadas pelos vários Ministérios, com repercussão directa nas receitas ou despesas do Estado, serão previamente discutidas e ajustadas com o Ministério das Finanças;
c) que o Ministério das Finanças pode opor o seu «veto» a todos os aumentos de despesa corrente ou ordinária, e às despesas de fomento para que se não realizem as operações de crédito indispensáveis;
d) que o Ministério das Finanças se compromete a colaborar com os diferentes Ministérios nas medidas relativas a reduções de despesas ou arrecadação de receitas, para que se possam organizar, tanto quanto possível, segundo critérios uniformes.
Estes princípios rígidos, que vão orientar o trabalho comum, mostram a vontade decidida de regularizar por uma vez a nossa vida financeira e com ela a vida económica nacional. Debalde porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de varinha mágica, mudassem as circunstâncias da vida portuguesa. Pouco mesmo se conseguiria se o País não estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários (...) Eu o elucidarei sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos os elementos necessários ao juízo da situação.
Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar.
(...)

Era para evitar o precipício, nem que fosse no sonho mal dormido.
Acabei sentada no fio dos gumes.
Era para usar sapatos rasos e caminhar serena.
Acabei ofegante na inclinação do plano.
Era para deixar o registo de cada queda.
Sem memórias não podia ceder ao pudor ou estranhar as repetições.
Era para não forçar nada a não ser a salvação.
Arrastei todas as águas e todos os rochedos.
Ao ficcionar corria o risco de apagar as marcas escondendo-me nas páginas como se disfarçasse a identidade.
A consequência é morrer na vertigem por não saber dosear os momentos.

coragem e desafio ou apenas rumor de asa sem traçado de rumo nem fronteiras;
colina de viço e delito ou apenas natureza fulgurante em dia de primavera;
tinir de silêncios e melancolia de muitos lutos ou apenas lábios cerrados a pedir acordes novos;
poema novo ou talvez muito mais do que apenas solidões e ecos presos nas margens enquanto as águas correm no leito sem desvios;
tempo de hospedar no peito o sonho...
ou apenas tempo de partir...
Teia da espera, teia do estar por estar.
Teia elíptica, ácida, áspera.
Coisa colada ao nome das coisas com fios de simulação.



Vinham num trotear desengonçado, eles e o mundo todo, queixosos de um cansaço sem sol, que homens e bichos sofrem da mesma privação, uns mais na alma e outros mais no corpo, quando a ferrugem cobre os jardins e o vento sopra molhado e fustiga o caminho que traz o rio às manhãs e as cobre de névoa.
E eu, sentada no alpendre, esperava a nesga de sol que me tirasse da letargia e me trouxesse as memórias. A garota pusera-me o xaile sobre as pernas e a bengala ao alcance da mão. Disse-me para não sair dali, que o chão estava escorregadio e o meu equilíbrio já conhecera melhores dias. Um lagarto entre as frinchas, pensava, enquanto esticava as pernas e olhava os troncos das árvores, direitas como ferro em desafio humilhante à minha curvatura.
Todas as manhãs a cor da ferrugem dos jardins me recordava a impossibilidade da renovação. Porque eu sabia, entre as muitas coisas que eles diziam que eu esquecia e perguntava repetidamente, eu sabia que havia um Outono que chegava húmido e frio e se instalava, teimoso, nos meus ossos deformados, empurrando para o rio pequenos ramos cortados à minha lucidez. E o que ficava era um esqueleto desarticulado, que me fazia repetir a pergunta todos os dias: e ele, a que horas chega?


foto de Elipse
Desinquietou-me o silêncio e a penumbra dos meses frios.
Ocupou-me o pensamento, severamente gasto em coisas inúteis como a tristeza.
Aconchegou-se a mim, ou fui mais eu, saída da sombra, em busca do tempo que ficou atrás das ousadias.
Por momentos fechei a porta ao mundo e deixei adensar-se a névoa dos incensos.
Olhos nos olhos, tínhamos o corpo todo à espera e o fascínio triunfava.


