Tuesday, May 29, 2007

Não estejas triste...


Não estejas triste, a vida não parou para ninguém
Ou antes, vive a tristeza por um dia e depois canta
Vês lá ao fundo o rio?
Ele tem margens e vai revolvendo o lodo velho
E, tu sabes, o mar que te espera é muito grande.

Eu também morri uma vez nas paredes de uma casa
E balancei-me depois num barco à deriva
Lembras-te dos tombos?
Amanhã não haverá mais vento a fustigar-te o rosto
Pelo menos a nortada vai aliviar. Tu sabes.

Saturday, May 26, 2007

pálpebras pesadas

quando eu nasci
escreveram-me nas pálpebras

um conjunto inteiro de mentiras
e devem ter-me dito

para não pestanejar

às vezes, à noite,
quando tento manter abertos os olhos
com medo da verdade
há uma montanha

pousada em cada pálpebra

e eu resisto
olhando a floração das madressilvas;
se fecho os olhos
vai-se o viço tenro das guias

que hão-de fazer-se troncos




Saturday, May 19, 2007

... o princípio da história

Ela e ele lançaram o desafio. Depois, aqui, enviaram-no directamente para mim. E eu respondi...

... mas para isso fui buscar ao arquivo este texto antigo, que pode servir de começo de uma história.

Tudo isto para dar continuidade a uma criação - O Livro dos Bons Princípios.


Tamara de Lempicka

Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.

Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero. Dizia que o amava.

Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se. Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário. A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.

antes da madrugada


antes da madrugada

os pássaros adormecem

e os morcegos

assustados

atiram-se contra as paredes brancas

deslizando

devagarinho

até ao chão.

Wednesday, May 16, 2007

é durante a madrugada que as folhas crescem


Já de madrugada vieram os pássaros em chilreios de despertar
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer;

Para lá da porta conseguia ver-se o verão incendiando as planícies
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia, ave desabrida

Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora a esperança se converta em pressa
E queira ultrapassar o fim dos labirintos.

Wednesday, May 09, 2007

pormenores


pontas de fogo em caules frágeis dia-sim-dia-não
pode ser pouco
mas quando o tempo cai sobre as vontades esmagadas
(des)arruma-se a vida
e ofende-se com a esperança dos olhos,
o brilho,
à superfície das águas;

por estes dias vi (des)focar-se a paisagem
e, debruçada sobre mim,
desenhei a vermelho um sol sobre os riscos das feridas.

Sunday, May 06, 2007

ligações difíceis

roubei a fotografia ao pé de meia


prendo as mãos na esperança
finco as unhas, despedaço-as nas ranhuras da pedra
o corpo teima, o corpo pesa;

cravo os olhos no céu, sem prece que ampare a subida
eu e a parede, ambas rudes no desejo
eu teimo, ela resiste;

entro no diálogo difícil dos elementos
sou parte da parte
e o todo escorrega-me nas mãos.
a pedra fica. não há dualidade.
desisto.

Saturday, May 05, 2007

se eu fosse...


A Ivamarle desafiou-me a revelar um pouco de mim:


Se eu fosse uma hora do dia, seria ... a madrugada
Se eu fosse um astro, seria ... uma estrela muito distante
Se eu fosse uma direcção, seria...o caminho bifurcado
Se eu fosse um móvel, seria ... uma secretária desarrumada
Se eu fosse um liquido, seria ... água do mar
Se eu fosse um pecado, seria ... a ira
Se eu fosse uma pedra, seria ... pedra de lioz
Se eu fosse uma árvore, seria ... um salgueiro
Se eu fosse uma fruta, seria ... um cacho de uvas
Se eu fosse uma flor, seria ... um narciso
Se eu fosse um clima, seria ... polar
Se eu fosse um instrumento musical, seria ... um piano
Se eu fosse um elemento, seria ... ar
Se eu fosse uma cor, seria ... verde
Se eu fosse um animal, seria ... uma garça
Se eu fosse um som, seria ... o vento (às vezes brisa, às vezes temporal)
Se eu fosse música, seria ... uma balada
Se eu fosse estilo musical, seria … clássica
Se eu fosse um sentimento, seria ... sensibilidade
Se eu fosse um livro, seria ... A Náusea
Se eu fosse uma comida, seria ... um gelado a derreter no prato
Se eu fosse um lugar, seria ... uma praia
Se eu fosse um gosto, seria ... agridoce
Se eu fosse um cheiro, seria ... lilás
Se eu fosse uma palavra, seria ... memória
Se eu fosse um verbo, seria ... aprender
Se eu fosse um objecto, seria ... um livro
Se eu fosse peça de roupa, seria ... uma écharpe
Se eu fosse parte do corpo, seria ... o cérebro
Se eu fosse expressão facial, seria ... a surpresa
Se eu fosse personagem de desenho animado, seria … ???
Se eu fosse filme, seria ... Magnólia
Se eu fosse forma, seria ... elíptica
Se eu fosse número, seria ... 5
Se eu fosse estação, seria ... primavera
Se eu fosse uma frase, seria ... todas as frases são fragmentos; eu quero as palavras todas



Sunday, April 29, 2007

narrativas com asas. ou apenas símbolos

René Magritte

E não saí das páginas…
Espalmada nelas converti-me em tempo narrativo, encolhida no espaço das histórias que ficam por contar.
Arredondei-me no volume das personagens e na gramática dos monólogos surdos.
Diálogos, sonhava-os, mas era se soubesse com que palavras se constrói a trama das histórias felizes.
Nos arabescos das aves podia estar o código por desvendar se não tivesse a certeza de que tudo é simbologia.
Heróis? Só nas histórias antigas, dentro dos livros de fadas; mas os episódios são sempre interrompidos pela focalização em outras realidades, as cruas, aquelas que não têm sequência narrativa, por mais que se queira aligeirar o desenlace.
E a acção tem um nome que é sempre o nome de outro nome; às vezes promessa sob um nome, sob a palavra que se pronuncia. Como se tudo tivesse um rosto visível e outro escondido. Pronuncia-se amor e é hábito que se diz. Diz-se o nome à espera que ele se converta na imagem de desejo.
E o que se deseja? Que o rosto visível das coisas seja a satisfação do desejo oculto.
Diz-se Primavera aguardando flores e pássaros na paisagem; e se as pétalas voam fica-se sem saber se eram as aves ou se era apenas o cheiro a rosas, sem as rosas. Figuração.
Um nome é sempre um nome de outro nome: se digo “eu” posso estar a anular a existência porque é do outro que falo; hábito de dizer e deixar escondido o que não ousa ser dito ou sequer pensado. Todo o pensamento ultrapassa a competência narrativa.
E no entanto há um desconforto no pensar, um subtítulo mal enunciado em cada coisa.

Friday, April 27, 2007

Leituras


Gosto da maneira como ela diz “devíamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento”.
Não li tudo ainda, mas a qualidade do registo é a mesma que me cativou desde o primeiro romance e o assunto é melindroso, como são melindrosos todos os assuntos de que é composta a vida.
Na parede de um gabinete, em Lisboa, projecta-se a sombra de Freud e quem lá entra já não pode viver fora dali. Porque ali há alguém que “ouve como um vivo e age como um morto”. Conforto no alongar dos relatos. Conforto no tecer das grades de uma prisão feita de cumplicidade profissional. Conforto no estar ali.
Isto é o que eu leio. Provavelmente outros lerão ali as soluções e ela, a autora, deixa que sejamos nós a ler. Até porque depois do tempo passar a leitura é ainda mais difícil – tema recorrente na escrita de Lídia Jorge – e o que se recorda “não vale a casca de um pêssego” ...
Porém, é do lado de fora que tudo se passa ; é no lado de fora que as pessoas estão; e é nesse lado que se passam as histórias concretas e se vivem as vidas concretas.
No gabinete as sombras prolongam fantasias ocultas pelo pudor e facilitam as invenções oníricas: do nada para o nada (digo eu.)

Quando acabar virei dizer se é assim ou se ela me vai trocar as voltas.
Leiam também.

Thursday, April 26, 2007

recomendações


Gosto de blogues.

Aprendi o caminho para lugares de qualidade e às vezes já troco os livros pela escrita curta mas profunda, pelo humor cáustico mas fino ou pela simbologia das imagens que resultam das sensibilidades pessoais de quem visito.
Também há lugares a que não me apetece voltar; não por desprezo pelo pensamento de cada um, mas pela necessária gestão do tempo e das preferências. Há contudo, outros com os quais não me identifico.

Disseram, ela e ele e mais ela que me visitam por gosto; e eu, mesmo sabendo que há muitos outros lugares de referência e ainda outros tantos por descobrir, diariamente gosto de passar por aqui, onde a qualidade da informação e da reflexão me satisfazem; por aqui, onde a profundidade da escrita me faz pensar; por aqui, onde o sentido de humor me anima os dias; por aqui, onde a diversidade me permite aprender muitas coisas e por aqui, onde a limpidez das escolhas me leva a caminhos novos.


Wednesday, April 25, 2007

Conta como foi

O que mais me custa, passados 33 anos, é o distanciamento a que vamos ficando dos acontecimentos.
Os mais novos podem sempre dizer que foi assim, mas não estiveram lá.
Sim, é o passar do tempo e toda a História se faz de relatos; mas os factos são manipuláveis, dependendo da intenção ou até da emoção de quem o faz.
Para mim, há uma verdade. Aquela que testemunhei porque estava perto. E... dar vivas à Liberdade fazia tanto sentido!
Por mais que tente não consigo explicar aos mais novos o que era viver sem ela. Não há termo de comparação para eles...





Sunday, April 22, 2007

olhos acesos em páginas por escrever




estava sentada entre as páginas quando chegaste;
tremia sem temer mas o sorriso era ainda inverso à proporção da espera.
trazias a paz nas sílabas e nas mãos organza, algodão doce, linho festivo e música.
as aves esvoaçaram e fizeram arabescos no azul;
o tempo limitou-lhes o voo e vi que descansaram à beira mar antes da partida.
há detalhes que convém omitir, contudo, não vão as imagens ferir-se nos espelhos.
vou deixar ficar os olhos acesos, só os olhos.

arcas velhas

subitamente dei comigo a olhar a arca onde guardei
dobrada
a alegria;
já me tinha incomodado o cheiro a mofo
mas pensava que era do preto dos vestidos
atirados
desdenhosamente
num dia de mãos aliviadas.

lembro-me que também lá pus
a esperança
com medo de a usar em demasia.

devia levantar-lhe a tampa,
suprimir o peso sobre as camadas dispostas no interior

mas tenho medo de mexer nas traças.

Thursday, April 19, 2007

projectos

primeiro deseja-se ter, depois deseja-se ser;
não há regras que normalizem a mente; só talvez quando se tem o necessário ou quando se sobe o patamar do desprendimento.

houve dias, antes do conforto, em que desejei apenas amoras silvestres, depois a compota, depois a prateleira, depois a parede… depois a casa;

os desejos crescem à medida da ambição ou também podem diminuir com ela, é sempre duvidosa a proporcionalidade das coisas; e os projectos são sempre tridimensionais, se não desejarmos também a serenidade.
imagem daqui

Monday, April 16, 2007

O carro do sol



o sol nasce cedo e eu acordo
depois as horas passam

depois começa a ser noite e o dia finda
hoje igual a ontem

amanhã igual a hoje
mesmo que as palavras sejam outras
ou os gestos possam ter a novidade da diferença.

tenho pena de já ter passado tanto tempo.
e o mar ali tão perto, a ficar para sempre
mesmo quando eu não estiver aqui.

invejo a permanência das coisas como se a culpa fosse delas
é duro saber que tudo fica…



Wednesday, April 11, 2007

Mitos fundadores 5.

Dédalo e Ícaro



O sol é ambição, não deves.
Mas é desafio…
As asas são frágeis. Não arrisques.
Mas tenho de ir…
A aventura não compensa. Eu sei.
Mas eu tenho de saber…




Tuesday, April 10, 2007

Mitos fundadores 4.

Atena
(com a gentil colaboração do pirata-vermelho)


Eis que a maga Atenas
em quebrantos, denodada

apela ao vento Eolo
por um manto

para tapar Métis,
a mal amada

Não vá o fauno olímpico tecê-las
e

de maduras
a ambas
mordê-las.


Monday, April 09, 2007

Mitos fundadores 3.

Dionísio
( Baco, para os romanos)

fantasiam-se as festas
na embriagez da primavera

celebra-se a divindade do êxtase

em danças fecundas
sobre a terra adormecida.



Saturday, April 07, 2007

Mitos fundadores 2.

Prometeu

Heinrich Füger


O fogo queima as mãos aventureiras
lá onde os deuses mandam.

A vida pela luz.

e depois a razão predadora
como paga.


Friday, April 06, 2007

Mitos fundadores 1.

Zeus e Hera
imagem daqui

Diz-me em silêncio que o poder não sou eu mas tu.
Digo-te em silêncio o desejo da mulher;
Deita-te comigo e faz-me adormecer em ti.
Deito-me contigo e faremos nascer o mundo;
Deixa o teu perfume marcado na minha cama se fores embora.
O meu perfume será o alvorecer do universo. E eu fico.




Sunday, April 01, 2007

pedras com flores dentro


Desabrocham vivas as vontades
Nascem da pedraria
Em dias de chilreios com vento a favor
A luz chega cedo e não há noite que adormeça a determinação.




Wednesday, March 28, 2007

pintar o mar nos olhos


não há noites que cheguem para o espanto de te ter
em vez do nada que era o dia repetido ao fim da tarde;


os lençóis de linho estavam gastos pela espera
enrolada à solidão; enquanto o sono tardava
dentro das janelas eu desenhava um rosto
linha a linha; o livro estava aberto e aguardava
palavras escritas a tinta fresca.


demasiada fantasia, digo agora;
o contorno dos meus olhos
aceitando o mar dos teus.







Monday, March 26, 2007

(in)decisões


Não sei de que cor são as palavras

Quando se escondem, miúdas, inquietas
Nos abrigos mais castos das montanhas


E eu à espera do dia para subir




Não sei de que sol são as estrelas

Acenando celestes, espelhadas
Nos sonhos apagados pelo medo


E eu olhando o mar sem ousadia



Não sei de passos grandes que me levem

ou velas de partida ou asas calmas


se fico luto em vão…


se parto… perco...


Friday, March 23, 2007

Histórias 6.

Bosch

Havia dias em que lhe vinha frio dos olhos; e dias em que o olhar trazia qualquer coisa de perverso, uma coisa incomodativa ao mesmo tempo idiota mas orgástica.
Tinha só dezasseis anos mas transportava ódios velhos, como se nele coubessem troncos de árvores centenárias, firmes, enraizados na tragédia. Ou foi assim que o vi depois, porque no princípio fincou-se no meu sentir maternal a necessidade de o proteger, estranha necessidade que ao mesmo tempo causava repulsa porque ele queria aninhar-se sem precisar de aconchego; queria proximidade sem desejar o calor das palavras; queria respostas para perguntas maduras e parecia já saber o caminho antes de se aperceber da dimensão das portas.
Estranha criatura que se encolhia às agressões vindas do feminino, embora lhes atirasse palavreado clandestino e nunca confessado.
Soube que fora violentado nos primeiros anos da infância; uma história contada depois, sem o rigor do esclarecimento e com manchas escuras pelo meio. Não que ele ma tivesse contado, não! O mundo em que se imaginava era tão perfeito que nada de mal lá cabia, nem as pancadas que lhe deixaram nos olhos a indiferença, nem as palavras que o silenciaram para os outros, sabendo-se que elas fervilhavam estranhas, contidas, obscenas, malvadas, frias.
Disse-me que os deficientes não deviam viver, que os pretos não deviam estar na sua terra, que os feios deviam ser separados num mundo à parte. Quis confessar na escrita a cor negra do seu lado de dentro, não se preocupando sequer em lhe acrescentar as cores da dissimulação. As cores, pintava-as nas bonecas que desenhava, sempre as mesmas, mulheres standartizadas, personagens com funções masculinas e olhar arredondado
Não sei se precisa de ajuda. Não há bigorna que dobre um ferro colocado sobre o gelo.
A inteligência vai comandar a sua vida e o sentido hedonista que a infância lhe despertou, à custa de uma suspeitosa ausência de regras e valores, há-de levá-lo a cometer aquilo a que os seres normais chamarão atrocidades.
A imagem que me angustiou a noite foi a de um monstro.

Tuesday, March 20, 2007

A dimensão ecológica do Imperialismo

Polinésia


Visões novas da História velha.
É fascinante a maneira como outros olhos vêem as mesmas coisas. Não que nunca as tivéssemos pensado, não é isso! É o desenho feito com outras cores, às vezes as mesmas que costumamos usar, mas noutros esboços.
Há uma dimensão ecológica no colonialismo. A instalação dos europeus no mundo não europeu acarretou muitas e variadas catástrofes – erosão dos solos, tempestades de pó, desaparecimento de espécies animais e vegetais, introdução de outras, importação de modelos paisagísticos…
Eram paraísos as ilhas (e ainda o são, pelo menos nos mitos) e todos os lugares situados abaixo dos trópicos. Lugares semelhantes a um qualquer Éden onde se encontrava o sossego mas também a possibilidade de pôr em prática a exploração capitalista, fosse de um cultivo rentável, fosse da rentabilização da actividade turística, se quisermos aproximar-nos das ambições actuais.
A expansão imperialista vai provocar profundas alterações nos sistemas ecológicos: a introdução do cavalo nas Américas, dos coelhos na Austrália ou até das simples batatas na Europa mudou a ecologia do planeta. É claro que não foi a primeira vez que tais mudanças alteraram a ecologia à escala planetária; o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, no Neolítico, devem ter feito “estragos” maiores; porém, o ritmo de aceleração e a escala a que as mudanças ocorreram nestes últimos séculos não tem comparação possível.
Jardins decorativos cheios de plantas exóticas alimentavam o imaginário barroco e depois o romantismo, por isso a procura de novas espécies intensificou-se nos séculos XVIII e XIX: Cook e Bougainville viajam nessa busca e o espaço sub-tropical é devastado, como o são as vidas dos seus habitantes.
A História cultural da Natureza é tão significante como a História ecológica da cultura.
História ambiental? Pode ser que sim, que esteja a surgir uma nova área de estudos. Pelo menos trata-se de um campo de estudos interdisciplinares que envolve as relações entre cultura, tecnologia e natureza.



Os Impérios 2.

D. Manuel I

Tudo começa com a instalação dos países ibéricos nas ilhas atlânticas, no século XIV.
A partir daí a Europa achou que tudo lhe era possível. Progressivamente a extensão do sistema global faz com que os europeus acreditem que não há fronteiras para o comércio, primeiro, e para a instalação política, depois.
Primeiro são as ilhas desabitadas; depois as terras dos outros que vêem sair de barcos com asas os deuses brancos, ameaça que os antepassados previram e anunciaram. As armas favoreceram o domínio e a partir daí assistimos à marginalização, à escravatura e depois à extinção das pequenas culturas indígenas. Desde as florestas às espécies animais, passando inevitavelmente pelos homens, o domínio europeu impôs-se destruindo mais do que construindo. Ou se alguma coisa construíram foi sempre em prol dos seus interesses “civilizacionais”.
No Oriente, porém, a imposição era menos fácil. Quando muito havia a possibilidade de domínio dos circuitos comerciais, com a chegada da pimenta à Europa, via rota do Cabo, a preços mais baixos e o consequente desvio dos centros económicos das republicas italianas para Lisboa.
Mas isto foi só o começo.
Muitos Impérios se constituíram depois disso como se o modelo romano herdado pudesse ser retomado e continuado.
D. Manuel intitulava-se Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia.
Dos Algarves, sim, que eram as terras do ocidente andaluz (al garb al andaluz); d'aquém e d'além mar também, porque Ceuta e as outras praças marroquinas podiam ser o começo do alargamento da terra e da fé (é difícil de estabelecer uma ordem entre elas); senhor do comércio e navegação era desejo de um rei “venturoso” que mandou para o Índico as embarcações que iriam estabelecer o nosso domínio sobre as rotas muçulmanas. Engano de quem governava com os olhos no Tejo, mas ainda assim sem ter saído a barra. Megalomania condizente com a pequenez amaldiçoada…

Sunday, March 18, 2007

Brighton














Wednesday, March 14, 2007

Os Impérios 1.


Estou de partida mesmo.
Por uns dias.

Vamos falar de Impérios, em Brighton.

Depois conto...

Monday, March 12, 2007

des-pe(r)dida

entrego a vida
entrego o laço
des-en-laço
des-ocupo o espaço
estou de partida
aterro, des-abraço
des-embaraço
abrando o passo
não espero
não te espero
des-enleio a vida





Saturday, March 10, 2007

5. a razão

Koré - Grécia Antiga






não lhe chega ter prescindido do riso leve e solto, não lhe chega ter guardado a espontaneidade dos gestos, não lhe chega a reclusão do corpo; quer mais de mim, a razão.
diz que contrair os lábios é teimosia que sai do sentimento; vai ao lugar do esconderijo e diz aos gestos que não há nobreza no esforço se eles se encolhem no lado de dentro do mármore; impõe-me o olhar directo ao sol e diz que é necessário resistir.
concedo-lhe o poder de me comandar os passos.
estou nas suas mãos. diz que não é suficiente.
exige que entregue a vida.

Wednesday, March 07, 2007

4. diferenças






conjugámos juntos o verbo desmoronar, embora em tempos diferentes e nunca da mesma maneira; há olhos que vêem primeiro as ruínas e demoram a limpar o pó que os turva; há outros que levantam paredes sobre o nada e abrem janelas para paisagens não supostas. preferia ter sabido antever o termo, fechando a página no tempo certo; há coisas que nos escapam por excesso de sentimento; ou de camuflagem.
também olhámos as águas a partir do mesmo lugar e se uns olhos alcançavam as ondas os outros fixavam-se no areal à procura do reverberar do sol. não era uma simples questão de pontos de vista; era a diferença.

Sunday, March 04, 2007

Sobre a globalização

imagem daqui


Comentário promovido a post


A preponderância de modelos e a sua transposição, às vezes cega, para outras culturas, não será também resultado de uma, quase íntrinseca, falha narcísica?


Saturday, March 03, 2007

Globalização

imagem daqui

O corpo é o lugar onde antropólogos e historiadores registaram maior influência do estabelecimento de modelos “globais”, podendo dizer-se que o crescimento das manufacturas na Europa Ocidental, a partir do século XIX, é o imperativo económico que comanda esta uniformização
A mudança nos hábitos do corpo leva a que rapidamente tenhamos os funcionários japoneses do regime Meiji (1894) vestidos à maneira Ocidental, para que a integração nos imperialismos seja perfeita. Porém, o uso do fato passou a trazer também a uniformização dos procedimentos burocráticos e uma marca interna de confiança e respeitabilidade associada ao modelo.
É nesta altura que o uso do relógio se estende a toda a Europa e respectivas colónias possibilitando uma standartização do tempo. Até as cidades indianas começam a ter grandes torres com relógios que regulamentavam o tempo e o ritmo do trabalho e dos negócios.
São ligações multilaterais as que se estabelecem desde que a Europa inicia o seu processo expansionista, no século XVI e isto a que hoje chamamos globalização não é de agora.
Desportos como o football, o rugby e o cricket são levados da Europa para o resto do mundo e da Ásia vêm para o mundo ocidental o pólo e o hockey; os padrões de cozinha, a etiqueta e a diplomacia política partem da França; do mundo Germânico são os conceitos de ordem bem como o conhecimento científico e humanístico.
Depois os jornais fazem o resto: de cerca de 3168 jornais em 1828 passa-se a cerca de 31026 em 1900. E também o telégrafo, que liga em 1863 a Europa à Ásia e em 1866 ao outro lado do Atlântico.
Tomika Te Mutu, o chefe Maori da tribo Ngaiterangi, da Nova Zelândia, deixa-se retratar vestido de fato e gravata, o que contrasta significativamente com as tatuagens que lhe cobrem todo o rosto e as penas que ostenta na farta cabeleira.

De que se fala, então, quando se fala de globalização?


Estou a ler Christopher Bayly, The birth of the Modern World, London, Blackwell, 2004


Thursday, March 01, 2007

o estado absoluto

Não, não vou outra vez queixar-me do meu dia-a-dia de professora. Andamos fartos de queixas e não é por aí que vamos mais longe. Afinal todos nos queixamos um pouco do trabalho que fazemos, neste país que em vez de nos incentivar só nos desvaloriza e nos impede a realização profissional.
Venho apenas dizer que é muito mau que os profissionais portugueses de qualquer área queiram e façam gosto em progredir nas suas carreiras, sejam elas quais forem, e acabem num lamaçal pouco dignificante que, imposto a partir do topo, lá onde se situam aqueles em cujas mãos deus depôs o poder, tem um único objectivo: dividir para reinar. (para não falar naqueles que querem trabalhar e só encontram portas fechadas ou naqueles que têm trabalho hoje e amanhã, à chegada, já lá não está nem o sítio!)
Era para vir falar disto com o mesmo sentido de humor que li aqui mas confesso que não fui capaz, até porque depois de um texto escrito assim não se sabe fazer melhor.
Em complemento e para não ser eu a dizer o mesmo que muitos já estão fartos de ouvir, recomendo também que ouçam esta crónica.
Não, não é corporativismo. Não me apoquenta só o meu grupo profissional.
Tudo isto é a parte de um todo que se chama estratégia, ou o que lhe quiserem chamar... estratégia para, no dizer do primeiro-ministro deste país, aumentar o desemprego em apenas quatro décimas (o melhor número dos últimos anos...), porque fechando maternidades, urgências, centros de saúde, esquadras de polícia e extinguindo serviços e postos de trabalho consegue-se, no dizer do iluminado, mais e melhor emprego, mais e melhor nível de vida.
E eu, que nos últimos cinco anos tive de ser sujeita a uma intervenção cirúrgica, tive problemas nas cordas vocais e tive filhos doentes... já não posso progredir na carreira. Aliás qualquer professor que tenha casado, que tenha tido filhos, que tenha “gozado” de três dias por morte de um familiar, que tenha estado verdadeiramente doente, como é comum acontecer pelo menos uma vez na vida de cada um, nunca deixará de ser um funcionário público menor. Com a vantagem de poder ser acompanhado a casa por um Encarregado de Educação de arma em punho.
Policiamento? Para quê? O Estado tem de diminuir a despesa... foi o que mais ouvi ontem no discurso e depois na “guerra” de palavras que encheu o Parlamento.

Tuesday, February 27, 2007

3. infância







lembro-me de quando pousava na mão o menino Jesus do presépio, guardado no cesto dos brinquedos, junto dos tachinhos e das bonecas de plástico; ficava a contemplar a figura despida colocando-me sob os poderes sagrados; lembro-me que às vezes o padre entrava na sala de aula, a meio da manhã e falava de pecados;
pecados?, não os sabia, não me pesavam; contudo a palavra foi ficando, inibindo a liberdade dos gestos em certos dias;
lembro-me de jogar ao prego na rua e de fazer covinhas para os berlindes, na terra; e de um baloiço pendurado na oliveira, à entrada a casa da avó; se me empurrassem com força chegava com os pés ao céu, mas não queria entrar no céu, só se ia para o céu quando se morria e eu tinha ainda que descobrir o que estava para além do fim da rua;
lá ao fundo havia um pinhal e tanto me intrigava o que havia depois do arvoredo; era o mundo, e eu, ansiosa, fechava os olhos; colocava na paisagem imaginada todos os restos das conversas que ouvia e tentava construi-lo a partir desses fragmentos.

Monday, February 26, 2007

2. casa






uma vez senti que ela respirava ao meu ritmo, que se entristeciam as paredes quando eu deixava deslizar as minhas costas e os braços caídos até ficar sentada nos mosaicos sem horizonte; uma vez os degraus inverteram-se e as telhas foram chão e o céu ficou à vista; uma vez senti devolver-se o grito quando o julgava abafado no canto mais distante das ruas que me levam todos os dias para me trazer de volta ao fim da tarde; uma vez fugi e levei comigo tesouros que depois devolvi ao lugar desenhado a quatro mãos, na esperança de renovar a esperança; uma vez fiquei aqui como se fosse para sempre no espaço crescente onde ressoa o eco de passos que partem;
lá fora há um jardim que floresce em cada Primavera e eu em cada Outono morro um pouco; e, no entanto, os olhos que passam detêm-se e contemplam a beleza.

Sunday, February 25, 2007

1. adolescência





deitávamo-nos sobre as ervas dos pinhais em caminhos por onde ninguém andava; prometíamos futuro entre sorrisos e mãos enleadas e os beijos eram ainda um simples roçar de lábios, de tão verdes; usávamos rimas pobres para escrever poemas de amor em cadernos alinhados ao sabor dos sonhos; era uma gramática de verbos intransitivos, a nossa; fáceis de pronunciar todas as palavras sob a frescura das copas nas tardes de verão; apetece-me comer o verde, dizia-te; e tu, sonhando ainda a um ritmo igual ao meu, sorrias e beijavas-me as mãos...

Thursday, February 22, 2007

já o sol desperta


Foi ela que forneceu a imagem e pediu um texto:


Pela calada da noite arde uma chama;
ou é pela chama que a noite se cala;
ou se deita a noite na chama, calada.
Seja como for, há sempre madrugada.
E é lá do outro lado da janela,
(já a noite finda, já o sol desperta
já a cama se cansou de estar à espera)
que o dia desponta e a esperança me engana.

Wednesday, February 21, 2007

Questões de tempo


Às vezes faltam-me as palavras; outras vezes, muitas vezes, ficam presas na garganta, à espera de voz que as pronuncie.

Sem voz é mais fácil porque elas saltam e soltam-se.

Por estes dias há uma palavra que me tem faltado – TEMPO – ou antes, não é a palavra mas o espaço para a pronunciar, sendo esse espaço uma coisa materializada na cadência dos ponteiros do relógio. É do tempo cronológico que falo. O outro, o que se mede em função de mim própria e dimensiona a minha realidade, costuma ser um fluxo continuamente instalado na memória a levar-me para trás; e depois traz-me de volta.

É essa a razão de me ter mantido entre a folhagem, relativamente escondida dos olhos alheios. Pelo menos aqui neste espaço, porque a realidade está virada de frente para mim e eu para ela. Seja então o dia um confronto.

E aqui estou articulando palavras escritas, ao som das teclas; dialogando com uma folha de papel virtual que amanhã se apresentará como real aos olhos de quem por aqui passa.

E vou, já de seguida, atrás dessa realidade que me faz fechar os olhos. Depois volto.

É claro que podia dizer apenas “até amanhã”, mas as palavras saltaram e eu não as travei.

Thursday, February 15, 2007

Palavrear



Esperava-te entre a folhagem ao entardecer
como quem espera a névoa
para entrar levemente
na fantasia das coisas perfeitas.



Tuesday, February 13, 2007

Fora de horas


Deito-me todos os dias fora de horas, mas sei que adormeço antes; talvez tenha perdido a noção da alternância entre a lucidez e a noite.
Adormeço de olhos abertos sobre a mesa onde os papéis descansam de mim. E assim fico, direita no eixo da vigília, até despertar das imagens ou dos desejos cada vez mais indefinidos, escondidos debaixo de algumas letras que repito desconexamente.
Mesmo em dias tempestuosos, transpirando sob o frio que gela a casa pelo lado de dentro, adormeço nos gestos e nos olhos ainda abertos mas sem noite que os faça descansar. As paredes são iguais todos os dias e eu, de olhos abertos sobre a mesa onde as folhas dos livros me rejeitam a vontade, forço contas de cabeça em volta de parcelas apagadas pelo tempo.
Deito-me todos os dias fora de horas e às vezes, de olhos abertos mas sem parar para pensar, dou comigo sem sentidos porque os perdi na busca de razões para que o mundo seja este girar contínuo de interesses que nunca são os que interessam, enquanto as pessoas se batem e se combatem por convicções que as viram de costas umas para as outras. E também se abatem na necessidade de confronto.
São poucas as horas do dia e é pouco o tempo para aquilo que verdadeiramente é importante, parecendo que a importância está nos argumentos da afirmação falível.
São poucos os dias em que não me deito fora de horas, fora de mim; e se o desejo permanece é porque se alimenta desta vontade de passar para além da realidade e negar aos olhos e ao entendimento a aproximação precoce do crepúsculo.
São poucos os dias em que permaneço inteira. Deito-me fora muito cedo e antes de cair a noite vou rebuscar as peças para me enformar mais uma vez, colando-me.

Monday, February 12, 2007

Valeu a pena

Claro que valeu a pena ter manifestado a minha posição e ter-me batido por ela.
Embora o país não seja um mas dois (vejam aqui), vá-se lá saber porquê (um dia destes escrevo sobre as explicações histórico-geográficas das diferenças), alguma coisa de positivo saíu deste folclore que foi o “antes”. Veremos agora como será o depois.

Apraz-me deixar apenas o registo desta afirmação que parece andar a par com aquilo que aqui tenho escrito. Ou eu a par com ela, porque seguramente sou menos importante que a senhora que a pronunciou. Mas somos ambas mulheres.

«A decisão de abortar é profundamente pessoal e privada e o Estado não deve impor uma moral»,disse a presidente das Mulheres Socialistas Europeias, Zita Gurmai, aqui.


E agora mudemos de assunto…

Tuesday, February 06, 2007

Claro que SIM...

... porque não sou marionette...

... não suporto que partidos políticos gastem o meu tempo e a minha paiência na defesa de uma posição que vem de dentro da minha consciência de cidadã e de mulher. E isto refere-se aos SINS e aos NÃOS, obviamente, que em campanha todos se valem dos seus argumentos e quando não os têm pedem-nos emprestados a outras organizações ou pseudo-não-sei-quê... que apetece embrulhar em papel de jornal e mandar para o lixo.

Há muito dinheiro envolvido numa coisa que mais se assemelha a um fait-divers, enquanto outras coisas vão sendo feitas e lançadas em letra de lei, sem que ninguém se apoquente muito.

Ah pois é... a próxima década vai ser de muito desemprego, de muita depressão (não, não é económica, que há por aí muita gente servida de sertralina, fluoxetina e outras "inas" nos bolsos), de muitas famílias desentendidas (casa em que não há pão... ), de muitas limitações às nossas liberdades (talvez não se pense muito nisso... logo se vê... e a ver vamos...)
Nem me apetecia voltar a mencionar o assunto aqui neste espaço. Mas há circunstâncias em que não percebo as pessoas...
... bem sei que tenho de aceitar e respeitar, mas ao menos que me apresentassem argumentos significativos. Como este ou este. Vale a pena ler estas "histórias" e reflectir.

Sou mulher e já vivi o suficiente para saber que há argumentos que não convencem ninguém. E antes de ser mulher sou um ser humano pensante e sou também muito ciosa da minha liberdade individual.

EU VOTO SIM ao direito de decidir sem ser punida por isso.

Friday, February 02, 2007

tropeçar nas letras


Tropeço em tapete gasto
Não é arte, não; é teimosia

Travo a queda
Solto a trova
Trago as trevas
Acho a trave

Atravesso a noite e canto
Euforia? Não. Repetição.

Travo o instante
Trago as trovas
Solto a arte
Mato o pranto

Poesia? Não. É fastio.

Troco as letras
Travo o choro
Solto o riso
Mato as trevas

Troco as letras, troco, toco, taco, travo, cravo, cavo... ...