
Depois fui trabalhar, mas já tinha ido às compras e deixado o almoço feito. Antes tinha estado a ajudar um dos filhos a rever um trabalho mais exigente cuja apresentação era hoje, no IST. (correu bem, já sei). Tinha estado também a ler até tarde, coisas de trabalho, também, mas outro, um que faço por conta própria e sem remuneração. E não é só por prazer, porque isso seria ter um livro para ler e não o fazer. É que não me apetece estar no mundo por ver os outros, e a preparação das aulas mais a correcção dos trabalhos e a organização de materiais é coisa de pouco desafio, ao fim de uns anos. Absorve tempo, sim, mas não satisfaz. Podia dizer que é para estar melhor preparada, que é pela exigência do meu público, pela boa preparação que lhes quero dar. E quero. Só que não tenho resposta. Mas, ainda assim, não se pode entrar numa aula de 90 minutos e esperar que 20 e tal adolescentes nos oiçam. Teoria? Nada disso. Levava, pois, a mala cheia de papelada, textos, cartolinas com imagens, bostik para as colar no quadro, fichas de trabalho…
Dormi pouco, portanto. E a escola já não é o lugar para onde costumava ir com gosto e vontade de novidade. Apetecia-me tudo menos confusão.
À chegada, ainda antes de entrar ao portão, dei de caras com muitos e muitas, todos ao monte junto aos carros estacionados. A maior parte dos carros são deles e é vê-los à saída todos inchados porque vão pegar no popó e fazer figura. Os professores (os que têm carro) têm de estacionar onde calha…
Estou a falar de uma escola secundária, onde agora também se misturam meninos do ensino básico, tudo junto e em guerra.
Ali estavam umas dezenas de cabeças com bonés, reparei nisso, pareciam equipas diferenciadas, uns de lá e outros de cá, assistidos por terceiros que esfregavam as mãos porque ia haver porrada…
Vi-me metida no meio, jé eles se empurravam. Fiquei com os ouvidos cheios das palavras que eles mais sabem dizer. Não me atrevo a repreender ninguém, não resulta, já fui insultada quando o fiz. Eles não chegam a perceber porque é que é incorrecto dizerem “foda-se” e “caralho” 799 vezes por dia, em todos os lugares públicos e privados; e não acredito que todos os progenitores sejam trabalhadores da construção civil.
Chamou-se a polícia. Não vieram.
Depois passei a tarde a fazer telefonemas porque os que eram meus alunos podiam ser meus filhos e se fosse eu a mãe ficaria grata a quem me dissesse que à porta da escola se fazem esperas, um gang de cada lado e os carros cheios de paus e ferros.
Só me faltava dar uma aula para acabar a tortura. Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade. Direitos do Homem e do Cidadão… e eu entusiasmada com as analogias que ia trazendo à conversa. Meia dúzia a ouvir e os outros em pleno galinheiro. Um canta baixinho. Quando me calo, cala-se; quando recomeço, recomeça. Uma derrama o tubo de cola sobre a mesa e põe-se a guinchar. Separo dois. Amuam e dizem que já não trabalham mais. Um deles ainda diz “Pois agora é que vou mesmo portar-me mal”. Ponho alguém fora da sala? Quem???
Quero continuar a esquematizar, no quadro, aquilo que muda num país com uma revolução. Gostava de lhes explicar o que é uma constituição e o que é o poder legislativo e quem o desempenha nos países democráticos…
Uma voz diz “Nós também somos povo e devíamos era fechar na sala de professores os cotas todos que nos atrofiam com estas tretas”.
Cansei-me. Parei. Tentei brincar… às vezes resulta.
Saí.
Amanhã volto para o mesmo lugar.