Saturday, January 26, 2008
Prosperidade
Sunday, January 20, 2008
as cariátides
Tuesday, January 08, 2008
Saturday, January 05, 2008
dias ásperos

Wednesday, December 26, 2007
se alguma coisa rompesse a penumbra

como se fosse uma respiração mal conquistada
ou um coágulo maldito a bloquear a veia
que pulsa avassalando cada noite;
Nada me merece a vista; nada me aquece o frio dos olhos;
nada me surpreende a lassidão do estar,
nem tão pouco veneno que corre em regatos
ou a rosa branca pendente dos espinhos
Uma avenca rompe da fenda dos tijolos
e eu sinto-lhe o contorcer da força
como um pulsar exigente; o veneno da beleza
invadindo a penumbra que flagela a vida.
Monday, December 24, 2007
E como... se as flores nascem todos os dias
Cansada de lugares comuns e presa à espera
Vagueio com os mortos e sinto-lhes a fome
E mesmo o nascer das flores ressoa na imperfeição do instante
São comerciais as alegrias alheias
Vendidas sob as máscaras da utilidade dos gastos
Que pouso nos lutos geminados com a loucura
E não sabendo como cantar, digo baixinho um grito
Obscuro, veemente, negro, gasto…
Sunday, December 16, 2007
tempo
olhares de pedra
Saturday, December 15, 2007
folhas velhas em águas turvas
É ele que ensombra a memória e a faz recuar ao desconforto do gelo nos dedos dos pés apertados nos sapatos de calçar ao domingo. Mas é no aqui e no agora que o frio permanece, sem que o tempo consiga esclarecer-se, enquanto eu estava de mão dada a outra mão maior e não conseguia dizer que o frio me apoquentava.
É também a ideia que aparece na memória a esmagar os risos depois das horas de brincadeira; uma ideia que fustiga as possibilidades do bem-estar sem culpas.
O mundo dos adultos era um lugar estranho visto de todos os ângulos; para quê então a pressa de crescer, naquela altura?
Hoje nada disso interessa. As personagens vão saindo de cena e nada mais fica para além da memória dos dias distantes, resolvidos quase sempre, mas fazendo parte de um todo que se alonga com o passar dos tempos.
Wednesday, December 12, 2007
o mar dos mitos
Regressava Ulisses ao lugar das palavras certas e o mar incerto enviesou as águas ou foram os ventos que ganharam asas ou o canto das sereias a desafiar certezas.
De relance vi-lhe a ousadia da silhueta. Era divino o cheiro a mar visto de perto.
Thursday, December 06, 2007
Voo sobre paisagem de mar
Por ser a hora irreal do dia, a hora dos sonhos que desfazem todas as brumas e abrem caminho à invenção de todas as realidades, declarei que o voo se faria ao fim da tarde. A noite vestir-se-ia de marés soltas e aguardaria a chegada da manhã. A revelação poderia estar no lugar em que as rochas recebem as ondas e lhes abençoam a violência.
Wednesday, December 05, 2007
Discriminação e Tolerância
Serão sempre as estruturas de poder que geram a discriminação ou essa é uma coisa inata no ser humano, cuja tendência é dividir, separar e classificar?
Será que a tolerância desaparecia se o poder fosse mais justamente distribuído? Ou esse é um sentir tão profundamente integrado na natureza humana que logo assumiria outras formas?
Há sempre uma diferença entre as pessoas, uma diferença da qual ninguém pode demarcar-se: o que é bom para mim não é necessariamente bom para o outro. É aí que reside e diferença e é por isso que se discrimina ou se tolera.
Talvez se possa dizer que ao longo a História a tolerância existiu sempre que o controlo por parte do poder não era possível; desse ponto de vista tolerar é assumir o domínio e consequente minimização do outro. Será, pois, a tolerância uma recusa?
Contudo, em questões de natureza religiosa não se pode falar em tolerância uma vez que estão em causa práticas ligadas a valores. Ganha a exclusividade e por isso prevaleceu a lógica da conversão. Ou a sua imposição.
Tolerância absoluta seria um problema para os Estados. Tolerar tudo seria prescindir das regras e das normas que nos regulam os comportamentos. Ou não?
E nós, o que é que toleramos quando somos tolerantes?
Não era preciso ter sido em Malta, mas calhou ser lá o lugar da reflexão. Gente da História e de outras áreas das ciências humanas juntaram-se para cumprir mais um encontro em honra da deusa Clio.
Wednesday, November 28, 2007
Sirvam-se
Sunday, November 18, 2007
Monday, November 12, 2007
Ser mãe quando a filha é a Flávia

Quando penso que sou mãe de dois filhos normais e saudáveis, que seguem o seu percurso com objectivos, ultrapassando os obstáculos um a um pela sua capacidade de estar aqui, penso que por muitas coisas que me faltem para me sentir bem, essa parte, pelo menos, está cumprida.
Há uns anos li um romance de uma mulher que escrevia sobre a sua família na esperança de que a filha, em coma, o pudesse ler quando despertasse. Li-a porque gostava e gosto de tudo o que Isabel Allende escreve.
Por estes dias, por indicação deste blog, tenho estado a ler a história de uma mulher que escreve em circunstâncias muito semelhantes, mas com o objectivo de conseguir JUSTIÇA. Não creio que Odele espere um milagre, embora o sorriso da Flávia o merecesse, como o mereceria o sorriso de qualquer filha. Mas era bom que a sua luta fosse bem sucedida, ao menos essa…
Friday, November 09, 2007
Sunday, October 28, 2007
Hibernação 1.
Basta reduzir a actividade ao mínimo exigido pela sobrevivência, respirar devagar, deixar o coração bater devagar, sentir baixar a temperatura do corpo, devagar. Ficar assim durante a estação fria, ouvir o cair da chuva ao longe, se houver chuva e deixar passar por cima das palavras adormecidas as folhas velhas.
Friday, October 19, 2007
quadrantes e luas em cruzamentos quase possíveis

Era possível ter sido diferente, pelo menos na contingência dos “ses”, sendo eles os caminhos excluídos e, só por isso, os que se adivinhariam a alternativa perfeita. Ou a diferença poderia estar nesta consideração, decalcada da rosa-dos-ventos e por isso limitada ao rigor das quartas partes, sendo a vida mais do que isso.
Quatro vezes excluí de mim o quarto crescente. Nem sempre fui voluntária mas, avaliação feita, cruzaram-se o mal e o bem, como se cruza o céu com a terra ou a lua com as marés.
À primeira foi como perder um membro. De vantagem apenas a robustez da cicatriz. Ponto quase final.
Depois a paz, brisa – não vento – a entorpecer até ao excesso. Sossego inquieto depois de quase perfeito.
A meio, a exigência de torvelinhos enviesados, vulcões vindos de dentro, ânsias recalcadas, ousadia, desafio quase completo.
Depois o quarto céu, a zurzir num cais ventoso, quase real.
Assomaram ainda algumas orientações colaterais mas não me lembro do sopro.
O mais, foram quartos minguantes.
Sunday, October 14, 2007
O que foi que eu disse?
Limito-me a constatar os encantamentos, digo ainda: a claridade que em certos dias de Outono se solta em raios por detrás das nuvens, a encosta a verdejar nos olhos, o cheiro muito forte da terra…
Submeto-me ainda à ilusão das palavras mesmo sabendo que o que nelas passa a símbolo não é mais do que o fascínio e a construção dos olhos. Contudo afaguei o vento e, de mãos abertas, desconstruí a maior parte dos silêncios.
Tuesday, October 09, 2007
Imitação do Outono

e copiar-lhe o castanho forte;
Se é uma raiz posso pedir-lhe a força
e ligar-me veementemente ao chão; somos irmãs.
Depois virá Zéfiro e levar-me-á nas folhas douradas,
abanando-me os ramos mansamente.
Com elas irei, asas sábias de aves migratórias,
ou tapete estaladiço sob os pés de meninos em corrida.
Monday, October 08, 2007
Eslovénia
Resultado de um longo processo histórico cujas últimas mudanças ocorreram em 1991 – quando se tornou um Estado independente – e em 2004, quando se torna parte da União Europeia, a Eslovénia é uma surpresa para quem, como nós, se habituou a ter apenas uma fronteira a leste. Aqui o resto é mar e é no mar que está parte da nossa História. Lá, há toda uma riqueza de influências que são o resultado de movimentos sucessivos de povos e do cruzamento de ideias e culturas diferentes.
Foi tardio, ali, o despertar da consciência nacional. O peso do Império Áustro-Húngaro foi longo e só depois da Primeira Guerra Mundial surge um esboço de projecto político.O papel das minorias? Grande, porque foi das comunidades que viviam no exterior deste espaço que veio a força organizativa que visava impedir o extermínio da etnia eslovena pela Jugoslávia federal. Ocupação militar e depois tentativa de neutralização da língua foram as estratégias tentadas mas a resistência surtiu efeito e hoje não é só no solo pátrio que os eslovenos o são: são-no também nas regiões fronteiriças onde, apesar de minoritários, a língua, os costumes e o direito de se ser esloveno está consignado na lei.
Sunday, September 30, 2007
A Intolerância
Os cronistas relatam pormenorizadamente a questão da expulsão, descrevendo os pareceres – que o próprio monarca pediu – divididos entre os que eram favoráveis à permanência dos judeus em Portugal e os que defendiam a sua expulsão.
Diziam os primeiros que se o papa permitia a permanência deste povo nas suas terras, tal como o permitiam a Hungria, a Boémia, a Polónia e a Alemanha, por que não seguir-lhes o exemplo? A expulsão levá-los-ia directamente para o norte de África onde a esperança da conversão se perderia e, pior do que isso, onde eles iriam ensinar aos mouros os “truques” a usar contra os cristãos. De igual modo o rei perderia serviços e tributos e o reino perderia talentos.
Diziam os segundos que se a França, a Inglaterra, a Escócia, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia os expulsaram e sendo Portugal vizinha de Castela e de França, corriam-se sérios riscos de se verem prejudicadas as relações com estes países. Por outro lado as vantagens, tendo em conta os tributos e os serviços que podiam prestar ao reino, eram menores que os riscos que se corriam.
Tomada a decisão, no início de Dezembro de 1496 o rei determina: “que os judeus se fossem do reino, com suas mulheres e filhos e bens, mas também os mouros pelo mesmo modo", para que lhes limitou o tempo e lhes nomeou os portos de embarque.
Friday, September 28, 2007
A tolerância
Sabe-se que D. Afonso Henriques nomeia um judeu como seu almoxarife-mor.
Os primeiros reis protegem-nos e contam com eles (e com os mouros) para o povoamento do reino, por isso são-lhes dadas terras, assistindo-se a uma certa prosperidade social e económica em virtude desse clima de integração. Muitas vezes são utilizados como diplomatas ou espiões dos reis portugueses, entre os turcos e os mouros, pela facilidade com que se relacionavam com os poderosos no comércio.
As mulheres faziam o acompanhamento de senhoras em saídas festivas, trabalhavam na seca do peixe ou como lavadeiras: a limpeza da cidade era assegurada pelas mil "negras da canastra" enquanto outras mil carregavam água dos chafarizes para as casas: um vintém para o senhor e outro para a trabalhadora escrava ou forra. Mil e quinhentas lavadeiras e ensaboadeiras por conta de outrem – “mulheres e negras” – tratavam da roupa de seus donos.
Monday, September 24, 2007
Sem tempo para nada

Também vou falar mas não é sobre blogues, nem sequer sobre poesia. É acerca das minorias em Portugal no século XVI, particularmente Judeus e Mouros.
Depois de regressar dir-vos-ei como foi.
Saturday, September 22, 2007
luz/sombra

Era o céu a rasgar-se numa espécie de dia fora do tempo e eu concentrada na direcção circular que me trazia de volta a um lugar sem trevos mas, ainda assim, acolhida na frieza da fechadura que me reconhecia a mão.
Pela madrugada estiquei os tendões adormecidos e tacteei o vazio com os olhos, antes que a luz nascesse.
Sunday, September 16, 2007
a linguagem das pedras em tempo de memórias
de um tempo que passou e se passou
marca cravada nos capitéis do pensamento
mesmo ao longe, noutra latitude,
nos ângulos de outros frisos
nos restos de outras realidades.
senti ainda a tua ausência no que restou
do labirinto das crenças
nos fragmentos subterrâneos,
na triangulação quebrada das fachadas
nas praças povoadas de mitos
e nas águas que os deuses faziam jorrar para dentro das fontes.
Saturday, September 15, 2007
Os livros

Aqui vão aqueles de que mais me lembro...
1. A Náusea, de J. P. Sartre, lida por volta dos 14-15 anos, quando me perseguiam as primeiras crises existenciais, ainda antes de certos pensamentos terem nome;
2. A um Deus desconhecido, de J. Steinbeck, pela mesma altura, quando procurava desesperadamente entender a crença e incorporá-la;
3. O Doutor Jivago, de B. Pasternak, há muitos anos, porque já me interessava pela História mas sobretudo pela surpreendente entrada no labirinto dos sentimentos;
4. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, numa altura em que ainda não sabia que o neo realismo era literatura datada; apenas lhe sentia o gosto, acompanhado pelo sentimento de revolta;
5. As Brumas de Avalon, de M. Zimmer Bradley, a alimentar-me as fantasias...
6. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em leitura compulsiva, num fim de semana em que até me esqueci dos filhos...
7. A Obra ao Negro, de M. Yourcenar, como testemunho exímio de uma época, escrito com o coração e com o saber de uma das melhores escritoras de todos os tempos;
8. Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, numa feliz descoberta de uma poderosa arte irónica;
9. A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, construção ficcional perfeita, o romance dentro do romance e a vida vista por dentro e por fora, com a inversão de todas as regras como caminho necessário à escrita de uma obra-prima; e depois também O Cais das Merendas, O dia dos Prodígios, O Vale da Paixão e mais recentemente Combateremos a Sombra. Escrita indispensável ao meu crescimento literário; mas também visão crua, farpa infalível cravada na realidade que não escapa aos olhos e ao coração.
10. A Casa e o cheiro dos Livros, de Maria do Rosário Pedreira, poesia para ler a toda a hora;
... e todos os livros daquela poesia que me enche a alma...
Wednesday, September 12, 2007
Cheiro a terra molhada

Sob os candeeiros da rua deslizaram riscos molhados
Trazendo uma frescura branda ao fim do dia
Nos jardins as corolas ficaram mais viçosas
E da terra soltou-se o cheiro mágico das palavras maduras
E sementes de pétalas no canteiro da estação que se avizinha.
Thursday, September 06, 2007
Regresso
Voltei, devagarinho, como num fim de tarde se regressa da beira-mar e se toma um duche fresco.
Trago as marcas do sol no sal da pele e nos pés o ritmo bom das caminhadas.
Trago serenidade e palavras para escrever. Não são outras, são as mesmas; mas posso sempre trocar o lugar das sílabas e usar janelas novas. E luz, mesmo nos dias curtos que não tardam.
Wednesday, August 29, 2007
Combatendo as sombras
Antecipo agora o nascer do sol completando as sílabas
Apago também os silêncios repondo a direcção nas asas
E lavro textos sobre jardins acabados de plantar
Recuso deitar-me hirta em lençóis de marés passadas
Planto musgo fresco sobre tapetes de folhas ressequidas
E sorvo o cheiro manso da neblina sobre ruínas entretidas
Invento estações novas para ultrapassar a rapidez do tempo
Digo ao espelho que espere apenas mais um pouco
E transpareço, nua, ao som da voz que sopra nos meus olhos
Sunday, August 26, 2007
Thursday, August 16, 2007
Friday, August 10, 2007
Ufffff.... já merecia!!!
Saturday, July 28, 2007
Dias definhados
Chegaram mesmo agora os dias sem poesia
Chegou a acidez do osso frágil 
A vista enrugada, encovada, enevoada;
Mais a lentidão dos passos curtos
Em sapatos rasos.
Chegaram quilos a mais, agora mesmo
Chegou a letargia do desejo
As mãos atrapalhadas, presas, ressequidas;
Mais a lentidão das ideias quebradiças
E mal articuladas.
Devia ser possível recusar o invólucro enrugado
Ou recuar sobre as pernas definhadas.
Wednesday, July 25, 2007
Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo

Normalmente a estrutura já nos esmagou antes do acordar
Sabendo-se que o sono nunca é mais do que o refúgio.
Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo
Mas a tarde apenas fecha o dia
Quando a manhã se perde num desejo que foi ontem
Tudo inútil como um trapo velho
E ainda assim conservado, não vá um dia fazer falta.
Tudo em falta, hoje, tendo o ontem ficado atrás do sonho
Nunca se sabe se foi cedo ou se foi tarde
E o pior de tudo é deixar-se em branco o espaço do ponto final
E vê-lo sempre passar para a outra página.
Tuesday, July 24, 2007
Brindemos à escola do futuro
(clicar na imagem)Consta-me que vou ter um portátil na minha mesa.
Pagarei por ele 150 euros e depois, durante 36 ou 12 meses, terei um encargozito que vai depender do contrato de fidelização à TMN que eu “quiser” fazer. Nada de especial. Mas será o meu portátil, porque se o pago ele é meu.
Meu?
Mas o que farão 28 alunos dentro da sala enquanto eu faço as minhas pesquisas e selecciono imagens e explico como é que eles colocam os trabalhos feitos na plataforma interactiva?!
Bem, alguns deles – se estiverem matriculados no 10º ano e tiverem um rendimento familiar que ainda não percebi se tem de ser alto ou baixo – poderão ter também o seu portátil mas aí as coisas complicam-se, exactamente como quando se quer fazer um exercício ou trabalhar um texto e só quatro, em vinte e oito, é que trouxeram o livro o ou caderno de exercícios.
Quanto aos outros, será que farão uma invasão à minha mesa, com o respectivo alarido a acompanhar o trabalho? E que farei com o manual? Para que fim terão os pais deles gasto centenas de euros em manuais? E que farei quando passar pelas mesas deles e verificar que a maioria está “agarrada” ao “Messenger” ou à página do Hi5?
Ok, eu sei que todas as transições são assim, mas caramba, já ando em transições há tantos anos e os resultados a que tenho assistido não são lá de grande sucesso!
Bem sei que a formação na área das Tecnologias da Informação e Comunicação é a coisa mais importante do mundo e arredores neste momento; reconheço-lhes as vantagens.
Porém, o que falta para tudo isto fazer sentido é qualquer coisa que não sei explicar muito bem, mas deve ter a ver com um estrutura que não vejo, uma organização que não descortino, uma maneira de fazer as coisas sem que as empresas envolvidas corressem antes de tudo para o lucro pessoal, marimbando-se para os resultados que os meninos vierem a ter – quanto mais acríticos forem os futuros cidadãos melhor, desde que dominem as TIC – e para aquilo que os pedagogos agora chamam pomposamente as competências da aprendizagem, expressão que eu escrevi demasiadas vezes no ano lectivo que terminou, em documentos e formulários que enchem os dossiês nas prateleiras da minha escola.
Sunday, July 15, 2007
No 52 já ninguém mora

Quando por lá passo afasto os passos, como se me fosse ainda penoso espreitar os dias. Piores as noites, não as primeiras porque dessas ficaram raios de sol e búzios a murmurar segredos ao ouvido. Segredos bons, segredos do prazer aprendido a dois, rendição ao amor descoberto nos gestos novos, nos arrepios da pele sob os lábios inflamados, no gemer contido ainda pela estranheza do sentir.
Quando por lá passo preferia não passar. Não fosse este apelo dos passos a conduzir-me direita ao lugar de todas as coisas e eu fugia, escapava-me por entre a maré de memórias misturadas em azul e negro, os olhos baços perante as luzes intermitentes e ele a pedir-me perdão; e a ter de ir, de mãos presas e olhar assustado.
Nada fazia sentido. Nada faz ainda sentido a não ser a impossibilidade da casa ser lar.
Agora passo ao largo como se espreitasse não os búzios mas as pedras, as dores do frio das pedras a entranhar-se na memória. Passo de passos largos, a fugir de um aroma que se fez passado, a lembrar o dia em que o levaram dos meus braços; e as lágrimas em silêncio num pedido de desculpa surdo e côncavo.
No 52 já ninguém mora. Lá dentro, aprisionado pela tranca, ficou o amor. Não sei se resistirá ao mofo e ao silêncio.
Wednesday, July 11, 2007
Variações sobre águas espelhadas
Mal seria se todos olhássemos as coisas pelo mesmo ângulo; certamente um sinal estático de estarmos aqui pelo facto de nos terem posto neste lugar colectivo.
O meu lugar é um lugar comum: o lugar dos olhos; lugar de coisas visíveis e de outras que são reflexos; ou reflexões; ou representações.
Mas nem sempre os reflexos do lado de dentro passam pelo semear das letras e nem sempre a sementeira faz germinar aquilo que não chegou a ser lançado à terra.
Tudo está, pois, no lançar dos olhos, havendo os que vêem melhor pelo lado de dentro; e os que não vendo, escutam os ecos; e ainda os que ficam a olhar as águas.
Às vezes o olhar dilui-se, espelhando a espera.
Tuesday, July 10, 2007
águas que são espelhos
Sunday, July 01, 2007
(des)agasalho
Fotografia de Aguarelas de TurnerNão, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco. Lá onde chegavam ao fim as minhas folhas era como se um sorriso se soltasse de cada dedo; e cada dedo agarrasse o infinito.
Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.
E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.
Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?
São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.
Dizem que por baixo há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.
Tenho frio.
Thursday, June 28, 2007
Suspirando...

Wednesday, June 20, 2007
A não perder...
Há uma melodia paralela ao teu recorte, uma música que me faz encantar-te os dedos e os olhos que prendes ao voo dos meus pés descalços sobre as águas da maré baixa…
Há harmonia nesta cumplicidade paralela à música; e há a tua figura esguia sobre as águas da maré baixa enquanto vibram as cordas e eu acompanho o teu voo com os meus olhos rendidos…
Há cumplicidade no render dos teus olhos; e há o desenho harmonioso das tuas mãos na música do meu vestido que ondula ao som do teu voo enquanto os meus pés dançam...
Tuesday, June 12, 2007
Retrospectivamente
Aliviei com silêncios o rancor dos elementos
Aceitei o gelo dos areais por temer a oscilação das dunas








