
Thursday, June 28, 2007
Suspirando...

Wednesday, June 20, 2007
A não perder...
Há uma melodia paralela ao teu recorte, uma música que me faz encantar-te os dedos e os olhos que prendes ao voo dos meus pés descalços sobre as águas da maré baixa…
Há harmonia nesta cumplicidade paralela à música; e há a tua figura esguia sobre as águas da maré baixa enquanto vibram as cordas e eu acompanho o teu voo com os meus olhos rendidos…
Há cumplicidade no render dos teus olhos; e há o desenho harmonioso das tuas mãos na música do meu vestido que ondula ao som do teu voo enquanto os meus pés dançam...
Tuesday, June 12, 2007
Retrospectivamente
Aliviei com silêncios o rancor dos elementos
Aceitei o gelo dos areais por temer a oscilação das dunas
Saturday, June 09, 2007
... à espera
Sabias, se me adivinhasses, de uma existência mais do que escrita nas folhas de um caderno ou de um palavrear de insatisfação em linhas curvas; como se as palavras fossem eu e quisessem vida depois de anos amarradas aos cabelos da esfinge, exposto agora o desejo à nudez do amanhecer.
Sabias, se me visses, do viço dos rebentos em vésperas da floração, ou da energia de uma estrela mal pousada no espaço, a querer abraçar a terra; como se o romance não tivesse ainda começado mas o seu halo já pairasse por cima da pose inquieta e do fogo a arder nos lábios.
Thursday, June 07, 2007
olhos de ver camomilas
que os meus ficaram fechados
no lado de lá do tempo
e dá-me a cor dos teus passos
nas escadas do futuro
e a força viva que trazes
agarrada aos pensamentos
e mais a garra que imprimes
à paleta dos teus sonhos
dá-me, menina, o sentido
de sentir-te menos triste
depois dos dias cinzentos
Tuesday, May 29, 2007
Não estejas triste...

Ou antes, vive a tristeza por um dia e depois canta
Vês lá ao fundo o rio?
Ele tem margens e vai revolvendo o lodo velho
E, tu sabes, o mar que te espera é muito grande.
Eu também morri uma vez nas paredes de uma casa
E balancei-me depois num barco à deriva
Lembras-te dos tombos?
Amanhã não haverá mais vento a fustigar-te o rosto
Pelo menos a nortada vai aliviar. Tu sabes.
Saturday, May 26, 2007
pálpebras pesadas
escreveram-me nas pálpebras

um conjunto inteiro de mentiras
e devem ter-me dito
para não pestanejar
às vezes, à noite,
quando tento manter abertos os olhos
com medo da verdade
há uma montanha
pousada em cada pálpebra
e eu resisto
olhando a floração das madressilvas;
se fecho os olhos
vai-se o viço tenro das guias
que hão-de fazer-se troncos
Saturday, May 19, 2007
... o princípio da história
... mas para isso fui buscar ao arquivo este texto antigo, que pode servir de começo de uma história.
Tudo isto para dar continuidade a uma criação - O Livro dos Bons Princípios.
Tamara de Lempicka
Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.
Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero. Dizia que o amava.
Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se. Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário. A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.
antes da madrugada
os pássaros adormecem
e os morcegos
assustados
atiram-se contra as paredes brancas
deslizando
devagarinho
até ao chão.
Wednesday, May 16, 2007
é durante a madrugada que as folhas crescem
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer;
Para lá da porta conseguia ver-se o verão incendiando as planícies
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia, ave desabrida
Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora a esperança se converta em pressa
E queira ultrapassar o fim dos labirintos.
Wednesday, May 09, 2007
pormenores

pontas de fogo em caules frágeis dia-sim-dia-não
pode ser pouco
mas quando o tempo cai sobre as vontades esmagadas
(des)arruma-se a vida
e ofende-se com a esperança dos olhos,
o brilho,
à superfície das águas;
por estes dias vi (des)focar-se a paisagem
e, debruçada sobre mim,
desenhei a vermelho um sol sobre os riscos das feridas.
Sunday, May 06, 2007
ligações difíceis
prendo as mãos na esperança
cravo os olhos no céu, sem prece que ampare a subida
entro no diálogo difícil dos elementos
desisto.
Saturday, May 05, 2007
se eu fosse...

Se eu fosse uma hora do dia, seria ... a madrugada
Se eu fosse um astro, seria ... uma estrela muito distante
Se eu fosse um móvel, seria ... uma secretária desarrumada
Se eu fosse um liquido, seria ... água do mar
Se eu fosse uma árvore, seria ... um salgueiro
Se eu fosse uma flor, seria ... um narciso
Se eu fosse uma cor, seria ... verde
Se eu fosse um sentimento, seria ... sensibilidade
Se eu fosse um livro, seria ... A Náusea
Se eu fosse uma comida, seria ... um gelado a derreter no prato
Se eu fosse uma palavra, seria ... memória
Se eu fosse um verbo, seria ... aprender
Se eu fosse forma, seria ... elíptica
Sunday, April 29, 2007
narrativas com asas. ou apenas símbolos
E não saí das páginas…
Espalmada nelas converti-me em tempo narrativo, encolhida no espaço das histórias que ficam por contar.
Arredondei-me no volume das personagens e na gramática dos monólogos surdos.
Diálogos, sonhava-os, mas era se soubesse com que palavras se constrói a trama das histórias felizes.
Nos arabescos das aves podia estar o código por desvendar se não tivesse a certeza de que tudo é simbologia.
Heróis? Só nas histórias antigas, dentro dos livros de fadas; mas os episódios são sempre interrompidos pela focalização em outras realidades, as cruas, aquelas que não têm sequência narrativa, por mais que se queira aligeirar o desenlace.
E a acção tem um nome que é sempre o nome de outro nome; às vezes promessa sob um nome, sob a palavra que se pronuncia. Como se tudo tivesse um rosto visível e outro escondido. Pronuncia-se amor e é hábito que se diz. Diz-se o nome à espera que ele se converta na imagem de desejo.
E o que se deseja? Que o rosto visível das coisas seja a satisfação do desejo oculto.
Diz-se Primavera aguardando flores e pássaros na paisagem; e se as pétalas voam fica-se sem saber se eram as aves ou se era apenas o cheiro a rosas, sem as rosas. Figuração.
Um nome é sempre um nome de outro nome: se digo “eu” posso estar a anular a existência porque é do outro que falo; hábito de dizer e deixar escondido o que não ousa ser dito ou sequer pensado. Todo o pensamento ultrapassa a competência narrativa.
E no entanto há um desconforto no pensar, um subtítulo mal enunciado em cada coisa.
Friday, April 27, 2007
Leituras

Não li tudo ainda, mas a qualidade do registo é a mesma que me cativou desde o primeiro romance e o assunto é melindroso, como são melindrosos todos os assuntos de que é composta a vida.
Na parede de um gabinete, em Lisboa, projecta-se a sombra de Freud e quem lá entra já não pode viver fora dali. Porque ali há alguém que “ouve como um vivo e age como um morto”. Conforto no alongar dos relatos. Conforto no tecer das grades de uma prisão feita de cumplicidade profissional. Conforto no estar ali.
Isto é o que eu leio. Provavelmente outros lerão ali as soluções e ela, a autora, deixa que sejamos nós a ler. Até porque depois do tempo passar a leitura é ainda mais difícil – tema recorrente na escrita de Lídia Jorge – e o que se recorda “não vale a casca de um pêssego” ...
Porém, é do lado de fora que tudo se passa ; é no lado de fora que as pessoas estão; e é nesse lado que se passam as histórias concretas e se vivem as vidas concretas.
No gabinete as sombras prolongam fantasias ocultas pelo pudor e facilitam as invenções oníricas: do nada para o nada (digo eu.)
Leiam também.
Thursday, April 26, 2007
recomendações

Aprendi o caminho para lugares de qualidade e às vezes já troco os livros pela escrita curta mas profunda, pelo humor cáustico mas fino ou pela simbologia das imagens que resultam das sensibilidades pessoais de quem visito.
Também há lugares a que não me apetece voltar; não por desprezo pelo pensamento de cada um, mas pela necessária gestão do tempo e das preferências. Há contudo, outros com os quais não me identifico.
Disseram, ela e ele e mais ela que me visitam por gosto; e eu, mesmo sabendo que há muitos outros lugares de referência e ainda outros tantos por descobrir, diariamente gosto de passar por aqui, onde a qualidade da informação e da reflexão me satisfazem; por aqui, onde a profundidade da escrita me faz pensar; por aqui, onde o sentido de humor me anima os dias; por aqui, onde a diversidade me permite aprender muitas coisas e por aqui, onde a limpidez das escolhas me leva a caminhos novos.
Wednesday, April 25, 2007
Conta como foi
Sunday, April 22, 2007
olhos acesos em páginas por escrever

trazias a paz nas sílabas e nas mãos organza, algodão doce, linho festivo e música.
as aves esvoaçaram e fizeram arabescos no azul;
há detalhes que convém omitir, contudo, não vão as imagens ferir-se nos espelhos.
arcas velhas
dobrada

a alegria;
já me tinha incomodado o cheiro a mofo
mas pensava que era do preto dos vestidos
atirados
desdenhosamente
num dia de mãos aliviadas.
lembro-me que também lá pus
a esperança
com medo de a usar em demasia.
devia levantar-lhe a tampa,
suprimir o peso sobre as camadas dispostas no interior
mas tenho medo de mexer nas traças.
Thursday, April 19, 2007
projectos
primeiro deseja-se ter, depois deseja-se ser;não há regras que normalizem a mente; só talvez quando se tem o necessário ou quando se sobe o patamar do desprendimento.
houve dias, antes do conforto, em que desejei apenas amoras silvestres, depois a compota, depois a prateleira, depois a parede… depois a casa;
Monday, April 16, 2007
O carro do sol
amanhã igual a hoje
mesmo que as palavras sejam outras
ou os gestos possam ter a novidade da diferença.
tenho pena de já ter passado tanto tempo.
e o mar ali tão perto, a ficar para sempre
invejo a permanência das coisas como se a culpa fosse delas
Wednesday, April 11, 2007
Mitos fundadores 5.
Dédalo e Ícaro

O sol é ambição, não deves.
Mas é desafio…
As asas são frágeis. Não arrisques.
Mas tenho de ir…
A aventura não compensa. Eu sei.
Mas eu tenho de saber…
Tuesday, April 10, 2007
Mitos fundadores 4.

em quebrantos, denodada
apela ao vento Eolo
por um manto
para tapar Métis,
a mal amada
Não vá o fauno olímpico tecê-las
e
de maduras
a ambas
mordê-las.
Monday, April 09, 2007
Mitos fundadores 3.
fantasiam-se as festas
celebra-se a divindade do êxtase
em danças fecundas
Saturday, April 07, 2007
Mitos fundadores 2.
O fogo queima as mãos aventureiras
lá onde os deuses mandam.
e depois a razão predadora
Friday, April 06, 2007
Mitos fundadores 1.
Diz-me em silêncio que o poder não sou eu mas tu.
Sunday, April 01, 2007
pedras com flores dentro
Wednesday, March 28, 2007
pintar o mar nos olhos
não há noites que cheguem para o espanto de te ter
em vez do nada que era o dia repetido ao fim da tarde;
os lençóis de linho estavam gastos pela espera
enrolada à solidão; enquanto o sono tardava
dentro das janelas eu desenhava um rosto
linha a linha; o livro estava aberto e aguardava
palavras escritas a tinta fresca.
demasiada fantasia, digo agora;
o contorno dos meus olhos
aceitando o mar dos teus.
Monday, March 26, 2007
(in)decisões
Não sei de que cor são as palavras
Quando se escondem, miúdas, inquietas
Nos abrigos mais castos das montanhas
E eu à espera do dia para subir
Não sei de que sol são as estrelas
Acenando celestes, espelhadas
Nos sonhos apagados pelo medo
E eu olhando o mar sem ousadia
Não sei de passos grandes que me levem
ou velas de partida ou asas calmas
se fico luto em vão…
se parto… perco...
Friday, March 23, 2007
Histórias 6.
Tinha só dezasseis anos mas transportava ódios velhos, como se nele coubessem troncos de árvores centenárias, firmes, enraizados na tragédia. Ou foi assim que o vi depois, porque no princípio fincou-se no meu sentir maternal a necessidade de o proteger, estranha necessidade que ao mesmo tempo causava repulsa porque ele queria aninhar-se sem precisar de aconchego; queria proximidade sem desejar o calor das palavras; queria respostas para perguntas maduras e parecia já saber o caminho antes de se aperceber da dimensão das portas.
Estranha criatura que se encolhia às agressões vindas do feminino, embora lhes atirasse palavreado clandestino e nunca confessado.
Soube que fora violentado nos primeiros anos da infância; uma história contada depois, sem o rigor do esclarecimento e com manchas escuras pelo meio. Não que ele ma tivesse contado, não! O mundo em que se imaginava era tão perfeito que nada de mal lá cabia, nem as pancadas que lhe deixaram nos olhos a indiferença, nem as palavras que o silenciaram para os outros, sabendo-se que elas fervilhavam estranhas, contidas, obscenas, malvadas, frias.
Disse-me que os deficientes não deviam viver, que os pretos não deviam estar na sua terra, que os feios deviam ser separados num mundo à parte. Quis confessar na escrita a cor negra do seu lado de dentro, não se preocupando sequer em lhe acrescentar as cores da dissimulação. As cores, pintava-as nas bonecas que desenhava, sempre as mesmas, mulheres standartizadas, personagens com funções masculinas e olhar arredondado
Não sei se precisa de ajuda. Não há bigorna que dobre um ferro colocado sobre o gelo.
A imagem que me angustiou a noite foi a de um monstro.
Tuesday, March 20, 2007
A dimensão ecológica do Imperialismo
É fascinante a maneira como outros olhos vêem as mesmas coisas. Não que nunca as tivéssemos pensado, não é isso! É o desenho feito com outras cores, às vezes as mesmas que costumamos usar, mas noutros esboços.
Há uma dimensão ecológica no colonialismo. A instalação dos europeus no mundo não europeu acarretou muitas e variadas catástrofes – erosão dos solos, tempestades de pó, desaparecimento de espécies animais e vegetais, introdução de outras, importação de modelos paisagísticos…
Eram paraísos as ilhas (e ainda o são, pelo menos nos mitos) e todos os lugares situados abaixo dos trópicos. Lugares semelhantes a um qualquer Éden onde se encontrava o sossego mas também a possibilidade de pôr em prática a exploração capitalista, fosse de um cultivo rentável, fosse da rentabilização da actividade turística, se quisermos aproximar-nos das ambições actuais.
A expansão imperialista vai provocar profundas alterações nos sistemas ecológicos: a introdução do cavalo nas Américas, dos coelhos na Austrália ou até das simples batatas na Europa mudou a ecologia do planeta. É claro que não foi a primeira vez que tais mudanças alteraram a ecologia à escala planetária; o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, no Neolítico, devem ter feito “estragos” maiores; porém, o ritmo de aceleração e a escala a que as mudanças ocorreram nestes últimos séculos não tem comparação possível.
Jardins decorativos cheios de plantas exóticas alimentavam o imaginário barroco e depois o romantismo, por isso a procura de novas espécies intensificou-se nos séculos XVIII e XIX: Cook e Bougainville viajam nessa busca e o espaço sub-tropical é devastado, como o são as vidas dos seus habitantes.
Os Impérios 2.
A partir daí a Europa achou que tudo lhe era possível. Progressivamente a extensão do sistema global faz com que os europeus acreditem que não há fronteiras para o comércio, primeiro, e para a instalação política, depois.
Primeiro são as ilhas desabitadas; depois as terras dos outros que vêem sair de barcos com asas os deuses brancos, ameaça que os antepassados previram e anunciaram. As armas favoreceram o domínio e a partir daí assistimos à marginalização, à escravatura e depois à extinção das pequenas culturas indígenas. Desde as florestas às espécies animais, passando inevitavelmente pelos homens, o domínio europeu impôs-se destruindo mais do que construindo. Ou se alguma coisa construíram foi sempre em prol dos seus interesses “civilizacionais”.
No Oriente, porém, a imposição era menos fácil. Quando muito havia a possibilidade de domínio dos circuitos comerciais, com a chegada da pimenta à Europa, via rota do Cabo, a preços mais baixos e o consequente desvio dos centros económicos das republicas italianas para Lisboa.
Mas isto foi só o começo.
Muitos Impérios se constituíram depois disso como se o modelo romano herdado pudesse ser retomado e continuado.
D. Manuel intitulava-se Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia.
Sunday, March 18, 2007
Wednesday, March 14, 2007
Monday, March 12, 2007
des-pe(r)dida
Saturday, March 10, 2007
5. a razão
não lhe chega ter prescindido do riso leve e solto, não lhe chega ter guardado a espontaneidade dos gestos, não lhe chega a reclusão do corpo; quer mais de mim, a razão.
diz que contrair os lábios é teimosia que sai do sentimento; vai ao lugar do esconderijo e diz aos gestos que não há nobreza no esforço se eles se encolhem no lado de dentro do mármore; impõe-me o olhar directo ao sol e diz que é necessário resistir.
concedo-lhe o poder de me comandar os passos.
Wednesday, March 07, 2007
4. diferenças

Sunday, March 04, 2007
Sobre a globalização
imagem daquiSaturday, March 03, 2007
Globalização
imagem daquiO corpo é o lugar onde antropólogos e historiadores registaram maior influência do estabelecimento de modelos “globais”, podendo dizer-se que o crescimento das manufacturas na Europa Ocidental, a partir do século XIX, é o imperativo económico que comanda esta uniformização
A mudança nos hábitos do corpo leva a que rapidamente tenhamos os funcionários japoneses do regime Meiji (1894) vestidos à maneira Ocidental, para que a integração nos imperialismos seja perfeita. Porém, o uso do fato passou a trazer também a uniformização dos procedimentos burocráticos e uma marca interna de confiança e respeitabilidade associada ao modelo.
É nesta altura que o uso do relógio se estende a toda a Europa e respectivas colónias possibilitando uma standartização do tempo. Até as cidades indianas começam a ter grandes torres com relógios que regulamentavam o tempo e o ritmo do trabalho e dos negócios.
São ligações multilaterais as que se estabelecem desde que a Europa inicia o seu processo expansionista, no século XVI e isto a que hoje chamamos globalização não é de agora.
Desportos como o football, o rugby e o cricket são levados da Europa para o resto do mundo e da Ásia vêm para o mundo ocidental o pólo e o hockey; os padrões de cozinha, a etiqueta e a diplomacia política partem da França; do mundo Germânico são os conceitos de ordem bem como o conhecimento científico e humanístico.
Depois os jornais fazem o resto: de cerca de 3168 jornais em 1828 passa-se a cerca de 31026 em 1900. E também o telégrafo, que liga em 1863 a Europa à Ásia e em 1866 ao outro lado do Atlântico.
Tomika Te Mutu, o chefe Maori da tribo Ngaiterangi, da Nova Zelândia, deixa-se retratar vestido de fato e gravata, o que contrasta significativamente com as tatuagens que lhe cobrem todo o rosto e as penas que ostenta na farta cabeleira.
De que se fala, então, quando se fala de globalização?
Estou a ler Christopher Bayly, The birth of the Modern World, London, Blackwell, 2004
Thursday, March 01, 2007
o estado absoluto
Não, não vou outra vez queixar-me do meu dia-a-dia de professora. Andamos fartos de queixas e não é por aí que vamos mais longe. Afinal todos nos queixamos um pouco do trabalho que fazemos, neste país que em vez de nos incentivar só nos desvaloriza e nos impede a realização profissional.
Venho apenas dizer que é muito mau que os profissionais portugueses de qualquer área queiram e façam gosto em progredir nas suas carreiras, sejam elas quais forem, e acabem num lamaçal pouco dignificante que, imposto a partir do topo, lá onde se situam aqueles em cujas mãos deus depôs o poder, tem um único objectivo: dividir para reinar. (para não falar naqueles que querem trabalhar e só encontram portas fechadas ou naqueles que têm trabalho hoje e amanhã, à chegada, já lá não está nem o sítio!)
Era para vir falar disto com o mesmo sentido de humor que li aqui mas confesso que não fui capaz, até porque depois de um texto escrito assim não se sabe fazer melhor.
Em complemento e para não ser eu a dizer o mesmo que muitos já estão fartos de ouvir, recomendo também que ouçam esta crónica.
Não, não é corporativismo. Não me apoquenta só o meu grupo profissional. Tudo isto é a parte de um todo que se chama estratégia, ou o que lhe quiserem chamar... estratégia para, no dizer do primeiro-ministro deste país, aumentar o desemprego em apenas quatro décimas (o melhor número dos últimos anos...), porque fechando maternidades, urgências, centros de saúde, esquadras de polícia e extinguindo serviços e postos de trabalho consegue-se, no dizer do iluminado, mais e melhor emprego, mais e melhor nível de vida.
E eu, que nos últimos cinco anos tive de ser sujeita a uma intervenção cirúrgica, tive problemas nas cordas vocais e tive filhos doentes... já não posso progredir na carreira. Aliás qualquer professor que tenha casado, que tenha tido filhos, que tenha “gozado” de três dias por morte de um familiar, que tenha estado verdadeiramente doente, como é comum acontecer pelo menos uma vez na vida de cada um, nunca deixará de ser um funcionário público menor. Com a vantagem de poder ser acompanhado a casa por um Encarregado de Educação de arma em punho.
Policiamento? Para quê? O Estado tem de diminuir a despesa... foi o que mais ouvi ontem no discurso e depois na “guerra” de palavras que encheu o Parlamento.
Tuesday, February 27, 2007
3. infância
lembro-me de jogar ao prego na rua e de fazer covinhas para os berlindes, na terra; e de um baloiço pendurado na oliveira, à entrada a casa da avó; se me empurrassem com força chegava com os pés ao céu, mas não queria entrar no céu, só se ia para o céu quando se morria e eu tinha ainda que descobrir o que estava para além do fim da rua;
Monday, February 26, 2007
2. casa
uma vez senti que ela respirava ao meu ritmo, que se entristeciam as paredes quando eu deixava deslizar as minhas costas e os braços caídos até ficar sentada nos mosaicos sem horizonte; uma vez os degraus inverteram-se e as telhas foram chão e o céu ficou à vista; uma vez senti devolver-se o grito quando o julgava abafado no canto mais distante das ruas que me levam todos os dias para me trazer de volta ao fim da tarde; uma vez fugi e levei comigo tesouros que depois devolvi ao lugar desenhado a quatro mãos, na esperança de renovar a esperança; uma vez fiquei aqui como se fosse para sempre no espaço crescente onde ressoa o eco de passos que partem;
lá fora há um jardim que floresce em cada Primavera e eu em cada Outono morro um pouco; e, no entanto, os olhos que passam detêm-se e contemplam a beleza.
Sunday, February 25, 2007
1. adolescência

Thursday, February 22, 2007
já o sol desperta
Foi ela que forneceu a imagem e pediu um texto:
Wednesday, February 21, 2007
Questões de tempo

Às vezes faltam-me as palavras; outras vezes, muitas vezes, ficam presas na garganta, à espera de voz que as pronuncie.
Sem voz é mais fácil porque elas saltam e soltam-se.
E aqui estou articulando palavras escritas, ao som das teclas; dialogando com uma folha de papel virtual que amanhã se apresentará como real aos olhos de quem por aqui passa.
É claro que podia dizer apenas “até amanhã”, mas as palavras saltaram e eu não as travei.














