Wednesday, November 28, 2007
Sirvam-se
Sunday, November 18, 2007
Monday, November 12, 2007
Ser mãe quando a filha é a Flávia

Quando penso que sou mãe de dois filhos normais e saudáveis, que seguem o seu percurso com objectivos, ultrapassando os obstáculos um a um pela sua capacidade de estar aqui, penso que por muitas coisas que me faltem para me sentir bem, essa parte, pelo menos, está cumprida.
Há uns anos li um romance de uma mulher que escrevia sobre a sua família na esperança de que a filha, em coma, o pudesse ler quando despertasse. Li-a porque gostava e gosto de tudo o que Isabel Allende escreve.
Por estes dias, por indicação deste blog, tenho estado a ler a história de uma mulher que escreve em circunstâncias muito semelhantes, mas com o objectivo de conseguir JUSTIÇA. Não creio que Odele espere um milagre, embora o sorriso da Flávia o merecesse, como o mereceria o sorriso de qualquer filha. Mas era bom que a sua luta fosse bem sucedida, ao menos essa…
Friday, November 09, 2007
Sunday, October 28, 2007
Hibernação 1.
Basta reduzir a actividade ao mínimo exigido pela sobrevivência, respirar devagar, deixar o coração bater devagar, sentir baixar a temperatura do corpo, devagar. Ficar assim durante a estação fria, ouvir o cair da chuva ao longe, se houver chuva e deixar passar por cima das palavras adormecidas as folhas velhas.
Friday, October 19, 2007
quadrantes e luas em cruzamentos quase possíveis

Era possível ter sido diferente, pelo menos na contingência dos “ses”, sendo eles os caminhos excluídos e, só por isso, os que se adivinhariam a alternativa perfeita. Ou a diferença poderia estar nesta consideração, decalcada da rosa-dos-ventos e por isso limitada ao rigor das quartas partes, sendo a vida mais do que isso.
Quatro vezes excluí de mim o quarto crescente. Nem sempre fui voluntária mas, avaliação feita, cruzaram-se o mal e o bem, como se cruza o céu com a terra ou a lua com as marés.
À primeira foi como perder um membro. De vantagem apenas a robustez da cicatriz. Ponto quase final.
Depois a paz, brisa – não vento – a entorpecer até ao excesso. Sossego inquieto depois de quase perfeito.
A meio, a exigência de torvelinhos enviesados, vulcões vindos de dentro, ânsias recalcadas, ousadia, desafio quase completo.
Depois o quarto céu, a zurzir num cais ventoso, quase real.
Assomaram ainda algumas orientações colaterais mas não me lembro do sopro.
O mais, foram quartos minguantes.
Sunday, October 14, 2007
O que foi que eu disse?
Limito-me a constatar os encantamentos, digo ainda: a claridade que em certos dias de Outono se solta em raios por detrás das nuvens, a encosta a verdejar nos olhos, o cheiro muito forte da terra…
Submeto-me ainda à ilusão das palavras mesmo sabendo que o que nelas passa a símbolo não é mais do que o fascínio e a construção dos olhos. Contudo afaguei o vento e, de mãos abertas, desconstruí a maior parte dos silêncios.
Tuesday, October 09, 2007
Imitação do Outono

e copiar-lhe o castanho forte;
Se é uma raiz posso pedir-lhe a força
e ligar-me veementemente ao chão; somos irmãs.
Depois virá Zéfiro e levar-me-á nas folhas douradas,
abanando-me os ramos mansamente.
Com elas irei, asas sábias de aves migratórias,
ou tapete estaladiço sob os pés de meninos em corrida.
Monday, October 08, 2007
Eslovénia
Resultado de um longo processo histórico cujas últimas mudanças ocorreram em 1991 – quando se tornou um Estado independente – e em 2004, quando se torna parte da União Europeia, a Eslovénia é uma surpresa para quem, como nós, se habituou a ter apenas uma fronteira a leste. Aqui o resto é mar e é no mar que está parte da nossa História. Lá, há toda uma riqueza de influências que são o resultado de movimentos sucessivos de povos e do cruzamento de ideias e culturas diferentes.
Foi tardio, ali, o despertar da consciência nacional. O peso do Império Áustro-Húngaro foi longo e só depois da Primeira Guerra Mundial surge um esboço de projecto político.O papel das minorias? Grande, porque foi das comunidades que viviam no exterior deste espaço que veio a força organizativa que visava impedir o extermínio da etnia eslovena pela Jugoslávia federal. Ocupação militar e depois tentativa de neutralização da língua foram as estratégias tentadas mas a resistência surtiu efeito e hoje não é só no solo pátrio que os eslovenos o são: são-no também nas regiões fronteiriças onde, apesar de minoritários, a língua, os costumes e o direito de se ser esloveno está consignado na lei.
Sunday, September 30, 2007
A Intolerância
Os cronistas relatam pormenorizadamente a questão da expulsão, descrevendo os pareceres – que o próprio monarca pediu – divididos entre os que eram favoráveis à permanência dos judeus em Portugal e os que defendiam a sua expulsão.
Diziam os primeiros que se o papa permitia a permanência deste povo nas suas terras, tal como o permitiam a Hungria, a Boémia, a Polónia e a Alemanha, por que não seguir-lhes o exemplo? A expulsão levá-los-ia directamente para o norte de África onde a esperança da conversão se perderia e, pior do que isso, onde eles iriam ensinar aos mouros os “truques” a usar contra os cristãos. De igual modo o rei perderia serviços e tributos e o reino perderia talentos.
Diziam os segundos que se a França, a Inglaterra, a Escócia, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia os expulsaram e sendo Portugal vizinha de Castela e de França, corriam-se sérios riscos de se verem prejudicadas as relações com estes países. Por outro lado as vantagens, tendo em conta os tributos e os serviços que podiam prestar ao reino, eram menores que os riscos que se corriam.
Tomada a decisão, no início de Dezembro de 1496 o rei determina: “que os judeus se fossem do reino, com suas mulheres e filhos e bens, mas também os mouros pelo mesmo modo", para que lhes limitou o tempo e lhes nomeou os portos de embarque.
Friday, September 28, 2007
A tolerância
Sabe-se que D. Afonso Henriques nomeia um judeu como seu almoxarife-mor.
Os primeiros reis protegem-nos e contam com eles (e com os mouros) para o povoamento do reino, por isso são-lhes dadas terras, assistindo-se a uma certa prosperidade social e económica em virtude desse clima de integração. Muitas vezes são utilizados como diplomatas ou espiões dos reis portugueses, entre os turcos e os mouros, pela facilidade com que se relacionavam com os poderosos no comércio.
As mulheres faziam o acompanhamento de senhoras em saídas festivas, trabalhavam na seca do peixe ou como lavadeiras: a limpeza da cidade era assegurada pelas mil "negras da canastra" enquanto outras mil carregavam água dos chafarizes para as casas: um vintém para o senhor e outro para a trabalhadora escrava ou forra. Mil e quinhentas lavadeiras e ensaboadeiras por conta de outrem – “mulheres e negras” – tratavam da roupa de seus donos.
Monday, September 24, 2007
Sem tempo para nada

Também vou falar mas não é sobre blogues, nem sequer sobre poesia. É acerca das minorias em Portugal no século XVI, particularmente Judeus e Mouros.
Depois de regressar dir-vos-ei como foi.
Saturday, September 22, 2007
luz/sombra

Era o céu a rasgar-se numa espécie de dia fora do tempo e eu concentrada na direcção circular que me trazia de volta a um lugar sem trevos mas, ainda assim, acolhida na frieza da fechadura que me reconhecia a mão.
Pela madrugada estiquei os tendões adormecidos e tacteei o vazio com os olhos, antes que a luz nascesse.
Sunday, September 16, 2007
a linguagem das pedras em tempo de memórias
de um tempo que passou e se passou
marca cravada nos capitéis do pensamento
mesmo ao longe, noutra latitude,
nos ângulos de outros frisos
nos restos de outras realidades.
senti ainda a tua ausência no que restou
do labirinto das crenças
nos fragmentos subterrâneos,
na triangulação quebrada das fachadas
nas praças povoadas de mitos
e nas águas que os deuses faziam jorrar para dentro das fontes.
Saturday, September 15, 2007
Os livros

Aqui vão aqueles de que mais me lembro...
1. A Náusea, de J. P. Sartre, lida por volta dos 14-15 anos, quando me perseguiam as primeiras crises existenciais, ainda antes de certos pensamentos terem nome;
2. A um Deus desconhecido, de J. Steinbeck, pela mesma altura, quando procurava desesperadamente entender a crença e incorporá-la;
3. O Doutor Jivago, de B. Pasternak, há muitos anos, porque já me interessava pela História mas sobretudo pela surpreendente entrada no labirinto dos sentimentos;
4. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, numa altura em que ainda não sabia que o neo realismo era literatura datada; apenas lhe sentia o gosto, acompanhado pelo sentimento de revolta;
5. As Brumas de Avalon, de M. Zimmer Bradley, a alimentar-me as fantasias...
6. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em leitura compulsiva, num fim de semana em que até me esqueci dos filhos...
7. A Obra ao Negro, de M. Yourcenar, como testemunho exímio de uma época, escrito com o coração e com o saber de uma das melhores escritoras de todos os tempos;
8. Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, numa feliz descoberta de uma poderosa arte irónica;
9. A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, construção ficcional perfeita, o romance dentro do romance e a vida vista por dentro e por fora, com a inversão de todas as regras como caminho necessário à escrita de uma obra-prima; e depois também O Cais das Merendas, O dia dos Prodígios, O Vale da Paixão e mais recentemente Combateremos a Sombra. Escrita indispensável ao meu crescimento literário; mas também visão crua, farpa infalível cravada na realidade que não escapa aos olhos e ao coração.
10. A Casa e o cheiro dos Livros, de Maria do Rosário Pedreira, poesia para ler a toda a hora;
... e todos os livros daquela poesia que me enche a alma...
Wednesday, September 12, 2007
Cheiro a terra molhada

Sob os candeeiros da rua deslizaram riscos molhados
Trazendo uma frescura branda ao fim do dia
Nos jardins as corolas ficaram mais viçosas
E da terra soltou-se o cheiro mágico das palavras maduras
E sementes de pétalas no canteiro da estação que se avizinha.
Thursday, September 06, 2007
Regresso
Voltei, devagarinho, como num fim de tarde se regressa da beira-mar e se toma um duche fresco.
Trago as marcas do sol no sal da pele e nos pés o ritmo bom das caminhadas.
Trago serenidade e palavras para escrever. Não são outras, são as mesmas; mas posso sempre trocar o lugar das sílabas e usar janelas novas. E luz, mesmo nos dias curtos que não tardam.
Wednesday, August 29, 2007
Combatendo as sombras
Antecipo agora o nascer do sol completando as sílabas
Apago também os silêncios repondo a direcção nas asas
E lavro textos sobre jardins acabados de plantar
Recuso deitar-me hirta em lençóis de marés passadas
Planto musgo fresco sobre tapetes de folhas ressequidas
E sorvo o cheiro manso da neblina sobre ruínas entretidas
Invento estações novas para ultrapassar a rapidez do tempo
Digo ao espelho que espere apenas mais um pouco
E transpareço, nua, ao som da voz que sopra nos meus olhos
Sunday, August 26, 2007
Thursday, August 16, 2007
Friday, August 10, 2007
Ufffff.... já merecia!!!
Saturday, July 28, 2007
Dias definhados
Chegaram mesmo agora os dias sem poesia
Chegou a acidez do osso frágil 
A vista enrugada, encovada, enevoada;
Mais a lentidão dos passos curtos
Em sapatos rasos.
Chegaram quilos a mais, agora mesmo
Chegou a letargia do desejo
As mãos atrapalhadas, presas, ressequidas;
Mais a lentidão das ideias quebradiças
E mal articuladas.
Devia ser possível recusar o invólucro enrugado
Ou recuar sobre as pernas definhadas.
Wednesday, July 25, 2007
Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo

Normalmente a estrutura já nos esmagou antes do acordar
Sabendo-se que o sono nunca é mais do que o refúgio.
Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo
Mas a tarde apenas fecha o dia
Quando a manhã se perde num desejo que foi ontem
Tudo inútil como um trapo velho
E ainda assim conservado, não vá um dia fazer falta.
Tudo em falta, hoje, tendo o ontem ficado atrás do sonho
Nunca se sabe se foi cedo ou se foi tarde
E o pior de tudo é deixar-se em branco o espaço do ponto final
E vê-lo sempre passar para a outra página.
Tuesday, July 24, 2007
Brindemos à escola do futuro
(clicar na imagem)Consta-me que vou ter um portátil na minha mesa.
Pagarei por ele 150 euros e depois, durante 36 ou 12 meses, terei um encargozito que vai depender do contrato de fidelização à TMN que eu “quiser” fazer. Nada de especial. Mas será o meu portátil, porque se o pago ele é meu.
Meu?
Mas o que farão 28 alunos dentro da sala enquanto eu faço as minhas pesquisas e selecciono imagens e explico como é que eles colocam os trabalhos feitos na plataforma interactiva?!
Bem, alguns deles – se estiverem matriculados no 10º ano e tiverem um rendimento familiar que ainda não percebi se tem de ser alto ou baixo – poderão ter também o seu portátil mas aí as coisas complicam-se, exactamente como quando se quer fazer um exercício ou trabalhar um texto e só quatro, em vinte e oito, é que trouxeram o livro o ou caderno de exercícios.
Quanto aos outros, será que farão uma invasão à minha mesa, com o respectivo alarido a acompanhar o trabalho? E que farei com o manual? Para que fim terão os pais deles gasto centenas de euros em manuais? E que farei quando passar pelas mesas deles e verificar que a maioria está “agarrada” ao “Messenger” ou à página do Hi5?
Ok, eu sei que todas as transições são assim, mas caramba, já ando em transições há tantos anos e os resultados a que tenho assistido não são lá de grande sucesso!
Bem sei que a formação na área das Tecnologias da Informação e Comunicação é a coisa mais importante do mundo e arredores neste momento; reconheço-lhes as vantagens.
Porém, o que falta para tudo isto fazer sentido é qualquer coisa que não sei explicar muito bem, mas deve ter a ver com um estrutura que não vejo, uma organização que não descortino, uma maneira de fazer as coisas sem que as empresas envolvidas corressem antes de tudo para o lucro pessoal, marimbando-se para os resultados que os meninos vierem a ter – quanto mais acríticos forem os futuros cidadãos melhor, desde que dominem as TIC – e para aquilo que os pedagogos agora chamam pomposamente as competências da aprendizagem, expressão que eu escrevi demasiadas vezes no ano lectivo que terminou, em documentos e formulários que enchem os dossiês nas prateleiras da minha escola.
Sunday, July 15, 2007
No 52 já ninguém mora

Quando por lá passo afasto os passos, como se me fosse ainda penoso espreitar os dias. Piores as noites, não as primeiras porque dessas ficaram raios de sol e búzios a murmurar segredos ao ouvido. Segredos bons, segredos do prazer aprendido a dois, rendição ao amor descoberto nos gestos novos, nos arrepios da pele sob os lábios inflamados, no gemer contido ainda pela estranheza do sentir.
Quando por lá passo preferia não passar. Não fosse este apelo dos passos a conduzir-me direita ao lugar de todas as coisas e eu fugia, escapava-me por entre a maré de memórias misturadas em azul e negro, os olhos baços perante as luzes intermitentes e ele a pedir-me perdão; e a ter de ir, de mãos presas e olhar assustado.
Nada fazia sentido. Nada faz ainda sentido a não ser a impossibilidade da casa ser lar.
Agora passo ao largo como se espreitasse não os búzios mas as pedras, as dores do frio das pedras a entranhar-se na memória. Passo de passos largos, a fugir de um aroma que se fez passado, a lembrar o dia em que o levaram dos meus braços; e as lágrimas em silêncio num pedido de desculpa surdo e côncavo.
No 52 já ninguém mora. Lá dentro, aprisionado pela tranca, ficou o amor. Não sei se resistirá ao mofo e ao silêncio.
Wednesday, July 11, 2007
Variações sobre águas espelhadas
Mal seria se todos olhássemos as coisas pelo mesmo ângulo; certamente um sinal estático de estarmos aqui pelo facto de nos terem posto neste lugar colectivo.
O meu lugar é um lugar comum: o lugar dos olhos; lugar de coisas visíveis e de outras que são reflexos; ou reflexões; ou representações.
Mas nem sempre os reflexos do lado de dentro passam pelo semear das letras e nem sempre a sementeira faz germinar aquilo que não chegou a ser lançado à terra.
Tudo está, pois, no lançar dos olhos, havendo os que vêem melhor pelo lado de dentro; e os que não vendo, escutam os ecos; e ainda os que ficam a olhar as águas.
Às vezes o olhar dilui-se, espelhando a espera.
Tuesday, July 10, 2007
águas que são espelhos
Sunday, July 01, 2007
(des)agasalho
Fotografia de Aguarelas de TurnerNão, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco. Lá onde chegavam ao fim as minhas folhas era como se um sorriso se soltasse de cada dedo; e cada dedo agarrasse o infinito.
Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.
E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.
Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?
São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.
Dizem que por baixo há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.
Tenho frio.
Thursday, June 28, 2007
Suspirando...

Wednesday, June 20, 2007
A não perder...
Há uma melodia paralela ao teu recorte, uma música que me faz encantar-te os dedos e os olhos que prendes ao voo dos meus pés descalços sobre as águas da maré baixa…
Há harmonia nesta cumplicidade paralela à música; e há a tua figura esguia sobre as águas da maré baixa enquanto vibram as cordas e eu acompanho o teu voo com os meus olhos rendidos…
Há cumplicidade no render dos teus olhos; e há o desenho harmonioso das tuas mãos na música do meu vestido que ondula ao som do teu voo enquanto os meus pés dançam...
Tuesday, June 12, 2007
Retrospectivamente
Aliviei com silêncios o rancor dos elementos
Aceitei o gelo dos areais por temer a oscilação das dunas
Saturday, June 09, 2007
... à espera
Sabias, se me adivinhasses, de uma existência mais do que escrita nas folhas de um caderno ou de um palavrear de insatisfação em linhas curvas; como se as palavras fossem eu e quisessem vida depois de anos amarradas aos cabelos da esfinge, exposto agora o desejo à nudez do amanhecer.
Sabias, se me visses, do viço dos rebentos em vésperas da floração, ou da energia de uma estrela mal pousada no espaço, a querer abraçar a terra; como se o romance não tivesse ainda começado mas o seu halo já pairasse por cima da pose inquieta e do fogo a arder nos lábios.
Thursday, June 07, 2007
olhos de ver camomilas
que os meus ficaram fechados
no lado de lá do tempo
e dá-me a cor dos teus passos
nas escadas do futuro
e a força viva que trazes
agarrada aos pensamentos
e mais a garra que imprimes
à paleta dos teus sonhos
dá-me, menina, o sentido
de sentir-te menos triste
depois dos dias cinzentos
Tuesday, May 29, 2007
Não estejas triste...

Ou antes, vive a tristeza por um dia e depois canta
Vês lá ao fundo o rio?
Ele tem margens e vai revolvendo o lodo velho
E, tu sabes, o mar que te espera é muito grande.
Eu também morri uma vez nas paredes de uma casa
E balancei-me depois num barco à deriva
Lembras-te dos tombos?
Amanhã não haverá mais vento a fustigar-te o rosto
Pelo menos a nortada vai aliviar. Tu sabes.
Saturday, May 26, 2007
pálpebras pesadas
escreveram-me nas pálpebras

um conjunto inteiro de mentiras
e devem ter-me dito
para não pestanejar
às vezes, à noite,
quando tento manter abertos os olhos
com medo da verdade
há uma montanha
pousada em cada pálpebra
e eu resisto
olhando a floração das madressilvas;
se fecho os olhos
vai-se o viço tenro das guias
que hão-de fazer-se troncos
Saturday, May 19, 2007
... o princípio da história
... mas para isso fui buscar ao arquivo este texto antigo, que pode servir de começo de uma história.
Tudo isto para dar continuidade a uma criação - O Livro dos Bons Princípios.
Tamara de Lempicka
Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.
Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero. Dizia que o amava.
Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se. Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário. A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.
antes da madrugada
os pássaros adormecem
e os morcegos
assustados
atiram-se contra as paredes brancas
deslizando
devagarinho
até ao chão.
Wednesday, May 16, 2007
é durante a madrugada que as folhas crescem
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer;
Para lá da porta conseguia ver-se o verão incendiando as planícies
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia, ave desabrida
Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora a esperança se converta em pressa
E queira ultrapassar o fim dos labirintos.
Wednesday, May 09, 2007
pormenores

pontas de fogo em caules frágeis dia-sim-dia-não
pode ser pouco
mas quando o tempo cai sobre as vontades esmagadas
(des)arruma-se a vida
e ofende-se com a esperança dos olhos,
o brilho,
à superfície das águas;
por estes dias vi (des)focar-se a paisagem
e, debruçada sobre mim,
desenhei a vermelho um sol sobre os riscos das feridas.
Sunday, May 06, 2007
ligações difíceis
prendo as mãos na esperança
cravo os olhos no céu, sem prece que ampare a subida
entro no diálogo difícil dos elementos
desisto.
Saturday, May 05, 2007
se eu fosse...

Se eu fosse uma hora do dia, seria ... a madrugada
Se eu fosse um astro, seria ... uma estrela muito distante
Se eu fosse um móvel, seria ... uma secretária desarrumada
Se eu fosse um liquido, seria ... água do mar
Se eu fosse uma árvore, seria ... um salgueiro
Se eu fosse uma flor, seria ... um narciso
Se eu fosse uma cor, seria ... verde
Se eu fosse um sentimento, seria ... sensibilidade
Se eu fosse um livro, seria ... A Náusea
Se eu fosse uma comida, seria ... um gelado a derreter no prato
Se eu fosse uma palavra, seria ... memória
Se eu fosse um verbo, seria ... aprender
Se eu fosse forma, seria ... elíptica
Sunday, April 29, 2007
narrativas com asas. ou apenas símbolos
E não saí das páginas…
Espalmada nelas converti-me em tempo narrativo, encolhida no espaço das histórias que ficam por contar.
Arredondei-me no volume das personagens e na gramática dos monólogos surdos.
Diálogos, sonhava-os, mas era se soubesse com que palavras se constrói a trama das histórias felizes.
Nos arabescos das aves podia estar o código por desvendar se não tivesse a certeza de que tudo é simbologia.
Heróis? Só nas histórias antigas, dentro dos livros de fadas; mas os episódios são sempre interrompidos pela focalização em outras realidades, as cruas, aquelas que não têm sequência narrativa, por mais que se queira aligeirar o desenlace.
E a acção tem um nome que é sempre o nome de outro nome; às vezes promessa sob um nome, sob a palavra que se pronuncia. Como se tudo tivesse um rosto visível e outro escondido. Pronuncia-se amor e é hábito que se diz. Diz-se o nome à espera que ele se converta na imagem de desejo.
E o que se deseja? Que o rosto visível das coisas seja a satisfação do desejo oculto.
Diz-se Primavera aguardando flores e pássaros na paisagem; e se as pétalas voam fica-se sem saber se eram as aves ou se era apenas o cheiro a rosas, sem as rosas. Figuração.
Um nome é sempre um nome de outro nome: se digo “eu” posso estar a anular a existência porque é do outro que falo; hábito de dizer e deixar escondido o que não ousa ser dito ou sequer pensado. Todo o pensamento ultrapassa a competência narrativa.
E no entanto há um desconforto no pensar, um subtítulo mal enunciado em cada coisa.
Friday, April 27, 2007
Leituras

Não li tudo ainda, mas a qualidade do registo é a mesma que me cativou desde o primeiro romance e o assunto é melindroso, como são melindrosos todos os assuntos de que é composta a vida.
Na parede de um gabinete, em Lisboa, projecta-se a sombra de Freud e quem lá entra já não pode viver fora dali. Porque ali há alguém que “ouve como um vivo e age como um morto”. Conforto no alongar dos relatos. Conforto no tecer das grades de uma prisão feita de cumplicidade profissional. Conforto no estar ali.
Isto é o que eu leio. Provavelmente outros lerão ali as soluções e ela, a autora, deixa que sejamos nós a ler. Até porque depois do tempo passar a leitura é ainda mais difícil – tema recorrente na escrita de Lídia Jorge – e o que se recorda “não vale a casca de um pêssego” ...
Porém, é do lado de fora que tudo se passa ; é no lado de fora que as pessoas estão; e é nesse lado que se passam as histórias concretas e se vivem as vidas concretas.
No gabinete as sombras prolongam fantasias ocultas pelo pudor e facilitam as invenções oníricas: do nada para o nada (digo eu.)
Leiam também.







