Wednesday, August 29, 2007

Combatendo as sombras

Roma

Antecipo agora o nascer do sol completando as sílabas
Apago também os silêncios repondo a direcção nas asas
E lavro textos sobre jardins acabados de plantar

Recuso deitar-me hirta em lençóis de marés passadas
Planto musgo fresco sobre tapetes de folhas ressequidas
E sorvo o cheiro manso da neblina sobre ruínas entretidas

Invento estações novas para ultrapassar a rapidez do tempo
Digo ao espelho que espere apenas mais um pouco

E transpareço, nua, ao som da voz que sopra nos meus olhos

Sunday, August 26, 2007

Ainda a água... nas férias

Florença

Veneza

Veneza



Thursday, August 16, 2007

Férias com água

Rio Alvoco

Barriosa

Rio Alvoco


Por agora fica o correr das águas.

As palavras virão depois. Neste momento apetece apenas contemplar.

Friday, August 10, 2007

Ufffff.... já merecia!!!


Agora sim, vou descansar uns dias.
A ausência tem sido por razões de trabalho.
Agora, finalmente... uns dias de descanso, exactamente na comemoração de dois anos de Palavras em Linha.
Daqui a dias estarei de volta para alinhar mais palavras.
Obrigada a quem passar por aqui.

Saturday, July 28, 2007

Dias definhados

Chegaram mesmo agora os dias sem poesia
Chegou a acidez do osso frágil
A vista enrugada, encovada, enevoada;
Mais a lentidão dos passos curtos
Em sapatos rasos.

Chegaram quilos a mais, agora mesmo
Chegou a letargia do desejo
As mãos atrapalhadas, presas, ressequidas;
Mais a lentidão das ideias quebradiças
E mal articuladas.


Devia ser possível recusar o invólucro enrugado
Ou recuar sobre as pernas definhadas.

Wednesday, July 25, 2007

Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo


O difícil é saber quando é cedo ou quando é tarde
Normalmente a estrutura já nos esmagou antes do acordar
Sabendo-se que o sono nunca é mais do que o refúgio.

Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo
Mas a tarde apenas fecha o dia
Quando a manhã se perde num desejo que foi ontem

Tudo inútil como um trapo velho
E ainda assim conservado, não vá um dia fazer falta.
Tudo em falta, hoje, tendo o ontem ficado atrás do sonho

Nunca se sabe se foi cedo ou se foi tarde
E o pior de tudo é deixar-se em branco o espaço do ponto final
E vê-lo sempre passar para a outra página.



Tuesday, July 24, 2007

Brindemos à escola do futuro

(clicar na imagem)


Ainda não sei muito bem como é que vou trabalhar na sala de aula no próximo ano lectivo mas parece-me que vai haver uma grande revolução nos meus métodos de ensino e nos dos meus colegas professores.
Consta-me que vou ter um portátil na minha mesa.
Pagarei por ele 150 euros e depois, durante 36 ou 12 meses, terei um encargozito que vai depender do contrato de fidelização à TMN que eu “quiser” fazer. Nada de especial. Mas será o meu portátil, porque se o pago ele é meu.
Meu?
Mas o que farão 28 alunos dentro da sala enquanto eu faço as minhas pesquisas e selecciono imagens e explico como é que eles colocam os trabalhos feitos na plataforma interactiva?!
Bem, alguns deles – se estiverem matriculados no 10º ano e tiverem um rendimento familiar que ainda não percebi se tem de ser alto ou baixo – poderão ter também o seu portátil mas aí as coisas complicam-se, exactamente como quando se quer fazer um exercício ou trabalhar um texto e só quatro, em vinte e oito, é que trouxeram o livro o ou caderno de exercícios.
Quanto aos outros, será que farão uma invasão à minha mesa, com o respectivo alarido a acompanhar o trabalho? E que farei com o manual? Para que fim terão os pais deles gasto centenas de euros em manuais? E que farei quando passar pelas mesas deles e verificar que a maioria está “agarrada” ao “Messenger” ou à página do Hi5?
Ok, eu sei que todas as transições são assim, mas caramba, já ando em transições há tantos anos e os resultados a que tenho assistido não são lá de grande sucesso!
Bem sei que a formação na área das Tecnologias da Informação e Comunicação é a coisa mais importante do mundo e arredores neste momento; reconheço-lhes as vantagens.
Porém, o que falta para tudo isto fazer sentido é qualquer coisa que não sei explicar muito bem, mas deve ter a ver com um estrutura que não vejo, uma organização que não descortino, uma maneira de fazer as coisas sem que as empresas envolvidas corressem antes de tudo para o lucro pessoal, marimbando-se para os resultados que os meninos vierem a ter – quanto mais acríticos forem os futuros cidadãos melhor, desde que dominem as TIC – e para aquilo que os pedagogos agora chamam pomposamente as competências da aprendizagem, expressão que eu escrevi demasiadas vezes no ano lectivo que terminou, em documentos e formulários que enchem os dossiês nas prateleiras da minha escola.

Certamente terei mais umas grelhas para preencher com os dados relativos ao domínio das técnicas de pesquisa na net, à capacidade de seleccionar informação, à velocidade com que tecla, ao domínio do uso do corrector ortográfico… tudo isso e mais ainda, se houver tempo, umas coisitas relativas à formação de Portugal ou à bipolarização do mundo nos anos 50 ou mesmo à formação da União Europeia, já que é nisso que estamos metidos embora sem grande capacidade para fazermos face a todas as coisas da moda.


Sunday, July 15, 2007

No 52 já ninguém mora




A sugestão veio daqui.

A inspiração veio dali.


Quando por lá passo afasto os passos, como se me fosse ainda penoso espreitar os dias. Piores as noites, não as primeiras porque dessas ficaram raios de sol e búzios a murmurar segredos ao ouvido. Segredos bons, segredos do prazer aprendido a dois, rendição ao amor descoberto nos gestos novos, nos arrepios da pele sob os lábios inflamados, no gemer contido ainda pela estranheza do sentir.
Quando por lá passo preferia não passar. Não fosse este apelo dos passos a conduzir-me direita ao lugar de todas as coisas e eu fugia, escapava-me por entre a maré de memórias misturadas em azul e negro, os olhos baços perante as luzes intermitentes e ele a pedir-me perdão; e a ter de ir, de mãos presas e olhar assustado.
Nada fazia sentido. Nada faz ainda sentido a não ser a impossibilidade da casa ser lar.
Agora passo ao largo como se espreitasse não os búzios mas as pedras, as dores do frio das pedras a entranhar-se na memória. Passo de passos largos, a fugir de um aroma que se fez passado, a lembrar o dia em que o levaram dos meus braços; e as lágrimas em silêncio num pedido de desculpa surdo e côncavo.
No 52 já ninguém mora. Lá dentro, aprisionado pela tranca, ficou o amor. Não sei se resistirá ao mofo e ao silêncio.

Wednesday, July 11, 2007

Variações sobre águas espelhadas


Cada olhar tem uma dimensão própria, diversa, distinta; e nem sempre é o mesmo, o percurso que vai do olhar ao ver.

Mal seria se todos olhássemos as coisas pelo mesmo ângulo; certamente um sinal estático de estarmos aqui pelo facto de nos terem posto neste lugar colectivo.

O meu lugar é um lugar comum: o lugar dos olhos; lugar de coisas visíveis e de outras que são reflexos; ou reflexões; ou representações.

Mas nem sempre os reflexos do lado de dentro passam pelo semear das letras e nem sempre a sementeira faz germinar aquilo que não chegou a ser lançado à terra.

Tudo está, pois, no lançar dos olhos, havendo os que vêem melhor pelo lado de dentro; e os que não vendo, escutam os ecos; e ainda os que ficam a olhar as águas.

Às vezes o olhar dilui-se, espelhando a espera.

Tuesday, July 10, 2007

águas que são espelhos


Fiquei assim a olhar o cair da água, ao ritmo dela,
regato cadenciado na transparência dos modos
e eu ali infiltrando-me no direito de estar por conta e risco;


Risco os dias e não sei de outras fontes,
de outras águas, de outros espelhos…


Sunday, July 01, 2007

(des)agasalho

Fotografia de Aguarelas de Turner

Vesti um agasalho quando os dias eram frios.
Não, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco. Lá onde chegavam ao fim as minhas folhas era como se um sorriso se soltasse de cada dedo; e cada dedo agarrasse o infinito.
Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.

E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.

Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?

São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.

Dizem que por baixo há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.

Tenho frio.

Thursday, June 28, 2007

Suspirando...


Raramente usei este espaço como lugar de contestação social ou de qualquer outra natureza. Talvez o tenha feito uma ou outra vez, desabafando queixumes relativos à minha actividade de professora e ao desagrado que em certos dias isso me causou (não, não é verdade que tenha deixado de gostar do que faço, mas há uns dias piores que outros, como na vida de todos os profissionais).
A personagem que criei para escrever aqui é demasiado virada para dentro para se interessar pelas coisas que movem o jornalismo, que se vai fazendo ao sabor daquilo que é mais mediático e, como tal, que pode render mais às empresas de comunicação e difusão.
Porém, eu interesso-me. Mas não preciso de criar nenhum outro espaço para o efeito. Estou a usar este, exactamente hoje, depois de ter estado sentada diante da televisão a ver as notícias do país e do mundo.
E o que vi e ouvi assustou-me:
As leis do trabalho estão a mudar de uma maneira estranha. Para quem o tem, claro!
O Ensino Superior tem, a partir de hoje, novas regras (bastou a aprovação da maioria, claro). Teremos empresas de ensino a formar os futuros alunos.
Uma directora de serviço foi hoje demitida do seu cargo por não ter retirado um cartaz jocoso a propósito de declarações do ministro da saúde. Antes, como se lembram, tinha sido um professor, destacado numa Direcção Regional.
Depois há ainda o caso Portugal Profundo - take 2 - tendo António Balbino Caldeira sido ouvido hoje em tribunal a propósito de umas coisas que escreveu. Mas já tinha havido o take 1 - há uns tempos, por causa de outras coisas escritas, nessa altura a propósito do (quase) esquecido caso Casa Pia. Segundo o próprio, quatro anos de blog deram origem a quatro processos.

Então, quando me preparava para dar voz à Elipse, à espera que saísse um dos seus textos poéticos, fiquei assim...

Wednesday, June 20, 2007

A não perder...

Músicas sobre Água - Vitor A. Ribeiro
em exposição aqui

Há uma melodia paralela aos teus pés descalços, uma música sobre as águas da maré baixa que te faz voar à minha volta e me encanta os dedos nas cordas …

Há uma melodia paralela ao teu recorte, uma música que me faz encantar-te os dedos e os olhos que prendes ao voo dos meus pés descalços sobre as águas da maré baixa…

Há harmonia nesta cumplicidade paralela à música; e há a tua figura esguia sobre as águas da maré baixa enquanto vibram as cordas e eu acompanho o teu voo com os meus olhos rendidos…

Há cumplicidade no render dos teus olhos; e há o desenho harmonioso das tuas mãos na música do meu vestido que ondula ao som do teu voo enquanto os meus pés dançam...



O que me inspirou?

Esta pintura - óleo sobre tela - exposta no Reservatório da Patriarcal, à Praça do Príncipe Real.
O autor é Vitor A. Ribeiro e vale a pena visitar a mostra, que estará lá até 31 de Julho.

Tuesday, June 12, 2007

Retrospectivamente



Antecipei sempre os poentes nas colunas do horizonte
Quebrei todas as sílabas silenciando as agonias
E deixei arrastar as águas dos Invernos
Sobre mortalhas de vida presa ao compromisso.

Aliviei com silêncios o rancor dos elementos
Cortei com a navalha a ponta incendiada das asas
E escrevi textos e textos no lavrar do medo
Sobre jardins plantados em marés futuras.

Aceitei o gelo dos areais por temer a oscilação das dunas
Enquanto me deitava hirta dentro da escuridão
E plantei musgo anunciando a Primavera
Sobre as farpas agudas de todos os argumentos.

Recolho agora da neblina o cheiro a véus translúcidos
Feitos espelhos de memórias e gestos por dizer
E deixo arrastar as águas de todas as estações
Sobre o imenso charco das pedras calcinadas.

Saturday, June 09, 2007

... à espera


Sabias, se me escutasses, que aguardo o verão com a ansiedade do guerreiro na hora da batalha ou o desassossego da adolescente antes do grande encontro; como se tivesse estado de joelhos, durante toda a noite, atenta ao murmúrio do oráculo e fosse agora o momento de desvendar o enigma.

Sabias, se me adivinhasses, de uma existência mais do que escrita nas folhas de um caderno ou de um palavrear de insatisfação em linhas curvas; como se as palavras fossem eu e quisessem vida depois de anos amarradas aos cabelos da esfinge, exposto agora o desejo à nudez do amanhecer.

Sabias, se me visses, do viço dos rebentos em vésperas da floração, ou da energia de uma estrela mal pousada no espaço, a querer abraçar a terra; como se o romance não tivesse ainda começado mas o seu halo já pairasse por cima da pose inquieta e do fogo a arder nos lábios.


Thursday, June 07, 2007

olhos de ver camomilas



Dá-me, menina, os teus olhos
que os meus ficaram fechados
no lado de lá do tempo

e dá-me a cor dos teus passos
nas escadas do futuro

e a força viva que trazes
agarrada aos pensamentos

e mais a garra que imprimes
à paleta dos teus sonhos

dá-me, menina, o sentido
de sentir-te menos triste
depois dos dias cinzentos




Tuesday, May 29, 2007

Não estejas triste...


Não estejas triste, a vida não parou para ninguém
Ou antes, vive a tristeza por um dia e depois canta
Vês lá ao fundo o rio?
Ele tem margens e vai revolvendo o lodo velho
E, tu sabes, o mar que te espera é muito grande.

Eu também morri uma vez nas paredes de uma casa
E balancei-me depois num barco à deriva
Lembras-te dos tombos?
Amanhã não haverá mais vento a fustigar-te o rosto
Pelo menos a nortada vai aliviar. Tu sabes.

Saturday, May 26, 2007

pálpebras pesadas

quando eu nasci
escreveram-me nas pálpebras

um conjunto inteiro de mentiras
e devem ter-me dito

para não pestanejar

às vezes, à noite,
quando tento manter abertos os olhos
com medo da verdade
há uma montanha

pousada em cada pálpebra

e eu resisto
olhando a floração das madressilvas;
se fecho os olhos
vai-se o viço tenro das guias

que hão-de fazer-se troncos




Saturday, May 19, 2007

... o princípio da história

Ela e ele lançaram o desafio. Depois, aqui, enviaram-no directamente para mim. E eu respondi...

... mas para isso fui buscar ao arquivo este texto antigo, que pode servir de começo de uma história.

Tudo isto para dar continuidade a uma criação - O Livro dos Bons Princípios.


Tamara de Lempicka

Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.

Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero. Dizia que o amava.

Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se. Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário. A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.

antes da madrugada


antes da madrugada

os pássaros adormecem

e os morcegos

assustados

atiram-se contra as paredes brancas

deslizando

devagarinho

até ao chão.

Wednesday, May 16, 2007

é durante a madrugada que as folhas crescem


Já de madrugada vieram os pássaros em chilreios de despertar
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer;

Para lá da porta conseguia ver-se o verão incendiando as planícies
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia, ave desabrida

Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora a esperança se converta em pressa
E queira ultrapassar o fim dos labirintos.

Wednesday, May 09, 2007

pormenores


pontas de fogo em caules frágeis dia-sim-dia-não
pode ser pouco
mas quando o tempo cai sobre as vontades esmagadas
(des)arruma-se a vida
e ofende-se com a esperança dos olhos,
o brilho,
à superfície das águas;

por estes dias vi (des)focar-se a paisagem
e, debruçada sobre mim,
desenhei a vermelho um sol sobre os riscos das feridas.

Sunday, May 06, 2007

ligações difíceis

roubei a fotografia ao pé de meia


prendo as mãos na esperança
finco as unhas, despedaço-as nas ranhuras da pedra
o corpo teima, o corpo pesa;

cravo os olhos no céu, sem prece que ampare a subida
eu e a parede, ambas rudes no desejo
eu teimo, ela resiste;

entro no diálogo difícil dos elementos
sou parte da parte
e o todo escorrega-me nas mãos.
a pedra fica. não há dualidade.
desisto.

Saturday, May 05, 2007

se eu fosse...


A Ivamarle desafiou-me a revelar um pouco de mim:


Se eu fosse uma hora do dia, seria ... a madrugada
Se eu fosse um astro, seria ... uma estrela muito distante
Se eu fosse uma direcção, seria...o caminho bifurcado
Se eu fosse um móvel, seria ... uma secretária desarrumada
Se eu fosse um liquido, seria ... água do mar
Se eu fosse um pecado, seria ... a ira
Se eu fosse uma pedra, seria ... pedra de lioz
Se eu fosse uma árvore, seria ... um salgueiro
Se eu fosse uma fruta, seria ... um cacho de uvas
Se eu fosse uma flor, seria ... um narciso
Se eu fosse um clima, seria ... polar
Se eu fosse um instrumento musical, seria ... um piano
Se eu fosse um elemento, seria ... ar
Se eu fosse uma cor, seria ... verde
Se eu fosse um animal, seria ... uma garça
Se eu fosse um som, seria ... o vento (às vezes brisa, às vezes temporal)
Se eu fosse música, seria ... uma balada
Se eu fosse estilo musical, seria … clássica
Se eu fosse um sentimento, seria ... sensibilidade
Se eu fosse um livro, seria ... A Náusea
Se eu fosse uma comida, seria ... um gelado a derreter no prato
Se eu fosse um lugar, seria ... uma praia
Se eu fosse um gosto, seria ... agridoce
Se eu fosse um cheiro, seria ... lilás
Se eu fosse uma palavra, seria ... memória
Se eu fosse um verbo, seria ... aprender
Se eu fosse um objecto, seria ... um livro
Se eu fosse peça de roupa, seria ... uma écharpe
Se eu fosse parte do corpo, seria ... o cérebro
Se eu fosse expressão facial, seria ... a surpresa
Se eu fosse personagem de desenho animado, seria … ???
Se eu fosse filme, seria ... Magnólia
Se eu fosse forma, seria ... elíptica
Se eu fosse número, seria ... 5
Se eu fosse estação, seria ... primavera
Se eu fosse uma frase, seria ... todas as frases são fragmentos; eu quero as palavras todas



Sunday, April 29, 2007

narrativas com asas. ou apenas símbolos

René Magritte

E não saí das páginas…
Espalmada nelas converti-me em tempo narrativo, encolhida no espaço das histórias que ficam por contar.
Arredondei-me no volume das personagens e na gramática dos monólogos surdos.
Diálogos, sonhava-os, mas era se soubesse com que palavras se constrói a trama das histórias felizes.
Nos arabescos das aves podia estar o código por desvendar se não tivesse a certeza de que tudo é simbologia.
Heróis? Só nas histórias antigas, dentro dos livros de fadas; mas os episódios são sempre interrompidos pela focalização em outras realidades, as cruas, aquelas que não têm sequência narrativa, por mais que se queira aligeirar o desenlace.
E a acção tem um nome que é sempre o nome de outro nome; às vezes promessa sob um nome, sob a palavra que se pronuncia. Como se tudo tivesse um rosto visível e outro escondido. Pronuncia-se amor e é hábito que se diz. Diz-se o nome à espera que ele se converta na imagem de desejo.
E o que se deseja? Que o rosto visível das coisas seja a satisfação do desejo oculto.
Diz-se Primavera aguardando flores e pássaros na paisagem; e se as pétalas voam fica-se sem saber se eram as aves ou se era apenas o cheiro a rosas, sem as rosas. Figuração.
Um nome é sempre um nome de outro nome: se digo “eu” posso estar a anular a existência porque é do outro que falo; hábito de dizer e deixar escondido o que não ousa ser dito ou sequer pensado. Todo o pensamento ultrapassa a competência narrativa.
E no entanto há um desconforto no pensar, um subtítulo mal enunciado em cada coisa.

Friday, April 27, 2007

Leituras


Gosto da maneira como ela diz “devíamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento”.
Não li tudo ainda, mas a qualidade do registo é a mesma que me cativou desde o primeiro romance e o assunto é melindroso, como são melindrosos todos os assuntos de que é composta a vida.
Na parede de um gabinete, em Lisboa, projecta-se a sombra de Freud e quem lá entra já não pode viver fora dali. Porque ali há alguém que “ouve como um vivo e age como um morto”. Conforto no alongar dos relatos. Conforto no tecer das grades de uma prisão feita de cumplicidade profissional. Conforto no estar ali.
Isto é o que eu leio. Provavelmente outros lerão ali as soluções e ela, a autora, deixa que sejamos nós a ler. Até porque depois do tempo passar a leitura é ainda mais difícil – tema recorrente na escrita de Lídia Jorge – e o que se recorda “não vale a casca de um pêssego” ...
Porém, é do lado de fora que tudo se passa ; é no lado de fora que as pessoas estão; e é nesse lado que se passam as histórias concretas e se vivem as vidas concretas.
No gabinete as sombras prolongam fantasias ocultas pelo pudor e facilitam as invenções oníricas: do nada para o nada (digo eu.)

Quando acabar virei dizer se é assim ou se ela me vai trocar as voltas.
Leiam também.

Thursday, April 26, 2007

recomendações


Gosto de blogues.

Aprendi o caminho para lugares de qualidade e às vezes já troco os livros pela escrita curta mas profunda, pelo humor cáustico mas fino ou pela simbologia das imagens que resultam das sensibilidades pessoais de quem visito.
Também há lugares a que não me apetece voltar; não por desprezo pelo pensamento de cada um, mas pela necessária gestão do tempo e das preferências. Há contudo, outros com os quais não me identifico.

Disseram, ela e ele e mais ela que me visitam por gosto; e eu, mesmo sabendo que há muitos outros lugares de referência e ainda outros tantos por descobrir, diariamente gosto de passar por aqui, onde a qualidade da informação e da reflexão me satisfazem; por aqui, onde a profundidade da escrita me faz pensar; por aqui, onde o sentido de humor me anima os dias; por aqui, onde a diversidade me permite aprender muitas coisas e por aqui, onde a limpidez das escolhas me leva a caminhos novos.


Wednesday, April 25, 2007

Conta como foi

O que mais me custa, passados 33 anos, é o distanciamento a que vamos ficando dos acontecimentos.
Os mais novos podem sempre dizer que foi assim, mas não estiveram lá.
Sim, é o passar do tempo e toda a História se faz de relatos; mas os factos são manipuláveis, dependendo da intenção ou até da emoção de quem o faz.
Para mim, há uma verdade. Aquela que testemunhei porque estava perto. E... dar vivas à Liberdade fazia tanto sentido!
Por mais que tente não consigo explicar aos mais novos o que era viver sem ela. Não há termo de comparação para eles...





Sunday, April 22, 2007

olhos acesos em páginas por escrever




estava sentada entre as páginas quando chegaste;
tremia sem temer mas o sorriso era ainda inverso à proporção da espera.
trazias a paz nas sílabas e nas mãos organza, algodão doce, linho festivo e música.
as aves esvoaçaram e fizeram arabescos no azul;
o tempo limitou-lhes o voo e vi que descansaram à beira mar antes da partida.
há detalhes que convém omitir, contudo, não vão as imagens ferir-se nos espelhos.
vou deixar ficar os olhos acesos, só os olhos.

arcas velhas

subitamente dei comigo a olhar a arca onde guardei
dobrada
a alegria;
já me tinha incomodado o cheiro a mofo
mas pensava que era do preto dos vestidos
atirados
desdenhosamente
num dia de mãos aliviadas.

lembro-me que também lá pus
a esperança
com medo de a usar em demasia.

devia levantar-lhe a tampa,
suprimir o peso sobre as camadas dispostas no interior

mas tenho medo de mexer nas traças.

Thursday, April 19, 2007

projectos

primeiro deseja-se ter, depois deseja-se ser;
não há regras que normalizem a mente; só talvez quando se tem o necessário ou quando se sobe o patamar do desprendimento.

houve dias, antes do conforto, em que desejei apenas amoras silvestres, depois a compota, depois a prateleira, depois a parede… depois a casa;

os desejos crescem à medida da ambição ou também podem diminuir com ela, é sempre duvidosa a proporcionalidade das coisas; e os projectos são sempre tridimensionais, se não desejarmos também a serenidade.
imagem daqui

Monday, April 16, 2007

O carro do sol



o sol nasce cedo e eu acordo
depois as horas passam

depois começa a ser noite e o dia finda
hoje igual a ontem

amanhã igual a hoje
mesmo que as palavras sejam outras
ou os gestos possam ter a novidade da diferença.

tenho pena de já ter passado tanto tempo.
e o mar ali tão perto, a ficar para sempre
mesmo quando eu não estiver aqui.

invejo a permanência das coisas como se a culpa fosse delas
é duro saber que tudo fica…



Wednesday, April 11, 2007

Mitos fundadores 5.

Dédalo e Ícaro



O sol é ambição, não deves.
Mas é desafio…
As asas são frágeis. Não arrisques.
Mas tenho de ir…
A aventura não compensa. Eu sei.
Mas eu tenho de saber…




Tuesday, April 10, 2007

Mitos fundadores 4.

Atena
(com a gentil colaboração do pirata-vermelho)


Eis que a maga Atenas
em quebrantos, denodada

apela ao vento Eolo
por um manto

para tapar Métis,
a mal amada

Não vá o fauno olímpico tecê-las
e

de maduras
a ambas
mordê-las.


Monday, April 09, 2007

Mitos fundadores 3.

Dionísio
( Baco, para os romanos)

fantasiam-se as festas
na embriagez da primavera

celebra-se a divindade do êxtase

em danças fecundas
sobre a terra adormecida.



Saturday, April 07, 2007

Mitos fundadores 2.

Prometeu

Heinrich Füger


O fogo queima as mãos aventureiras
lá onde os deuses mandam.

A vida pela luz.

e depois a razão predadora
como paga.


Friday, April 06, 2007

Mitos fundadores 1.

Zeus e Hera
imagem daqui

Diz-me em silêncio que o poder não sou eu mas tu.
Digo-te em silêncio o desejo da mulher;
Deita-te comigo e faz-me adormecer em ti.
Deito-me contigo e faremos nascer o mundo;
Deixa o teu perfume marcado na minha cama se fores embora.
O meu perfume será o alvorecer do universo. E eu fico.




Sunday, April 01, 2007

pedras com flores dentro


Desabrocham vivas as vontades
Nascem da pedraria
Em dias de chilreios com vento a favor
A luz chega cedo e não há noite que adormeça a determinação.




Wednesday, March 28, 2007

pintar o mar nos olhos


não há noites que cheguem para o espanto de te ter
em vez do nada que era o dia repetido ao fim da tarde;


os lençóis de linho estavam gastos pela espera
enrolada à solidão; enquanto o sono tardava
dentro das janelas eu desenhava um rosto
linha a linha; o livro estava aberto e aguardava
palavras escritas a tinta fresca.


demasiada fantasia, digo agora;
o contorno dos meus olhos
aceitando o mar dos teus.







Monday, March 26, 2007

(in)decisões


Não sei de que cor são as palavras

Quando se escondem, miúdas, inquietas
Nos abrigos mais castos das montanhas


E eu à espera do dia para subir




Não sei de que sol são as estrelas

Acenando celestes, espelhadas
Nos sonhos apagados pelo medo


E eu olhando o mar sem ousadia



Não sei de passos grandes que me levem

ou velas de partida ou asas calmas


se fico luto em vão…


se parto… perco...


Friday, March 23, 2007

Histórias 6.

Bosch

Havia dias em que lhe vinha frio dos olhos; e dias em que o olhar trazia qualquer coisa de perverso, uma coisa incomodativa ao mesmo tempo idiota mas orgástica.
Tinha só dezasseis anos mas transportava ódios velhos, como se nele coubessem troncos de árvores centenárias, firmes, enraizados na tragédia. Ou foi assim que o vi depois, porque no princípio fincou-se no meu sentir maternal a necessidade de o proteger, estranha necessidade que ao mesmo tempo causava repulsa porque ele queria aninhar-se sem precisar de aconchego; queria proximidade sem desejar o calor das palavras; queria respostas para perguntas maduras e parecia já saber o caminho antes de se aperceber da dimensão das portas.
Estranha criatura que se encolhia às agressões vindas do feminino, embora lhes atirasse palavreado clandestino e nunca confessado.
Soube que fora violentado nos primeiros anos da infância; uma história contada depois, sem o rigor do esclarecimento e com manchas escuras pelo meio. Não que ele ma tivesse contado, não! O mundo em que se imaginava era tão perfeito que nada de mal lá cabia, nem as pancadas que lhe deixaram nos olhos a indiferença, nem as palavras que o silenciaram para os outros, sabendo-se que elas fervilhavam estranhas, contidas, obscenas, malvadas, frias.
Disse-me que os deficientes não deviam viver, que os pretos não deviam estar na sua terra, que os feios deviam ser separados num mundo à parte. Quis confessar na escrita a cor negra do seu lado de dentro, não se preocupando sequer em lhe acrescentar as cores da dissimulação. As cores, pintava-as nas bonecas que desenhava, sempre as mesmas, mulheres standartizadas, personagens com funções masculinas e olhar arredondado
Não sei se precisa de ajuda. Não há bigorna que dobre um ferro colocado sobre o gelo.
A inteligência vai comandar a sua vida e o sentido hedonista que a infância lhe despertou, à custa de uma suspeitosa ausência de regras e valores, há-de levá-lo a cometer aquilo a que os seres normais chamarão atrocidades.
A imagem que me angustiou a noite foi a de um monstro.

Tuesday, March 20, 2007

A dimensão ecológica do Imperialismo

Polinésia


Visões novas da História velha.
É fascinante a maneira como outros olhos vêem as mesmas coisas. Não que nunca as tivéssemos pensado, não é isso! É o desenho feito com outras cores, às vezes as mesmas que costumamos usar, mas noutros esboços.
Há uma dimensão ecológica no colonialismo. A instalação dos europeus no mundo não europeu acarretou muitas e variadas catástrofes – erosão dos solos, tempestades de pó, desaparecimento de espécies animais e vegetais, introdução de outras, importação de modelos paisagísticos…
Eram paraísos as ilhas (e ainda o são, pelo menos nos mitos) e todos os lugares situados abaixo dos trópicos. Lugares semelhantes a um qualquer Éden onde se encontrava o sossego mas também a possibilidade de pôr em prática a exploração capitalista, fosse de um cultivo rentável, fosse da rentabilização da actividade turística, se quisermos aproximar-nos das ambições actuais.
A expansão imperialista vai provocar profundas alterações nos sistemas ecológicos: a introdução do cavalo nas Américas, dos coelhos na Austrália ou até das simples batatas na Europa mudou a ecologia do planeta. É claro que não foi a primeira vez que tais mudanças alteraram a ecologia à escala planetária; o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, no Neolítico, devem ter feito “estragos” maiores; porém, o ritmo de aceleração e a escala a que as mudanças ocorreram nestes últimos séculos não tem comparação possível.
Jardins decorativos cheios de plantas exóticas alimentavam o imaginário barroco e depois o romantismo, por isso a procura de novas espécies intensificou-se nos séculos XVIII e XIX: Cook e Bougainville viajam nessa busca e o espaço sub-tropical é devastado, como o são as vidas dos seus habitantes.
A História cultural da Natureza é tão significante como a História ecológica da cultura.
História ambiental? Pode ser que sim, que esteja a surgir uma nova área de estudos. Pelo menos trata-se de um campo de estudos interdisciplinares que envolve as relações entre cultura, tecnologia e natureza.



Os Impérios 2.

D. Manuel I

Tudo começa com a instalação dos países ibéricos nas ilhas atlânticas, no século XIV.
A partir daí a Europa achou que tudo lhe era possível. Progressivamente a extensão do sistema global faz com que os europeus acreditem que não há fronteiras para o comércio, primeiro, e para a instalação política, depois.
Primeiro são as ilhas desabitadas; depois as terras dos outros que vêem sair de barcos com asas os deuses brancos, ameaça que os antepassados previram e anunciaram. As armas favoreceram o domínio e a partir daí assistimos à marginalização, à escravatura e depois à extinção das pequenas culturas indígenas. Desde as florestas às espécies animais, passando inevitavelmente pelos homens, o domínio europeu impôs-se destruindo mais do que construindo. Ou se alguma coisa construíram foi sempre em prol dos seus interesses “civilizacionais”.
No Oriente, porém, a imposição era menos fácil. Quando muito havia a possibilidade de domínio dos circuitos comerciais, com a chegada da pimenta à Europa, via rota do Cabo, a preços mais baixos e o consequente desvio dos centros económicos das republicas italianas para Lisboa.
Mas isto foi só o começo.
Muitos Impérios se constituíram depois disso como se o modelo romano herdado pudesse ser retomado e continuado.
D. Manuel intitulava-se Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia.
Dos Algarves, sim, que eram as terras do ocidente andaluz (al garb al andaluz); d'aquém e d'além mar também, porque Ceuta e as outras praças marroquinas podiam ser o começo do alargamento da terra e da fé (é difícil de estabelecer uma ordem entre elas); senhor do comércio e navegação era desejo de um rei “venturoso” que mandou para o Índico as embarcações que iriam estabelecer o nosso domínio sobre as rotas muçulmanas. Engano de quem governava com os olhos no Tejo, mas ainda assim sem ter saído a barra. Megalomania condizente com a pequenez amaldiçoada…

Sunday, March 18, 2007

Brighton