Saturday, March 21, 2009
Sunday, March 15, 2009
Monday, March 09, 2009
A construção

Dizia que vou buscar aos bolsos as histórias planas que aí colocara pela insignificância do dia, ou pela sua dimensão de esboços mal começados e que as vou enchendo de palavras como se enchesse de sentidos uma coisa sem forma, assim criando fingimentos sérios.
Digo ainda que podem ser histórias de partidas, histórias de alcançar rumos ou de feridas causadas pelo romper dos sonhos colados à pele. Histórias de desejo. Histórias com vento, escritas à vista do veleiro de que os olhos se apropriam num dia de verão à beira-mar. Histórias de projecção do ser no ser ou noutros seres cujas vidas se decalcaram no plano da minha rua ou noutros ainda que entram na janela do meu recordar sendo que tudo o que se recorda está em confusa arrumação numa arca de criações múltiplas. Por isso são sempre histórias.
Dizia que toda a ficção é a invenção da possibilidade de ser, o cruzamento de mundos alternativos com personagens a dobrar falas. E que assim se desenham nos relatos os gestos, as vozes, as intrigas e as soluções, mas sempre em histórias.
Digo ainda que recordar é sempre uma narrativa. E que para narrar se parte da selecção dos factos; e que a selecção muda todos os dias, a partir do que nos aconteceu ontem ou já hoje.
Que pode sobrar nesta construção narrativa que aqui exponho aos olhos dos outros?
A ficção. Para ser lida.
Friday, March 06, 2009
O reencontro

E antes, muito antes, um tempo perdido na infância, há muitos, muitos anos.
No intervalo decorreu a vida.
As meninas encontraram-se e olharam-se nas rugas. Viram através delas o passar dos anos e contaram como foi. Ou antes, contaram pedacinhos de dias bons e dias maus que a memória não alberga mais do que uma parte do todo. Às vezes nem um traço. E, à distância, havia coisas difíceis de confirmar, talvez apenas construções ou desejos. Nunca se saberia. As fotos não comprovam mais do que aquele preciso momento e não se consegue ver nelas o sentir daqueles dias. Isso disseram-no elas, as meninas, à distância de muitos, muitos anos.
Sabes, amiga, o passado não vale mais do que o necessário para se perceber de onde viemos. E mesmo isso nem sempre é a verdade!
Para mim, a verdade foi o encanto de te ter de novo.
Thursday, February 26, 2009
Outono
in Máximo Gorki, A Família Artamonov
Vinham num trotear desengonçado, eles e o mundo todo, queixosos de um cansaço sem sol, que homens e bichos sofrem da mesma privação, uns mais na alma e outros mais no corpo, quando a ferrugem cobre os jardins e o vento sopra molhado e fustiga o caminho que traz o rio às manhãs e as cobre de névoa.
E eu, sentada no alpendre, esperava a nesga de sol que me tirasse da letargia e me trouxesse as memórias. A garota pusera-me o xaile sobre as pernas e a bengala ao alcance da mão. Disse-me para não sair dali, que o chão estava escorregadio e o meu equilíbrio já conhecera melhores dias. Um lagarto entre as frinchas, pensava, enquanto esticava as pernas e olhava os troncos das árvores, direitas como ferro em desafio humilhante à minha curvatura.
Todas as manhãs a cor da ferrugem dos jardins me recordava a impossibilidade da renovação. Porque eu sabia, entre as muitas coisas que eles diziam que eu esquecia e perguntava repetidamente, eu sabia que havia um Outono que chegava húmido e frio e se instalava, teimoso, nos meus ossos deformados, empurrando para o rio pequenos ramos cortados à minha lucidez. E o que ficava era um esqueleto desarticulado, que me fazia repetir a pergunta todos os dias: e ele, a que horas chega?
Wednesday, February 18, 2009
Ainda a ficcionar 11. (nunca há fim)

Quando te pedi que escrevesses imaginei que trarias ao conhecimento a história da permanência de um verão. Uma história contra o tempo.
Fizeste mal em não continuar; nem sempre se tem a sorte ao alcance das mãos.
Como vês o inverno humedece as folhas de papel e, ao contrário da natureza que desabrocha em viço mal as chuvas recolhem, nas folhas húmidas as letras perdem-se.
O que te peço agora é que retomes a história onde a deixei; não te preocupes em voltar atrás, que isso não altera em nada o desenrolar dos factos.
Lembras-te? Eu dizia-te que ela regressava a casa mais inteira e foi exactamente aí que a narrativa perdeu a sequência. Ou fomos nós, tu e eu que não quisemos prosseguir o devaneio: eu porque a deixei retomar a rotina sem lhe pedir que voltasse, ao fim do dia, para me falar dos sentimentos; e tu porque te desviaste do essencial.
Encontrei-a há dias e achei-a diferente, mas deve ser o efeito das roupas de inverno, sempre mais austeras, sempre mais escuras. Surpreendeu-me a dizer que se desejar muito o verão o tempo passa mais depressa e já não tem tempo para isso. Respondi-lhe que deve dar atenção à permanência. Concordou mas estava impaciente, tenho a certeza.
Vamos trazê-la de novo?
Saturday, January 31, 2009
histórias

Ela diz-lhe que se aguente, que “andar ao papel” não desqualifica ninguém. A expressão é dele, que antes se tinha por trabalhador qualificado, quando a empresa tinha centenas de pessoas, bem pagas e com perspectivas seguras. Nunca se pensa que o mal nos pode atingir. Na verdade é bem melhor não pensar em nada para não se sofrer por antecipação.
Agora também a reciclagem pode vir a sofrer de falta de “matéria-prima”, a julgar pelo decréscimo das vendas, queixa-se. Até quando os míseros euros estipulados pelo salário mínimo?
Os filhos, em idade escolar, habituaram-se ao conforto e ao gasto fácil. Tudo é possível neste modelo consumista que as últimas décadas incentivaram. Além disso se os outros têm, por que é que nós não podemos ter em igual qualidade e quantidade? Não foi a igualdade proclamada há muitos anos e legitimada pelos modelos democráticos ocidentais?
Hoje chegou a casa ainda mais desolado. O desconsolo dos outros não é razão que anime, mas à porta de um estabelecimento onde acabara de fazer a recolha das embalagens, dois homens abordaram-no e perguntaram se sabia, se a empresa admitiria mais gente. Que tinham filhos pequenos e as mulheres desempregadas.
Depois chegou ela e disse que a fábrica tinha fechado.
Thursday, January 22, 2009
Sunday, December 21, 2008
em Dezembro...
Devastam-me os silêncios que atravessam as tardes de Dezembro
e a pressa com que o sol se põe quando aparece;
Afunda-me a luz crua da razão que traz o tempo e o projecta sobre árvores
de ramos completamente despidos e sem pássaros.
Antes me surpreendessem as noites mas nem isso;
nem tão pouco o reflexo no vidro da janela que não dá para lugar nenhum;
Contudo as manhãs prometem dias longos
ou é talvez o nada a convertê-los em intermináveis labirintos.
Sunday, November 30, 2008
entrando em Dezembro...
As flores envelhecem em jarras depois do momento em que aqueceram as mãos.
As cores vivas alegram as noites e depois gelam, caídas pelo chão.
Antes não as ter …
Prefiro a realidade bruta das palavras, a cólera dos acentos agudizando a voz, o engaste da sílaba na frase espontânea, o gemido abraçado ao frio da madrugada, a banalidade que tilinta suave nos ouvidos, o murmúrio soprado sobre a luz de uma vela, o lugar-comum enraizado no espinho da inquietação ou o dizer acenado no instante da partida.
Thursday, November 20, 2008
As cariátides (outra vez)
Monday, November 17, 2008
Memórias vivas
Só sei que já me curei do teu cheiro dentro das paredes e do rumor da tua presença nos degraus da minha casa. Quando falo de amor, se falo, recuo muito mais do que esperava e mesmo assim já não sei preencher espaços vazios. É como se falasse de uma história de outras personagens e a fechasse depois numa lombada descosida, bolorenta.
Só sei que já não é a mesma lua, a que se levanta do lado do jardim e depois sobe para o centro dos meus olhos que antes assustavam o silêncio frio das madrugadas. E há dias em que já não sei se era o teu perfil que eu esperava, ou os nós dos teus dedos a baterem ao de leve na janela da cozinha; ou se esperava o perfil do teu perfil.
Se pudesses voltar não haveria nada de meu que te aguardasse junto à porta, esse lugar onde demorei a perceber a verdade da tua ausência.
Se pudesses voltar eu não voltaria a esse corpo que, sendo meu, me aleijava nos abraços; não voltaria ao silêncio amarfanhado das cedências e menos ainda ao desconforto das partidas.
Se pudesses voltar eu diria que te inventei; porque sempre inventamos a perfeição.
Saturday, November 01, 2008
Sol de Outono
Digo também das mil sílabas que li nos livros enquanto cessava o canto, noite dentro; e do desejo descarnado que costumava rimar com harmonia para poder, disfarçado, agredir-me no silêncio e deitar-me neve sobre as mãos.
Tenho poetas presos às páginas, guardados nas estantes; prendo-lhes as palavras junto aos afagos, mesmo as mais duras ou as que vestem de luto, por precisarem da doçura das mãos quando a noite começa.
Prendo as palavras que o vento teimosamente me retira e me atira, agitando-me a firmeza contra a torrente dos dedos, quando os dedos querem escrever o que a tristeza sopra para dentro da voz calada.
Modifico depois os registos e refaço; varro lamentos, renovo a tinta, acrescento-me de ousadas virtudes e se calo é porque nem todas as rimas podem ser sopradas pelos ventos. Por isso afago-as em palavras novas e pinto o sol em todas as manhãs.
Monday, October 27, 2008
Claro/Escuro
Indiferente às vozes de quem passa
Basta-me, agora, saber por onde vou.
Entre o preconceito e a asas
Resolvo a dimensão dos dramas
Dando passos certeiros
Ante a perplexidade dos que não ousam.
Dói-me apenas a pequenez dos dias
E a obrigação de colher frutos verdes.
Wednesday, October 22, 2008
A escrita e os símbolos
Criamos, então, personagens vivas e falamos por elas. Personagens que não se aclimatam ao normal curso do tempo e declinam com o voar das folhas secas; ou que se atrevem a desafiar a modorra estival gritando sobre a extensão dos mares; ou que se aconchegam, saídas do tempo, em pequenos nadas que transformam em grandezas de encher vaidades.
Neste acto criativo usam-se as palavras em jogos se sentimento e culpa; em distracções de bem-estar e anseio; em exercícios de representação do que não foi mas podia ter sido; em projecções dos nossos desejos ou dos desejos dos outros, já que os adoptamos e adaptamos.
Na Elipse há dois centros, nunca se sabendo qual dos dois corresponde ao que está para além do ficcionar. Ou o que fica aquém e ela converte em linha que se curva, certinha, sobre um e outro foco. Nada se pode colar à fidelidade do que aconteceu. Tudo símbolos.
Aqui o exercício da escrita é prazer puro.
Saturday, October 18, 2008
Enquanto os deuses proibiam o prazer
Sei que não me alcanças as palavras
por mais que eu conjugue o verbo, ou diga os ecos das últimas sílabas;
Nem eu te alcanço o pensamento
aprisionado no silêncio dos cigarros fumados no quarto;
Difícil entrar nessa calma acesa e arredondar o espanto.
Difícil amansar os gumes da interdição sem magoar a crença.
Podíamos colocar as palavras sobre a mesa
correndo o risco de as deixar para sempre inacessíveis
Mas fizemos levedar os gestos.
Tocavas-me ao de leve, amedrontado ainda
e os olhos iam serenando na entrega
depois das ondas rebentarem no desenho do teu peito
Tuesday, October 14, 2008
Cantata de Outono
Não é por não te ter… é mais pela crueldade diária do espelho matinal; pelo pó que se acumula na parte superior dos livros fechados, nas estantes; pela marca dos passos no mármore do chão; pela tinta que se vai gastando de tanto esconder o branco dos cabelos.
Não é por não te ter… que ter-te seria um excesso a todas as horas, não sobrando espaço para o sossego discreto que me aplaude a criação, de vez em quando.
Não é por isso, não. É pelo espaço reproduzido no vazio, pelas horas que o relógio multiplica, pela constância do silêncio a prolongar-se na mesma direcção, pelo sentido obtuso do riso unilateral, pela música sem eco no canto da sala cansada da cor dos móveis, pelo excesso de sossego em vez da festa, pelo desejo mal arrumado no canteiro adiado das sementes, pelos laços desfeitos nos presentes que ficam nas montras, pelas palavras que ditas seriam ouro e escritas ganham um peso inútil.
Não é por isso, não. Ter-te, à distância, seria ter ainda alguma coisa e mais a esperança de não definhar calada.
Friday, October 10, 2008
Culto muito antigo
Se te lembrares ainda soa a minha voz surpresa
Ante a frieza aparente do teu rosto;
Mais tarde apreciei-te a divindade
Mas era em mim que morava a tentação;
Em ti nada sobrava; nada se deixava amar
Embora o fogo vivo dos silêncios
Chamasse o verso musicado do poema.
Saturday, October 04, 2008
Intervalo
foto de Elipse
Desinquietou-me o silêncio e a penumbra dos meses frios.
Ocupou-me o pensamento, severamente gasto em coisas inúteis como a tristeza.
Aconchegou-se a mim, ou fui mais eu, saída da sombra, em busca do tempo que ficou atrás das ousadias.
Por momentos fechei a porta ao mundo e deixei adensar-se a névoa dos incensos.
Olhos nos olhos, tínhamos o corpo todo à espera e o fascínio triunfava.
Tuesday, September 30, 2008
Ficcionar 10. (chegando ao fim)
Já te dei as referências, já te transmiti as partes da história que ela achou por bem contar-me. Tudo o resto cabe agora na arte de ficcionar e essa não conhece limites. Tu, que não a viveste nem a ouviste da sua boca, nem lhe viste o brilho dos olhos ao contar, és livre para lhe acrescentar todas as palavras.
O leitor nunca te pedirá explicações; deixar-lhe-ás o espaço necessário à sua própria construção. Porque há diferença entre o que se antecipa e o que depois se vive; entre o que se vive e o que se relata; entre o que se relata e o que depois de escreve.
Toda a verdade tem inúmeras facetas e, mesmo ficcionando, ela não perde o seu estatuto. Pelo menos para o leitor, que vê nas palavras o relato dos seus desejos menos confessáveis.
O leitor não relata, absorve. E encena a história, envolvendo-se nela. Por isso ouve os motores do avião, recolhe a bagagem à chegada, toma o pequeno almoço sentado de frente para a piscina do hotel, fuma cigarros nas esplanadas da grande avenida, descobre-se debaixo de um céu que é o mesmo mas outro e ouve a música curva mais uma vez, e outra e outra, até desejar que não haja mais mundo senão aquele que começa e acaba ali. Comprova a importância do desejo, este leitor atento que entra pelas palavras do texto e escreve a sequência narrativa. Quando escreveres não o deixes desviar desse prazer.
Ele perguntará, no fim, qual foi o fim?
Não lho dirás.
Deixa só escrito que ela cumpriu todos os seus desejos. E que não chorou na despedida. E que partiu sorrindo, regressando mais inteira ao chão real da vida.
Sunday, September 28, 2008
Ficcionar 9. (invocando a razão)

Vi que paraste a meio, julgo que para pensar a sequência da narrativa. Ou para integrar os pormenores. Da primeira vez que se ouve a história fixam-se as ideias principais e omite-se ou julga-se omitir o secundário. Mas as coisas menos importantes têm muitas vezes papéis determinantes.
Quando ela me fez o relato também eu retive apenas o essencial, como ouvinte.
E é normal que, no desenrolar da história, haja sempre detalhes a omitir. Faremos funcionar, neste ponto, a figura da permuta: ficam na escrita as verdades possíveis e na memória o travo doce das sensações. Porém o jogo está montado e o leitor pode, também ele, trocar os dados e convencer-se de que ela testemunhou a devoção quando parou emocionada observando os homens ajoelhados em celebração do momento sagrado. Ao mesmo tempo as mulheres faziam fila em todas as ruas, abastecendo-se de doces para a festa. Não me perguntes se ela entendeu ou se julgou entender. A verdade é que o encanto assumia todas as facetas das histórias das mil e uma noites.
Não me parece já possível a inversão do fascínio, com leitor activo ou sem ele. Foi por isso que a ouvi invocar todos os deuses da descrença, ao mesmo tempo que pedia socorro à razão.
Mas não fales de compaixão. Ela sabia-se voluntária na teia das emoções. Foi deliberadamente que voltou ao lugar de todos os encantos.
Monday, September 15, 2008
Ficcionar 8. (reflectido sobre as analogias)
Ainda bem que evitaste os diálogos; também a mim me aborrecem as páginas das falas inconsequentes das personagens, em conversas de encher. Não concebo o romance linear, que começa certinho e acaba sem nódoas. Toda a sequência implica encadeamentos e alternâncias e a presença do narrador não pode ser um limite; se estiver muito presente tende a adjectivar, quando não mesmo a ajuizar, destruindo as possibilidades do leitor.
Nesta história a protagonista estava limitada pelas margens, as do espaço mas também as do tempo e nenhuma ousadia atrasaria os ponteiros do relógio. Mas o contrário é também válido porque se as possibilidades do real são inúmeras as da ficção não se esgotam.
Podes não ter clarificado tudo, podes ter deixado ao leitor a possibilidade de construir cenários, mas isso não impede que o final tenha de ser o que inicialmente estava previsto. Porque quando se começa a escrever uma história, inevitavelmente já se sabe o seu final.
Sunday, September 14, 2008
Ficcionar 7. (sorrindo sobre ruínas)
Vê como ficam bem entre as ruínas e como a conversa que podes criar para preencher esse espaço cabe inteira no paradoxo. Relata-a longamente porque eles permaneceram ali até que o sol se pôs e só depois se lembraram que estavam longe. Cheirava a mar e a terra seca; ou foi isso que lhe sugeriu o aroma da noite, ou o canto persistente das cigarras.
No espaço onde os colocámos, eles foram felizes. Contudo, vê se o escuro da noite não te impede de dizer que de vez em quando os olhos dela afastavam-se para longe. Tinha esse jeito de tornar subitamente pálidos os momentos mais genuínos, coisa involuntária, mas herdada, sem resolução. Antevia o fim, quando tudo ainda estava a meio. Soltava-se do reservatório o conceito absurdo sorvido das pagelas que lhe punham nas mãos, nos dias da catequese.
É para sempre, dizia ele.
Saturday, September 13, 2008
Ficcionar 6. (ligando as margens)

Não me parece que alguém os reconhecesse na cidade, embora e estranheza da situação pudesse chamar os olhares alheios. Nem creio que isso os tivesse incomodado. Eram seres únicos, abrasados pelo sol forte, quando era dia, e pelo calor dos corpos, quando as estrelas cintilavam sob a tranquilidade do céu. Por isso tens de descrever as horas felizes que ambos viveram nesse tempo escasso, alongado nas ruas estreitas, enquanto, de mãos dadas, espreitavam a vida em todos os becos.
Não te esqueças de dizer que ele voltou a cantar-lhe baixinho a música curva e que ela lhe ensinou as principais palavras.
Foi pelo menos assim que ela contou depois do regresso chorado, uma dor no peito à despedida e a certeza de ter vivido nas margens da ficção.
Se te distanciares muito não conseguirás perceber a intensidade do sentir que foi o deles.
Podes ir aos sítios, para poderes descrever todos os detalhes, os vividos e os outros, mas corres sempre o risco de vires a ser tu, na primeira pessoa, a ligar as margens.
Thursday, September 11, 2008
Ficcionar 5. (afogando a consciência)
Se captaste o silêncio estás em condições de passar ao momento anterior, imaginando que foi apenas naquele momento que nela se fez aquele alívio e tomou a decisão. É certo que só o que vem depois justifica a ousadia e ambas sabemos que o que vem depois não é necessariamente a recompensa. Foi talvez por isso que a manhã do dia seguinte despertou neles a consciência da escassez do tempo. Isto se permitirmos que a consciência tenha entrada nesta história, sendo que o melhor é deixá-la onde o preconceito lhe dá voz de comando e afogá-los a ambos no mar. A imagem surgiu-me quando ela me descreveu o caminho que fizeram juntos para chegar à praia mas fica bem aqui esta imersão das inquietações.
Não te peço que descrevas o azul do mar; o mar é sempre azul quando o céu está limpo. Mas não deixes de mencionar a tromba obtusa que emergia da transparência das águas. E ela a fugir-lhe, a fugir-lhe.
Neste ponto a protagonista pedir-te-á ajuda. Terás de intervir, poderás até entrar em diálogo ameno para que se percebam as conexões entre o mundo real e o mundo possível. Na possibilidade ela desejaria que tudo começasse e acabasse ali, sem mais espaço nem distância, resolvidos os elos de outros afectos. Na realidade, terás de ser tu a resolver as situações com as palavras. Tu, que escreves.
Monday, September 08, 2008
Ficcionar 4. (captando o silêncio)
E ele? Onde o colocas no espaço do quarto de hotel?
Não esperes que te diga tudo, concebe a trama; mas para a história ser verosímil deves deixá-lo também ali no reflexo que a lua fazia na janela, porque o quarto era num dos pisos superiores; no elevador ela tinha já roçado ao de leve nos seus lábios e ele fechara olhos.
Depois ela perguntou mais uma vez porquê e ele voltou a beijá-la.
Captaste o silêncio? Era importante que o fizesses porque no relato terás de escrever tudo em voz muito baixa para não quebrares o encanto do momento em que fizeram amor.
Sunday, September 07, 2008
Ficcionar 3. (procurando o sentido)

O fascínio é uma variante que não se testa nas reacções químicas e no entanto pode levar o alpinista ao desafio menos racional. Sim, o fascínio. Que pode não fazer sentido, do ponto de vista universal. Aí está o particular inerente ao ser humano.
Não procures os sentidos e relata. Começa por descrever o abraço à chegada. Não da maneira que te contei porque na realidade ela tinha de ser contida, já que estava a pisar outro mundo; podes descrever o abraço como se descrevem os grandes abraços das histórias que depois passam a filmes. Toda a verdadeira história merece ser vista por quem não sabe ler. Conta como ele sorriu quando a viu encaminhar-se para a multidão e como lhe abriu os braços acolhedores. Pedi-te que te alongasses nas cenas de amor, lembras-te?
Depois terás de voltar atrás, ao momento em que ela decidiu que iria. Mas deixa isso para depois, que antes tens de fazer o caminho que a levou ao hotel. Instala-a primeiro, antes de esmiuçares a questão das decisões.
Saturday, September 06, 2008
Ficcionar 2. (invertendo o começo)
Na escrita podes concretizar, preencher, inverter.
Mas não digas que ela sabia que a história tinha um fim. Deixa que os outros, os que lêem, acreditem na conjugação dos acasos, já que deles é feita toda a história e todas as histórias.
Reduz aquele fim à impressão causada pelo excesso de calor nos corpos ou simplesmente ao efeito dos ponteiros do relógio. E, de caminho, retarda as horas e alonga a descrição das cenas de amor. Se houver um sentido harmonioso e orgânico no texto o leitor constrói, não precisas de te preocupar com os detalhes. Todos os significados são múltiplos.
Thursday, September 04, 2008
Ficcionar 1. (Antevendo o final)
Não, não estou a dizer que para ser literário tem de ser dramático mas se ficcionas tens de ser completa, tens de converter em atractiva a banalidade; a realidade não é suficientemente convincente, como sabes.
Podes dizer que ela anteviu a aventura e por isso atravessou os céus.
Não digas que se meteu no avião em busca da juventude que o tempo estava a gastar depressa demais. Se o disseres parecerá demasiado chorada a história, a raiar a lamechice.
Nem precisas de dizer que deixou escrito aquele papel explicando as razões. Isso dará à personagem um carácter calculista e não se pretende que a perspectiva seja a do excessivamente pensado. Ela agia por impulsos, dizem, sempre amarrada à força das emoções. É assim que deve aparecer a protagonista e nunca a mulher que a racionalidade tornou adulta cedo de mais.
Um final feliz pareceria coisa de romances. Sim, era de um romance que se tratava, ambas sabemos. O romance de uma vida a perder-se no labirinto intenso das contradições; e o romance que escreverás a propósito, se tiveres fôlego para uma história composta, regrada. Mas não digas dessa maneira, que as palavras podem desabar. Ela pode ter feito o percurso exacto para o tal momento, mas tens de construir a trama.
E diz, no fim, que regressou a casa consciente da importância do desejo.
Tuesday, August 26, 2008
Metamorfose
A torrente das palavras nunca dava tréguas mas salvara-se a capacidade selectiva.
Deu por si a reflectir sobre os modos de apreensão do tempo, não tanto na sua dimensão humana mas em todas as outras.
E era também a propósito da literatura, por causa das estantes ocas nas livrarias. Nem réplicas. Apenas histórias de gente urbana, com muita cama e pouco sentido. Sem heróis que possibilitem a poesia mesmo no calor estival com finais dramáticos.
Reparou também que as abelhas andavam laboriosas. Deviam ter andado sempre na sua luta floral, mas havia dias em que até o zumbido das asas incomodava. Sinal de que o Verão está vivo, pensou. Verão azul, leve, limpo. Luz.
Do lado de cá dos dramas, a paz.
Sunday, August 17, 2008
Contemplação
Foi em silêncio que lhe sentiu a pele fresca e, de olhos fechados, sorveu devagarinho o cheiro a menta.
Depois nasceu o dia.
Friday, August 15, 2008
A janela e a porta
Com a janela como fundo atravessa-se a solidão da escrita. Pelas vidraças passam as paisagens que as páginas descrevem e a vida é povoada de ambientes a tinta preta. O sol, pelo lado de fora, dá cor às letras mas aquece pouco.
Caminha-se pelo corredor, pelo lado de dentro da janela; para lá e para cá, ao encontro de mais solidão. No jardim as flores estão também aprisionadas e o vento que as agita prende-se ao lado de dentro dos muros.
A porta abre a vida e abre a esperança. Atravessá-la é deixar a escrita nas páginas e partir. A criatividade cansa; as narrativas levam o corpo à exaustão fingida e quando se relê a história já não se sabe por que razão se preencheu o vazio.
Para lá da porta a simultaneidade do tempo ajusta-se às horas e, sem espelhos que multipliquem as histórias, vive-se a parte cheia de cada momento. Lê-se o nascer do sol, mastiga-se a poeira e absorve-se a loucura das árvores quando o vento as agita nas copas e o dia se prolonga até ser noite.
Thursday, August 14, 2008
Cheiros e cores
Os mercados abertos, as vozes, os sorrisos das pessoas... e a diferença ...
A atracção para os que vêm de fora e querem reter as lembranças.
Recomendaram-nos que não comprássemos. Os mercados não primam pela higiene.
Contudo o que fica é ainda ... encanto.
Tuesday, August 12, 2008
Roteiro de uma viagem por outros mundos
Tunis é um caos mas na avenida Bourguiba anda-se à vontade na azáfama do dia; melhor ainda na luminosidade da noite.
Cartago prende pelo azul do mar: um azul que nunca tinha visto, mesmo conhecendo já o Mediterrâneo. Encanto à chegada. Local de cruzamento de civilizações, com marcas de vários passados.
Sidi Bou Said é uma encosta cheia de azul nas janelas e nas portas. E de novo o mar e o cheiro a encanto. Chá de menta para refrescar, numa esplanada. E o assédio dos vendedores, o regateio até à exaustão. Os dinares tilintam no meio das pulseiras e dos brincos. Vem ver, vem ver!
As águas são transparentes em Hammamet e daqui para a frente toda a costa está pejada de turistas, de Sousse a Monastir. Divertem-se os europeus nas águas quentes e na movimentação estival.
Ilha das sereias – Djerba – onde dois mundos convivem: o mundo árabe e o mundo judeu, a sinagoga e a mesquita. E a sedução da joalharia. E a paisagem.
Depois Gabes, a linha costeira, as indústrias, raras neste país de contrastes. E estamos a entrar na paisagem lunar de Matmata, povoação berbere com habitações trogloditas, escavadas na montanha, buracos frescos na secura árida da envolvência. E depois Kebili, a porta do deserto, a caminho de Tozeur, a região dos palmeirais. Deliciosa a frescura dos oásis, nas três alturas dos seus cultivos, das ervas de cheiro às palmeiras imponentes. Pelo meio os figos, as romãs…
Tozeur… onde deixei o coração.
De regresso à capital ainda se visitam as ruínas de Sbeltla onde se fotografam os capitéis, quase intactos, que envolvem o teatro romano; e depois Kairouan, a quarta cidade santa do Islão.
Cheira a especiarias e a couros e a perfumes no regresso à Medina de Tunis. Tudo brilha. O colorido enche os olhos. Regateiam-se os preços naquele ritual próprio e os vendedores insinuam-se com as mulheres ocidentais. É um jogo de sedução que se alimenta. Negócio à vista.
Trouxe uma mala de encantos. Meia dúzia de bugigangas e um torvelinho de emoções.
Tenho de voltar.
Sunday, August 10, 2008
Regresso
Tuesday, June 17, 2008
Pregar aos peixes
(excerto do enunciado de um exercício da Prova Escrita de Português, hoje, a propósito do Padre António Vieira)
É Visionário quem efectivamente vê para além do visível.
Era também um conselheiro avisado que advertia os governantes num manejo assertivo da palavra escrita, arte de apenas alguns, os que são depois lembrados pelos séculos dos séculos: “ou vedes ou não vedes: se o vedes como o não o remediais e se não o remediais como o vedes?”, escrevia Vieira no século XVI. E dizia, pregando aos peixes: “Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam 100 pequenos, nem 1000, para um só grande.”
E hoje?
Sujeição ao politicamente correcto; respeito institucional, cumprimento da lei, preconceito, ganância, medo.
O politicamente correcto espartilha-nos na polidez imposta; o respeito institucional limita-nos nos anseios de sobrevivência; o cumprimento da lei cega-nos a criatividade; o preconceito envenena-nos a racionalidade; a ganância faz com que nos continuemos a comer uns aos outros como se o mundo acabasse amanhã; o medo bloqueia-nos a acção.
Por que incentivo à fuga?
Não se trata de culto gratuito ao desrespeito mas sim de defender o pensamento e a razão, valores quase perdidos numa sociedade virada para as tecnocracias e para a facilidade do ir atrás dos outros. Questiono as atitudes, não o dever de cidadania.
Onde está a valorização do lado humanista de cada um de nós?
Monday, June 16, 2008
Reformulando as formas da lua

Era a propósito dos quadrantes da lua e eu perdia-me em narrativas de palavras levemente musicadas para produzirem o efeito harmonioso da leitura fácil. Dizia de quatro cruzamentos do astro com as marés e de quatro exclusões cicatrizadas. Dizia, como se diz na leveza das palavras fáceis, de um torpor de brisa e de uma paz de sossego inquieto. Dizia – invocando os quadrantes do vento – da orientação magnética, certeira depois de cada perda. Tudo em quadrantes de quatro fases, dizia, afirmando aos olhos a visão dos céus.
E digo agora, sob o peso da dificuldade de dias exageradamente quentes – dias que queimam a calma e deixam o rasto das cinzas no cabelo – digo agora, vencida a cegueira dos excessos, escritas na areia as certezas (não venhas ainda mar), lavradas em sílabas ditas, repetidas, repisadas; digo agora que nego a visão dos céus nos seus quadrantes e invoco os deuses mais antigos, pedindo-lhes os néctares do discernimento, para afirmar que a lua tem apenas duas faces.
E digo ainda que findou o tempo faseado em dois.
E depois disto a vista enrugou, encovou, enevoou; as ideias mascararam-se, quebradiças, informes, submersas; o tempo gastou-se em todos os relógios e deixei ir com ele os meus dois braços.
Thursday, June 12, 2008
Im(perfeições)
e os heróis estão caídos sob o efeito de um calor precoce;
No horizonte repousam as horas
e as esperas ansiosamente lentas
agitam-se num rumor de águas revoltas.
Os rios correm sempre para o mar demasiado depressa
E os peixes contorcem-se silenciosamente;
No céu as nuvens desfazem-se outra vez
sem forma que as contenha
nem rumo que as empurre.
Tuesday, May 27, 2008
Horizonte
- Agora está sereno. Vejo-lhe, na transparência, os novelos das águas; e soltam-se as bolhas de ar à superfície. Apetece-me explorá-lo até perder o pé.
- E não tens medo?
- Claro que tenho. Mas ficar em terra é mau. Ali naquele lugar onde rebentam as ondas até a espuma se desfaz na areia.
Sunday, May 04, 2008
Fios de seda colorida para bordar em linhos novos
Uma frase forçou a tarde; ou era a imagem de um limoeiro velho, drama de querer um começo e não dar com o caminho. Não me agradam as trivialidades mas também não me apetecem palavras semeadas sem métrica ou melodia.
Monday, March 24, 2008
Bordando sombras
Ao fim de tantos anos o vento ainda uiva na varanda
Enquanto eu bordo as palavras num linho desbotado.
Não é que me apeteça ser esta ilusão de repouso na noite
Posso sempre fechar a porta ou esconder o corpo
Entre o linho e as palavras
Não é que me surpreenda a súbita chegada das sombras;
A memória das coisas é sempre o dia claro
Mesmo que seja noite.
Porém morro ainda no instante verbal
Sendo a morte apenas a palavra acorrentada.
O resto é o uivar do vento por dentro da solidão.
Friday, March 21, 2008
Thursday, March 13, 2008
Perspectivando caminhos

trilhado justamente no eixo principal
onde costumam estar os dias e as noites
seguindo-se, sem surpresas acrescidas;
Perdem-se os passos na indecisão cruzada
dos caminhos secundários
ao encontro de noites vagamente fingidas
ou da viuvez massacrada das árvores seculares.
Analogia discreta e vagamente torpe
já que é diurna a escolha
sendo as noites lugares de desassossego
e promessa de eixos seguros...
Friday, February 22, 2008
Palavras desafiadas
.búzios. olhos. filhos. palavras. labirinto. memória. tempo. asas. bruma. poesia. verdade. sorriso.
Antes usar as palavras todas; escolher é tarefa difícil e eliminar é cortar o significado, embora seja bom jogar com os sons e não apenas com os sentidos.
Por isso digo bruma como se fosse música; e labirinto a prolongar o eco pelos caminhos da imaginação; depois digo búzios, deslizando num areal de murmúrios ao ouvido.
Mas se disser memória penso num lugar desordenado pelo tempo; lugar onde a verdade é construída à distância das emoções e para onde as asas nos levam mesmo sem querermos. E se disser sorriso rasgo a dimensão da pele, já refeita das assimetrias dos últimos dias, com os olhos sempre a ver redonda a realidade.
Porém, quando digo filhos digo poesia.
Tuesday, February 19, 2008
às vezes é o que apetece...
Na cidade um enorme número de pessoas movimentava-se entre o emaranhado de ruas e (…) apinhava-se no cais (…).
Na manhã de 29 de Novembro (1808) foi dada ordem para levantar âncora. (…) Atrás de si, o esquadrão real deixava um cenário desolador; bagagens, papéis ensopados em água e caixotes abandonados espalhavam-se pelo cais; a lama, muito pisada, começava a secar, deixando marcas da recente agitação – um caos de pegadas, torrões e linhas em espiral. Entre os detritos jaziam artigos inestimáveis do património da coroa, deixados para trás na pressa de partir. Coches luxuosos com arreios em belíssimo estado, muitos ainda cheios de valores retirados dos palácios, estavam parados nas docas vazias; catorze carradas de prata das igrejas foram abandonadas aos franceses e os sessenta mil volumes da biblioteca real da Ajuda espalhavam-se na lama (…)
Podemos nunca vir a saber ao certo quantas pessoas conseguiram embarcar na frota, mas parece que cerca de dez mil saíram de Portugal para o Brasil, na primeira vaga – um número impressionante se tivermos em conta que a população de Lisboa naquela época não ultrapassava as 200 mil almas. A um vasto séquito de cortesãos – cirurgiões reais, confessores, damas de honor, guarda-roupas do rei, cozinheiros e pagens – juntava-se a melhor sociedade lisboeta – conselheiros de estado, sacerdotes, juízes e advogados, juntamente com os seus familiares. Do núcleo original da coroa e dos funcionários governamentais, subornos e pedidos de favor tinham alargado o grupo para incluir funcionários subalternos, homens de negócios, familiares distantes e penduras variados. (…)”
Monday, February 18, 2008
Thursday, February 14, 2008
o colo que cria ou a criação do colo
Pus-me em segredo no teu colo e tricotei um rosto
e assim sonhei ternura
e bordei trevos às escondidas.
Tuesday, February 05, 2008
desfocagem
PicassoQue deu ao pintor para se pôr a colorir as lágrimas?
Quem lhe disse que elas são confetis ou cones de gelados infantis? E os chapéus barcos de lançar aos charcos nos Invernos lamacentos?
Com que mãos limpou o rosto da mulher chorosa e lhe pôs fragilidades nos lábios e depois lhe alisou os cabelos.
Maldigo-te pintor pelos teus olhos embaciados.












