Wednesday, November 28, 2007

Sirvam-se

Não vou estar por cá, mas a quem passar por aqui no dia 1 de Dezembro, ofereço uma fatia de bolo.
Andarei à volta da Discriminação e Tolerância, em Malta. Farei depois o relato das impressões.
Conto ficar, depois do regresso, com mais tempo livre para cuidar dos textos.

Sunday, November 18, 2007

Olhos claros

Há dias de Outono em que nos apetece semear a Primavera.

Monday, November 12, 2007

Ser mãe quando a filha é a Flávia


Acorda-se da letargia quando se pressente que o nosso torpor é um momento a menos na continuidade que é este correr cego, desejando-se ardentemente estar bem a toda a hora. Não que isso seja um desejo absurdo, pois a vida é curta demais para ser desperdiçada em intervalos. Mas às vezes há coisas que nos obrigam ao soluço encorajador. Um soluço solidário.

Quando penso que sou mãe de dois filhos normais e saudáveis, que seguem o seu percurso com objectivos, ultrapassando os obstáculos um a um pela sua capacidade de estar aqui, penso que por muitas coisas que me faltem para me sentir bem, essa parte, pelo menos, está cumprida.

Há uns anos li um romance de uma mulher que escrevia sobre a sua família na esperança de que a filha, em coma, o pudesse ler quando despertasse. Li-a porque gostava e gosto de tudo o que Isabel Allende escreve.
Por estes dias, por indicação deste blog, tenho estado a ler a história de uma mulher que escreve em circunstâncias muito semelhantes, mas com o objectivo de conseguir JUSTIÇA. Não creio que Odele espere um milagre, embora o sorriso da Flávia o merecesse, como o mereceria o sorriso de qualquer filha. Mas era bom que a sua luta fosse bem sucedida, ao menos essa…

Friday, November 09, 2007

Hibernação 2.


Salpica-me o sol destes dias pequeninos.

Dói-me o corpo de lagarto escondido nas frinchas.


Sunday, October 28, 2007

Hibernação 1.


Talvez hiberne.
Basta reduzir a actividade ao mínimo exigido pela sobrevivência, respirar devagar, deixar o coração bater devagar, sentir baixar a temperatura do corpo, devagar. Ficar assim durante a estação fria, ouvir o cair da chuva ao longe, se houver chuva e deixar passar por cima das palavras adormecidas as folhas velhas.

Friday, October 19, 2007

quadrantes e luas em cruzamentos quase possíveis


Era a propósito dos quadrantes; os do vento e os da vida, que os quatro cantos de tudo são sempre a possibilidade esquartejada, tendo em conta a unidade impossível.
Era possível ter sido diferente, pelo menos na contingência dos “ses”, sendo eles os caminhos excluídos e, só por isso, os que se adivinhariam a alternativa perfeita. Ou a diferença poderia estar nesta consideração, decalcada da rosa-dos-ventos e por isso limitada ao rigor das quartas partes, sendo a vida mais do que isso.
Quatro vezes excluí de mim o quarto crescente. Nem sempre fui voluntária mas, avaliação feita, cruzaram-se o mal e o bem, como se cruza o céu com a terra ou a lua com as marés.
À primeira foi como perder um membro. De vantagem apenas a robustez da cicatriz. Ponto quase final.
Depois a paz, brisa – não vento – a entorpecer até ao excesso. Sossego inquieto depois de quase perfeito.
A meio, a exigência de torvelinhos enviesados, vulcões vindos de dentro, ânsias recalcadas, ousadia, desafio quase completo.
Depois o quarto céu, a zurzir num cais ventoso, quase real.
Assomaram ainda algumas orientações colaterais mas não me lembro do sopro.
O mais, foram quartos minguantes.




Sunday, October 14, 2007

O que foi que eu disse?


Depois passaram dias, muitos dias, disse eu como só os velhos dizem quando contam histórias moídas pelo mofo dos Outonos; e dos dias passados ficaram memórias sopradas pelos ventos de todos os quadrantes; memórias incrustadas na raiz dos anos, às vezes espinhos enclausurando mistérios. E depois das memórias embrulhadas nos dias todos, gravadas neles como riscos afundados no lado de dentro da pele, disse de novo que em cada estação renasce o outro tempo, o da mudança; e que a mudança apenas anuncia a conformação, não vá o informe perder-se por ausência de limites.
Limito-me a constatar os encantamentos, digo ainda: a claridade que em certos dias de Outono se solta em raios por detrás das nuvens, a encosta a verdejar nos olhos, o cheiro muito forte da terra…
Submeto-me ainda à ilusão das palavras mesmo sabendo que o que nelas passa a símbolo não é mais do que o fascínio e a construção dos olhos. Contudo afaguei o vento e, de mãos abertas, desconstruí a maior parte dos silêncios.
Foi preciso aguardar o momento certo para ver sair do casulo a simplicidade.

Tuesday, October 09, 2007

Imitação do Outono



Se é um tronco posso imitar-lhe a robustez
e copiar-lhe o castanho forte;

Se é uma raiz posso pedir-lhe a força
e ligar-me veementemente ao chão; somos irmãs.

Depois virá Zéfiro e levar-me-á nas folhas douradas,
abanando-me os ramos mansamente.

Com elas irei, asas sábias de aves migratórias,
ou tapete estaladiço sob os pés de meninos em corrida.




Monday, October 08, 2007

Eslovénia





É de facto um país pequeno e pouco populoso – um pouco mais de 2 milhões de habitantes, estando cerca de 1 milhão e meio na República da Eslovénia e os restantes dispersos como minorias nas regiões fronteiriças com a Itália (Friuli-Venetia Giulia e Trieste), com a Áustria (Carinthia), Hungria (Porojabe) e Croácia.
Resultado de um longo processo histórico cujas últimas mudanças ocorreram em 1991 – quando se tornou um Estado independente – e em 2004, quando se torna parte da União Europeia, a Eslovénia é uma surpresa para quem, como nós, se habituou a ter apenas uma fronteira a leste. Aqui o resto é mar e é no mar que está parte da nossa História. Lá, há toda uma riqueza de influências que são o resultado de movimentos sucessivos de povos e do cruzamento de ideias e culturas diferentes.
Foi tardio, ali, o despertar da consciência nacional. O peso do Império Áustro-Húngaro foi longo e só depois da Primeira Guerra Mundial surge um esboço de projecto político.O papel das minorias? Grande, porque foi das comunidades que viviam no exterior deste espaço que veio a força organizativa que visava impedir o extermínio da etnia eslovena pela Jugoslávia federal. Ocupação militar e depois tentativa de neutralização da língua foram as estratégias tentadas mas a resistência surtiu efeito e hoje não é só no solo pátrio que os eslovenos o são: são-no também nas regiões fronteiriças onde, apesar de minoritários, a língua, os costumes e o direito de se ser esloveno está consignado na lei.
E depois é surpreendente como uma cidade pequeníssima (Maribor) tem uma Universidade tão grande e tão organizada e tão cheia de departamentos de tudo e mais alguma coisa. Para não falar no teatro e na ópera e nessas coisas que não estamos habituados a ver funcionar entre nós.
Cansada da distância, mas mais rica depois de ter lá estado.
E sim, correu tudo muito bem!



Sunday, September 30, 2007

A Intolerância

Um dos casamentos de D. Manuel

Tudo começa quando o rei D. Manuel, para satisfazer os «escrúpulos religiosos» de D. Isabel – a noiva castelhana filha de Fernando e Isabel, os Reis Católicos – decide expulsar os judeus do território nacional.
Os cronistas relatam pormenorizadamente a questão da expulsão, descrevendo os pareceres – que o próprio monarca pediu – divididos entre os que eram favoráveis à permanência dos judeus em Portugal e os que defendiam a sua expulsão.
Diziam os primeiros que se o papa permitia a permanência deste povo nas suas terras, tal como o permitiam a Hungria, a Boémia, a Polónia e a Alemanha, por que não seguir-lhes o exemplo? A expulsão levá-los-ia directamente para o norte de África onde a esperança da conversão se perderia e, pior do que isso, onde eles iriam ensinar aos mouros os “truques” a usar contra os cristãos. De igual modo o rei perderia serviços e tributos e o reino perderia talentos.
Diziam os segundos que se a França, a Inglaterra, a Escócia, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia os expulsaram e sendo Portugal vizinha de Castela e de França, corriam-se sérios riscos de se verem prejudicadas as relações com estes países. Por outro lado as vantagens, tendo em conta os tributos e os serviços que podiam prestar ao reino, eram menores que os riscos que se corriam.
Tomada a decisão, no início de Dezembro de 1496 o rei determina: “que os judeus se fossem do reino, com suas mulheres e filhos e bens, mas também os mouros pelo mesmo modo", para que lhes limitou o tempo e lhes nomeou os portos de embarque.

Friday, September 28, 2007

A tolerância

Lisboa no séc. XVI

Desde a criação do Reino de Portugal até à promulgação do Édito de Expulsão (1496) supõe-se que terá havido um clima de relativo convívio entre as populações cristãs e judaicas; a existência de judiarias (sempre que a comunidade era superior a dez elementos) nem sempre foi extra muros, embora com o passar dos tempos se tornasse comum essa localização.
Sabe-se que D. Afonso Henriques nomeia um judeu como seu almoxarife-mor.
Os primeiros reis protegem-nos e contam com eles (e com os mouros) para o povoamento do reino, por isso são-lhes dadas terras, assistindo-se a uma certa prosperidade social e económica em virtude desse clima de integração. Muitas vezes são utilizados como diplomatas ou espiões dos reis portugueses, entre os turcos e os mouros, pela facilidade com que se relacionavam com os poderosos no comércio.
D. Manuel chegou a recorrer a Abrãao Zacuto, conceituado astrónomo judeu expulso de Espanha, para saber da possibilidade de uma viagem até à Índia.
Chega a questionar-se este ambiente de tolerância religiosa sob a alegação de que a violência constitui um traço central da relação entre cristãos, judeus e muçulmanos, uma violência exercida de forma constante na vida quotidiana.
De facto há conhecimento de vários assaltos, particularmente o de 1449, ocorrido na judiaria grande, em Lisboa; porém, também há notícia de medidas exercidas sobre os cristãos que roubam. São episódios esporádicos e, ao que parece, não directamente relacionados com questões religiosas.
Até ao reinado de D. Manuel a convivência foi, pois, relativamente pacífica.
Sobre a comunidade mourisca sabe-se pouco. Seriam uma minoria de condição modesta a viver em mourarias, diminuindo em número durante toda a Idade Média, devido à conversão e assimilação progressiva de uma parte (mínima) e à emigração para a Espanha Islâmica e Maghreb. A maior parte destes mouriscos constituíam mão-de-obra escrava.
No Paço Real havia músicos mouriscos que cantavam e tangiam com alaúdes e pandeiros, charamelas, harpas, rabecas e tamboris – ao som dos quais dançavam os moços fidalgos durante o jantar e a ceia.
Além de bailarem, ocupavam-se de serviços do campo, tratavam dos animais e cozinhavam. Podiam dedicar-se ao comércio mas se o faziam era para vender produtos de raiz agrícola, vinho, azeite ou fruta seca. Quando escravizados podiam constituir sinal de riqueza para quem os possuía: podiam ser emprestados, oferecidos ou mesmo constar nas heranças dos seus donos.
As mulheres faziam o acompanhamento de senhoras em saídas festivas, trabalhavam na seca do peixe ou como lavadeiras: a limpeza da cidade era assegurada pelas mil "negras da canastra" enquanto outras mil carregavam água dos chafarizes para as casas: um vintém para o senhor e outro para a trabalhadora escrava ou forra. Mil e quinhentas lavadeiras e ensaboadeiras por conta de outrem – “mulheres e negras” – tratavam da roupa de seus donos.

Monday, September 24, 2007

Sem tempo para nada





Durante uns dias não consigo fazer mais nada.

Por agora circulo entre luzes e sombras... enquanto me preparo para ouvir falar sobre Discriminação e Tolerância, no âmbito da temática das Minorias.

Também vou falar mas não é sobre blogues, nem sequer sobre poesia. É acerca das minorias em Portugal no século XVI, particularmente Judeus e Mouros.


Depois de regressar dir-vos-ei como foi.

Saturday, September 22, 2007

luz/sombra



Era o céu a rasgar-se numa espécie de dia fora do tempo e eu concentrada na direcção circular que me trazia de volta a um lugar sem trevos mas, ainda assim, acolhida na frieza da fechadura que me reconhecia a mão.
No lado de dentro, a salvo do relampejar fino que me iluminara o caminho, o silêncio alimentava-se dos céus zangados e incomodava-me o nervo frágil.
Saí a refrescar o medo sem ter descortinado se me satisfazia ou me desagradava o excesso de ordem e a submissão aos elementos.
A chuva arrefeceu-me os braços despidos. Depois deitei a insónia nas trevas.
Pela madrugada estiquei os tendões adormecidos e tacteei o vazio com os olhos, antes que a luz nascesse.

Sunday, September 16, 2007

a linguagem das pedras em tempo de memórias

Roma

estavas inscrito nas pedras, à superfície
de um tempo que passou e se passou
marca cravada nos capitéis do pensamento
mesmo ao longe, noutra latitude,
nos ângulos de outros frisos
nos restos de outras realidades.

senti ainda a tua ausência no que restou
do labirinto das crenças
nos fragmentos subterrâneos,
na triangulação quebrada das fachadas
nas praças povoadas de mitos
e nas águas que os deuses faziam jorrar para dentro das fontes.



Saturday, September 15, 2007

Os livros


A maria_arvore sugeriu-me a selecção dos 10 livros que ajudaram a estruturar esta que hoje sou.

Antes de os enumerar tenho de dizer uma coisa que não é exclusiva do meu sentir: os livros marcam-nos consoante a idade que tínhamos quando os lemos, havendo alguns relativamente aos quais nos perguntamos, uns anos depois, "como foi possível que eu tivesse lido aquilo"? Por outro lado, deve ser difícil a cada um de nós eleger apenas dez...

Aqui vão aqueles de que mais me lembro...

1. A Náusea, de J. P. Sartre, lida por volta dos 14-15 anos, quando me perseguiam as primeiras crises existenciais, ainda antes de certos pensamentos terem nome;
2. A um Deus desconhecido, de J. Steinbeck, pela mesma altura, quando procurava desesperadamente entender a crença e incorporá-la;
3. O Doutor Jivago, de B. Pasternak, há muitos anos, porque já me interessava pela História mas sobretudo pela surpreendente entrada no labirinto dos sentimentos;
4. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, numa altura em que ainda não sabia que o neo realismo era literatura datada; apenas lhe sentia o gosto, acompanhado pelo sentimento de revolta;
5. As Brumas de Avalon, de M. Zimmer Bradley, a alimentar-me as fantasias...
6. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em leitura compulsiva, num fim de semana em que até me esqueci dos filhos...
7. A Obra ao Negro, de M. Yourcenar, como testemunho exímio de uma época, escrito com o coração e com o saber de uma das melhores escritoras de todos os tempos;
8. Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, numa feliz descoberta de uma poderosa arte irónica;
9. A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, construção ficcional perfeita, o romance dentro do romance e a vida vista por dentro e por fora, com a inversão de todas as regras como caminho necessário à escrita de uma obra-prima; e depois também O Cais das Merendas, O dia dos Prodígios, O Vale da Paixão e mais recentemente Combateremos a Sombra. Escrita indispensável ao meu crescimento literário; mas também visão crua, farpa infalível cravada na realidade que não escapa aos olhos e ao coração.
10. A Casa e o cheiro dos Livros, de Maria do Rosário Pedreira, poesia para ler a toda a hora;
... e todos os livros daquela poesia que me enche a alma...


... e agora? Onde ponho os Eças, particularmente Os Maias e A correspodência de Fradique Mendes, numa analogia perfeita com os nossos dias. E o Fernando Pessoa? E os outros?


E agora passo o desafio a todos os que gostam de livros...


Wednesday, September 12, 2007

Cheiro a terra molhada


Esta tarde vieram as chuvas.

Sob os candeeiros da rua deslizaram riscos molhados
Trazendo uma frescura branda ao fim do dia

Nos jardins as corolas ficaram mais viçosas
E da terra soltou-se o cheiro mágico das palavras maduras

Não sei se viste que pus flores nas jarras
E sementes de pétalas no canteiro da estação que se avizinha.



Thursday, September 06, 2007

Regresso


Estou de regresso.
Voltei, devagarinho, como num fim de tarde se regressa da beira-mar e se toma um duche fresco.
Trago as marcas do sol no sal da pele e nos pés o ritmo bom das caminhadas.
Trago serenidade e palavras para escrever. Não são outras, são as mesmas; mas posso sempre trocar o lugar das sílabas e usar janelas novas. E luz, mesmo nos dias curtos que não tardam.

Wednesday, August 29, 2007

Combatendo as sombras

Roma

Antecipo agora o nascer do sol completando as sílabas
Apago também os silêncios repondo a direcção nas asas
E lavro textos sobre jardins acabados de plantar

Recuso deitar-me hirta em lençóis de marés passadas
Planto musgo fresco sobre tapetes de folhas ressequidas
E sorvo o cheiro manso da neblina sobre ruínas entretidas

Invento estações novas para ultrapassar a rapidez do tempo
Digo ao espelho que espere apenas mais um pouco

E transpareço, nua, ao som da voz que sopra nos meus olhos

Sunday, August 26, 2007

Ainda a água... nas férias

Florença

Veneza

Veneza



Thursday, August 16, 2007

Férias com água

Rio Alvoco

Barriosa

Rio Alvoco


Por agora fica o correr das águas.

As palavras virão depois. Neste momento apetece apenas contemplar.

Friday, August 10, 2007

Ufffff.... já merecia!!!


Agora sim, vou descansar uns dias.
A ausência tem sido por razões de trabalho.
Agora, finalmente... uns dias de descanso, exactamente na comemoração de dois anos de Palavras em Linha.
Daqui a dias estarei de volta para alinhar mais palavras.
Obrigada a quem passar por aqui.

Saturday, July 28, 2007

Dias definhados

Chegaram mesmo agora os dias sem poesia
Chegou a acidez do osso frágil
A vista enrugada, encovada, enevoada;
Mais a lentidão dos passos curtos
Em sapatos rasos.

Chegaram quilos a mais, agora mesmo
Chegou a letargia do desejo
As mãos atrapalhadas, presas, ressequidas;
Mais a lentidão das ideias quebradiças
E mal articuladas.


Devia ser possível recusar o invólucro enrugado
Ou recuar sobre as pernas definhadas.

Wednesday, July 25, 2007

Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo


O difícil é saber quando é cedo ou quando é tarde
Normalmente a estrutura já nos esmagou antes do acordar
Sabendo-se que o sono nunca é mais do que o refúgio.

Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo
Mas a tarde apenas fecha o dia
Quando a manhã se perde num desejo que foi ontem

Tudo inútil como um trapo velho
E ainda assim conservado, não vá um dia fazer falta.
Tudo em falta, hoje, tendo o ontem ficado atrás do sonho

Nunca se sabe se foi cedo ou se foi tarde
E o pior de tudo é deixar-se em branco o espaço do ponto final
E vê-lo sempre passar para a outra página.



Tuesday, July 24, 2007

Brindemos à escola do futuro

(clicar na imagem)


Ainda não sei muito bem como é que vou trabalhar na sala de aula no próximo ano lectivo mas parece-me que vai haver uma grande revolução nos meus métodos de ensino e nos dos meus colegas professores.
Consta-me que vou ter um portátil na minha mesa.
Pagarei por ele 150 euros e depois, durante 36 ou 12 meses, terei um encargozito que vai depender do contrato de fidelização à TMN que eu “quiser” fazer. Nada de especial. Mas será o meu portátil, porque se o pago ele é meu.
Meu?
Mas o que farão 28 alunos dentro da sala enquanto eu faço as minhas pesquisas e selecciono imagens e explico como é que eles colocam os trabalhos feitos na plataforma interactiva?!
Bem, alguns deles – se estiverem matriculados no 10º ano e tiverem um rendimento familiar que ainda não percebi se tem de ser alto ou baixo – poderão ter também o seu portátil mas aí as coisas complicam-se, exactamente como quando se quer fazer um exercício ou trabalhar um texto e só quatro, em vinte e oito, é que trouxeram o livro o ou caderno de exercícios.
Quanto aos outros, será que farão uma invasão à minha mesa, com o respectivo alarido a acompanhar o trabalho? E que farei com o manual? Para que fim terão os pais deles gasto centenas de euros em manuais? E que farei quando passar pelas mesas deles e verificar que a maioria está “agarrada” ao “Messenger” ou à página do Hi5?
Ok, eu sei que todas as transições são assim, mas caramba, já ando em transições há tantos anos e os resultados a que tenho assistido não são lá de grande sucesso!
Bem sei que a formação na área das Tecnologias da Informação e Comunicação é a coisa mais importante do mundo e arredores neste momento; reconheço-lhes as vantagens.
Porém, o que falta para tudo isto fazer sentido é qualquer coisa que não sei explicar muito bem, mas deve ter a ver com um estrutura que não vejo, uma organização que não descortino, uma maneira de fazer as coisas sem que as empresas envolvidas corressem antes de tudo para o lucro pessoal, marimbando-se para os resultados que os meninos vierem a ter – quanto mais acríticos forem os futuros cidadãos melhor, desde que dominem as TIC – e para aquilo que os pedagogos agora chamam pomposamente as competências da aprendizagem, expressão que eu escrevi demasiadas vezes no ano lectivo que terminou, em documentos e formulários que enchem os dossiês nas prateleiras da minha escola.

Certamente terei mais umas grelhas para preencher com os dados relativos ao domínio das técnicas de pesquisa na net, à capacidade de seleccionar informação, à velocidade com que tecla, ao domínio do uso do corrector ortográfico… tudo isso e mais ainda, se houver tempo, umas coisitas relativas à formação de Portugal ou à bipolarização do mundo nos anos 50 ou mesmo à formação da União Europeia, já que é nisso que estamos metidos embora sem grande capacidade para fazermos face a todas as coisas da moda.


Sunday, July 15, 2007

No 52 já ninguém mora




A sugestão veio daqui.

A inspiração veio dali.


Quando por lá passo afasto os passos, como se me fosse ainda penoso espreitar os dias. Piores as noites, não as primeiras porque dessas ficaram raios de sol e búzios a murmurar segredos ao ouvido. Segredos bons, segredos do prazer aprendido a dois, rendição ao amor descoberto nos gestos novos, nos arrepios da pele sob os lábios inflamados, no gemer contido ainda pela estranheza do sentir.
Quando por lá passo preferia não passar. Não fosse este apelo dos passos a conduzir-me direita ao lugar de todas as coisas e eu fugia, escapava-me por entre a maré de memórias misturadas em azul e negro, os olhos baços perante as luzes intermitentes e ele a pedir-me perdão; e a ter de ir, de mãos presas e olhar assustado.
Nada fazia sentido. Nada faz ainda sentido a não ser a impossibilidade da casa ser lar.
Agora passo ao largo como se espreitasse não os búzios mas as pedras, as dores do frio das pedras a entranhar-se na memória. Passo de passos largos, a fugir de um aroma que se fez passado, a lembrar o dia em que o levaram dos meus braços; e as lágrimas em silêncio num pedido de desculpa surdo e côncavo.
No 52 já ninguém mora. Lá dentro, aprisionado pela tranca, ficou o amor. Não sei se resistirá ao mofo e ao silêncio.

Wednesday, July 11, 2007

Variações sobre águas espelhadas


Cada olhar tem uma dimensão própria, diversa, distinta; e nem sempre é o mesmo, o percurso que vai do olhar ao ver.

Mal seria se todos olhássemos as coisas pelo mesmo ângulo; certamente um sinal estático de estarmos aqui pelo facto de nos terem posto neste lugar colectivo.

O meu lugar é um lugar comum: o lugar dos olhos; lugar de coisas visíveis e de outras que são reflexos; ou reflexões; ou representações.

Mas nem sempre os reflexos do lado de dentro passam pelo semear das letras e nem sempre a sementeira faz germinar aquilo que não chegou a ser lançado à terra.

Tudo está, pois, no lançar dos olhos, havendo os que vêem melhor pelo lado de dentro; e os que não vendo, escutam os ecos; e ainda os que ficam a olhar as águas.

Às vezes o olhar dilui-se, espelhando a espera.

Tuesday, July 10, 2007

águas que são espelhos


Fiquei assim a olhar o cair da água, ao ritmo dela,
regato cadenciado na transparência dos modos
e eu ali infiltrando-me no direito de estar por conta e risco;


Risco os dias e não sei de outras fontes,
de outras águas, de outros espelhos…


Sunday, July 01, 2007

(des)agasalho

Fotografia de Aguarelas de Turner

Vesti um agasalho quando os dias eram frios.
Não, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco. Lá onde chegavam ao fim as minhas folhas era como se um sorriso se soltasse de cada dedo; e cada dedo agarrasse o infinito.
Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.

E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.

Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?

São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.

Dizem que por baixo há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.

Tenho frio.

Thursday, June 28, 2007

Suspirando...


Raramente usei este espaço como lugar de contestação social ou de qualquer outra natureza. Talvez o tenha feito uma ou outra vez, desabafando queixumes relativos à minha actividade de professora e ao desagrado que em certos dias isso me causou (não, não é verdade que tenha deixado de gostar do que faço, mas há uns dias piores que outros, como na vida de todos os profissionais).
A personagem que criei para escrever aqui é demasiado virada para dentro para se interessar pelas coisas que movem o jornalismo, que se vai fazendo ao sabor daquilo que é mais mediático e, como tal, que pode render mais às empresas de comunicação e difusão.
Porém, eu interesso-me. Mas não preciso de criar nenhum outro espaço para o efeito. Estou a usar este, exactamente hoje, depois de ter estado sentada diante da televisão a ver as notícias do país e do mundo.
E o que vi e ouvi assustou-me:
As leis do trabalho estão a mudar de uma maneira estranha. Para quem o tem, claro!
O Ensino Superior tem, a partir de hoje, novas regras (bastou a aprovação da maioria, claro). Teremos empresas de ensino a formar os futuros alunos.
Uma directora de serviço foi hoje demitida do seu cargo por não ter retirado um cartaz jocoso a propósito de declarações do ministro da saúde. Antes, como se lembram, tinha sido um professor, destacado numa Direcção Regional.
Depois há ainda o caso Portugal Profundo - take 2 - tendo António Balbino Caldeira sido ouvido hoje em tribunal a propósito de umas coisas que escreveu. Mas já tinha havido o take 1 - há uns tempos, por causa de outras coisas escritas, nessa altura a propósito do (quase) esquecido caso Casa Pia. Segundo o próprio, quatro anos de blog deram origem a quatro processos.

Então, quando me preparava para dar voz à Elipse, à espera que saísse um dos seus textos poéticos, fiquei assim...

Wednesday, June 20, 2007

A não perder...

Músicas sobre Água - Vitor A. Ribeiro
em exposição aqui

Há uma melodia paralela aos teus pés descalços, uma música sobre as águas da maré baixa que te faz voar à minha volta e me encanta os dedos nas cordas …

Há uma melodia paralela ao teu recorte, uma música que me faz encantar-te os dedos e os olhos que prendes ao voo dos meus pés descalços sobre as águas da maré baixa…

Há harmonia nesta cumplicidade paralela à música; e há a tua figura esguia sobre as águas da maré baixa enquanto vibram as cordas e eu acompanho o teu voo com os meus olhos rendidos…

Há cumplicidade no render dos teus olhos; e há o desenho harmonioso das tuas mãos na música do meu vestido que ondula ao som do teu voo enquanto os meus pés dançam...



O que me inspirou?

Esta pintura - óleo sobre tela - exposta no Reservatório da Patriarcal, à Praça do Príncipe Real.
O autor é Vitor A. Ribeiro e vale a pena visitar a mostra, que estará lá até 31 de Julho.

Tuesday, June 12, 2007

Retrospectivamente



Antecipei sempre os poentes nas colunas do horizonte
Quebrei todas as sílabas silenciando as agonias
E deixei arrastar as águas dos Invernos
Sobre mortalhas de vida presa ao compromisso.

Aliviei com silêncios o rancor dos elementos
Cortei com a navalha a ponta incendiada das asas
E escrevi textos e textos no lavrar do medo
Sobre jardins plantados em marés futuras.

Aceitei o gelo dos areais por temer a oscilação das dunas
Enquanto me deitava hirta dentro da escuridão
E plantei musgo anunciando a Primavera
Sobre as farpas agudas de todos os argumentos.

Recolho agora da neblina o cheiro a véus translúcidos
Feitos espelhos de memórias e gestos por dizer
E deixo arrastar as águas de todas as estações
Sobre o imenso charco das pedras calcinadas.

Saturday, June 09, 2007

... à espera


Sabias, se me escutasses, que aguardo o verão com a ansiedade do guerreiro na hora da batalha ou o desassossego da adolescente antes do grande encontro; como se tivesse estado de joelhos, durante toda a noite, atenta ao murmúrio do oráculo e fosse agora o momento de desvendar o enigma.

Sabias, se me adivinhasses, de uma existência mais do que escrita nas folhas de um caderno ou de um palavrear de insatisfação em linhas curvas; como se as palavras fossem eu e quisessem vida depois de anos amarradas aos cabelos da esfinge, exposto agora o desejo à nudez do amanhecer.

Sabias, se me visses, do viço dos rebentos em vésperas da floração, ou da energia de uma estrela mal pousada no espaço, a querer abraçar a terra; como se o romance não tivesse ainda começado mas o seu halo já pairasse por cima da pose inquieta e do fogo a arder nos lábios.


Thursday, June 07, 2007

olhos de ver camomilas



Dá-me, menina, os teus olhos
que os meus ficaram fechados
no lado de lá do tempo

e dá-me a cor dos teus passos
nas escadas do futuro

e a força viva que trazes
agarrada aos pensamentos

e mais a garra que imprimes
à paleta dos teus sonhos

dá-me, menina, o sentido
de sentir-te menos triste
depois dos dias cinzentos




Tuesday, May 29, 2007

Não estejas triste...


Não estejas triste, a vida não parou para ninguém
Ou antes, vive a tristeza por um dia e depois canta
Vês lá ao fundo o rio?
Ele tem margens e vai revolvendo o lodo velho
E, tu sabes, o mar que te espera é muito grande.

Eu também morri uma vez nas paredes de uma casa
E balancei-me depois num barco à deriva
Lembras-te dos tombos?
Amanhã não haverá mais vento a fustigar-te o rosto
Pelo menos a nortada vai aliviar. Tu sabes.

Saturday, May 26, 2007

pálpebras pesadas

quando eu nasci
escreveram-me nas pálpebras

um conjunto inteiro de mentiras
e devem ter-me dito

para não pestanejar

às vezes, à noite,
quando tento manter abertos os olhos
com medo da verdade
há uma montanha

pousada em cada pálpebra

e eu resisto
olhando a floração das madressilvas;
se fecho os olhos
vai-se o viço tenro das guias

que hão-de fazer-se troncos




Saturday, May 19, 2007

... o princípio da história

Ela e ele lançaram o desafio. Depois, aqui, enviaram-no directamente para mim. E eu respondi...

... mas para isso fui buscar ao arquivo este texto antigo, que pode servir de começo de uma história.

Tudo isto para dar continuidade a uma criação - O Livro dos Bons Princípios.


Tamara de Lempicka

Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.

Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero. Dizia que o amava.

Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se. Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário. A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.

antes da madrugada


antes da madrugada

os pássaros adormecem

e os morcegos

assustados

atiram-se contra as paredes brancas

deslizando

devagarinho

até ao chão.

Wednesday, May 16, 2007

é durante a madrugada que as folhas crescem


Já de madrugada vieram os pássaros em chilreios de despertar
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer;

Para lá da porta conseguia ver-se o verão incendiando as planícies
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia, ave desabrida

Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora a esperança se converta em pressa
E queira ultrapassar o fim dos labirintos.

Wednesday, May 09, 2007

pormenores


pontas de fogo em caules frágeis dia-sim-dia-não
pode ser pouco
mas quando o tempo cai sobre as vontades esmagadas
(des)arruma-se a vida
e ofende-se com a esperança dos olhos,
o brilho,
à superfície das águas;

por estes dias vi (des)focar-se a paisagem
e, debruçada sobre mim,
desenhei a vermelho um sol sobre os riscos das feridas.

Sunday, May 06, 2007

ligações difíceis

roubei a fotografia ao pé de meia


prendo as mãos na esperança
finco as unhas, despedaço-as nas ranhuras da pedra
o corpo teima, o corpo pesa;

cravo os olhos no céu, sem prece que ampare a subida
eu e a parede, ambas rudes no desejo
eu teimo, ela resiste;

entro no diálogo difícil dos elementos
sou parte da parte
e o todo escorrega-me nas mãos.
a pedra fica. não há dualidade.
desisto.

Saturday, May 05, 2007

se eu fosse...


A Ivamarle desafiou-me a revelar um pouco de mim:


Se eu fosse uma hora do dia, seria ... a madrugada
Se eu fosse um astro, seria ... uma estrela muito distante
Se eu fosse uma direcção, seria...o caminho bifurcado
Se eu fosse um móvel, seria ... uma secretária desarrumada
Se eu fosse um liquido, seria ... água do mar
Se eu fosse um pecado, seria ... a ira
Se eu fosse uma pedra, seria ... pedra de lioz
Se eu fosse uma árvore, seria ... um salgueiro
Se eu fosse uma fruta, seria ... um cacho de uvas
Se eu fosse uma flor, seria ... um narciso
Se eu fosse um clima, seria ... polar
Se eu fosse um instrumento musical, seria ... um piano
Se eu fosse um elemento, seria ... ar
Se eu fosse uma cor, seria ... verde
Se eu fosse um animal, seria ... uma garça
Se eu fosse um som, seria ... o vento (às vezes brisa, às vezes temporal)
Se eu fosse música, seria ... uma balada
Se eu fosse estilo musical, seria … clássica
Se eu fosse um sentimento, seria ... sensibilidade
Se eu fosse um livro, seria ... A Náusea
Se eu fosse uma comida, seria ... um gelado a derreter no prato
Se eu fosse um lugar, seria ... uma praia
Se eu fosse um gosto, seria ... agridoce
Se eu fosse um cheiro, seria ... lilás
Se eu fosse uma palavra, seria ... memória
Se eu fosse um verbo, seria ... aprender
Se eu fosse um objecto, seria ... um livro
Se eu fosse peça de roupa, seria ... uma écharpe
Se eu fosse parte do corpo, seria ... o cérebro
Se eu fosse expressão facial, seria ... a surpresa
Se eu fosse personagem de desenho animado, seria … ???
Se eu fosse filme, seria ... Magnólia
Se eu fosse forma, seria ... elíptica
Se eu fosse número, seria ... 5
Se eu fosse estação, seria ... primavera
Se eu fosse uma frase, seria ... todas as frases são fragmentos; eu quero as palavras todas



Sunday, April 29, 2007

narrativas com asas. ou apenas símbolos

René Magritte

E não saí das páginas…
Espalmada nelas converti-me em tempo narrativo, encolhida no espaço das histórias que ficam por contar.
Arredondei-me no volume das personagens e na gramática dos monólogos surdos.
Diálogos, sonhava-os, mas era se soubesse com que palavras se constrói a trama das histórias felizes.
Nos arabescos das aves podia estar o código por desvendar se não tivesse a certeza de que tudo é simbologia.
Heróis? Só nas histórias antigas, dentro dos livros de fadas; mas os episódios são sempre interrompidos pela focalização em outras realidades, as cruas, aquelas que não têm sequência narrativa, por mais que se queira aligeirar o desenlace.
E a acção tem um nome que é sempre o nome de outro nome; às vezes promessa sob um nome, sob a palavra que se pronuncia. Como se tudo tivesse um rosto visível e outro escondido. Pronuncia-se amor e é hábito que se diz. Diz-se o nome à espera que ele se converta na imagem de desejo.
E o que se deseja? Que o rosto visível das coisas seja a satisfação do desejo oculto.
Diz-se Primavera aguardando flores e pássaros na paisagem; e se as pétalas voam fica-se sem saber se eram as aves ou se era apenas o cheiro a rosas, sem as rosas. Figuração.
Um nome é sempre um nome de outro nome: se digo “eu” posso estar a anular a existência porque é do outro que falo; hábito de dizer e deixar escondido o que não ousa ser dito ou sequer pensado. Todo o pensamento ultrapassa a competência narrativa.
E no entanto há um desconforto no pensar, um subtítulo mal enunciado em cada coisa.

Friday, April 27, 2007

Leituras


Gosto da maneira como ela diz “devíamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento”.
Não li tudo ainda, mas a qualidade do registo é a mesma que me cativou desde o primeiro romance e o assunto é melindroso, como são melindrosos todos os assuntos de que é composta a vida.
Na parede de um gabinete, em Lisboa, projecta-se a sombra de Freud e quem lá entra já não pode viver fora dali. Porque ali há alguém que “ouve como um vivo e age como um morto”. Conforto no alongar dos relatos. Conforto no tecer das grades de uma prisão feita de cumplicidade profissional. Conforto no estar ali.
Isto é o que eu leio. Provavelmente outros lerão ali as soluções e ela, a autora, deixa que sejamos nós a ler. Até porque depois do tempo passar a leitura é ainda mais difícil – tema recorrente na escrita de Lídia Jorge – e o que se recorda “não vale a casca de um pêssego” ...
Porém, é do lado de fora que tudo se passa ; é no lado de fora que as pessoas estão; e é nesse lado que se passam as histórias concretas e se vivem as vidas concretas.
No gabinete as sombras prolongam fantasias ocultas pelo pudor e facilitam as invenções oníricas: do nada para o nada (digo eu.)

Quando acabar virei dizer se é assim ou se ela me vai trocar as voltas.
Leiam também.