Monday, March 24, 2008

Bordando sombras

Ao fim de tantos anos o vento ainda uiva na varanda
Enquanto eu bordo as palavras num linho desbotado.

Não é que me apeteça ser esta ilusão de repouso na noite
Posso sempre fechar a porta ou esconder o corpo
Entre o linho e as palavras

Não é que me surpreenda a súbita chegada das sombras;
A memória das coisas é sempre o dia claro
Mesmo que seja noite.

Porém morro ainda no instante verbal
Sendo a morte apenas a palavra acorrentada.

O resto é o uivar do vento por dentro da solidão.





Friday, March 21, 2008

Eis que ela chega

aproxima-se devagar

e traz as cores

e o prazer de contemplar




Thursday, March 13, 2008

Perspectivando caminhos




















Mesmo que se vagueie há um caminho
trilhado justamente no eixo principal
onde costumam estar os dias e as noites
seguindo-se, sem surpresas acrescidas;

Perdem-se os passos na indecisão cruzada
dos caminhos secundários
ao encontro de noites vagamente fingidas
ou da viuvez massacrada das árvores seculares.

Analogia discreta e vagamente torpe
já que é diurna a escolha
sendo as noites lugares de desassossego
e promessa de eixos seguros...


... ou apenas desejo de vida.



Friday, February 22, 2008

Palavras desafiadas


Foi um desafio que veio de um jardim. Tinha de construir um texto com doze palavras escolhidas.
Como falava de palavras, aqui estão elas:



.búzios. olhos. filhos. palavras. labirinto. memória. tempo. asas. bruma. poesia. verdade. sorriso.

Antes usar as palavras todas; escolher é tarefa difícil e eliminar é cortar o significado, embora seja bom jogar com os sons e não apenas com os sentidos.
Por isso digo bruma como se fosse música; e labirinto a prolongar o eco pelos caminhos da imaginação; depois digo búzios, deslizando num areal de murmúrios ao ouvido.
Mas se disser memória penso num lugar desordenado pelo tempo; lugar onde a verdade é construída à distância das emoções e para onde as asas nos levam mesmo sem querermos. E se disser sorriso rasgo a dimensão da pele, já refeita das assimetrias dos últimos dias, com os olhos sempre a ver redonda a realidade.
Porém, quando digo filhos digo poesia.


Tuesday, February 19, 2008

às vezes é o que apetece...

“Quando a última carruagem saiu do pátio de entrada de Queluz, o que um dia fora um retiro sagrado da realeza começou a ganhar o ar de edifício condenado. Da coluna em movimento lento, o palácio via-se cada vez mais longe, as paredes molhadas pela chuva já não pareciam imponentes, as sebes aparadas, a intrincada escultura dos arbustos, as fontes e as estátuas esvaziadas de poder simbólico.
Na cidade um enorme número de pessoas movimentava-se entre o emaranhado de ruas e (…) apinhava-se no cais (…).
Na manhã de 29 de Novembro (1808) foi dada ordem para levantar âncora. (…) Atrás de si, o esquadrão real deixava um cenário desolador; bagagens, papéis ensopados em água e caixotes abandonados espalhavam-se pelo cais; a lama, muito pisada, começava a secar, deixando marcas da recente agitação – um caos de pegadas, torrões e linhas em espiral. Entre os detritos jaziam artigos inestimáveis do património da coroa, deixados para trás na pressa de partir. Coches luxuosos com arreios em belíssimo estado, muitos ainda cheios de valores retirados dos palácios, estavam parados nas docas vazias; catorze carradas de prata das igrejas foram abandonadas aos franceses e os sessenta mil volumes da biblioteca real da Ajuda espalhavam-se na lama (…)
Podemos nunca vir a saber ao certo quantas pessoas conseguiram embarcar na frota, mas parece que cerca de dez mil saíram de Portugal para o Brasil, na primeira vaga – um número impressionante se tivermos em conta que a população de Lisboa naquela época não ultrapassava as 200 mil almas. A um vasto séquito de cortesãos – cirurgiões reais, confessores, damas de honor, guarda-roupas do rei, cozinheiros e pagens – juntava-se a melhor sociedade lisboeta – conselheiros de estado, sacerdotes, juízes e advogados, juntamente com os seus familiares. Do núcleo original da coroa e dos funcionários governamentais, subornos e pedidos de favor tinham alargado o grupo para incluir funcionários subalternos, homens de negócios, familiares distantes e penduras variados. (…)”
Patrick Wilcken, Império à deriva, ed. Civilização, 2004

Monday, February 18, 2008

criação ou continuação ou o fim do intervalo



Devolvo-te agora o sorriso inteiro, intacto, elástico, fantástico.



Thursday, February 14, 2008

o colo que cria ou a criação do colo

Picasso

Pus-me em segredo no teu colo e tricotei um rosto

e assim sonhei ternura
e bordei trevos às escondidas.



Tuesday, February 05, 2008

desfocagem

Picasso


Que deu ao pintor para se pôr a colorir as lágrimas?
Quem lhe disse que elas são confetis ou cones de gelados infantis? E os chapéus barcos de lançar aos charcos nos Invernos lamacentos?
Quem o mandou desfocar os olhos e pôr saliências nos dentes?
Com que mãos limpou o rosto da mulher chorosa e lhe pôs fragilidades nos lábios e depois lhe alisou os cabelos.


Maldigo-te pintor pelos teus olhos embaciados.

Assimetrias

Picasso

São ainda muitos os dias em que abençoamos o sol; contudo não conseguimos evitar as madrugadas frias, quem sabe se por um certo finalizar trazido pelo avançar dos anos, gelos mal distribuídos, quando antes era o calor a derreter os excessos. Lacrimeja um pouco a pálpebra, defendendo-se calada, e se fechamos os olhos nem tão pouco é para conservar o calor do lado de dentro mas para os poupar apenas.
Desconstrução maldita, diria a pessoa, enquanto o pintor se deliciava no desmantelar da realidade.
Criação, repartição, gozo fiel, sem tirar nem pôr; ou punha as cores, o artista e triangulava as formas de fugida.

No fechar dos olhos encerramos a bênção do sol que agora é um desejo, mais do que o calor que regenera, e pedimos ao dia seguinte que nos ceda um milímetro de espaço para minimizar a desengraçada e pungente assimetria dos gestos.


Sunday, February 03, 2008

pequenas conversas, grandes enigmas ou de como é difícil sorrir


Não forces o sorriso que te estragas; não olhes, não fixes o real mais do que o necessário; não pronuncies as palavras inúteis, nem todos os ouvidos as merecem. Segura a lágrima, que te faz falta à secura das horas mais amargas; fecha os olhos, se puderes: uns dias de cegueira clarificam a vida ou ela é sempre clara e são as pálpebras demasiado abertas que não permitem visões certeiras.
Não sorrias ainda, a vida espera um pouco enquanto te seguras e te retrais; aligeira a carga, espalha os cabelos ao vento, estica a pele enrugada, movimenta a face trôpega; desfruta, se fores capaz, das horas inactivas: pára, paira, pasma, descansa, cria.
Aguarda o tempo necessário ao retorno da normalidade. Ela virá.

Saturday, January 26, 2008

Prosperidade

imagem daqui
A memória fica frouxa e ao mesmo tempo a saúde declina: hoje doem as mãos, amanhã o corpo e no outro dia já passou tanto tempo, ainda que não se perceba como, porque foi quase ainda ontem que os filhos nasceram e se fizeram homens, cada um com a sua vida e as famílias complicadas, discussões, separações e outras situações; enfim, estamos sós, diz o velho, depois de urinar sangue, desconfiado que a partir de agora não há muito mais a esperar da vida; ela tem mais fibra e estende ainda ao trabalho as mãos e a garra. Sorte a deles, que podem queixar-se um ao outro, as palavras ajudam e a presença alivia a solidão, que mesmo juntos nem sempre a vida foram rosas. Sorte se vivem perto das emergências, se bem que o longe é relativo, dizem os governantes, no meio de inaugurações: hospitais? não nos perguntem essas coisas agora que o tempo é para celebrações e o Alqueva vai dar de beber a muitos milhões. Fome? Isso é conversa das oposições. Doença? Não, não estamos doentes, somamos números em vivas recuperações. Os velhos? Quais velhos? Os velhos já não existem. Falemos de prosperidade que desse assunto já nós cuidámos para bem de todos e da economia das nações.

Sunday, January 20, 2008

as cariátides



Sem cabeça seria apenas corpo;
corpo flexível, arrumado, curvo
corpo em movimento, girassol abrindo.

Sem cabeça não me deitaria fora
todos dias ao final da tarde
para no dia seguinte acordar fingindo.







Tuesday, January 08, 2008

Saturday, January 05, 2008

dias ásperos


Modificações, mudanças, promessas, cinco tostões de ódios já digeridos e outras coisas sem valor amontoadas a um canto, histórias que nunca mais se repetirão, as melhores e as outras, e a vontade a acender-se contra as rugas das paredes; ásperas também as recordações e os desejos, esses menos porque toda a tempestade amaina, tarde ou cedo; e as vidas a resolverem-se, nem bem nem mal que o bem-estar alheio só o é para os olhos menos avisados; tomara ter a menos o peso do lastro que fica fechado entre muros ou ser herdeira de portas encerradas e estar para lá das fechaduras, sem esta demora na ousadia ou esta vontade miudinha de desistir, que a vida não pode adiar-se nem fechar-se entre o sol filtrado e o gelo que se instala quando cai a noite.

Wednesday, December 26, 2007

se alguma coisa rompesse a penumbra


A mão que escreve tem a mesma exigência que macera a alma
como se fosse uma respiração mal conquistada
ou um coágulo maldito a bloquear a veia
que pulsa avassalando cada noite;

Nada me merece a vista; nada me aquece o frio dos olhos;
nada me surpreende a lassidão do estar,
nem tão pouco veneno que corre em regatos
ou a rosa branca pendente dos espinhos

Uma avenca rompe da fenda dos tijolos
e eu sinto-lhe o contorcer da força
como um pulsar exigente; o veneno da beleza
invadindo a penumbra que flagela a vida.

Monday, December 24, 2007

E como... se as flores nascem todos os dias

Arranco da terra esta pedra e esta pressa
Cansada de lugares comuns e presa à espera

Vagueio com os mortos e sinto-lhes a fome
E mesmo o nascer das flores ressoa na imperfeição do instante

São comerciais as alegrias alheias
Vendidas sob as máscaras da utilidade dos gastos

Das canções desbotadas retenho as vírgulas
Que pouso nos lutos geminados com a loucura

E não sabendo como cantar, digo baixinho um grito
Obscuro, veemente, negro, gasto…

Sunday, December 16, 2007

tempo


Vestiu-se de folhagem o Outono e era verde o sol nos intervalos.
Percorríamos ainda os labirintos em busca de deuses impossíveis.
Ficou suspenso o tempo enquanto as estações se sucederam.



olhares de pedra

Todo o caminho para os deuses é um labirinto
Percorrê-lo pode demorar a vida toda
Para ter como prémio a pedra dos olhos.


Saturday, December 15, 2007

folhas velhas em águas turvas


Não se pode dizer que seja a coisa em si, mas o conceito.
É ele que ensombra a memória e a faz recuar ao desconforto do gelo nos dedos dos pés apertados nos sapatos de calçar ao domingo. Mas é no aqui e no agora que o frio permanece, sem que o tempo consiga esclarecer-se, enquanto eu estava de mão dada a outra mão maior e não conseguia dizer que o frio me apoquentava.
É também a ideia que aparece na memória a esmagar os risos depois das horas de brincadeira; uma ideia que fustiga as possibilidades do bem-estar sem culpas.
O mundo dos adultos era um lugar estranho visto de todos os ângulos; para quê então a pressa de crescer, naquela altura?

Hoje nada disso interessa. As personagens vão saindo de cena e nada mais fica para além da memória dos dias distantes, resolvidos quase sempre, mas fazendo parte de um todo que se alonga com o passar dos tempos.

Wednesday, December 12, 2007

o mar dos mitos

A caminho da ilha de Gozo

Regressava Ulisses ao lugar das palavras certas e o mar incerto enviesou as águas ou foram os ventos que ganharam asas ou o canto das sereias a desafiar certezas.
De relance vi-lhe a ousadia da silhueta. Era divino o cheiro a mar visto de perto.






Thursday, December 06, 2007

Voo sobre paisagem de mar

O Mar visto de Malta

Era a hora irreal do dia, a hora da bruma à beira-mar e dos sussurros dos búzios pousados nas areias; e eu a inventar realidades sabendo ser ainda cedo para o voo da tarde; mas já o céu cintilava, já a noite se vestia de sonho e as ondas soltavam-se de encontro à rocha, às escondidas.
Por ser a hora irreal do dia, a hora dos sonhos que desfazem todas as brumas e abrem caminho à invenção de todas as realidades, declarei que o voo se faria ao fim da tarde. A noite vestir-se-ia de marés soltas e aguardaria a chegada da manhã. A revelação poderia estar no lugar em que as rochas recebem as ondas e lhes abençoam a violência.

Wednesday, December 05, 2007

Discriminação e Tolerância

M'sida Campus, em Malta

Serão sempre as estruturas de poder que geram a discriminação ou essa é uma coisa inata no ser humano, cuja tendência é dividir, separar e classificar?
Será que a tolerância desaparecia se o poder fosse mais justamente distribuído? Ou esse é um sentir tão profundamente integrado na natureza humana que logo assumiria outras formas?
Há sempre uma diferença entre as pessoas, uma diferença da qual ninguém pode demarcar-se: o que é bom para mim não é necessariamente bom para o outro. É aí que reside e diferença e é por isso que se discrimina ou se tolera.
Talvez se possa dizer que ao longo a História a tolerância existiu sempre que o controlo por parte do poder não era possível; desse ponto de vista tolerar é assumir o domínio e consequente minimização do outro. Será, pois, a tolerância uma recusa?
Contudo, em questões de natureza religiosa não se pode falar em tolerância uma vez que estão em causa práticas ligadas a valores. Ganha a exclusividade e por isso prevaleceu a lógica da conversão. Ou a sua imposição.
Tolerância absoluta seria um problema para os Estados. Tolerar tudo seria prescindir das regras e das normas que nos regulam os comportamentos. Ou não?
E nós, o que é que toleramos quando somos tolerantes?

Não era preciso ter sido em Malta, mas calhou ser lá o lugar da reflexão. Gente da História e de outras áreas das ciências humanas juntaram-se para cumprir mais um encontro em honra da deusa Clio.

Wednesday, November 28, 2007

Sirvam-se

Não vou estar por cá, mas a quem passar por aqui no dia 1 de Dezembro, ofereço uma fatia de bolo.
Andarei à volta da Discriminação e Tolerância, em Malta. Farei depois o relato das impressões.
Conto ficar, depois do regresso, com mais tempo livre para cuidar dos textos.

Sunday, November 18, 2007

Olhos claros

Há dias de Outono em que nos apetece semear a Primavera.

Monday, November 12, 2007

Ser mãe quando a filha é a Flávia


Acorda-se da letargia quando se pressente que o nosso torpor é um momento a menos na continuidade que é este correr cego, desejando-se ardentemente estar bem a toda a hora. Não que isso seja um desejo absurdo, pois a vida é curta demais para ser desperdiçada em intervalos. Mas às vezes há coisas que nos obrigam ao soluço encorajador. Um soluço solidário.

Quando penso que sou mãe de dois filhos normais e saudáveis, que seguem o seu percurso com objectivos, ultrapassando os obstáculos um a um pela sua capacidade de estar aqui, penso que por muitas coisas que me faltem para me sentir bem, essa parte, pelo menos, está cumprida.

Há uns anos li um romance de uma mulher que escrevia sobre a sua família na esperança de que a filha, em coma, o pudesse ler quando despertasse. Li-a porque gostava e gosto de tudo o que Isabel Allende escreve.
Por estes dias, por indicação deste blog, tenho estado a ler a história de uma mulher que escreve em circunstâncias muito semelhantes, mas com o objectivo de conseguir JUSTIÇA. Não creio que Odele espere um milagre, embora o sorriso da Flávia o merecesse, como o mereceria o sorriso de qualquer filha. Mas era bom que a sua luta fosse bem sucedida, ao menos essa…

Friday, November 09, 2007

Hibernação 2.


Salpica-me o sol destes dias pequeninos.

Dói-me o corpo de lagarto escondido nas frinchas.


Sunday, October 28, 2007

Hibernação 1.


Talvez hiberne.
Basta reduzir a actividade ao mínimo exigido pela sobrevivência, respirar devagar, deixar o coração bater devagar, sentir baixar a temperatura do corpo, devagar. Ficar assim durante a estação fria, ouvir o cair da chuva ao longe, se houver chuva e deixar passar por cima das palavras adormecidas as folhas velhas.

Friday, October 19, 2007

quadrantes e luas em cruzamentos quase possíveis


Era a propósito dos quadrantes; os do vento e os da vida, que os quatro cantos de tudo são sempre a possibilidade esquartejada, tendo em conta a unidade impossível.
Era possível ter sido diferente, pelo menos na contingência dos “ses”, sendo eles os caminhos excluídos e, só por isso, os que se adivinhariam a alternativa perfeita. Ou a diferença poderia estar nesta consideração, decalcada da rosa-dos-ventos e por isso limitada ao rigor das quartas partes, sendo a vida mais do que isso.
Quatro vezes excluí de mim o quarto crescente. Nem sempre fui voluntária mas, avaliação feita, cruzaram-se o mal e o bem, como se cruza o céu com a terra ou a lua com as marés.
À primeira foi como perder um membro. De vantagem apenas a robustez da cicatriz. Ponto quase final.
Depois a paz, brisa – não vento – a entorpecer até ao excesso. Sossego inquieto depois de quase perfeito.
A meio, a exigência de torvelinhos enviesados, vulcões vindos de dentro, ânsias recalcadas, ousadia, desafio quase completo.
Depois o quarto céu, a zurzir num cais ventoso, quase real.
Assomaram ainda algumas orientações colaterais mas não me lembro do sopro.
O mais, foram quartos minguantes.




Sunday, October 14, 2007

O que foi que eu disse?


Depois passaram dias, muitos dias, disse eu como só os velhos dizem quando contam histórias moídas pelo mofo dos Outonos; e dos dias passados ficaram memórias sopradas pelos ventos de todos os quadrantes; memórias incrustadas na raiz dos anos, às vezes espinhos enclausurando mistérios. E depois das memórias embrulhadas nos dias todos, gravadas neles como riscos afundados no lado de dentro da pele, disse de novo que em cada estação renasce o outro tempo, o da mudança; e que a mudança apenas anuncia a conformação, não vá o informe perder-se por ausência de limites.
Limito-me a constatar os encantamentos, digo ainda: a claridade que em certos dias de Outono se solta em raios por detrás das nuvens, a encosta a verdejar nos olhos, o cheiro muito forte da terra…
Submeto-me ainda à ilusão das palavras mesmo sabendo que o que nelas passa a símbolo não é mais do que o fascínio e a construção dos olhos. Contudo afaguei o vento e, de mãos abertas, desconstruí a maior parte dos silêncios.
Foi preciso aguardar o momento certo para ver sair do casulo a simplicidade.

Tuesday, October 09, 2007

Imitação do Outono



Se é um tronco posso imitar-lhe a robustez
e copiar-lhe o castanho forte;

Se é uma raiz posso pedir-lhe a força
e ligar-me veementemente ao chão; somos irmãs.

Depois virá Zéfiro e levar-me-á nas folhas douradas,
abanando-me os ramos mansamente.

Com elas irei, asas sábias de aves migratórias,
ou tapete estaladiço sob os pés de meninos em corrida.




Monday, October 08, 2007

Eslovénia





É de facto um país pequeno e pouco populoso – um pouco mais de 2 milhões de habitantes, estando cerca de 1 milhão e meio na República da Eslovénia e os restantes dispersos como minorias nas regiões fronteiriças com a Itália (Friuli-Venetia Giulia e Trieste), com a Áustria (Carinthia), Hungria (Porojabe) e Croácia.
Resultado de um longo processo histórico cujas últimas mudanças ocorreram em 1991 – quando se tornou um Estado independente – e em 2004, quando se torna parte da União Europeia, a Eslovénia é uma surpresa para quem, como nós, se habituou a ter apenas uma fronteira a leste. Aqui o resto é mar e é no mar que está parte da nossa História. Lá, há toda uma riqueza de influências que são o resultado de movimentos sucessivos de povos e do cruzamento de ideias e culturas diferentes.
Foi tardio, ali, o despertar da consciência nacional. O peso do Império Áustro-Húngaro foi longo e só depois da Primeira Guerra Mundial surge um esboço de projecto político.O papel das minorias? Grande, porque foi das comunidades que viviam no exterior deste espaço que veio a força organizativa que visava impedir o extermínio da etnia eslovena pela Jugoslávia federal. Ocupação militar e depois tentativa de neutralização da língua foram as estratégias tentadas mas a resistência surtiu efeito e hoje não é só no solo pátrio que os eslovenos o são: são-no também nas regiões fronteiriças onde, apesar de minoritários, a língua, os costumes e o direito de se ser esloveno está consignado na lei.
E depois é surpreendente como uma cidade pequeníssima (Maribor) tem uma Universidade tão grande e tão organizada e tão cheia de departamentos de tudo e mais alguma coisa. Para não falar no teatro e na ópera e nessas coisas que não estamos habituados a ver funcionar entre nós.
Cansada da distância, mas mais rica depois de ter lá estado.
E sim, correu tudo muito bem!



Sunday, September 30, 2007

A Intolerância

Um dos casamentos de D. Manuel

Tudo começa quando o rei D. Manuel, para satisfazer os «escrúpulos religiosos» de D. Isabel – a noiva castelhana filha de Fernando e Isabel, os Reis Católicos – decide expulsar os judeus do território nacional.
Os cronistas relatam pormenorizadamente a questão da expulsão, descrevendo os pareceres – que o próprio monarca pediu – divididos entre os que eram favoráveis à permanência dos judeus em Portugal e os que defendiam a sua expulsão.
Diziam os primeiros que se o papa permitia a permanência deste povo nas suas terras, tal como o permitiam a Hungria, a Boémia, a Polónia e a Alemanha, por que não seguir-lhes o exemplo? A expulsão levá-los-ia directamente para o norte de África onde a esperança da conversão se perderia e, pior do que isso, onde eles iriam ensinar aos mouros os “truques” a usar contra os cristãos. De igual modo o rei perderia serviços e tributos e o reino perderia talentos.
Diziam os segundos que se a França, a Inglaterra, a Escócia, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia os expulsaram e sendo Portugal vizinha de Castela e de França, corriam-se sérios riscos de se verem prejudicadas as relações com estes países. Por outro lado as vantagens, tendo em conta os tributos e os serviços que podiam prestar ao reino, eram menores que os riscos que se corriam.
Tomada a decisão, no início de Dezembro de 1496 o rei determina: “que os judeus se fossem do reino, com suas mulheres e filhos e bens, mas também os mouros pelo mesmo modo", para que lhes limitou o tempo e lhes nomeou os portos de embarque.

Friday, September 28, 2007

A tolerância

Lisboa no séc. XVI

Desde a criação do Reino de Portugal até à promulgação do Édito de Expulsão (1496) supõe-se que terá havido um clima de relativo convívio entre as populações cristãs e judaicas; a existência de judiarias (sempre que a comunidade era superior a dez elementos) nem sempre foi extra muros, embora com o passar dos tempos se tornasse comum essa localização.
Sabe-se que D. Afonso Henriques nomeia um judeu como seu almoxarife-mor.
Os primeiros reis protegem-nos e contam com eles (e com os mouros) para o povoamento do reino, por isso são-lhes dadas terras, assistindo-se a uma certa prosperidade social e económica em virtude desse clima de integração. Muitas vezes são utilizados como diplomatas ou espiões dos reis portugueses, entre os turcos e os mouros, pela facilidade com que se relacionavam com os poderosos no comércio.
D. Manuel chegou a recorrer a Abrãao Zacuto, conceituado astrónomo judeu expulso de Espanha, para saber da possibilidade de uma viagem até à Índia.
Chega a questionar-se este ambiente de tolerância religiosa sob a alegação de que a violência constitui um traço central da relação entre cristãos, judeus e muçulmanos, uma violência exercida de forma constante na vida quotidiana.
De facto há conhecimento de vários assaltos, particularmente o de 1449, ocorrido na judiaria grande, em Lisboa; porém, também há notícia de medidas exercidas sobre os cristãos que roubam. São episódios esporádicos e, ao que parece, não directamente relacionados com questões religiosas.
Até ao reinado de D. Manuel a convivência foi, pois, relativamente pacífica.
Sobre a comunidade mourisca sabe-se pouco. Seriam uma minoria de condição modesta a viver em mourarias, diminuindo em número durante toda a Idade Média, devido à conversão e assimilação progressiva de uma parte (mínima) e à emigração para a Espanha Islâmica e Maghreb. A maior parte destes mouriscos constituíam mão-de-obra escrava.
No Paço Real havia músicos mouriscos que cantavam e tangiam com alaúdes e pandeiros, charamelas, harpas, rabecas e tamboris – ao som dos quais dançavam os moços fidalgos durante o jantar e a ceia.
Além de bailarem, ocupavam-se de serviços do campo, tratavam dos animais e cozinhavam. Podiam dedicar-se ao comércio mas se o faziam era para vender produtos de raiz agrícola, vinho, azeite ou fruta seca. Quando escravizados podiam constituir sinal de riqueza para quem os possuía: podiam ser emprestados, oferecidos ou mesmo constar nas heranças dos seus donos.
As mulheres faziam o acompanhamento de senhoras em saídas festivas, trabalhavam na seca do peixe ou como lavadeiras: a limpeza da cidade era assegurada pelas mil "negras da canastra" enquanto outras mil carregavam água dos chafarizes para as casas: um vintém para o senhor e outro para a trabalhadora escrava ou forra. Mil e quinhentas lavadeiras e ensaboadeiras por conta de outrem – “mulheres e negras” – tratavam da roupa de seus donos.

Monday, September 24, 2007

Sem tempo para nada





Durante uns dias não consigo fazer mais nada.

Por agora circulo entre luzes e sombras... enquanto me preparo para ouvir falar sobre Discriminação e Tolerância, no âmbito da temática das Minorias.

Também vou falar mas não é sobre blogues, nem sequer sobre poesia. É acerca das minorias em Portugal no século XVI, particularmente Judeus e Mouros.


Depois de regressar dir-vos-ei como foi.

Saturday, September 22, 2007

luz/sombra



Era o céu a rasgar-se numa espécie de dia fora do tempo e eu concentrada na direcção circular que me trazia de volta a um lugar sem trevos mas, ainda assim, acolhida na frieza da fechadura que me reconhecia a mão.
No lado de dentro, a salvo do relampejar fino que me iluminara o caminho, o silêncio alimentava-se dos céus zangados e incomodava-me o nervo frágil.
Saí a refrescar o medo sem ter descortinado se me satisfazia ou me desagradava o excesso de ordem e a submissão aos elementos.
A chuva arrefeceu-me os braços despidos. Depois deitei a insónia nas trevas.
Pela madrugada estiquei os tendões adormecidos e tacteei o vazio com os olhos, antes que a luz nascesse.

Sunday, September 16, 2007

a linguagem das pedras em tempo de memórias

Roma

estavas inscrito nas pedras, à superfície
de um tempo que passou e se passou
marca cravada nos capitéis do pensamento
mesmo ao longe, noutra latitude,
nos ângulos de outros frisos
nos restos de outras realidades.

senti ainda a tua ausência no que restou
do labirinto das crenças
nos fragmentos subterrâneos,
na triangulação quebrada das fachadas
nas praças povoadas de mitos
e nas águas que os deuses faziam jorrar para dentro das fontes.



Saturday, September 15, 2007

Os livros


A maria_arvore sugeriu-me a selecção dos 10 livros que ajudaram a estruturar esta que hoje sou.

Antes de os enumerar tenho de dizer uma coisa que não é exclusiva do meu sentir: os livros marcam-nos consoante a idade que tínhamos quando os lemos, havendo alguns relativamente aos quais nos perguntamos, uns anos depois, "como foi possível que eu tivesse lido aquilo"? Por outro lado, deve ser difícil a cada um de nós eleger apenas dez...

Aqui vão aqueles de que mais me lembro...

1. A Náusea, de J. P. Sartre, lida por volta dos 14-15 anos, quando me perseguiam as primeiras crises existenciais, ainda antes de certos pensamentos terem nome;
2. A um Deus desconhecido, de J. Steinbeck, pela mesma altura, quando procurava desesperadamente entender a crença e incorporá-la;
3. O Doutor Jivago, de B. Pasternak, há muitos anos, porque já me interessava pela História mas sobretudo pela surpreendente entrada no labirinto dos sentimentos;
4. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, numa altura em que ainda não sabia que o neo realismo era literatura datada; apenas lhe sentia o gosto, acompanhado pelo sentimento de revolta;
5. As Brumas de Avalon, de M. Zimmer Bradley, a alimentar-me as fantasias...
6. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em leitura compulsiva, num fim de semana em que até me esqueci dos filhos...
7. A Obra ao Negro, de M. Yourcenar, como testemunho exímio de uma época, escrito com o coração e com o saber de uma das melhores escritoras de todos os tempos;
8. Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, numa feliz descoberta de uma poderosa arte irónica;
9. A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, construção ficcional perfeita, o romance dentro do romance e a vida vista por dentro e por fora, com a inversão de todas as regras como caminho necessário à escrita de uma obra-prima; e depois também O Cais das Merendas, O dia dos Prodígios, O Vale da Paixão e mais recentemente Combateremos a Sombra. Escrita indispensável ao meu crescimento literário; mas também visão crua, farpa infalível cravada na realidade que não escapa aos olhos e ao coração.
10. A Casa e o cheiro dos Livros, de Maria do Rosário Pedreira, poesia para ler a toda a hora;
... e todos os livros daquela poesia que me enche a alma...


... e agora? Onde ponho os Eças, particularmente Os Maias e A correspodência de Fradique Mendes, numa analogia perfeita com os nossos dias. E o Fernando Pessoa? E os outros?


E agora passo o desafio a todos os que gostam de livros...


Wednesday, September 12, 2007

Cheiro a terra molhada


Esta tarde vieram as chuvas.

Sob os candeeiros da rua deslizaram riscos molhados
Trazendo uma frescura branda ao fim do dia

Nos jardins as corolas ficaram mais viçosas
E da terra soltou-se o cheiro mágico das palavras maduras

Não sei se viste que pus flores nas jarras
E sementes de pétalas no canteiro da estação que se avizinha.



Thursday, September 06, 2007

Regresso


Estou de regresso.
Voltei, devagarinho, como num fim de tarde se regressa da beira-mar e se toma um duche fresco.
Trago as marcas do sol no sal da pele e nos pés o ritmo bom das caminhadas.
Trago serenidade e palavras para escrever. Não são outras, são as mesmas; mas posso sempre trocar o lugar das sílabas e usar janelas novas. E luz, mesmo nos dias curtos que não tardam.

Wednesday, August 29, 2007

Combatendo as sombras

Roma

Antecipo agora o nascer do sol completando as sílabas
Apago também os silêncios repondo a direcção nas asas
E lavro textos sobre jardins acabados de plantar

Recuso deitar-me hirta em lençóis de marés passadas
Planto musgo fresco sobre tapetes de folhas ressequidas
E sorvo o cheiro manso da neblina sobre ruínas entretidas

Invento estações novas para ultrapassar a rapidez do tempo
Digo ao espelho que espere apenas mais um pouco

E transpareço, nua, ao som da voz que sopra nos meus olhos

Sunday, August 26, 2007

Ainda a água... nas férias

Florença

Veneza

Veneza



Thursday, August 16, 2007

Férias com água

Rio Alvoco

Barriosa

Rio Alvoco


Por agora fica o correr das águas.

As palavras virão depois. Neste momento apetece apenas contemplar.