Wednesday, August 30, 2006

férias com mar


Está-se bem lá em baixo. Depois do calor da tarde o sol esconde-se por detrás da serra mas o mar ainda aconchega em ondas pequeninas e mansas. O corpo estendido na areia descansa da azáfama dos dias e a mente repousa, calma e enxuta.
Ali ou noutro mar qualquer é onde vou estar nos próximos dias.

Tuesday, August 29, 2006

"mulher fragmentada"

Ela fez o desenho e ofereceu-mo. Pediu um texto e ele saíu, verdadeiro, mas um pouco forçado nas rimas...

Fui tecida num tear de madeira crua e depois enformada num invólucro de numeração errada, um número abaixo das minhas dimensões. Cheguei ao mundo apertada.
Cresci com vontade de saber o que estava para além do fim da rua mas tive sempre medo de atravessar a floresta e descobri-la desencantada. Nasci incrédula.
Compus-me de timidez, fio a fio, linha tecida e retorcida numa mente insatisfeita mas contida; devo ter crescido encarcerada.
Aos poucos fui vestindo tecido acetinado, enfadada de tanto me encerrar na pequenez herdada. Pequenos complementos em fios de seda, escondidos, sentidos, vistos; e depois o gosto de me sentir recompensada.
Sorri quem sabe ser desejada. Investe quem tem um espelho grande e tece nele linhas cruzadas, desenleadas pela sublime sensação de ser amada.
É claro que fui feliz, da paz dos dias novos ao nascimento da prole desejada. Casa cheia de gritaria numa alegria abençoada.

Não sei se é problema deste espelho, ou se sou eu que me vejo numa imagem desfocada, mas os fios com que me visto agora são estas linhas quebradas, fios enleados, emaranhados, mal acabados …
Onde está a parte que me falta, as partes que me compõem: o corpo, as pernas, a cintura antes tão bem desenhada, as minhas mãos engenhosas e a saia fantasiada?
Não, não me digas que é uma tristeza inventada. É que a casa está vazia, tudo agora é um espelho descomposto, ou são os olhos que o quebraram e eu estou nele assim fragmentada.

Desalentada?
O coração está inteiro! Direi ao espelho que recomponha a minha parte apagada.

Friday, August 25, 2006

Memória vs. Rastilho ( ou vice-versa mas com outras palavras)


Lambi ainda esse ferro com que me feriste todos os sentidos
Enquanto me resguardava do abandono e o desejava;
Faz impressão não conseguir imaginar que tudo é outra coisa
Quando a noite arde sobre o corpo a deixar-se cair de encontro a uma parede branca.
Dizem-me as rugas que foi há muito tempo;
Os filhos cresceram sobre o sangue desse fim de tarde
E eu não creio ter sabido limar os vértices do drama
Enquanto vi grinaldas onde estavam cardos.

Ainda hoje não sei de espinhos mais profundos
Limados pela carne abandonada, ressentida
A sangrar, a sangrar em cada uma de todas as noites que vieram a seguir.
Durante os dias o corpo deslizava sobre grinaldas desfeitas
Refeitas em harmonia amedrontada da qual fizemos solidez.
O pior é perceber que é ainda de encontro à mesma parede branca
Que busco um fim de tarde, um fio de luz,
Um som que rompa a solidão, um fio de lucidez.

É tempo de ser o tempo exacto da partida
Os filhos crescem, o tempo vai deslizando inteiro sobre a carne mal tratada.
Os fins de tarde trazem apenas o pôr-do-sol e a noite entranha-se
No sentido dos versos arrancados às palavras.
O fumo de um cigarro que se escapa sob o brilho de uma estrela,
Um gato que se roça, um pensamento,
Um desejo de aurora calma disfarçada de euforia. Ou vice-versa.
Tudo a gastar-se na loucura sangrenta desta lágrima.

Monday, August 21, 2006

Cama Elástica



(... é uma história que estava lá para o fundo, escrita em Agosto, mas não este. Trouxe-a de novo...)

Era comum ouvirem-se múltiplos ruídos e eles denunciavam quem andava pelos espaços amplos da casa, corredores com retratos dos antepassados a vigiarem as traquinices e as intrigas, compartimentos a cheirarem a mofo, cumprindo os lugares de esconderijo nas aventuras da infância, escadarias de madeira encerada a servirem de escorrega à imaginação. À volta eram as pedras das paredes que reverberavam os sons do pensamento.
Ouviam-se os passinhos de pardalito do Zézinho, a dureza dos sapatos em que encarceraram os pés achatados da Paulinha, a borracha das sandálias do João Luís e o pisar ousado dos saltos conquistados pelos doze anos da Isabel. Ouvia-se tudo e sabia-se de tudo, apesar das paredes de pedra, masmorra de prisioneiros, dizia ela atirando as palavras contra o corpo baço da mãe.
Entre os sons havia agora um que se sobrepunha a todos os outros, vindo do compartimento mais apertado, um ruído que se afirmava com uma cadência certa, acompanhado do som persistente do suor que vinha das entranhas e colava os cabelos loiros da garota ao seu rosto claro. Um som que se tornava familiar mas que incomodava sempre a paciência do avô, enrolado num chaile, num quarto de janelas fechadas: “um dia a miúda ainda se parte toda!” gritava o velho do abandono do seu canto, suplicando ainda mais uma vez à filha que desse fim àquela cama elástica que desde há semanas tinha sido colocada na pacatez do palacete familiar.
A mãe cedera à persistência com que o pai falara no objecto mas começava já a dar razão ao velho. Não eram as queixas que a incomodavam, não, mas a ameaça sobre a sua paz. Uma ameaça que vinha desde o nascimento, desde que aquele ser miudinho a desafiou, mal definiu o verde dos olhos. O que restava dessa paz eram farrapos, desfeitos agora pelo ritmo infernal com que ela saltava no elástico vermelho, de olhos abertos em direcção ao tecto.
O pai dissera que a miúda iria cansar-se ao fim de uma horas e que dormiria noites mais serenas; deixaria de andar a saltitar pelos corredores e a pular canteiros derrubando as sebes; deixaria de trepar as árvores para chegar às nuvens.
Tinham passado dois meses e ela não saíra daquele compartimento fechado. Teimava em saltar cada vez mais alto e quando a mãe vinha, lembrando outra vez o pão do lanche, assanhava os olhos e esticava as mãos exibindo as garras côncavas. “Ela diz que vai chegar ao mar!”, repetia a voz da mãe, em desafio.
No quarto o velho tapava os ouvidos e chorava devagarinho, antevendo a desgraça mas desejando-a, cerrando os punhos e rindo para dentro de si, como se o desejo fosse uma asa.
Os elásticos desafiavam as leis da gravidade, sob os pés alados da miúda. De facto, era visível o branco rendilhado dos apêndices que se desenvolviam a partir dos tornozelos. E enquanto as asitas cresciam ela melhorava os saltos, uma vez e outra vez e outra vez e ainda outra.
Fixara um ponto junto ao tecto, uma espécie de quadrado que era uma janela aberta na imaginação, ponto de fuga, diria depois, desenhado ali junto ao tecto. Fixou o ponto, bem no centro do quadrado, e inspirou o ar todo da sala para dentro dos pulmões, abrindo mais os olhos transparentes para que neles se reflectisse o céu através das pedras.
O velho ouviu o barulho e ocorreu-lhe a ideia de um terramoto, mas sabia. Por isso ficou em silêncio. A mãe gritou e ouviu-se, aflita, na sua voz de vítima. No tecto da masmorra ficou um buraco, alargada a dimensão do quadrado desenhado a vermelho. Ela já voava sobre a construção, que oscilava sob o efeito demolidor que o buraco causara na estrutura. Voava sem olhar para as pedras que se soltavam e já via o mar.

Sunday, August 20, 2006

fatalismos a preto e branco

Ouves lá fora a água sobre as poeiras das conversas?
É chuva.
Mas ouves a brisa que baila em volta da inércia pedindo danças?
É o vento. Aqui é raro o dia que não há vento.
Mas as danças…
É apenas o movimento do Universo.
E os sonhos? Consegues ouvir que ressoam nos diálogos?
Tenho os pés assentes no chão.
E o chão? Sentes ao menos que o chão existe?
Sim, o meu. Se estiveres neste círculo está tudo conforme os desígnios.
Mas há teorias a mais nos livros que cobrem o teu chão!
Alimentemo-nos desse pão.
E o mundo? Lá fora há um mundo por viver.
Tu tens asas. Rasga as nuvens. O meu plano está resvés a base entediante do nível do mar.

Saturday, August 19, 2006

Thursday, August 17, 2006

efeitos do verão 2.

Imagem do jornal El Mundo

Feitas de verão as verdades cruas e as cidades arruinadas onde o negro das crateras e das casas que já não existem deixa à mostra os efeitos concretos da carne em chamas e da outra já calcinada que o tempo há-se gastar.
Feito de verão este efeito de sentimento áspero, verdade crua a despir as roupas coloridas gastando-se o sentir no tédio dos fios de seda inventados para dar cor à estação feita passagem, quase paragem.
Feitas de ódios eternos as verdades de ambas as partes do mundo sem que seja possível ou desejável tomar partido ou apenas dizer do bem e do mal.
Feito de calma peganhenta este pensamento veloz e repetido de um verão que nada traz de novo a não ser um efeito cíclico de insatisfação crua, estéril, negra sobre as cores que o sol deposita na superfície das águas de um mar ausente.
Feitas de gelo as imagens certeiras das ruínas onde nem tão pouco se podem achar culpas para ao menos lhes dar o efeito de razões imaculadas que libertem a alma das tragédias.
Feito de imagens este pesadelo mediatizado em reportagens cruas onde tudo é tão concreto como a descrença que sobrevive às telas construídas sobre o efeito das abstracções.
Feitas de horas arrastadas as guerras que travo comigo e os acordos de paz que vou permitindo para sentir apenas que a vida é um esforço laborioso.
Feito de gritos, depois da seiva dos risos, o vazio da descoberta de uma invenção entrançada em desejo e memória, que o tempo vai desfazendo por falta de consistência.

Sunday, August 13, 2006

efeitos do verão 1.


O verão deixa cair, uma a uma, palavras abstractas
deixando seca a corola que as sustinha
Não direi que secaram. As palavras não secam.
Mas de tanto as inventarmos elas cansam
ou cansam-se do uso repetido com que inventamos
todos os desejos depositados em flores
imaginárias, que a primavera vai emprestando
à nossa carne em chamas.

O verão devia permitir gritos concretos
e lançar no espaço os restos da invenção
seca. Culpa nossa que deixamos escorrer no riso
a seiva dos desejos renovados; e as palavras.
Culpa deste sol que desce em fios de seda
macios contra uma carne que toca a nossa carne por dentro
sobrando desse toque, apenas, os sinais das vísceras
queimadas e gastas de tanto as imaginarmos perfeitas.

Thursday, August 10, 2006

Calor a mais

E tinha tomado como referência o calor do Universo para me pôr de bem comigo quando há tempos o Outono caía no seu tombar finalizador e me arrastava. Agora, porém, dificilmente resisto à vontade de me defender. A temperatura exterior ultrapassou a da minha pele e por isso derreto nesta lassidão agravada pela falta de contornos. Não que os contornos tenham a ver com o sol. E daí, talvez tenham, sim, que o excesso de luz rouba a clareza das coisas e o solo reverbera a escassa humidade que anda ali pela superfície rasgada da duração feita prolongamento. Solo frágil onde todo o verde se tornou secura à mercê das chamas até não restar mais do que a esterilidade das cinzas.
Não me apetece estender-me ao sol. Muito menos enfrentar os caminhos de areais escaldantes e as corridas desenfreadas por um lugar à sombra. Há gente a mais nas praias, nos estacionamentos, nas estradas. Paradoxalmente, se cada um se sentar ao volante do seu automóvel, de vidros fechados para melhor sentir o fresco do ar condicionado, dificilmente reconhecerá que na pista ao lado a solidão tem o mesmo som.

Mas de que é que eu estava a falar?
Ah, sim, do excesso de calor e destas noites em que os corpos não desejam tocar-se para não se derreterem naquilo que deles sobra neste Verão com cheiro a queimado.

Wednesday, August 09, 2006

O Verão também tem horrores



Quando Agosto chega e com ele este calor entediante e cansativo, não posso deixar de me lembrar de um relato soberbo de Mário de Carvalho em

Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto:

“E ei-los assim a altercar a travessia do Sado, alheados dos golfinhos, a caminho do seu primeiro dia de férias, como sempre, na Costa da Caparica, em Santo António, num rés-do-chão que arrendavam há anos a uma velha rabugenta, proprietária de muitos gatos, cujo odor continuava a impregnar a alcatifa, ainda que no Verão estivessem carinhosamente recolhidos noutro lugar qualquer, para dar lugar a veraneantes.
E, por ora, ponto final.

Joel Strosse tinha agarrado numa revista francesa, Ça Ira! E procurava concentrar-se num artigo intitulado “La gauche post-moderne, une déconstruction em marche?”, mas não conseguia passar do primeiro parágrafo. Era à tarde, cirandavam moscas em de permeio, umas melgas franco-atiradoras, prontas a atacar pela calada da noite, com aquele ruído característico da Fórmula 1, mais irritante que as alergias da matadura.

(…) pela janela gradeada via passar os veraneantes que regressavam da praia, dobrados ao peso dos guarda-sóis, basto enfadados , num carreiro sem fim. Pareciam zombies, de carnadura flácida, jeito mortiço e olhar vazio. Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta.

(…) Cremilde, sentada num sofá estampado de flores, cujos castanhos e cinzentos não se sabia bem se eram obra do artista desenhador ou do uso continuado, ia folheando a Elle e perorando destarte:
─ Vem aqui que as varizes não têm cura. A operação pode aliviar um bocado mas cura é que não há. É um médico que diz. Traz fotografia e tudo.
Joel chegou-se à janela com o intuito de baixar a gelosia, tarefa árdua, científica e complicada, com aqueles fios todos num emaranhamento marujo.
(...)

As ruas ficavam cheias de gente, (...) os contentores transbordavam de lixo (...). Ainda por cima, havia bichas no supermercado e o ambiente estava impregnado por fumos de churrasco de frango dos restaurantes improvisados, geralmente governados por bigodaças imundos, com barretes às três pancadas, muito refractários às inspecções dasactividades económicas."

Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, ed Caminho, 1995, pp. 42-45

Wednesday, August 02, 2006

O mal está sempre nos olhos

Tamara de Lempicka

Pega-se no volante no mês de Agosto e segue-se viagem.
Ou noutro mês qualquer, é sempre tempo de seguir viagem.
Disseste que foi separação? E daí? O mundo não pára para quem interrompe o percurso; o mundo nunca parou nem nos dias em que o céu decidiu desabar ou o chão se afundou deixando ver o (completamente) vazio.
Achas que os olhos denunciam? Que te dizem eles?
A mim, nada. Ali estão, fingindo transparência.
Ela foge? Achas que foge?
Não, não sei se tem filhos mas não parece que esteja presa. Apenas segue viagem.
Ou enlouqueceu?

Tuesday, August 01, 2006

Os diálogos do desejo (mas também o desejo dos diálogos ou a sua impossibilidade por pequenas diferenças de formato)

Magritte

Por causa das reflexões dela, aqui.
Não temos que comprar o pano e esperar que a modista trabalhe as formas elas existem feitas para se nos moldarem ao corpo e nos decepcionarem quando não cabemos nos padrões vindo daí o sofrimento de não podermos ser como os outros que por sua vez cabem nas formas mas viram apagar-se subitamente o fogo da paixão que dias antes ardera em prazer partilhado e consumira depois a cabana ainda sem tecto.

Poder dar forma aos dias sem ter de inventar os outros para que a realização pudesse ser real; poder usar todas as formas de egoísmo sem que o fosse ou se lhe assemelhasse por mais que os braços se cruzassem sobre o peito fechando neles o desejo satisfeito.

Não temos que nos fechar sob um tecto de vigas sólidas quando sabemos que aqueles que conseguiram afirmar a transparência das paredes correram o risco da claustrofobia e acabaram por lhe sentir o peso inteiro quando as vigas desabaram e os esmagaram em vez de os protegerem da dor que continuamente combateram com pílulas e outras invenções que aliviam o mal-estar do dia-a-dia que desejavam leve e solto como a corrente de um rio que os levasse ao rumo certo sem que alguma vez tenham sabido o que é certo por inventarem as certezas projectando no outro ou nos outros o que neles pede a forma.

Poder dar solidez a uma casa deixando-lhe as aberturas certas para entrar e sair nas alturas certas sem que os alicerces oscilassem mesmo quando apetecesse mudar a forma e cruzar os braços sobre o peito fechando neles o desejo satisfeito.

Não temos de ficar permanentemente à espera que na vida exista muito mais do que isto ou aquilo a que chamamos sonhos sendo eles nada mais do que coisas de desejo que para tornarmos nossas exige que tenhamos de envolver o outro ou os outros cada um deles com os seus sonhos-desejos inventados também numa medida que devia ser a nossa mas não nos serve vindo daí outra vez o sofrimento de não podermos ser como aqueles que aos nossos olhos são como pétalas que a corrente mansa leva a rumo certo.

Poder usar todos os verbos na primeira pessoa de todos os tempos e modos;
Poder trazer a segunda pessoa ao modo que mais satisfaça sem que isso seja uma forma de egoísmo e dizer que nada foi invenção mas comunhão e que a vida é isto e muito mais sem que falte o cruzar de braços sobre o peito depois de fechar neles o desejo satisfeito...

Tuesday, July 25, 2006

Por onde andam os sonhos?

Li o texto. O assunto interessava-me e precisava de ocupar as duas horas em que o único aluno presente (faltaram quatro) fazia o seu exame de Francês.
André Comte-Sponville escrevia sobre o Maio de 68: «Mai 68, un souvenir de bonheur».
Depois resolvi o teste de exame e fui percorrendo as minhas memórias, não as do Maio, porque o não vivi (estaria na escola primária e era cedo para ouvir os ecos, se eles tivessem chegado) mas a de uma revolução, a de Abril, em que eu própria, muito jovem ainda, me vi de bandeira no ar, dentro da multidão, num ambiente caloroso e promissor. Sonhava. Eu e os da minha idade.
«Mais il y avait de la misère. Mais il y avait des bourgeois arrogants et des ouvriers harassés», diz Sponville na sua recordação, interrogando-se «comment un rêve prendait-il le pouvoir ?»
Enquanto o aluno resolvia as questões de escolha múltipla e contava as palavras que resumiam o outro texto, sobre o baby-boom dos anos 40, questionei-me também: onde estão agora os sonhos?
Olhei para ele. Foi meu aluno há oito anos, talvez menos, e estava ainda com o Francês por fazer para conseguir terminar o Secundário. Nessa altura já eu começava a queixar-me da indisciplina provocatória, ele próprio era rebelde, mas agora… “eles hoje são piores, não são stora?”
Certamente têm sonhos – terminar o Secundário, arranjar emprego, Universidade para alguns, uns por convicção, outros porque os colegas também vão, outros para adiarem o momento do desemprego, ainda que sem essa consciência expressa.
«Cours, Camarade, le vieux monde est derrière toi!», era o slogan pintado a letras grossas numa parede, lembra Sponville no texto do exame do Rui.
E agora ? Que pensará o Rui, ali às voltas com o dicionário, procurando a positiva que o ano passado não conseguiu ter? Sonha com o seu futuro? Com os desejos das pessoas da sua geração?
Sonhará que é possível mudar a sociedade? Melhorar o Mundo?
Porque converso com eles diariamente, tenho a noção de que não é isso que os preocupa.
Sim, alguns falam de Israel e do Líbano, mas não creio que a palavra Hezzbolah lhes diga alguma coisa. Raros são os que vêem ou ouvem notícias e não sei quem, de entre eles, compra um jornal. A Bola, talvez, ou um equivalente. À noite entregam-se aos Morangos com açúcar e sonham fazer um casting para aparecerem na TV e terem sucesso.

Sonhos? Cada vez mais os de CADA UM. Os dos outros são DELES e ELES estão todos muito longe. Salve-se quem puder!

Tão longe que estás Maio de 68!

Saturday, July 22, 2006

as arestas da dualidade



Cruzava-me com eles ou via-os do outro lado da rua em ritmo de passeio e refreava o passo porque me incomodava a minha pressa que não era pressa mas hábito de nem sequer conseguir reparar no rio também ele acostumado a entrar-me nos olhos perdendo o encanto das primeiras vezes se é que lembro as primeiras vezes porque a memória é feita de amontoados de imagens e cheiros e sons que se misturam numa confusão de tempos sobrepostos como meada sem fio e sem ordem e eu desordenada nos passos embora respeitasse os sinais de proibição em acostumado cumprimento da normalidade imposta e em respeito à norma evitando os desvios da rota ou do rumo que o tempo vai traçando ou eu por ele que a minha teimosia desvia normalmente os encantos trocando-os por outros igualmente fantásticos na origem mas íngremes no percurso que nem sempre escolho por me sentir partida em duas metades não complementares nem amigáveis que bifurcam o caminho como nas histórias em que é preciso fazer uma escolha ficando nós a adivinhar as duas leituras possíveis e invariavelmente optando pelo final feliz que seria o caminho que todos os outros pensavam levar ao cruzarem-se comigo no passeio ou no outro lado da rua embora a gente saiba que no final nos espera um porto sendo este um local de chegada mas também de partida pelo que nunca sabemos se devemos fazer como se chegássemos repousando e unindo as duas metades ou como se tivéssemos de partir inteiros. Parto?

Friday, July 21, 2006

Deixa-me ficar na sombra


Não tinhas necessidade de me prender ao corrimão das palavras que eu não sou capaz de dizer para aí me deixares refém das tuas interpretações; não, não trouxe os phones desta vez, ouço tudo o que dizes e adivinho-te também, não penses que és o dono dos olhos alheios ou do som das palavras que eles dizem a ressoar na ampliação dos teus modelos. Grades.
Nem tinhas necessidade de me encaminhar para os degraus de um incómodo que em certos dias é dilacerante, particularmente se antes ouvi uma música já de si melancólica, que nem é tanto a música, mas as palavras com que ela é dita. Ecos.
Estou cansada dos círculos com que me envolves e da corrente que prendeste à estante para que as minhas mãos lá fossem ter e eu a querer soltar-me de gradeamentos antigos e a prender-me noutros que ameaçam eternidade em folhas já lidas. Repetições.

Sei que quanto mais me olhas mais confirmas a ordem de prisão, sabendo da fragilidade da minha teimosia.

Viste como me encantei com a palavra teimosia mesmo vestida de fragilidade?

Sunday, July 16, 2006

Histórias 5.

Juntou os copos que tinham ficado no lava-loiça. Não podia perder o hábito da arrumação da casa, ao menos esse. Da última vez nem deu conta, mas as garrafas amontoaram-se durante muitos dias e quando tomou consciência assustou-se.
No início dava-lhe jeito a sensação de estar anestesiado mas agora enfastiava-se, culpava-se, flagelava-se e depois compensava-se. A boca sabia-lhe cada vez pior, o último copo deixava de ser o último porque a vontade pedia outro, só mais outro e o acordar era já tão penoso que mais valia permanecer. O corpo não reagia depois de ter estado enrolado no sofá da sala. Abria os olhos apetecendo-lhe voltar ao princípio mas tinha de ir trabalhar, era assim todos os dias. Os fins-de-semana, porém, estavam a deixar marcas; não havendo horários nem obrigações era mais difícil parar.
Encontrava cada vez mais dificuldades nas respostas às perguntas que fazia antes de abrir a primeira garrafa, a cabeça começava a ficar confusa no emaranhado de caminhos possíveis. E o medo agigantava-se porque o exercício já não era novo e a maneira de lhe escapar repetia-se, sem fim à vista.
Se tivesse vontade própria não tinha deixado as coisas chegarem tão longe; se ainda existisse amor talvez tivesse conseguido evitar a degradação. Mas gostava tanto dela, ainda a via como a menina por quem se apaixonou na escola. Gostava? Então se gostava por que não lhe conseguia ouvir a voz avisada? E ela porque teimava em recriminá-lo se a ajuda não podia ser essa? Ela estava ausente da sua vida, isso ele adivinhara havia muito tempo, mas qual o momento em que isso acontecera? Se o descortinasse era capaz de perceber e poderia tentar voltar atrás, emendar o erro, restaurar a vida.

Hoje não iria trabalhar. Tinha de continuar a tentar perceber.

Saturday, July 15, 2006

Esta noite venceu o aroma esverdeado


Hoje mudei o ângulo de observação, sentei-me do outro lado e encarei a fachada sob o efeito do aroma das flores que abrem à noite.

Isto promete, foi o que pensei, enquanto me desprendia das camadas de pó que me obscureciam o vestido.

Só então me apercebi que estava vestida de verde.

Sunday, July 09, 2006

Histórias 4.

Tamara de Lempicka

Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.
Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.
Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero.
Dizia que o amava.
Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se.
Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário.
A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.

Wednesday, July 05, 2006

Palavras

Descem de um lugar que é como fonte para se fixarem na ponta dos dedos. Depois querem passar aos lugares visíveis.
Não se podem deter, não adianta querer discipliná-las porque ferem a mente quando se evitam. Querem-se livres.
Se as digo?
Muitas vezes, sim. Preferia dizê-las sempre mas nem sempre as sei, mesmo estando vivas.
Mais fácil é escrevê-las assim, juntas, em construções miúdas.
O que falta?
Ambição e tempo. O mais não passa de uma janela aberta.


Podes entrar.

Sunday, July 02, 2006

Pensamento dobrado


Espero-te ainda no lugar dos mitos

Para mim és água fresca em fim de tarde
Folha de hortelã, barro molhado
E eu incêndio.

Antes era o fulgor das palavras impensadas.
Agora é calma muda, reflectida.

Vejo-te por dentro das pálpebras
Como se uma coluna grega se dobrasse
Em graciosa vénia.
Quando te penso invento a perfeição.

Friday, June 30, 2006

Razões dialogadas

Se te pedi uma razão é porque quero subir a escada sem o terror da queda, nadar em águas que não sejam fossos cercadios, correr de pé e depressa até me pôr a salvo, deixar soltar o grito com som audível.

Por isso também me pões à prova.

Se te pedi uma razão é porque não me apetece que ouças as palavras que não digo ou as que brotam da forma elíptica do meu dizer e que eu não sei aguçar sem sair ferida ou as que me forças a dizer colocando a grade onde o caule se enrola tenro.

Fere-me. Já te ouvi falar de esgrima.

Por mais razões que me dês hás-de saber que eu não ajoelho diante dos altares por não ser capaz do gesto.

Estes deuses são só meus. Estás protegida.

Não. Estou despida.

Thursday, June 29, 2006

Diálogo emprestado à razão


Dá-me uma razão para continuar a contar os passos sobre a espuma das ondas em vinte minutos de reflexões antecipadas enquanto aguardo o momento de te olhar de frente para uma conversa de palavras escolhidas.

Não sei a razão por que vieste…

Dá-me uma razão para me manteres refém do verbo no pretérito imperfeito ignorando o meu desconforto ou estimulando-o ante a perspectiva da revelação que pode não ser surpresa.

Não tranquei a porta, foi tudo uma coincidência.

Dá-me uma razão para a descrença, nem que tenhas de me analisar os genes para descobrir neles a raiz das minhas construções sem alicerces ou das escadas de onde me sinto cair lentamente quando tento subir.

Não te fiz crescer nem posso sem que tu queiras. Mas não fiques aí em baixo. Sobe.




Sunday, June 25, 2006

Começa a falar-se daquilo que me preocupa, a mim e a outros profissionais do ensino, há muito tempo

Não são as minhas palavras e ainda bem, para que não se pense que defendo irracionalmente a classe.
Também sou Encarregada de Educação, para além de ser professora. Estou, pois, dos dois lados.

(...) Porque entre nós, em Portugal, se verifica a maior das confusões neste domínio, presumindo-se, erradamente, que o aumento do número de anos de escolaridade acarreta, necessariamente, uma melhor preparação dos alunos, o que é estatisticamente falso porque um aluno "aprovado", em 1955, no exame da quarta classe, tinha grande probabilidade de saber: ler, compreender o que tinha lido, escrever sem erros de ortografia, contar, executar as quatro operações aritméticas básicas quer com inteiros, quer com quebrados, resolver problemas, de alguma complexidade, envolvendo o uso dessas mesmas operações e também das diversas unidades de medida de comprimento, área, volume, peso, tempo e ângulo, e, ainda, de saber uma série de coisas, úteis ou inúteis, sobre Geografia e História. Um aluno "transitado", em 2005, do nono para o décimo ano de escolaridade tinha grande probabilidade de não possuir nenhuma destas competências. (...).
Público, 23 de Junho de 2006, Avaliação de docentes, discentes e parentes, por Álvaro Pereira Athayde


(...) Anos e anos - décadas ! - de pedagogia romântica, assente no pressuposto de que as crianças são vítimas inocentes de uma sociedade repressiva e de que albergam na pureza dos seus espíritos imaculados tesouros de intuição e até de sabedoria ainda não contaminada pelo cinismo do mundo, mergulharam a escola numa anarquia. As pedagogias libertárias de finais da década de 60 - "é proibido proibir" - pegaram de estaca num país dominado por uma cultura cívica e política esquerdista, que prega a irresponsabilidade individual e só aponta o dedo à responsabilidade social. Ao longo dos anos e das décadas, o Ministério da Educação encarregou-se de esvaziar as escolas e os professores das suas competências disciplinares, na crença idiota de que os meninos e as meninas se poderiam corrigir com doçura, através de bons conselhos e benignas acções de recuperação. As punições foram praticamente abolidas. Alunos com 20 e mais participações disciplinares não são expulsos. Quando se abrem inquéritos, os alunos são ouvidos em pé de igualdade com os professores; ao cabo de vários meses redundam, na melhor das hipóteses, numa suspensão - que não conta para as faltas dadas: os prevaricadores são presenteados com alguns dias ou uma semana de férias. Em suma, a indisciplina na escola tem medrado a coberto da mais completa impunidade.(...)
Público, 23 de Junho de 2006, Vamos aumentar o descalabro?, por Maria de Fátima Bonifácio


A avaliação é imperativa. Avaliação dos professores, da escola, do sistema. Mas o projecto de avaliação dos professores implicando os pais seria a medida mais insensata de que alguém se poderia lembrar se não fosse, como é, um expediente demagógico para desviar a atenção do país da questão central da educação – a ideologia igualitarista e, ramos da mesma genealogia, as teorias pedagógicas delirantes impostas totalitariamente que transformaram a escola numa escola do faz de conta. Seria mais uma acha na fogueira da desvalorização do ensino, do descrédito e da humilhação dos professores, ferindo também aqueles que fazendo o impossível em condições tão adversas continual a salvar muitos alunos (...).
É claro que os professores têm responsabilidade na tragédia dos resultados, mas não são uma ilha.(...)
Repito: sem varrer o eduquês, sem varrer os especialistas sem emenda do ministério, não haverá sucesso educativo.
Público de 25 de Junho de 2006, O Inimigo Externo, por Guilherme Valente

Monday, June 19, 2006

Hoje foi dia de exame de Português


Onde está o sentido?
O mais directo, escondido nas estrofes de Pessoa.
Também eles são meninos da sua mãe e estão ali no cumprimento de um dever. Malhas que o Império tece?
É de malha o texto que articulam na folha da prova para se desenvencilharem das malhas da vida. As primeiras. Malhas grossas, digo eu que resolvo a prova já fora da teia, mas suspensa noutras, mais finas porque são as minhas.
Há sempre Impérios sobre a nossa razão mas nunca da mesma maneira; mas eles, que estão no meio de uma história, olham as estrofes e procuram-lhes o sentido; escrevem sobre a guerra em palavras sucintas, contando-as, uma a uma, para não excederem as normas, que as guerras não se querem longas nem detalhadas. E enfrentam a guerra pelo sucesso que tentam nas estrofes de Pessoa ou na virtude de Gomes Freire de Andrade, exemplo que se quer comparativo, por ser combativo.
Sabem de lutas? Sim, as da História, vagamente. Ler o passado ainda faz pouco sentido. É no futuro que o procuram, os meninos das suas mães, e agora, aqui, nas estrofes do poeta.

Saturday, June 17, 2006

É menina!

Liga-nos um fio para sempre, ainda que ele seja cortado num momento de mistura de demasiadas sensações para se ter a verdadeira percepção do facto.
Depois disso, a novidade inteira. Em mim, a estranheza da palavra, pronunciada pela primeira vez com rosto à vista, dentro de uma roupa cor-de-rosa e tão pequena que assustava. E alegrava.
Nela a dimensão do desafio desde o primeiro minuto.


Faz hoje vinte e três anos mas foi há tão pouco tempo!

Visita a uma mãe muito bonita


Ela só pode ser uma mulher muito bonita porque a luta que trava é a de uma mãe que não desiste.
Visitá-la faz todo o sentido.

Em busca de formas perfeitas


Foram as voltas que me fizeram fugir do lugar das fugas, sem que elas tenham um lugar ou um destino porque se foge sempre para um lugar de onde se foge a seguir para outro que também não é de permanência.
Voltei, pois, ao lugar onde uma estranha divindade me fala de envolvimento, não sei ainda se disposta a dar-me, se disposta a perceber por que nunca me dou. Não procuro, contudo, os ecos divinos pois nem latentes os trago às madrugadas ou às promessas de manhãs frescas.
Se houver ecos para ouvir serão os dos meus gritos, mesmo que o bem-estar seja esmagado na procura de uma sequência que explique as coisas inatingíveis. Deixarei de ser elíptica neste exercício que mais se assemelha ao curso de uma espiral de entendimento.
Pode haver lugares de esconderijo com vista à revelação? Parece que é simples, afinal: esconder joga com mostrar e mostrar encaixa bem na exibição acidulada dos lugares da dor.
Depois deixarei de falar de mim.

E não peço que comentem as palavras volteadas que tenho necessitado de escrever à volta das minhas construções narrativas ou em vez delas. Aqui, neste espaço narcísico de exposição pública, tenho sido deliberadamente cifrada como se quisesse dizer-vos que as vidas, ainda que publicadas, não deixam de ser privadas.
E nunca se esqueça que tudo isto são exercícios formais, já que o que procuro para mim é a forma perfeita.

Thursday, June 15, 2006

palavras elípticas

Também gosto de andar às voltas com o começo das coisas sendo que o fecho delas se me avizinha sempre perto, muito perto, sem que eu o possa ou queira adiar.
Começo todos os dias uma história mas nem sempre quero ou desejo dar-lhe a continuidade que podia levá-la ao final feliz. Continuidade lembra que é preciso voltar aos lugares do passado, mas é daí que chegam os ecos do desconforto.

E era preciso, sim. A omissão dos ecos gera coisas descontínuas mas a recusa em ouvi-los é visceral; o confronto com as palavras pronunciadas esmaga o bem estar e faz estremecer a estrutura vertebral da sequência.

Gostava – penso que gostava – de ter uma história para contar que fosse uma história verdadeira, tanto quanto a verdade pode ser alcançável (ou fiável?); mas para isso teria de a contar a várias vozes e o exercício é duro para duas mãos apenas. O labor das mãos não vence o ardil das vozes, não lhes desvela o assombro, não as aceita na desconstrução dos enredos. Sobra, pois, a circularidade elíptica oculta no esconderijo da dissimulação e na discrição dos gestos.

Estou cansada de começos; e de arredondar as linhas rectas ao sabor dos crepúsculos, aguardando as madrugadas para inverter o curso linear das construções.

Friday, June 09, 2006

ensaiando (des)harmonias


Preferia o som de uma harpa

Mas ainda cato o vento
Na distância que vai, medida em graus,
Da minha porta ao lugar
Dos ângulos agudos.

E solto o vento
Sem a brandura dos pretéritos perfeitos.

Tuesday, June 06, 2006

Os tumores





Ele costuma aconselhar a leitura de algumas pérolas mas hoje é ele que é a pérola, com um magnífico texto que nos leva aos tumores mais abjectos que a humanidade conhece.

Friday, June 02, 2006

Ensaiando fugas

Fico assim encostada ao incómodo enquanto a farpa aponta o lugar onde se têm ensaiado as explicações. Sem elas não encontro a garantia da roupa adequada. Visto uns trapos, disfarço a nudez, não a resolvo.E continuo sem saber em que momento vou sentir a frieza do gume, enquanto outra frieza, a da sombra, me enlaça num nó quase cego.
Fico assim encostada à cegueira e impeço-me de captar o momento em que deixei o corpo ceder ao fio e me embalei no aperto. É um longe muito longe este de que falo. Mas os trapos estão soltos, deixando a descoberto um lugar inacessível.
Fujo?
De quê? De quem? Do fio? Do nó? Da farpa?

Fico encostada ao espaldar impaciente de um assento à sombra. Tédio ou esforço, não sei de entrega mais esgrimida. E continuo sem explicação. E sem saber se a quero.
Corro a cortina ou fujo?
De quê? De quem?

De mim…

Tuesday, May 30, 2006

Um dia destes passo-me!

Só precisava de registar uma carta e foi por isso que tive de tirar uma senha e aguardar a minha vez no posto de correios mais próximo. Uma única funcionária onde havia lugar para quatro (ou cinco?), lenta e pouco atenta – talvez por causa do calor – estava há mais de dez minutos com a mesma pessoa e um segundo funcionário vinha a chegar, mas antes de começar a atender foi pedir saquinhos de moedas à colega, colocou as moedas na caixa, gesto normal para quem vai atender o público, e encheu o balcão de livros infantis e saquinhos com pirilampos. Colocou tudo metodicamente. Só depois olhou para quem esperava e marcou um número. Ainda faltavam seis para chegar a minha vez.
Para me entreter fui vendo o que havia à volta: expositores de livros – Estampa, Pergaminho, Europa-América… muitos deles para jovens, tipo “as minhas borbulhas” ou “será que estou apaixonada por ele”; mas também muitos “códigos…”. Uma parede cheia de canetas, lápis, afias, borrachas, caderninhos de papel reciclado e outros brindes. Do lado de dentro do balcão, na parede, duas bandeiras de Portugal e uns volumes de qualquer coisa como “tudo sobre o mundial” e outras coisas que a minha mente não conseguiu reter, tal era a quantidade de informação, embora olhasse para tudo a pensar para comigo “isto dava um belo post”.
“Não tem netinhos?” perguntava a senhora ao idoso que foi atendido antes de mim. “Compre um livrinho, já viu estes de pintar, até trazem lápis de cor”.
O outro empregado vendeu um pirilampo à idosa. Perguntou-lhe também se tinha netinhos. Penso que estes (e outros) idosos recebiam a sua “reforma”. Contavam duas ou três notas para ver se o dinheiro estava certo.
Depois a senhora pesou-me a carta, pediu-me a quantia e apontou-me os livros:
“Qual destes é que vai levar?”
“Nenhum”
“Não me diga que não vai comprar nada”
“Não vou comprar nada”
“Nem este?”…
Não ouvi mais nada. Acho que fui mal-educada, mas foi apenas porque saí.
À tarde ligaram-me para o telemóvel para me ajudarem a escolher a melhor tarifa.
Há dias era para ir levantar um prémio por causa de um inquérito a que respondi num hipermercado (respondi??).
Ontem à noite tinha posto fim a um telefonema de um banco (sei lá qual!) ainda antes do rapaz continuar a conversa, porque não uso cartões de crédito.
Na caixa do correio há correspondência afim, dia-sim, dia-não.
Na escola (sim, no meu local de trabalho), estava um casal sentado a uma das nossas mesas a chamar cada um de nós para publicitar um outro cartão de crédito, o mais vantajoso de todos. Nem me cheguei, mas ainda assim fui aliciada.
“Não”.
“Mas não tem anuidade, pode desistir ao fim de seis meses e ao menos ajudava-me a mim”.

Um dia destes passo-me!

Wednesday, May 24, 2006

Sobe que sobe, sobe a calçada…

Depois fui trabalhar, mas já tinha ido às compras e deixado o almoço feito. Antes tinha estado a ajudar um dos filhos a rever um trabalho mais exigente cuja apresentação era hoje, no IST. (correu bem, já sei). Tinha estado também a ler até tarde, coisas de trabalho, também, mas outro, um que faço por conta própria e sem remuneração. E não é só por prazer, porque isso seria ter um livro para ler e não o fazer. É que não me apetece estar no mundo por ver os outros, e a preparação das aulas mais a correcção dos trabalhos e a organização de materiais é coisa de pouco desafio, ao fim de uns anos. Absorve tempo, sim, mas não satisfaz. Podia dizer que é para estar melhor preparada, que é pela exigência do meu público, pela boa preparação que lhes quero dar. E quero. Só que não tenho resposta. Mas, ainda assim, não se pode entrar numa aula de 90 minutos e esperar que 20 e tal adolescentes nos oiçam. Teoria? Nada disso. Levava, pois, a mala cheia de papelada, textos, cartolinas com imagens, bostik para as colar no quadro, fichas de trabalho…
Dormi pouco, portanto. E a escola já não é o lugar para onde costumava ir com gosto e vontade de novidade. Apetecia-me tudo menos confusão.
À chegada, ainda antes de entrar ao portão, dei de caras com muitos e muitas, todos ao monte junto aos carros estacionados. A maior parte dos carros são deles e é vê-los à saída todos inchados porque vão pegar no popó e fazer figura. Os professores (os que têm carro) têm de estacionar onde calha…
Estou a falar de uma escola secundária, onde agora também se misturam meninos do ensino básico, tudo junto e em guerra.
Ali estavam umas dezenas de cabeças com bonés, reparei nisso, pareciam equipas diferenciadas, uns de lá e outros de cá, assistidos por terceiros que esfregavam as mãos porque ia haver porrada…
Vi-me metida no meio, jé eles se empurravam. Fiquei com os ouvidos cheios das palavras que eles mais sabem dizer. Não me atrevo a repreender ninguém, não resulta, já fui insultada quando o fiz. Eles não chegam a perceber porque é que é incorrecto dizerem “foda-se” e “caralho” 799 vezes por dia, em todos os lugares públicos e privados; e não acredito que todos os progenitores sejam trabalhadores da construção civil.
Chamou-se a polícia. Não vieram.
Depois passei a tarde a fazer telefonemas porque os que eram meus alunos podiam ser meus filhos e se fosse eu a mãe ficaria grata a quem me dissesse que à porta da escola se fazem esperas, um gang de cada lado e os carros cheios de paus e ferros.
Só me faltava dar uma aula para acabar a tortura. Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade. Direitos do Homem e do Cidadão… e eu entusiasmada com as analogias que ia trazendo à conversa. Meia dúzia a ouvir e os outros em pleno galinheiro. Um canta baixinho. Quando me calo, cala-se; quando recomeço, recomeça. Uma derrama o tubo de cola sobre a mesa e põe-se a guinchar. Separo dois. Amuam e dizem que já não trabalham mais. Um deles ainda diz “Pois agora é que vou mesmo portar-me mal”. Ponho alguém fora da sala? Quem???
Quero continuar a esquematizar, no quadro, aquilo que muda num país com uma revolução. Gostava de lhes explicar o que é uma constituição e o que é o poder legislativo e quem o desempenha nos países democráticos…
Uma voz diz “Nós também somos povo e devíamos era fechar na sala de professores os cotas todos que nos atrofiam com estas tretas”.
Cansei-me. Parei. Tentei brincar… às vezes resulta.
Saí.
Amanhã volto para o mesmo lugar.

Tuesday, May 23, 2006

País desfocado ou um todo que é uma parte que não interessa a ninguém

Glórias... as da permanência no Índico, à força de guerras sangrentas para saquear a pimenta e as outras mercadorias que vinham para enriquecer a corte.

E as do futebol... nos sonhos.

Bandeiras... os estandartes exibidos na frente das batalhas contra os mouros no Norte de África, em razão da razão divina.

E as mais belas... nos estádios.


Arte... a de furtar. Nossa, muito nossa.



"As artes, dizem seus autores que são emulações da natureza; e dizem pouco, porque a experiência mostra que também lhe acrescentam perfeições. Deu a natureza ao homem cabelo e barba, para autoridade e ornato; e se a arte não compuser tudo, em quatro dias se fará um monstro. Com arte repara a mulher as ruínas que lhe causou a idade, restituindo-se de cores, dentes e cabelo, com que a natureza no melhor lhe faltou. Com arte faz o escultor do tronco inútil uma imagem tão perfeita que parece viva. Com arte tiram os cobiçosos, das entranhas da terra e do centro do mar, a pedraria e metais preciosos, que a natureza produziu em tosco e, aperfeiçoando tudo, lhes dão outro valor. (...) Não perde a arte seu ser por fazer mal (...) e tal é a arte de furtar (...) que é ciência verdadeira, porque tem princípios certos e demonstrações verdadeiras para conseguir seus efeitos. (...) E se os ladrões não tiverem arte busquem outro ofício por mais que a este os leve e ajude a natureza."
Anónimo (do séc XVII), Arte de Furtar


Não tenho espaço para os exempos possíveis, mas esta notícia lembrou-me muitas outras situações em que este país parece uma coisa desfocada, quase sem existência, ou reconhecendo a sua incapacidade nas opções que toma, como é o caso daquela que leva a Badajoz as mães portuguesas para terem filhos no outro lado da fronteira.


Sunday, May 21, 2006

O todo em partes

Escher


Sofrer é uma tragédia.
Não sofrer também é porque a palha seca nos prados desmazela a paisagem.
Até os gatos sofrem quando estão especados diante de uma gaiola de hamsters e não lhes podem chegar.
Se os gatos não sofressem assemelhavam-se a um campo de ervas agrestes e eu, que não sou gata, parecer-me-ia com uma casca de laranja engelhada.
No viço da minha loucura e enquanto Stravinski sagra a sua Primavera eu componho a minha, mesmo sobre o restolho, sem tragédias mas com iguais dissonâncias.

Thursday, May 18, 2006

A parte e o todo


Escher
Todos os dias sinto que o tempo se subtrai a um todo antigo e no entanto tudo parece ter acontecido ontem, tendo sido há décadas. Décadas são intervalos de duração prolongada, quando ainda se está no lado de trás do fio esticado. Para a esquerda a.C., para a direita d.C., linha infinita, sem sinais de começo a não ser o toque do giz na pedra. O fim é o resultado da subtracção, embora se acredite sempre no prolongamento das horas sobre os dias e sobre os meses e sobre os anos.

Todos os dias a materialidade das operações numéricas me surge como afronta e no entanto os ponteiros do relógio prosseguem o seu curso trazendo invariavelmente a noite antes das manhãs. Noites são desperdício, são horas subtraídas à parte do fio que ficou no lado da frente.

Todos os dias me parecem começos de fios rasgados ou mãos que ensaiam nós para remendar o avesso de um todo antigo dividido em décadas. Décadas são ciclos de curta duração se nos colocamos em observatório piramidal abarcando superfícies alagadas de tempo.

Todos os dias relativizo a minha existência em função de um todo. Mas não esqueço a minha dimensão em nenhum dos dias.


Sunday, May 14, 2006

Abrir o espaço

Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.
E foi nesse exacto momento que alisou os gemidos; meteu-os no bolso de um casaco velho e guardou-o para quando chegassem Outonos a pedir lágrimas.
Ouviu o eco das palavras a dizer que nunca se fecham portas e pensou que sim, que nunca se eliminam memórias porque elas coabitam entre si e o apagamento não sabe de escolhas.
Imaginou que um café tomado à beira-rio podia ajudar os olhos a ir com as águas, a foz ali ao lado, abertura de espaço, para começar o dia. E foi.
Na outra margem crescia o casario; gente, muita gente, pensava, gente que adia decisões e se enrola no passar das horas.
Sabia de angústias, de noites mal dormidas, de amigos calados à espera das palavras para decidirem das respostas, ou antes, das propostas. Também sabia de marés vazias e das ondas a dizerem depois “que não, que não, que não tens culpa”. Contemplação de céus para matar o tempo de espera.
Depois foi tempo de dar as mãos de novo. Não é que as soltasse de si; era apenas a vida a crescer de dentro para fora. E a licença expressa para ser feliz naquele instante.

Saturday, May 13, 2006

Pintar as palavras


Há um ano que ela pinta as palavras dos poetas com a mesma energia e a mesma paixão que Turner punha nas suas aguarelas.

Parabéns, Addiragram.

Wednesday, May 10, 2006

Rimas pobres


Na prática eu apenas tardo diante das letras impressas
Apenas ou ainda, o difícil é saber
E não é por desamor ou por inércia
É talvez porque me guia a proporção das coisas.
E a inquietação antiga do querer e do não querer.

Folheio as palavras e verto-as depois. E bebo-as;
Sirvo-me delas para agitar a seiva nos meus dedos
E ao senti-las percorrer todos os lados do meu corpo
Detenho-me na sede satisfeita
E deixo sair das mãos desenhos e segredos

Seguindo a direcção das minhas mãos abertas
Componho, em letras fáceis, os degraus do meu prazer.
E em dias cheios de planos por cumprir
É este o único amor a que me rendo.
A única cedência que acabo por fazer.

Monday, May 08, 2006

À procura de uma história

- Não escreva nenhuma dessas histórias!
Incrédula, olhei para ela e depois para o meu caderno. Tinha medo de estar a sucumbir à minha própria fantasia e não ousei levantar os olhos durante uns minutos. Olhei de novo para o canto da sala: sentada, muito direita, de mãos serenamente pousadas sobre a mesa, uma cara enrugada abria os olhos na minha direcção. E repetiu:
- Já lhe disse, não escreva nenhuma dessas histórias!
Não voltei a olhar para os papéis. Fixei o olhar na figura pequenina e creio ter visto o necessário. Esqueci todas as ideias, todos os começos, todas as fantasias que me tinham enredado as quadrículas do caderno, procura inútil de uma invenção, à beira de uma realidade completa. O seu rosto era a verdadeira história, a história que se contava como um tempo que tinha acontecido sem se estar à espera. Olhando-a era como se visse, subitamente, a solução. Assemelhava-se à imobilidade de uma rocha, mas era também flor ou estrela. Dei-me conta que nela estava tudo em ordem, até mesmo a geografia das rugas onde o indizível se lia sem rumor nem fragmentos. Representava tudo o que estava excluído das palavras, todas as variantes e alternativas, todos os acontecimentos contidos no espaço e no tempo. Estava ali o conteúdo, a trama, a estrutura; tudo escrito nos olhos.

Sunday, May 07, 2006

Thursday, May 04, 2006

O amor é uma tarefa árdua e indecifrável que vagueia ao sabor dos dias

O texto que a seguir transcrevo foi-me deixado aqui, a propósito do que escrevi sobre a deficiência. Mas a autora apagou-o.
Eu gostei dele e pedi-lhe autorização para o editar porque vale a pena.
A Fatyly também sabe do que falo.

E é exactamente à minha amiga damelum que lanço o desafio de continuar a divulgação de instituições de solidaridade, que o Rui me passou .

E depois...
...é que terá de escrever.






Lembro-me das perguntas repetitivas e controladoras, das regras impostas e nunca discutidas, dos gritos e das exigências e de como eu não compreendia. Lembro-me das fugas e dos devaneios e das culpas murmuradas entre dentes, quando achamos que somos donos da verdade, e de pensar que a vida não era justa e que todas as famílias cabiam no modelo que eu imaginara. Lembro-me da sensação dos papéis trocados, dos pedidos de conselhos, de como eram indefinidas e desajustadas as funções de cada um e sentia-me crescer demasiado para o meu tempo. Depois recordo o dia da troca definitiva de papéis, dos olhos a implorarem colo, dos pedidos desajustados de ajuda e da fuga para o outro lado do nada. E não a vi, não a encontrei mais. Nem a presença controladora e impositiva que me marcava os dias nem o discurso, por vezes desconexo, mas revelador de um amor imenso. Nada estava lá, fugira para uma outra margem, muito fora do meu alcance.

Chama-se L. e é a minha mãe. Hoje está de volta, provando-me que o amor é uma tarefa árdua e indecifrável que vagueia ao sabor dos dias.


texto de damelum.

Wednesday, May 03, 2006

Os Maios da Liberdade


Já têm mais de dois séculos os Maios da Liberdade, festas comemorativas da República e da soberania popular francesa no período da Revolução.
Comemorava-se o que calhava: as vitórias, a juventude, a velhice, a agricultura, entre muitas outras coisas. Bastava que o povo se juntasse em massa, espontaneamente, para que elas ocorressem, sem preparação prévia nem sujeição a qualquer lei ou instituição. Cantos, danças, banquetes facultavam entre as gentes revolucionárias francesas o contágio afectivo que tornava a sociedade mais harmoniosa e os homens mais iguais.
Plantavam-se as árvores da liberdade, tradição que radica, certamente, nas festividades pagãs da celebração do equinócio da Primavera. Era como se a multidão, reunida, propagasse a ideia de unanimidade de que a Revolução era portadora.

…depois vieram os poetas e cantaram o Maio.


... e nós aqui, sem saber o que esperar dos Maios que estão para vir.

Tuesday, May 02, 2006

Como lidar com isto?

Clicar na imagem

Arrastava o corpo pelas paredes e uivava em dias de contrariedade. Mas isso era quando era jovem. Contam que em tempos de infância dominava os irmãos mais pequenos caindo sobre eles com os dentes.
Do que me lembro é das brincadeiras e de uma memória fabulosa, apenas entendida por quem convivia de perto com ela, porque os grunhidos eram difíceis de ouvir. E ria, estridente, de boca escancarada, deixando à mostra as gengivas descarnadas.
Pedia água, sempre e sempre, como se o corpo fosse uma esponja seca; depois a água escorria do púcaro de alumínio pelos cantos da boca e ela pedia mais, não fosse o mundo acabar sem estar saciada.
Tinha um caixote com bonecas sujas, e beijava-as, ao mesmo tempo que entoava um embalar medonho. Eu era menina mas não podia chegar-me perto. O espaço era sagrado.
Por pouco ficava-me de herança, porque a longevidade cumpriu ali uma promessa desumana. Chamava-se Isilda e era minha tia.

Não creio que lhe tenha faltado amor, mas se fosse hoje poderia ter desenvolvido algumas das suas frágeis capacidades numa CERCI.
E foi assim que respondi ao desafio do Rui, mencionando uma instituição de solidariedade cuja acção me toca particularmente.


Saturday, April 29, 2006

Histórias 3.

Contaram-lhe que depois se enrodilhou na noite como um morcego e contornou a estátua, tomando a direcção oposta. Para o lado do caminho possível, disse ele, mas ela sabia do desejo de mudança que lhe atravessava a vida. Por isso não acreditou nas interpretações que eram muitas, múltiplas, resumindo-se tudo a uma acusação de malquerença que tinha de declinar ou ficaria refém desse sentimento de perda. Nada fácil, contudo, essa tarefa.
Contaram-lhe também que na direcção oposta residiam as coisas que sucedem por acaso, mas ela acreditava na solidez das construções e conhecia-lhe a capacidade de erguer das ruínas outras fachadas, mas com desenho prévio. Pelo menos era nisso que pensava enquanto preparava o tear para o cumprimento da tarefa. Precisava, pois de robustez, não fosse a peça afrouxar nos terminais e romper-se por falta de estrutura.
Ainda lhe trouxeram novidades, dia após dia, em tudo semelhantes ao despeito que teceu em pontos deliberadamente mal rematados.
Alimentou-se, pois, de cóleras até esgotar os argumentos e mesmo assim ainda lhe foi difícil aceitar que as mãos só adquirem a perfeição quando se soltam.

Thursday, April 27, 2006

Podíamos jogar à cabra-cega

Santa-Rita Pintor
Onde estão os meus olhos agora que me despedaçaram as formas?
Como faço para recuperar os sentidos se o que sinto são tímpanos opacos e a visão engole as palavras sem as diferenciar?
Terá sido o efeito maléfico dos sonhos ao acordar ou o incómodo de viver para além do passar das horas?

Wednesday, April 26, 2006

Ponto pé de flor

As mães bordam rosáceas
E compõem pés de flores nos linhos
Que arrecadam junto à esperança.

São formigas laboriosas,
Pontos de apoio ou degraus suspensos
Ou a mão que vai lançando os alicerces
Em betão marcado pelas ausências.

Também costumam desenhar janelas nas madrugadas

Enquanto remendam alguns pensamentos
Aguardando o alívio da manhã.
Depois acordam cansadas e cozinham pratos exigentes
Nos intervalos das rotinas mais primárias.

E sabem o canto das cigarras.

As mães passam pelo espaço às escondidas

Para que lhes sintam apenas a sombra e o resultado.


Tuesday, April 25, 2006

Sunday, April 23, 2006

lengalenga


Mal dos poetas perdidos no palavrear libertador próximo da dor espumosa; mal dos que amam sem que o tempo os deixe permanecer aconchegados no querer eterno; mal de todos os seres pensantes do universo desgastados pela sucessão das marés que se impõe ao cansaço dos olhos; mal dos que procuram a razão das coisas sem conseguir ir além da definição de invernias repletas da mais criativa escuridão; mal dos cérebros que concebem a genialidade de uma lucidez estrangeira, cruzada a preto e branco; mal da gentileza da mão prodígio feita de traições e fugas, deliberadas ambas pelo costume de avançar até ao fundo das coisas; mal dos propósitos estratégicos para afastar a irmandade com aquilo que é o mundo e é o eu de cada um disperso através da direcção do olhar; mal da logística que desceu em nós por força do nascimento, obrigada desde então a albergar a alma num corpo que lhe é estranho; mal das caligrafias sublimes que evitam o borrão no papel; mal dos pórticos decorados sobre cantos misteriosos; mal das máscaras; mal dos ouvidos semi-cerrados; mal dos espelhos; mal do mal

Saturday, April 22, 2006

Aproximação a Brecht? Hummm...só se for pelos elos de uma corrente...


A Wind deixou-me o desafio mas a origem veio daqui. Para quê? Para seguir as palavras de um poema de Brecht ( a bold) e acrescentar outras que rimassem à minha vontade. Segui a métrica e rimei desta forma...


Alegrias, são benvindas em todos os dias
Dores, se pudesse vestia-lhes cores
Casos, se te desse a escolher que farias
Conselhos, são inúteis em casos de amores

Meninas, as dos olhos, às vezes são luz

Mulheres, todas juntas complicam a vida
Orgasmos, se é para hoje não há que hesitar
Ódios, se os cultivas é guerra perdida
Domicílios, posso ir, se não for p’ra ficar

Adeuses, já me vi a acenar sem coragem
Artes, dou-lhes forma alinhando as palavras
Professores, sei de perto o que são e o que fazem
Prazeres, vias férteis em plena viagem

Projectos
, construções à medida dos sonhos

Inimigos, já esgotei as raivas, já não vejo
Amigos, o prazer da conversa e o gosto
Cor, é com ela que pinto o desejo
Meses, numas férias na praia, em Agosto

Elementos, natureza em jeito de obra-prima
Divindades, já caídas dos céus, por descrença
Vida, raio de sol que desponta e anima
Morte, a dos sonhos traz sempre falência.


Ivamarle, Bastet, Fausta, querem tentar?

Wednesday, April 19, 2006

"Sentir, sinta quem lê"

Toda a narrativa é um artifício e “sem a existência de um leitor os textos escritos não passam de marcas pretas em páginas brancas”. (1)

E o que faz quem escreve?
Deita mão às histórias alheias e torna-as suas, transforma-as, acrescenta-as e muda-lhes o final. Ou não.
Apropria-se do tempo e alisa-o; depois recorta-o e brinca com ele.

Por isso todo o texto exige um leitor, cujas reacções tomam a forma de sistema de palavras, depois agrupadas associativamente no seu espírito.
É a interpretação a afirmar-se sobre a criação.
Sendo assim, quem tem verdadeira importância neste jogo é quem está do lado de lá.


(1) Linda Hutcheon, Uma teoria da Paródia, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 35

Tuesday, April 18, 2006

À volta das dores

Podia até dizer-te que tenho pena e que me doem as tuas dores. Mas também tenho em mil pontos de vista dispersa a verdade das coisas, sem saber em certos dias se a verdade é o que vejo ou se não é isso mais do que a criação de um querer que não diviso dentro da consciência, por omisso ou camuflado.

Podia até dizer-te que penso em ti. E penso. Mas se o faço é por piedade, sendo já este o sentimento inócuo de te ver à distância, sentado na cadeira onde buscas o conforto impossível embora continues a fazer o planeamento da vida que para ti nunca parou, nem agora que estás parado.

Podia até dizer-te que sei o que sentes. Mas não sei disso por solidariedade ou por analogia; sei-o porque as senti ferradas, essas dores que silenciei a maior parte das vezes ou que gemi calada enquanto as lágrimas corriam para dentro e ilusoriamente as suavizavam.

E assim andamos à volta das dores. Tu porque as sentes. E eu sentida.