Tuesday, January 30, 2007

entre as paredes pintadas a branco sujo

Van Gogh

Repito-me, repito-me…
Nasço todos os dias no mesmo lugar e giro em círculo. Nasço depois do sono, depois do sonho, depois das horas sonhadas para o repouso de tanta repetição. Nasço antes do desejo, todos os dias no mesmo lugar; e repito o movimento andando à pressa, que de pressa é feito o verso e o reverso deste andar à volta de mim mesma antes do desejo ou com ele a passo lento, a par comigo.
Repito-me passando por entre estas paredes pintadas a branco sujo depois do tempo passar sobre o dia do começo, dia de sonho e depois o sono a esconder a pouquidão do espaço, que de pouco é feito o estar aqui parada.
Repito-me sempre nas palavras; apenas as coloco de outra maneira para que o efeito não pareça repetir-se; mas o que nasce depois do sono e antes do sonho é um lugar escuro. Memória brava, encolhida à pressa e repetida nos degraus que subo e desço.
E se tropeço?

Friday, January 26, 2007

mulheres vs mulheres

Maria Amália Vaz de Carvalho, conhecida como educadora e autora de uma vasta obra onde aborda problemas da educação das crianças, constitui um exemplo da intelectualidade feminina do final do século XIX, princípio do século XX.
Quis, no entanto, cuidar também da educação das mulheres, a quem não reconhecia a legitimidade do direito ao voto. A mulher, dizia, deveria estar bem preparada intelectualmente a fim de se encontrar mais próxima do marido. Dizia-se, na época, que estas eram ideias feministas.
Atacava o divórcio “essa solução violenta ao problema do casamento – solução antipática às raças latinas”, defendendo a ideia de que a mulher se deve manter no estrito espaço do lar e de que a vida mundana é incompatível com o culto doméstico. Era uma católica fervorosa para quem o ensino tinha de ter também a vertente religiosa.

(informação colhida em Cecília Barreira, História das Nossas Avós)


Também conheço algumas assim, nos dias de hoje.
Defensoras da autonomia da mulher, praticantes de uma vida de luta férrea pela sobrevivência, instruídas, esclarecidas e ... obrigadas a fazer um aborto (ou um desmancho?) em alturas em que a vida não permitiu outra solução. Poucas terão sido as que nunca tiveram de passar pela dor.
Contudo, usando o argumento da defesa do direito à vida, vão votar não ao direito que uma mulher tem de interromper a gravidez até às 10 semanas nos casos expressos e conhecidos por todos os que quiserem informar-se devidamente sobre o que está em causa no referendo.
Eu, que também defendo o direito à vida, voto sim, a lembrar aquela a quem acompanhei à "abortadeira" e depois ao hospital, onde teve de submeter-se a uma cirurgia para lhe serem removidos os restos do embrião que ficaram a provocar uma hemorragia que quase lhe ceifou a vida. A mesma mulher que hoje, passados muitos anos, se ligou à igreja, onde passa os dias e as noites em tarefas de caridade (não lhe posso levar a mal por isso, cada um é livre de agir em conformidade com aquilo em que acredita) e defende o não com os dentes cerrados de raiva e uma expressão de quem era capaz de queimar na fogueira todas as votantes do sim.

Complicada, a mente feminina!


Sunday, January 21, 2007

"sol de inverno"


Foto e título gentilmente cedidos por Tinta Permanente


Prendem-se nos cabelos fios de espuma; e ficam, descolorando o fulgor das labutas antigas, agora em braçadas mais lentas.

Se estou cansada? Não me vês o cair dos braços? Mas ainda seguro a panela sobre as brasas e sopro. Prova! Prova que são boas!
Não me quero encostada à parede do fundo d’uma garagem à espera da morte. Nunca os viste? Basta que não possam mexer as pernas e zás, escondem-nos em buracos, fecham-nos a dizer que são lares aquelas caves húmidas. Antes a minha que é velha mas tenho lá nas gavetas a minha vida toda.

No início é um desejo quase lume que consome a precipitação tornando-a erro. Mas só depois a vista o descortina e o aponta; tarde demais e ainda bem. Se o futuro fosse uma tela transparente a emoção morria.

Tenho filhos mas eles têm a vida deles. Que mais dá? Não quero que me dêem ainda a sopa à boca, nem sei se dão, que a vida leva as pessoas para longe e a gente já não espera nada. Espera-se a morte, menina, espera-se a morte!

A meio caminho, quando as madrugadas acordam e chega a lucidez, intervalada pela cedência ponderada ou pelo ímpeto do desejo amadurecido, constroem-se as chegadas, calmamente. Compensação, às vezes; permuta consentida, diz depois a razão. Mas só depois.

Estou cansada, sim: aqui no ombro a dor ferra que nem cachorro bravo e formigam-me as mãos. O que me custa mais é não ter forças, senão começava tudo de novo... sei lá se fazia igual! A vida não escolhe a gente nem a gente a escolhe a ela e estes trapos pretos, já não sei bem por quem os visto... são muitos anos...

Tarde demais, diz a espuma nos fios dos cabelos encurtando o tempo e rindo-se do desejo. Compaixão e frio na placidez dos gestos, apesar do carvão aceso em dia de feira.

Thursday, January 18, 2007

a dor


(para a Vanessa e para a Catarina, que choram a morte do Bruno; e eu com elas...)

Ferra os ossos como um cão raivoso esta dor que se enterra no peito, nos olhos, na carne toda e arrepia a pele de cinzento e névoa. Névoa nos olhos e revolta nos dentes cerrados. Cinzento o dia, também; cinzenta a terra, gelada, pesada; cinzento o bater da pá contra a terra, a tapar a tapar…
Ferra os ossos como gume esta dor rubra, faca espetada no entendimento e a mãe sem sentidos de tanto a sentir na alma e nós ali sem forças nas pernas nem gestos nas mãos para dizer adeus; o mundo parado e lágrimas, lágrimas…
Ferra os ossos esta dor que apaga, uma a uma, todas as letras da palavra aceitar porque ontem ele tinha um sorriso nos olhos e agora fica ali sozinho, o dia a gelar a noite e a terra a cair cinzenta sobre os seus olhos fechados. E nós sem sabermos o caminho de regresso à vida.

Wednesday, January 17, 2007

à procura da perfeição


Hoje havia camélias caídas no chão do jardim
E eu, de olhos vendados, adivinhei-lhes o tom mais-que-perfeito
na memória do cheiro a terra fresca.
Se tivesse aqui a tua mão pousava nela a corola avermelhada
e aconchegava-a no seio injusto do presente.

Sunday, January 14, 2007

a síntese

Há assuntos que, só por si, são controversos, especialmente se envolvem emoção na sua análise e isso acontece inevitavelmente quando somos parte do problema.
A cada um o lugar de opinião; a cada um o direito de exprimir razões e emoções.
Muitos passaram por aqui e deixaram sins e nãos. É fundamental que se abram espaços à opinião livremente expressa.
Contudo uma das pessoas que por aqui passou, deixou esta síntese que me satisfez pela maneira conhecedora e objectiva como equacionou as várias faces do mesmo problema.
Eu não reduziria a questão apenas ao nosso país, pois sei que toda a Europa Ocidental vive o mesmo drama. Contudo, ao lermos este esquema de causas, conseguimos entrelaçar um conjunto de coisas nas quais cada um de nós já pensou mas nunca escreveu desta maneira.

Disse a addiragram que "a jovem democracia também trouxe:

1- a confusão de papéis;

2- a implementação de modelos preversos - como o do ensino integrado;

3-a confusão entre autoritarismo e autoridade;

4-uma política de negação dos problemas sociais e suas gravosas consequências;
5- uma desresponsabilização progressiva dos vários intrevenientes (é sempre o Outro o culpado);
6- uma falência da função paternal (entenda-se aqui o fundamental que é a introdução de regras e limites) e um ênfase dado ao lado maternal (compreender, tolerar, não frustrar...);
7- a mentira da "mascarada" dos números e dos objectivos...

Só saneando este lado mentiroso da mente que está presente nos políticos, nos pedagogos, nos pais, nos professores e nos alunos retomaremos alguma lucidez para enfrenter esta montanha de escolhos."




Saturday, January 13, 2007

Haverá saída?


Há cerca de uma década comecei a sentir alguma relutância em ceder à ideia de que todos os alunos eram iguais dentro da sala de aula e que o ensino a ministrar devia ser o dos objectivos padronizados para o aluno médio, pressupondo-se que a mediania seria atingida por todos.
Nunca me dediquei com afinco ao estudo das teorias pedagógicas porque a sala de aula é um lugar por onde não passam os ideólogos; ou se passaram, foi uns anos antes da publicação das suas obras reguladoras de comportamentos e, por muito que se queira comparar o nosso tempo de estudantes com o momento presente, não vale a pena tentar. Seja qual for o tempo (e é das coisas que mais me incomoda é ter de aguentar esta conversa quando alguém se põe a estabelecer essas comparações…) eu, que estou no terreno, localizo a mudança num crescendo que começou há menos de uma década. Sou capaz de dizer que tudo começou a “descambar” de há uns seis a sete anos para cá. Se não tiveram contacto com uma escola dentro desta data, não precisam de dar opinião pois acreditem que não sabem do que falam.
Dizia eu que enfrentei por essa altura alguns colegas mais “pedagogos”, perfeitamente alinhados no espírito do aprender brincando. Mas vem mais de trás, esta brincadeira; desde os anos 80 as tentativas para reformar o que se sabe estar mal têm sido muitas, mas nenhuma com tempo para ser bem sucedida, como se tudo se passasse ao nível da tentativa-erro, mas sem que se pegue no erro para o emendar. Desconcertados, os ministros vão aparecendo e vão mudando, riscando daqui e escrevendo ali, sem nada acrescentar senão a necessidade de reduzir o nível de exigência. Mascarar o insucesso para que sejam atingidos os níveis europeus de escolaridade. Este ano lectivo transitei alunos do 8º para o 9º ano com sete disciplinas em estado negativo; considerando-se que só no 9º ano é que atingem o final do ciclo, etc, etc, e que o terceiro ciclo é um todo, etc etc, e que os pais não estão muito de acordo com a reprovação, etc etc... deu-se o jeito. Curioso é que a inspectora que fez a auditoria à escola em Dezembro questionou o exagero de negativas nas disciplinas de História e Geografia. Em Matemática já não espanta, é o que se sabe!, em Inglês também não! (se algum dia alguem pensou que 28 alunos conseguem aprenderuma língua estrangeira em 90 minutos semanais pensou MAL!). Na língua Portuguesa, por muito mal que escrevam, o que se testa são outras competências... por isso já sabemos que temos de continuar a abrir mão do rigor na conclusão do 9ºano. Depois chegam ao Secundário com ambições universitárias, não tanto eles que detestam estudar, mas os pais. Eu também sempre quis o melhor para os meus. (A questão é o conceito de "melhor" ligada aos estudos universitários... mas esse é outro assunto).
Mas, retomando o fio, nessa altura já me custava muito ter de estabelecer objectivos mínimos para os alunos com défice cognitivo. Cheia de boa fé e pensando que podia ser eu a ter um filho com essas dificuldades, fui cedendo… Mas quando eu digo “um filho” assim, refiro-me a um adolescente comprovadamente diferente, integrado num mundo de iguais. Quem está livre disso?!
A pouco e pouco a minha atenção teve de recair sobre os menos dotados (e se eles crescem em número!!!), a quem devia ser prestada mais atenção para que atingissem todos o mesmo patamar. A consequência imediata disso é uma coisa que me tem enchido a cabeça nestes últimos dias em que tenho reflectido sobre o que aqui relatei antes – eu esqueci-me dos alunos “normais” (perdão aos ouvidos mais sensíveis). Da redução dos objectivos à centralização do ensino nas competências, tudo acompanhado de muitos impressos, dados para gráficos de sucesso /insucesso, formulários, planos de recuperação, planos de acompanhamento, et cetera, a coisa ia sempre bater ao mesmo: aqueles que aprendem mais depressa e anseiam por conteúdos novos, aqueles que são capazes de saltar rapidamente do saber ouvir para o saber fazer e depois para o saber ser, têm estado positivamente ao abandono.
Numa sala de aula eu fixo os nomes dos mais rebeldes no primeiro dia, falo quase exclusivamente para eles em todas as aulas, mando que sejam eles a ler os textos em voz alta, preocupo-me em neutralizar aí os focos de perturbação e muitas vezes não replico, não respondo, faço que não lhes oiço certo palavreado, quase como se fosse eu a parte mais frágil do casal contratuado para viver em comunhão, a bem da duração do casamento. À conta disso sou capaz de ter tolerado menos coisas aos meus filhos porque lembro-me que o chegar a casa, depois de um dia de aulas, era de tal forma desejar o céu, que era a eles que cobrava o silêncio e o sossego de que vinha carente.
Dizem as novas orientações que temos de trabalhar as competências e eu, cumpridora, tenho procurado que se promova a educação para a cidadania, palavra linda que faz a abertura de toda a literatura chegada às escolas.
Porém, já dei comigo a pensar que ando a dar pouca atenção ao aluno X ou ao Y, porque esse é competente e há-de desenvencilhar-se sozinho. E sozinhos têm ficado aqueles que têm objectivos traçados e que, à partida, vão lá chegar. Por esses nada tenho feito. E, reconheço, esses bocejam, absortos, frustrados…
Há dias dei-me conta que o João anda a perder o brio. Não lhe foi fácil perceber que teria de deixar de fazer os trabalhos de casa e “mandar uma boca” de vez em quando, na aula, para ser aceite no grupo dos que agora são os “normais”. Doutra forma é marginalizado. Mas o João chegou lá, agora. Mandei recado pela directora de turma para que os pais ficassem atentos, no sentido do rapaz não perder os seus bons hábitos (porque os pais deste são dos que nunca faltam às reuniões). Só ontem, depois de escrever o meu “grito” e depois de ler algumas considerações lá deixadas é que me ocorreu que não é aos pais do João que eu tenho de pedir atenção. Eles até são atentos! Sou eu que tenho de mudar de agulha! Eu!!!!
Vou tentar olhar para os alunos que merecem. Foi isto que decidi, porque não quero abandonar ainda esta guerra. Não quero encostar-me à porta da sala, sem palavras perante a má educação. Terei de a aguentar, se conseguir canalizar a atenção para quem a merece!
Terei de preencher uns papéis (são às dezenas), traçando planos de recuperação para os outros, mas eu sei quantos desses papéis tive de arquivar o ano passado (estão lá, nada se extravia) sem que os pais tivessem posto a sua assinatura no respectivo espaço. A escola que os eduque, a escola que os prepare para a vida, a escola que os ature. Ah, e que os ponha a fazer serviço cívico, que em casa eles não o fazem, dá muito trabalho insistir!
Na minha digressão pelo mundo dos blogues li há umas horas um texto que me deixou a pensar muito. Por isso vou já concluir, dizendo que não há solução para esta questão complicada. Não a questão do ensino, porque essa, eu vou tratar dela à minha maneira, nas minhas salas de aula. Não posso meter atestado por incapacidade psicológica ainda (lá virá o tempo!). A questão é a da VIDA e a do FUTURO. A vida de uma geração que daqui a uns anos não saberá o significado da palavra esforço, ou persistência ou brio. Os pais deles acham que todo o esforço traumatiza e aligeiram, para não dizer que abandonam. Os pais deles, se me permitem o desabafo, não querem sair traumatizados da situação. Os pais deles estão centrados em si e nas suas carreiras e no seu bem estar e no "está bem, faz lá o que quiseres e não me chateies!". Muitas vezes são as mães, porque os pais têm a parte mais fácil que é a do fim-de-semana quinzenal e dão tudo para suprirem o que não podem dar...
Preocupa-me pois, o futuro de um mundo em que há jovens são capazes de me dizer que aquele aluno lá da escola que anda de cadeira de rodas não tinha nada que lá estar porque um dia ainda vai ser beneficiado por ser deficiente e vai tirar o trabalho a outro que o poderá fazer melhor do que ele.

E, já agora, eu, que sou naturalmente pelo sim à interrupção voluntária da gravidez, também seria pelo sim à laqueação de trompas de certas mães e à vasectomia de certos pais.

Tuesday, January 09, 2007

Amanhã tenho de voltar lá!

Edvard Munch, O Grito

Pego no livro de ponto, na mala, no casaco e subo a escada. Passo pelos intervalos, desviando-me. Faço que não ouço nem vejo, ou às vezes já nem ouço e já não vejo... mas a linguagem é "de caserna", já não é novidade.
Eles entram. Tourada. Se eu não impuser autoridade ninguém se cala, mesmo depois de sentados – recados, mensagens no telemóvel, 'phones' nos ouvidos, mochila nas costas, cadeira que cai, ó stora olhe o Diogo!, stora posso ir ao cacifo buscar o livro?, stora não tive tempo de beber água, posso?, é pah, levaste nos cornos ontem, o Porto não sei quê, olhe lá o Paulo stora, PARVO!, PARVA ÉS TU!, aqui não se diz parvo, a stora ‘tá à espera, CALEM-SE, estúpidos. Daniel, quando eu precisar de assessor peço e pago, ok? Ordem e vamos começar, cadernos, canetas, livros e vontade de trabalhar, Ruben, tira os phones dos ouvidos, que mal é que tem, estão desligados, quero silêncio pelo menos durante os próximos cinco minutos…quantos livros há na sala – só? Paciência, um livro em cada mesa, mesmo assim há 5 mesas sem livro; mas viste o frango que o gajo deixou entrar, viste?, Cala-te … (entre dentes), stora não admito que digam coisas da minha mãe aqui (levanta-se)… eu não lhe disse nada ele é que é estúpido!... Consigo que escrevam o sumário que acabei por escrever eu própria no quadro (ou teria de repetir pelo menos 10 vezes) e a aula arranca. Começo a falar nos regimes autoritários dos anos 30, Ivan, presta atenção, se não queres ouvir não distraias o teu colega!, falo com a voz toda, uso o quadro, as mãos, os olhos, as fotocópias, os cartazes que trago ampliados, Marina, é na página 78, não mandei já abrir o livro?, peço que interpretem um imagem, Ana cala-te , mas eu não 'tava a falar, estavas sim, e presta atenção!, mas era só eu, não! os outros falam e eu é que pago porque sou preta?É sempre comigo é que se mete!ah, é preta...e eu sou amarelo, e eu sou encarnado, e eu sou águia, e eu leão, cala-te lá com isso, fogo!, ignoro-os e continuo a falar da militarização dos regimes, peço-lhes apenas que interpretem as imagens, há material bastante e interessante para se chegar onde quero, Ana, é para te calares, não me ouviste? (continua a reesmungar), Já viram como a imagem mostra os militares em perfeita ordem, ANA!!!!!, outra vez eu! Fónix!... mas stora há um que está fora da fila! Ai... eheheh está fora da pila´?, é pah, é mesmo estúpido, isto é só para me provocar, stora, e ri-se, ela, piscando-lhe o olho. Insisto na autoridade que caracterizava os regimes dos anos 30, na repressão; vou direita ao holocausto, ou pelo menos era essa a intenção, queria falar de tolerância e respeito, de valores... gostava que percebessem como era a vida dos pais deles ou dos tios mais velhos, ou dos avós, a minha avó já é velha, a minha tem 80 anos, a minha tem 100, eheheh, 100 anos, parece que é tótó; não me diga que isto era assim, os cotas mandavam naquilo tudo? POIS MANDAVAM, não mandavam nada, quem manda aqui sou eu, Heil Hitler, Salazar também era amigo dele? CALA-TE PARVO, Cala-te tu, oh!, eu tenho dúvidas tenho de perguntar. Dou meia volta, conto até 10 em silêncio, explico qualquer coisa, quero continuar a falar, elevo o tom de voz acima das deles, stora posso ir lá fora? quanto tempo falta p'ra tocar?! Se ela vai eu também quero... stora é verdade que amanhã falta? Não falta nada!, falta sim, eu ouvi dizer... Engulo o desespero, faço das tripas coração, não suporto os risos das três que se juntam lá atrás, pouco me importa se é de mim que riem, mas duvido, devem estar a contar as novidades, ontem uma dizia para a outra que nem os ossinhos escaparam, comi-o todo; faço que não oiço, faço que não vejo, procuro entusiasmar-me e dar a aula para alguns que estão interessados. não, não podes ir lá fora, então quer que faça aqui? Ignoro. Continuo. Vejo interesse na atenção e custa-me a maneira como alguns, em silêncio, aturam o mesmo que eu, mas estamos em minoria. Joana muda de lugar, traz para aqui as tuas coisas, EU!!, Porquê?, Porque EU QUERO! Olha, g’and’abuso!!, Joana sai, se faz favor. Ainda por cima, uma pessoa não 'ta a fazer nada, os outros é que falam e eu é que saio... mas vai ver, vou fazer queixa ao Conselho! Preencho um impresso, tenho de chamar a empregada e mandá-la acompanhar a aluna à sala da "gestão de conflitos", mas preciso de escrever a razão da expulsão e mandar tarefa a cumprir. (circula por lá um inquérito de um grupo de trabalho para saber que tipo de actividades os professores desenvolvem nestas salas de gestão de conflitos, onde se pensa pôr a funcionar uma bateria de actividades de carácter lúdico-pedagógico). Enquanto faço isso já a turma se esqueceu, já se dispersou. Retomo o fio à meada, estou a falar da maneira como os regimes faziam a sua propaganda. Voltaram a engrenar, minimamente. Entra uma empregada com uma ordem de serviço para ser lida que menciona uns alunos a quem foram aplicadas penas. Corajosamente e depois de muitas suspensões e outros tantos paninhos quentes, aquele Bruno do sétimo ano acabou por ser transferido para outra escola: primeiro instruiu-se o processo, ouviram-se os pais, os professores, a aluno, etc, etc, perguntou-se à DREL se era possível, se a ministra não nos mandava prender a todos com aquela decisão, agora é preciso saber se alguma escola o aceita, não se vai deixar o "menino" em casa porque está dentro da escolaridade obrigatória e os pais não iriam aguentar! Talvez agora já se consiga dar aula naquela turma.
A leitura da ordem de serviço desestabiliza… era o que faltava, g’andabuso! Havia de ser comigo, partia a escola toda, foda-se! Ricardo sai, agora tua vez, eu também sei dizer asneiras, Ricardo, mas aqui na sala não as digo, ok? Repito os procedimentos…
Não tenho cara para continuar a sorrir, gostava de ser simpática ou carinhosa ou sei lá o quê, para com alguns deles, os que me olham, à espera. Mas não tenho palavras para continuar.
Uma vez uma médica, a quem me queixei da frustração que às vezes me causa vontade de chorar quando chego ao portão da escola e me apetece voltar para casa, falava-me das histórias da indisciplina nos hospitais e dos doentes abusadores e dizia: “nunca mais quis aquele senhor no meu gabinete!”.
Eu tenho de estar ali todos os dias, eles têm de entrar, têm de ter aulas, têm de ser bem tratados… têm de ter planos de recuperação se têm mais de duas negativas, ok, eu escrevo isso tudo nas dezenas de impressos que aparecem por mês.
Apetece-me fazer como fazem os pais deles “não me chateies, faz lá o que quiseres e deixa-me em paz”.
Continuo a aula. Ainda procuro falar da Mocidade Portuguesa e de como era impossível a uma geração que aprende na escola a divinizar o chefe, ter outra atitude que não fosse a do respeito. Gostava de os levar ao estabelecimento do contraponto: o antes e o agora, o extremo da autoridade e o extremo da falta dela. Noutros anos era possível, eles gostavam de ouvir as histórias, traziam testemunhos das famílias…
De repente: stora, a Irina peidou-se! E zás, o Jorge levanta-se e muda para o outro canto da sala. A Irina tem 16 anos, o Jorge também. ahahahah, a Irina peidou-se… eheheheheeheh…. e a Irina joga a cabeça para trás a rir-se muito alto. Cheira muito mal quando me dirijo para a porta. Fico ali encostada, sem palavras. A Carla goza: ai peidou-se, eheheheh, peidou-se ... riem todos… saio, volto a entrar, digo que não tenho palavras e que os quero ver desaparecer todos da minha frente. Pego nas coisas, fecho a porta e desço a escada. Bebo um copo de água, não converso, não conto, não digo nada; apenas escrevo uma folha para o Director de Turma, mais uma… dou uns passos por ali, já não suporto a conversa das mulheres, somos quase todas mulheres que falam muito alto. E depois passam os dez minutos do intervalo e pego no livro de ponto para voltar a subir a escada e entrar noutra turma. Cumpro o dia. Estou debaixo de telha, tenho emprego, recebo o 13º mês, ganho mais do que o ordenado mínimo...
Amanhã tenho de voltar lá.


Não vim aqui choramingar para receber mimo. Não quero que venham dizer que tenho razão ou que não tenho. Não digam nada, leiam apenas e não escrevam nada!
Fiquem a saber que isto não é uma lamúria, um desabafo, um grito de socorro, não, isto é apenas um chegar à noite e pensar assim: amanhã tenho de voltar lá. Aquela (esta) é a minha realidade.
Bem sei que poderia ter de estar a trabalhar ao relento de fato-macaco ou a lavar escadas ou a perseguir ladrões, arriscada a levar um tiro ou a assistir aos que entram na urgência deitados, sem lhes poder valer. Bem sei que trabalho é trabalho e que o ganha-pão na maior parte das vezes não é aquilo que se quer, que se gosta ou com que se sonha.
Garanto-vos que no meu caso funcionou o gosto e a devoção, depois da vocação, há 24 anos.
Faltam ainda quantos?

Sunday, January 07, 2007

Buscas


Limei-me em fios de navalha, gumes de arrasto e raiva, quando os tempos passavam rente aos olhos sem rumo, rodas abertas de assombro.
Arranquei as crostas sempre antes do tempo ou as feridas instalaram-se em má carnadura, marcas ferradas em telas frágeis.
Bebi em malgas de aresta, contacto rugoso com lábios que secavam na contenção do pranto, superfícies ásperas a macerar flores mordidas.
Talhei bolos de terra e água contra a parede irregular do fundo do quintal e entalei os dedos no portão de ferro, vergão a doer sem lágrimas.
Pulei as cercas da imaginação, parada no mesmo lugar, sem que ninguém soubesse, fantasmas no escuro sobre o peito e eu deitada.
Puxei para cima da cabeça o cobertor dos Invernos de pés frios na humidade das paredes escassas, cheiro soluçado a casa triste.
Tapei os ouvidos com um crivo esburacado e contive o grito, tristeza amontoada em cruz nos olhos, riso frouxo na névoa.
Assanhei a voz para dentro, estilhaços de rouquidão sobrepostos, a pesar nos escombros da vontade.
Vesti asas e fingi voos enquanto a outra se colava ao chão, peso a mais sobre as pernas magras, escarpas entrecortadas por abismos a amedrontar as descobertas.
Roubei o sossego aos deuses e converti-me em tempestade, neblina, maré em fundo cinza, espuma desfeita.

Saturday, January 06, 2007

Vinte anos...

"Era forçoso que olhássemos na mesma direcção mas sem dúvida que nenhum de nós via o mesmo vento a bater, os toldos a voar, a areia escorregando e fugindo ."

Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios

Olhar na mesma direcção, sob um céu homogéneo, sem ver mais variações que não sejam as que a outra voz dita.
Falas, e toda a vida esvoaça, como se o mundo cantasse
e os cantos entoassem; em redor é tudo teu;

mas se a tua voz se cala, o canto do mundo cessa,
e fica a vida suspensa. E o silêncio é todo meu…
Murmurar que o tempo é eterno e nada mais interessa para além do círculo fechado sobre a resolução possível de todos os males. E ver cair a chuva na calçada ouvindo-lhe a melodia, ou sentir o gosto da língua do sol sobre a pele num dia de Inverno.
O renascer do tempo no rumor das veias.
Olhar na mesma direcção a colher sentidos; tatuá-los depois nos olhos e reduzir a visão ao imediatamente perfeito. Sem ter ainda percebido que o verdadeiro sentido das coisas é elas não terem sentido nenhum.
Sentir sobre a folhagem húmida o sopro de uma brisa salvadora e afiançar que o sol está ao alcance das mãos, como se todas as coisas do mundo passassem pela solução mágica da entrega, amor, promessa, verdade universal, esperança, certeza.
Tu estás aí, no lugar onde as palavras terminam
e se renova a magia do silêncio;
de costas para o tempo desafias a linguagem dos poemas
e acordas a poeira das noites;
tu estás aí, aqui,
na inquietação do corpo e no sabor das horas que hão-de vir…
Olhar na mesma direcção sem ter pressentido outra linha no horizonte, outra cor, outro som, outro mistério; sem ter percebido que o tempo cava distâncias, muda a rota nas agulhas, deixa traças nos tecidos e cheiro a mofo nas entranhas do desejo.
No lugar onde estás eu também estou,
num sonho ou num incêndio;
ávida, desperta e com as mãos em fogo, aqui me tens…
Não saber da escassez do paraíso, das altercações, das metas curtas, da luz frouxa dos amuos em dias longos.. Arrefecer depois a contra gosto e baixar os olhos.
Olhar persistentemente na mesma direcção – obrigação – e partilhar o sonho dos risos eternos das crianças ou querer também mantê-las tragicamente debaixo das asas a aninhar doçuras egoístas.

E o ser massacra, devasta, inquieta em permanência; debaixo da capa do bem estar desenham-se labirintos; o silêncio gasta-se e a inquietude das asas tece uma lentidão de segredos; desejam-se mistérios...
... mas já nada renasce
a não ser uma primavera hesitante... à procura de espaço.


Legenda - a verde: o que escrevi aos vinte anos;
- a preto: o que acabei de escrever.

Conclusão 1. O amor existe;
Conclusão 2. Não se pode rasgar o que está escrito;
Conclusão 3. Mesmo que se olhe na mesma direcção o que se vê nunca é o mesmo, a não ser ... aos 20 anos...
ou- reflectindo melhor sobre o que escrevi ontem e já era madrugada - nem aos vinte anos.


Thursday, January 04, 2007

"Entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda"

Escher


“Impelido por outra situação talvez Einstein tivesse fuzilado gente em vez de descobrir tempos físicos e astrofísicos. Os carrascos de Auschwitz poderiam ter estado perto de uma importante descoberta no domínio da Bioquímica, e a prova é que se haviam interessado tão vivamente pela decomposição dos corpos. Assim a ciência e o crime poderiam ter entre si apenas uns passos de dança ou umas flexões de ginástica. Entre o bem e o mal uma mortalha de papel de seda.”

Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios


São apenas referências, estas, a excertos de um livro de que gosto muito pelo seu conteúdo reflexivo ou a pedir reflexão. Já tenho dito, em alguns comentários que deixo por aí, que sou leitora exigente e não é uma qualquer Rebelo Pinto que me faz perder horas de vida. Melhor, muito melhor do que isso temos aqui, e aqui e aqui e aqui, que me perdoem muitos outros mas hoje não os vou citar todos. Tudo a seu tempo.
Vem isto a propósito da notícia que há pouco ouvi acerca de mais duas execuções esperadas no Iraque para os próximos dias.
“Entre o bem e o mal uma mortalha de papel de seda”, diz ela numa obra que para mim é ímpar na sua teia narrativa, que parte de um relato escrito a posteriori por um não interveniente nos eventos relatados, e vai desmontando o relato louvando-o, mas provando, página a página, que aquilo que se diz depois "não vale a casca de um pêssego", e tudo o que fica do que passou é "uma memória fluida".
Ora para que ando eu às voltas com estas frases?

É que nas minhas andanças pela História acabo a concluir, vezes sem conta, que o passado é tão irrepresentável como a verdade; e por isso, o que se disser daqui a uns tempos não equivale nunca ao que se passou, quando o próprio jornalismo acaba por ser um rol de interpretações, a gosto (e a interesse) e de quem escreve e de quem manda escrever, referindo-se a coisas do presente…
Estaline apagou os sucessivos inimigos das fotografias (e nem photoshop tinha…); Auschwitz é dado como uma falsidade judaica pelas novas frentes nacionalistas austríacas e alemãs; Hitler mandou enterrar cacos para que os seus arqueólogos descobrissem nas escavações a lendária origem ariana do povo eleito, marcada por uma suástica que vai buscar as origens aos cultos celtas, aztecas ou hindus, entre outros.
Que outros exemplos? São inúmeros.
Lembro-me da estátua de Saddam Hussein a cair quando da chegada americana e lembro com igual espanto o que li há menos de uma semana sobre as declarações de Bush acerca da execução ocorrida: um passo para o processo de instalação da democracia no mundo, ou qualquer coisa assim… (o que se disser depois disto "não vale a casca de um pêssego")...

Questiono-me, como ela, acerca do bem e do mal.

E termino esta reflexão com um exemplo mais actual – Cavaco Silva diz que vai estar atento à actuação do governo. Referiu uma das áreas críticas (que me toca, naturalmente), dizendo que é hora de se começarem a ver resultados. Ele, que teve 5 ministros da Educação nos seus governos, qual deles o que deixou um rasto de maior mediocridade no acerto das reformas sucessivas que vieram a desembocar no ensino que hoje temos, ainda à nora com a melhor teoria para melhorar os resultados... ("entre o passado e o presente, uma memória fluída"). Há que fazer transitar os alunos para que se vejam resultados. Não importa que não saibam ler nem escrever. O que importa, isso sim, é que não saibam pensar. Cidadãos autómatos, colados às tecnologias, que não saibam ouvir um telejornal sem que o comentador respectivo venha ajudar a interpretar a notícia (qual notícia? O fait-divers, claro!)… Talvez venham a fuzilar gente, os meus alunos mais inteligentes, se o caminho que continua a ser apontado excluir o conhecimento da História, da Filosofia e de outras coisas importantes para se perceber outras razões para se estar aqui que não sejam apenas as teclas de um computador que, efectivamente, nos ligam ao Mundo.
"Entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda".
Teria pano para mangas se continuasse a escrever...

Deixo isso para quem quiser. Siga a dança!

Sunday, December 31, 2006

Balanços



Balança-me a calma contra a natureza teimosa de estar-de-cabelo-ao-vento.

Balança-me a dureza de um-mundo-a-subverter-valores-que-eu-aprendi de maneira inversa, ou os meus mestres estão fora de prazo e eu não dei por nada.

Balançam-me as mãos entre as palavras-brilho-de estrelas-que-enfeitam-a-noite e o palavrear-contínuo-que-paira-amargo-e-purulento sobre as mesas dos dias de festa.

Balança-me a lucidez, entre a justiça apregoada da morte alheia e a condenação-que-ficou-por-decidir porque outros são tão gravemente culpados e morrerão um dia, docemente acompanhados pelos anjos, em clínicas forradas a veludo branco.

Balança-me a sensação de causa perdida entre o-veneno-que-sorvo-para-dentro e o riso tentado nos dentes, sem que eles aprendam a morder outra coisa que não sejam as mãos-a-desenhar-a-arte de ser ao menos feliz uns minutos em cada dia.

Balança-me a visão das chamas que reduzem a cinzas as florestas-rainhas-de-interesses-que-eu-não-atinjo quando o aquecimento violenta o planeta; e depois as águas que chegam na estação oposta e arrastam vidas-que-não-interessam-a-ninguém a não ser à mediatização que valoriza quem-tem-tudo-e-quer-ainda-mais, manipulando-nos os olhos.

Balançam-me os afectos enleados numa memória a fazer-se ao passado num-ritmo-que-os-anos-aceleram, entre as raivas desagravadas e a dor-recriada-a-ponto-cruz.

Balança-me o entendimento, à vista de centros comerciais apinhados de gente que compra-e-compra-e-compra na ânsia de remendar com trapos novos os buracos invisíveis das coisas importantes.

Balançam-me os olhos-pousados-nas-mesmas-paisagens despidas tentando eu cobri-las com voos de conhecimento e satisfação insane.

Balança-me a compreensão da natureza humana, a degradar-se muitas-vezes-na-porta-ao-lado-da-nossa, onde alguém chora sem se fazer ouvir, perante uma loucura que só nos incomoda quando as crianças morrem e se desvendam os porquês.
Balanços...

Vamos vê-los em todos os telejornais e depois na imprensa; lemo-los aqui também, nas escritas privadas onde expomos as nossas vidas reais ou ficcionamos as que queríamos mais reais ainda. E balançamos: verdes ramos à espera de crescer; ou ramos já maduros fragilizando-se na pressa.

Não sei se Jano chora o ano que termina e sorri ao que vem; ou se, pelo contrário, ri do que passou e chora o que está para vir.
Também os mitos estão subvertidos...

Friday, December 29, 2006

... e a propósito de outras autoridades...

"Não espere a mulher portuguesa que sejam os homens que a empurrem para o futuro e para a independência pelo trabalho, porque isso será a confissão tácita da sua incapacidade e preguiça.
(…) quando a mulher, que procure numa profissão honrosa o seu sustento e a sua independência, não for uma excepção mas uma legião, facilmente poderá aguentar o embate dum passado que se desmorona, vendo brilhar um futuro que mal se esboça ainda num sorriso longínquo.”

a propósito da restauração da autoridade...



A harmonia entre a mulher e o marido depende (…) quasi completamente da mulher, é a encruzilhada de onde irradiam as estradas importantíssimas da educação racional dos filhos, da boa direcção da casa, da economia do casal e do bom senso na solução de todos os problemas domésticos.
(…) a obrigação da mulher é ceder ao marido (…) não se apaixonará pelas suas ideias, mas tentará compreender com a melhor boa vontade o raciocínio do marido e segui-lo, conservando sempre toda a serenidade.
(…) o homem, que chega de fora cansado, triste, desalentado, encontrando em sua casa a placidez, a tranquilidade que a mulher cria em volta de si, (…) não pode deixar de sentir um fundo reconhecimento (…)”.

A Moda Illustrada, Ano XXXI, nº 1062, 14 de Junho de 1909, p. 6

Monday, December 25, 2006

anedotas para animar a quadra ou Portugal no seu melhor

Nada melhor para animar a quadra do que uma declaração de guerra. Aí temos a Etiópia e a Somália, países a abarrotar de caixas de brinquedos despejadas junto aos contentores do lixo, misturadas com os restos dos excessos natalícios, em sacos de plástico. Em guerra, quem sabe se para experimentarem os brinquedos que o pai natal lhes deixou!


Mas há melhor... muito melhor:

“… melhorou a confiança, melhoraram as expectativas, melhoraram as exportações, melhorou o emprego - este ano foram criados 57 mil novos postos de trabalho (…).
A vida dos portugueses está a melhorar passo a passo.
Os portugueses sabem que nada se faz sem esforço; não há alternativa ao trabalho árduo (…). Mas o meu pensamento vai sobretudo para os mais desfavorecidos da nossa sociedade... os que mais precisam da nossa solidariedade. (...) quanto aos idosos o governo está a fazer tudo o que está ao seu alcance para lhes dar uma vida digna, livre da pobreza, numa sociedade que tem a ambição de ser uma sociedade mais justa.
Nós estamos a conseguir, nós vamos conseguir."


(Sócrates, em mensagem de natal aos portugueses... ou antes... Portugal no seu melhor!)

( e ainda... o tom de voz, colocado assim entre o lânguido e o caridoso, soou-me verdadeiramente àquela falinha mansa salazarista que todos os anos, durante anos, nos visitava pelo natal. Devo estar com alucinações... comi fritos a mais!)


Friday, December 22, 2006

Letras caídas

Nenhuma palavra será dita
Estarão escritas nas mãos as consoantes
E nos olhos as vogais que as ligam.

Do copo sairá a melodia
E a dança, meu amor, será o instante.







Nenhuma palavra será dita
Dobradas estão as mãos dentro dos bolsos
Cerradas as pálpebras contra a luz do dia

E o corpo em letargia
Arrefece, meu amor, sem azevinho.





Monday, December 18, 2006

Lá onde nunca estiveste é que está a sorte...



“Dort wo Du nicht bist, dort ist das Glück.” (Goethe)

Atravessar as fronteiras é coisa que os gregos já faziam e o seu estatuto não era muito diferente daquele que têm hoje os cidadãos estrangeiros: chamavam-se “metecos” todos aqueles que vinham de outra cidade-estado, sem que a mistura alguma vez fosse possível.
Os germânicos, esses levaram a tarefa mais a sério e acabaram por dar início ao processo do nascimento da Europa, depois de destruído o Império Romano.
A fixação de um povo, em massa, num determinado local, muda (quase) tudo: os Normandos formaram a França, os Ostrogodos o espaço italiano, os Visigodos andaram por aqui na mistura da qual nós resultámos, os Saxões arranjaram o seu espaço para lá do Canal da Mancha… enfim… a Europa foi-se “fazendo” e depois desfazendo e refazendo.
Há dias a polémica das fronteiras deu para o “torto”, na Bélgica, quando a parte flamenga brincou em directo com a declaração unilateral de independência da Flandres.
Ontem sobreviveram 25 dos cento e tal senegaleses que se aventuraram em direcção às Canárias, numa jangada.
As migrações são tão velhas como o primeiro homem, são parte da História, são, aliás, um elemento da História trans-nacional. As razões são várias, não sei se as conseguimos enumerar: exílio, trabalho, perseguição política ou religiosa, busca… busca daquele lugar em que não se está, aquele lugar onde mora a sorte.
Os primeiros a chegar não se questionam: nunca vêm para ficar, talvez voltem, quem sabe. Depois têm filhos e os filhos aprendem a língua, fazem amigos, integram-se na escola. São estes que se perguntam: “quem sou eu?”; “serei desta terra ou de uma outra que os meus pais têm como referência?”. São estes que se fragmentam entre dois mundos, não sabendo se a sua identidade está aqui ou lá: se está lá o que fazem aqui? E se está aqui, por que não podem ter e ser o que os outros têm e o que os outros são?

A questão que deixo é esta: como é que estes movimentos migratórios lidam com a identidade histórica de um povo?


Friday, December 15, 2006

Olhos que passam por nós com gelo dentro


Nos teus olhos me vejo e me revejo ao pôr-do-sol
Sabendo ainda deles a saudade; antes do dia
Era demasiado cedo, eu sei, para te dizer que o gelo
Queimou as pontas das agulhas nos pinheiros
Folhagem despida nos troncos e eu sem mar
Pousada num vulcão aceso à beira a mim própria,
Nada pode existir antes do dia certo, dizem.
E eu de certezas nada mais sei do que um segredo
Calado em sílabas pausadas e depois embrulhado em voz pendente.
Não é que fosse cedo, era muito menos do que isso;
Sem aurora toda a madrugada se estende fria.
E no calor que tarda ou não se mostra
Quando a noite abrevia a exposição à perfeição da luz
A gente não sabe de outra imperfeição que não seja a das horas
Coladas à sombra; nas encostas onde não corre a lava;
É de rocha sedimentada a fantasia dos olhos
Quando eles não se fixam e estão apenas de passagem.

Thursday, December 14, 2006

Wednesday, December 13, 2006

Pensamentos catatónicos




Se em Portugal o sol nascesse assim às onze da manhã os portugueses que começassem a trabalhar às nove provavelmente pediriam um subsídio ao Estado pelo exercício de trabalho em regime nocturno.


Desculpa lá Bagaço Amarelo pelo uso abusivo deste título, mas depois pago-te os direitos de autor.

Monday, December 11, 2006

We must go away to find ourselves and then we must return home

Reikjavick

A Europa envelhecida, a que antes descobriu e dominou outros mundos, a contar histórias de Impérios.
Curiosa esta Europa que treme diante de um boião de creme na mala de uma cidadã que apenas quer manter a pele hidratada num país frio. Um creme hidratante poderia transformar-se em nitroglicerina e fazer explodir um avião. Ou… quem sabe, dentro do soutien podia estar escondida a pólvora!
Noutros tempos as bombardas disparadas das naus matavam infiéis e talvez não tenha tido importância nenhuma que milhões de africanos tenham sido levados para lá do Atlântico.
Hoje a Europa queixa-se de um défice populacional e sabe que precisa de abrir as fronteiras aos que nada têm para além da vontade de partir. Nada de novo, afinal nessa vontade: as migrações são tão antigas como a história dos homens. Porém rejeita-os depois, a pretexto de que o trabalho falta para os naturais. E preocupa-se em mantê-los nos seus lugares: integrados no mundo do trabalho; cidadãos contribuintes para manterem o visto no passaporte; porém, coesos nos seus hábitos porque a globalização da informação não os deixa perder o contacto com os lugares de origem. Nem sei se interessa a integração ou a assimilação - não sei bem que palavra usar. Às vezes, muitas vezes, veda-se-lhes a entrada. Chega de invasores, diz a Europa.

E aí temos a multiculturalidade apregoada há décadas. Ou aí a tememos?

No intervalo lembrei-me que estava noutro mundo. O lago estava gelado. O sol nasceu às 11 horas da manhã e às 4 da tarde era já noite. A luz era, aliás, sempre frouxa e as cores eram outras. A única coisa que sugeria claridade era o branco da montanha. E o frio. O frio também é branco.

Mas a Europa… o que é a Europa?
Tão diferente o gesticular da espanhola e a posição rígida do finlandês, sentados à mesma mesa!
Como acertar conceitos: integração, aculturação, assimilação… que significado têm as palavras para o italiano ou para a islandesa?
Metodologias comuns no trabalho documental com que fazemos a História? Difícil a questão.
Falta-me saber se a Europa é uma unidade ou uma diversidade para além de tantas outras coisas que me faltam ainda saber para poder saber alguma coisa.

Sunday, December 10, 2006

Europe and the World

Háskóla Íslands - Universidade de Reikjavick

In the world there are two kinds of people: those who stay and those who leave.


O tópico seria de grande utilidade para qualquer tipo de desenvolvimento. Entrava bem na minha tendência para as generalizações (que, na maior parte das vezes, partem de mim e a mim retornam) como daria um excelente poema ou uma excelente página ensaística.
Serve, contudo, para dizer que trouxe pano para mangas da Universidade de Reikjavick e que prometo desenvolvimentos e fotografias para os próximos dias.
Por agora - e porque amanhã de manhã a minha realidade são adolescentes ainda pouco sensíveis a este tipo de abstracções - fico-me por aqui. Vou tentar assentar as poeiras. Ou antes, os efeitos dos flocos de neve que o vento arrastava em assobio, ontem, ao fim da tarde que era noite quase desde que o dia nasceu.
Depois virei falar das migrações e daquilo que eles disseram: uns mais ou menos imperialistas; outros mais ou menos conscientes de que a Europa multicultural pode não durar muito mais anos…
É que estou mesmo muito cansada e o dia ainda não acabou.

Saturday, December 02, 2006

(semi) Elipse

É assim que ela me vê... sempre a fazer de conta, mas a sério:

Anda cansada mulher que se custa a aceitar no lugar, feita de impulsos travados e na pena escritos, pena na mão e pena no lado de dentro do peito, a vida a correr e ela a dar aos meninos a aprender tão cansada que está, mulher flor fechada que se deixa regar aos bocadinhos curtos que são bons demais e podem acabar não se pode deixar apanhar, mulher luar na ponte e no rio e no ventre que foi fecundo, e tanto que dá e deu e dor e lamento e a casa a ficar calada, e a mão na mão dele e o corpo sequioso que precisa de se abrir e rir e deixar ir para longe aquilo que não quer esquecer, mas tem que ser, e vai quer queira ou não um dia deixar a chama ave aprisionada levantar voo para fora do peito.

Friday, December 01, 2006

Monday, November 27, 2006

Vento cansado ou corolas secas metidas em páginas de livros


Ao fim de tantos anos o vento ainda uiva na varanda
Enquanto eu bordo as palavras num linho desbotado.

Não é que me apeteça ser esta ilusão de repouso na noite
Posso sempre fechar a porta ou esconder o corpo
Entre o linho e as palavras
A publicidade tem de ser guardada para quem precisa
De viver a juros
Não é verdade que alguma coisa em mim repouse
Diz-me a brusquidão dos gestos e a pressa;
Essa que borda palavras não sou eu.
Mas gostava de usar as tintas e pintar flores coloridas
Em caixinhas para oferecer no dia de natal
Eu sou a que ouve os uivos do vento
Gravados neste desejo cansado da procura
A que espreita para lá do fim das avenidas
E dispara palavras para dentro, ao fim da tarde.

Gasto-me em cada cigarro queimado, ou no colo de uma página
Albergue inanimado de corolas secas.

Sunday, November 26, 2006

Dezembro = Incómodo

Agito a pressa ao volante e corro, corro…
Comecei cedo e já enquadrei objectivos em matrizes, antes de enquadrar imagens e equacionar a exigência, diminuindo-a cada vez mais, não vá a frustração dos resultados ser tão grande como a desta manhã de sábado; acordei tarde e o frigorífico está vazio. Começa a pesar-me a consciência por ter dormido mais uma hora.
Agito o dia, agito a pressa; ponho as compras no porta-bagagens e quando o vulto se aproxima digo apressada: "Hoje não, hoje já não dou mais nada a ninguém". Ele diz então que dará ele e deixa-me nas mãos um cartão com desejos de um Bom Natal. E sorri depois, quando eu torço as mãos para desfazer a curva e sigo em corrida. Tenho pressa. Penso no assunto ou sigo? Era para recuperar toxicodependentes ou para lhe alimentar o dia?
Dentro do supermercado já as renas me tinham enfastiado e as cercaduras de bolas brilhantes eram excessivas. Música de Natal e gente de olhos enrolados nas prateleiras à procura das prendinhas; desculpe, desculpe, quero chegar à fruta e ao leite mas a estratégia é colocar na entrada tudo o que não faz falta e mais os miúdos do banco alimentar que não deixam escapar uma só pessoa sem lhe porem nas mãos um saco. Por que é que tenho de ser eu?
Ontem recebi uma carta para mandar dinheiro por conta de uma vacina: duas quadrículas duas vacinas; ou dez vacinas para deixar viver mais crianças no mundo, diziam. Pus a carta no lixo; não deviam ser os Estados a financiar o direito à Vida? Sei que querem deixar morrer os velhos, peso inútil, fonte de gastos. Mas as crianças senhor...
Também a mim me fazia falta uma vacina contra a pressa; ou contra as memórias de Dezembro a chegarem violentas; porém são outras as coisas que compro na farmácia e dou um saco cheio de comida ao miúdo que me bate à porta, que não é miúdo mas não cresceu e não tem mãe; e desconto metade do que ganho para o Estado-Senhor alimentar quem nada tem (é Dezembro... deveríamos acreditar?!) e pago as ampliações das gravuras para colar no quadro com bostik e as cartolinas e as fotocópias extra e os óculos que ampliam as letras cada vez mais pequeninas pela noite dentro; e as propinas dos filhos e o pão de cada dia e os juros do empréstimo; e não cedo, juro que não cedo à pressão diária dos telefonemas para me darem um cartão de crédito sem encargos de anuidade.
Sou privilegiada por não cumprir a saída diária depois das seis da tarde? Ao serão compenso e não me deito sem ter na pasta os materiais que saem destas teclas e de uma imaginação quase gasta, quase apagada, para que a manhã seguinte não me apanhe desprevenida.
Compenso? Talvez devesse deitar-me mais tarde, não consegui fazer tudo o que queria!
Ao sábado, porém, deveria ir ao cinema. Ou ver o mar. Não tenho camisas para engomar nem quem as vista e ainda bem porque posso prolongar o serão sem me chamarem para a obrigação nocturna com hora marcada. Alívio!
Agito a pressa, agito, agito, agito. Se vou ao cinema tenho de passar pela multidão que se passeia pelas montras à procura das prendinhas; e ver o brilho das bolas presas ao verde fingido das árvores de Natal. Se vou ver o mar falta-me tempo para os papéis amontoados na secretária. E, pior do que isso, vejo no mar os Dezembros que passaram... e a memória do som dos risos e do cheiro dos fritos e das luzes a piscar nas árvores de Natal do passado nunca me animam.
Dezembro traz sempre o mesmo incómodo, anos a fio, anos a fio…

Friday, November 24, 2006

Neblina na hora tardia do serão, enquanto chove.

Salvador Dali - City of Drawers

Declina o dia e com ele os retalhos emendados na neblina destes pensamentos velhos; não gosto do anoitecer precoce quando a hora se faz tardia nem deste gosto embaciado do serão inútil. O gato roça-se e aninha; e eu sem serenar remexo nas entranhas da saudade e vou organizando os papéis eternamente dobrados sob a tentativa da harmonia.
Dezembro aproxima-se no vento que hoje assaltou o meu quintal enquanto eu recuso o cansaço e digo que está tudo bem. Detesto as trivialidades mas também não me apetece que me tomem pelo destaque das palavras semeadas nos alfobres das minhas inquietações. E no entanto alimentei a terra antes das sementes e cuidei delas com o desvelo de quem só harmoniza a geometria das construções no momento em que o dia já percorre a outra latitude.
Não me apetece repousar o corpo sabendo que dentro dele a paz foi tomada de assalto pela desagregação das frases estruturadas a preceito; repousarei as mãos, apenas, depois destas palavras. A mente é mais tenaz, não cede, não se deita, não se deixa levar nem leva em si mais do que os retalhos emendados teimando em dizer inteira a fórmula da saudade que é a forma repetida do sonho sem uma única incógnita por resolver.
Deito o corpo, prometo; deito-o ali ao lado, na largura da cama, estendo-me serena; e depois enrolo-me em mim apertando o pesadelo: sei que hei-de começar a queda lá em cima, no topo das escarpas e que vou acordar ainda a meio, pela manhã, quando tudo recomeça.


Tuesday, November 21, 2006

Pôr fim à dor ou trazer mais dor? (eu não sei a resposta!)

Sim, podia até colaborar na morte como bênção, como finalização digna de uma vida vegetativa onde a qualidade, para além de não existir, nem pode ser avaliada pelo ser que está vivo porque de um vegetal se trata. Seria o desligar da máquina. Ponto final.

Sim, podia colaborar na morte como bênção, como finalização de uma vida sofrida, sem perspectivas como era a de Ramon Sampedro, vinte e cinco anos de um ponto final no mais leve movimento físico: “ un tetrapléjico es un muerto crónico que tiene su residencia en el infierno”, disse ele, ou deixou escrito, desesperado pelo reconhecimento de um suicídio assistido porque nem as mãos o socorriam para levar à boca o veneno mortal, à falta de pernas que o levassem a um lugar qualquer. Seria o satisfazer de uma vontade de pôr fim ao nada. Ponto quase final … ficando por saber da minha coragem para o acto “abençoado”.

Sim? Sobre uma criança? Uma criança com deficiência profunda, com os dias de vida contados, em fase terminal e sem esperança de retorno? O meu filho ou a minha filha?

Para mim que vivi o drama de uma deficiente próxima que quase me ficou em herança porque a longevidade instalou-se ali como que colada ao corpo deformado de um ser semi-gente… semi-nada…
Para mim… a questão é dura.
Teoricamente parece fácil, mas quando tem de ser a nossa mão a decidir…

Na Holanda (é sempre na Holanda) fala-se nisso. A polémica está instalada:

Reviveram os médicos alemães dos anos 30?
Mas…
Vale a pena ser privado de vida própria para toda a vida porque se teve um filho que não tem vida?

O que é que vale a pena nesta vida tão curta e tão pesada onde a matriz judaico-cristã nos deixou acreditar que o sofrimento liberta, ou é saudável, ou dignificante, ou encaminhador da vida eterna…

Sunday, November 19, 2006

Abraços



Do mar à montanha vai a distância medida em diagonais concêntricas. E o acaso.
A possibilidade não acontece apenas nas palavras inventadas. Tu sabes. Também o enlaçar que fica dos primeiros tempos aprisiona. Ou prende. Ou liga.
É uma linha traçada na geografia, do extremo oeste ao extremo este, mas vista do sul para o norte. Uma história em que eu também entro, ainda que à distância, envolvida nas diagonais das coincidências. Mas isto sou eu que digo, fechada na pequenez do meu espaço. Lembro, contudo, dias de verão em que nos juntávamos a ver o mar. Lembro a pedra da galé e as ondas batidas na extensão da areia até às rochas. Abelhas, búzios, peixe fresco e festa. E drama.
Depois passaram os dias e com eles os anos, sem que a gente se apercebesse dos limites do tempo. Os outros envelheceram, dizemos nós que vamos limpando todas as manhãs as folhas secas que o vento deixa espalhadas pelo pátio. É Outono apenas; mais nada de importante se passa para além dos ciclos que no espaço descrevem as diagonais. Digo eu, de novo fechada nesta pequenez.
O teu espaço é agora mais vasto e a erosão dos elementos não perdoa a calma com que disfarças os gestos cansados. Temos rugas, todos; vêm ao de cima fragilidades que provavelmente partem dos ossos gastos nas caminhadas mas chegam também à pele pregueada a mirrar de teimosia. Perto de ti há quem precise de um agasalho quando a geada cai e tu sabes trazê-lo no momento certo. Não é que esteja frio; se estivesse seria mais duro lembrar que Dezembro não tarda. Assim, só o entardecer precoce do dia lembra o passado.
Não muda em mim esta tendência antiga de colocar as manchas negras sobre as cores; mas tu disseste que já não recordavas o que se passou ontem. Que fique para trás o passado e os monstros que o povoam, foi assim que eu ouvi. Soube bem abraçar-te.

De tudo o que fica é bom saber que o laço aperta ainda e que os sentidos se agitam quando a gente aperta no colo os bracitos tenros ou quando se festeja a amizade num soprar de velas.

Thursday, November 09, 2006

Arco-íris em paleta de cores

Ao meu filho

Não posso falar aqui de amores sem trazer à conversa o arco-íris na paleta de uns olhos que nasceram atentos aos movimentos imperceptíveis dos planetas. Uns olhos que copiam da linha calma do mar o equilíbrio, e o transportam para a mão certeira que faz sair depois, da ponta de um lápis, a sensibilidade em exigência dura.
Olhos que nascem no coração e se mostram em sorrisos tranquilos. Meus, só no momento do primeiro toque e logo depois em conquista de um lugar no espaço. Luta dolorosa em certos dias já passados e ultrapassados. Esperança minha, barro tirado de mim para ter forma própria.
Ligação apertada, a da palavra com a imagem. Entre mim e ele um laço escrito, estreito, desenhado a pastel sobre seda fresca. Ligação de cumplicidades assente em leito firme.

Ligações de amor incondicional, estas que me prendem a uma Lua e a um Sol em volta dos quais giram os meus olhos. A tentar pôr distância na proximidade, não vá o fio apertar em excesso o jeito de voar que as minhas asas lhes ensinaram.

Wednesday, November 08, 2006

Selene

à minha filha

Era o travo do meu pão a saber-te a pouco e tu a amassares com raiva uma massa tenra já crestada. Ou nem por isso mas simplesmente porque esmurram a farinha e saltam e se soltam, as crias, quando chega o dia.
Era um gosto gasto, insisto. E a ira colada às tuas asas com sonhos de Ícaro.
Era o casario da beira-mar a chamar-te para o centro e tu em desejo de sair do labirinto na vertical, por sobre as águas do rio e sem pontes.
Era o atrito das coisas próximas a faiscar e eu a subir em vão os degraus para te travar na torrente bruta das palavras. Sem te alcançar. Sem nos vermos frente a frente por ser nas costas que eu carregava o fardo cujo peso dobrei em culpas.
Era a tesoura a cortar o fio das mãos esticadas que se tocavam ainda ao de leve mas a medo.
Era a solidez no desafio dos olhos, heranças minhas; pão de mistura com travo a passado firme, pronto a enfrentar o dia novo, na vertical, mas repousando aos poucos na ponte que tecemos de uma margem até à outra.

Sunday, November 05, 2006

... entre a porta e a lua cheia

Tenho sempre a sensação de ter ficado à porta. Entre a porta e o tempo que vai escurecendo as paredes. O lado de dentro. Entre a porta e a lua cheia que as marés transportam. Chamam-me do lado de fora as marés de arrasto e eu firmo os pés.
Tenho sempre a sensação de ter uma porta entre mim e o que não fiz; entre mim e o que não faço. E um relógio nas mãos.
Procuro com os olhos um lugar especial, um lugar como o lugar antigo onde o tempo não deixa regressar. Queria sentar-me, inteira, do lado de dentro, na calma de um lugar paciente. Tenho saudades de estar completa nos risos e nas brincadeiras a quatro, quando éramos quatro. Saudades que o tempo agrava em vez de aligeirar.
Vejo-me; observo-me; ali entre a porta e o lado de dentro onde nunca estou inteira. E no lado de fora está sempre uma temperatura que me incomoda.
A lua ao alcance das mãos e eu entre o abrir e o fechar da porta.
Frases elípticas; frases de não sair daqui, de não chegar a lugar nenhum.
À porta, sem saber para onde dirigir os ponteiros do relógio.

Tuesday, October 24, 2006

Malha o ferro

ao meu avô que era ferreiro

É uma ponta incandescente que tem de ser trabalhada até ter forma, um trabalho que deforma a forma das tuas mãos, que faz de ti o obreiro da matéria, da miséria, da pobreza que transportas quando te dizem que um dia vão pagar-te a forma inteira com que desbravam a terra, as enxadas, as enchós, as forquilhas, as tenazes, tudo moldado a preceito, ao teu jeito, um jeito que não sabias mas que te fez crescer gente, na bigorna em que tu malhas e dás forma ao ferro quente, saído do forno raso, uma ponta incandescente que o fole soprou por dentro até a deixar capaz de ser moldada a preceito, ao jeito das tuas mãos que lhe vão malhando a forma, enriquecendo-te os modos com que dás jeito às enxadas, às enxós, às forquilhas, à tenaz que são os dedos, à força com que tu gemes cadenciando a batida, triste vida que te obriga a malhar até ser noite, pintado a negro o teu rosto, enfarruscado, engelhado, moldado a fogo o teu corpo, já curvado do cansaço, já sarnoso no cotim da camisa acastanhada, cor do ferro ferrugento que tu moldas a preceito, na solidez da bigorna onde o malho bate forte, na má sorte, na má vida, esquecida no copo exausto com que terminas o dia, no balcão de uma taberna onde te servem fiado, onde escondes a desgraça de ter nascido entre o ferro e o cansaço de o malhar e a vertigem da fraqueza disfarçada pela força que a fibra rija do corpo, moldado a fogo e a fole, transformou na forma exacta de um homem de mãos compridas, dedos longos com que agarras a tenaz, o malho, o ferro, a bigorna, o fole, o carvão, a enxada, acabada, encabada, procurando a forma inteira para entrar pela terra dentro, arrancando à pedraria um destino ferrugento, marcado a ferro e a fogo, onde o malho malhou forte, forjado à força da fibra que deixaste como herança à gente a quem deste forma.



Saturday, October 14, 2006

Lenga-lenga-lenga

Escher

Dou um passo no espaço, colo os pés às areias, prendo os passos e os braços, localizo as estrelas, fecho os olhos e canto, dou um salto no escuro, olho a lua a nascer, sinto o mar à distância, ouço os montes e os vales, as colinas, as rias, a folhagem que mexe; sinto as asas que nascem, debutando nos braços, sinto as ondas que galgam, as fronteiras riscadas, os ribeiros que correm, os rebanhos que aninham, gotas de água nas nuvens, as gaivotas rasando, o mar em tons de bruma e a forma a perder-se, entranhada na névoa; sei de um rio que brotou, sei de um peixe dourado, sei da ponte que liga, sei dos eixos da vida, sei dos passos parados a lembrar as viagens, sei do sangue nas águas e das lutas eternas; vi os homens nas naus, vi o vento nas velas e o sangue a espalhar-se sobre as águas sagradas; e uma barca sem quilha e uma arma disforme disparando às escuras sobre os povos sem culpa, sem uma nesga de espaço, que se diga inocente, sem um metro de terra ser poupado à sangria, sem que um deus ilumine a fadiga dos dias, sem que um passo no espaço diga ao corpo que avance, diga ao corpo que exija, que antecipe a surpresa, que consagre o momento em que o espaço se alarga e a vida se espraia.
Dou um passo no espaço, dou um salto no escuro, solto os eixos da vida, digo ao corpo que dance e às asas que voem.

Wednesday, October 11, 2006

Aristóteles - Sobre a Educação

É claro que venero os gregos.
Em linguagem mais ou menos lírica, na medida do meu próprio estilo, tenho deixado aqui hinos aos deuses. Sabe-me bem louvá-los na sua harmonia e na perfeição das suas formas. A figura humana é de uma beleza admirável.
Gosto também das simbologias presentes nos mitos e das suas explicações fundadoras.
Contudo, há outros aspectos que não merecem menor destaque no modo de pensar dos antigos gregos e as palavras de Aristóteles que hoje aqui deixo estão mais actuais do que nunca:


Que o legislador se deve ocupar antes de tudo da educação da juventude, isso ninguém pode contestá-lo. E efectivamente os Estados que se desinteressem deste dever causam um grave dano às respectivas constituições, pois é necessário que a educação recebida seja adaptada a cada forma particular de constituição. (…) E dado que há um fim único para o Estado no seu todo, é evidente que também a educação deve necessariamente ser uma e a mesma para todos, e que o cuidado de a assegurar cabe à comunidade e não à iniciativa privada; (…) E não é sequer exacto pensar que um cidadão se pertence a si mesmo; na realidade, todos pertencem ao Estado, pois cada cidadão é uma parte do Estado, e o cuidado de cada parte está naturalmente orientado com vista ao cuidado do todo.”
Aristóteles, A Política

Saturday, October 07, 2006

Apolo em Delfos




Vi-o chegar no dorso de um golfinho, salpicando a pedra das colunas com o aroma das folhas de loureiro. Saiu do rasgo das nuvens e a terra inquietou-se no vapor da rocha sibilina.
Nas águas ondulantes espelhou-se o recorte da nudez e a folhagem murmurava a elegância, entre a timidez e a ousadia dos sussurros. Fechei os olhos a fixar-lhe a forma das feições.
Corriam pela encosta as musas ao som das cordas da cítara. Coros de melodias estremeciam sob a harmonia dos seus dedos.
Vi-lhe a placidez dos gestos na calma com que as mãos dardejavam os raios sagrados do Sol.
Apolo chegava antes dos homens e triunfava no cimo das ruínas.
Em Delfos.


Friday, October 06, 2006

evolucionismo e/ou criatividade?

Quantas milhas terá Calatrava percorrido, desde o engenho romano ...




Ponte de Lima (ponte romana sobre o rio Lima)

Bilbao (ponte pedonal sobre o rio Nervión)

Tuesday, October 03, 2006

Bilbao



Espelhei-me em vidro robusto, inteira nas convicções, confiante no domínio das palavras. E tudo foi acontecendo, desde os passeios descontraídos que a cidade permitiu, à exibição pública do resultado de esforços entrecortados por deveres quotidianos, meses a fio.
Agosto foi de recolhimento; algumas vezes de desespero; agora é já Outono outra vez, parecendo ter-se cumprido um ciclo de destemperos. Foi por isso o tempo certo para fazer saltar para fora da curva elíptica a natureza graciosa que invento e visto em dias de voz cristalina. Tudo dobrado no recorte da água. Tudo numa sala fechada no espaço mas aberta ao mundo ali presente e às ideias que chegaram até mim como se fosse ainda e só adolescente curiosa.
Venho enriquecida desta viagem à Universidade de Deusto, onde o saber parece forrar as paredes antigas dando-lhes ainda mais imponência. E creio ter enriquecido também o conhecimento dos outros. É tempo de registar sem dramas a chegada do Outono e procurar nele as cores do sucesso.
Não tem de ser o brilho metálico e desalinhado do Guggenheim. Contudo, na irregularidade das linhas e das formas achei a coerência e a beleza que a água espelha.


Tuesday, September 26, 2006

... que foi que me disseste?

Depois passaram dias, muitos dias, disse eu como só os velhos dizem quando contam histórias que os outonos agigantam; e dos dias passados ficaram memórias aplacadas pelos ventos de todos os quadrantes, sementes perdidas nas dunas a aguardar as gotas de água.
E depois dos dias embrulhados nas memórias, gravados nelas como riscos afundados no lado de dentro da pele, diz o acaso que aos olhos não falta muito para verem a luz dos dias novos; que às mãos está destinado o toque mágico do final do dia e que o beijo é capaz de voar a distância e fazer-se calor no momento da chegada.
Se vieres do lado do mar estarei no cais. Se for ao contrário serei barco. Ao fim de uns dias um e outro encontram-se. Invariavelmente um parte. Ou partem-se os dias, despedaçando-se os sentidos. Não importa. Nada no mundo pode deixar de ter sentido enquanto os dias passam.
Se me disserem que vivo de encantamentos acredito.
Ilusórias são todas as palavras e o que nelas passa a símbolo não é mais do que a construção de quem as lê. Mas a mim que as escrevo e nelas me fascino, não me preocupam os sentidos.
Basta que o dia chegue.

Wednesday, September 20, 2006

Há uma certa sala, no Museu de Arte Antiga...

As tentações de Santo Antão - J. Bosch

Ali estava de novo com os olhos postos no tríptico. Se ao menos as duas senhoras roliças, de saia azul, afrouxassem o olhar vigilante, ele conseguiria aproximar-se do painel central para decifrar a expressão do náufrago, que também podia ser um prisioneiro, um morto ou a figura de proa de um barco alado pelas suas próprias mãos.
Parecia ter óculos. Mas não tinha braços e os olhos estavam fechados. E havia uma malha, tecida sobre o esgar da boca e uma folha manuscrita diante do rosto.
Olhou para trás. Já só estava uma das vigilantes, colocada ali mesmo ao lado do rosto encarquilhado de S. Jerónimo, que subalternizava o corpo de Cristo à lisura do crânio sobre a mesa. Voltou-se mais uma vez para o painel e concentrou toda a atenção no desespero das mãos a saírem do flanco de uma ave gôndola, cujas asas aprisionavam em vez de libertarem. Procurava entender, uma a uma, as tentações do eremita, misturadas numa amálgama de horrores onde nem o azul do céu transmitia sossego.A vigilante continuava imóvel, de mãos enlaçadas, só os olhos pequeninos guardavam a sala.
Saiu devagar, estonteado, de mãos nos bolsos, evitando o grupo de turistas. Tinha a sensação de estar submerso num lodo. Ainda olhou em volta com a impressão de estar a ser vigiado. Nas últimas semanas sentia-se a enlouquecer: em todos os olhos a acusação, em todos os lugares a perseguição. Um carro preto a rondar-lhe os passos, dia e noite, estacionado ao fundo da rua.

Voltou a entrar na sala semi-obscura do museu. O quadro atraía-o. Demorou-se ainda um pouco mais a olhar os painéis, mirando-os de todos os ângulos. Olhava outra vez as tentações, uma a uma.
Era o sofrimento o que mais o afligia. Ou a traição, por detrás do sofrimento. Sentia-se arrastado sobre um passadiço de madeiras frágeis sob as quais Inácio Ventura conspirava, assinando contratos em folhas sujas que o Silveira transportava nos dentes arreganhados. Serviam-lhe tentações dentro de bandejas e depois faziam-no cair da barca arrastada por demónios celestes, encavalitado no dorso escamudo de um peixe. Via germinar do ovo a ave que depois engolia as crias e era nessa altura que a matriz da culpa o abanava por dentro; mas quando desviava os olhos para o náufrago, identificando-se no desespero das mãos, compreendia que era ele que arrastava a barca de onde emergia a cabecita de uma criança, torturada pelo bico de uma ave despida. Até o apelo da luxúria, arrumado há muito na memória e na consciência, lhe ocorria agora. A punição tardara.
O manuscrito, junto ao náufrago, estava a ser uma obsessão. Podia estar ali escrita a salvação, um segredo proveniente de um lugar qualquer situado entre o céu e a terra, a indicação de um caminho possível, um contrato que ele só tinha de assinar, fosse com uma qualquer mão divina ou demoníaca, para que se abrisse o caminho certo.
O olhar das vigilantes era agora mais insistente. Ele evitava-o, cada vez mais próximo do quadro e da culpa. Malditas sentinelas, as duas ali muito aprumadas no seu papel a murmurarem condenações.
O Silveira tinha-lhe oferecido uma daquelas tentações, e ele cedera ao desejo mais singular de um homem, a construção perfeita, a obra acabada. E o que via, em resultado da sua ambição, era uma torre de Babel aberta em ruínas, rebrilhando nela um Cristo crucificado. Um apelo, no desembocar do fio de luz, que nada lhe dizia. Nunca fora homem de crenças. S. Jerónimo já tinha deixado em plano secundário o símbolo, assentando o seu olhar nos livros e naquele crânio despido.
Sentiu uma náusea. Tinha rodado os olhos mais uma vez, sob o efeito da presença das vigilantes. À sua esquerda viu, exposta num prato e imersa numa cinta de sangue, a cabeça de S. João Baptista.