Friday, December 30, 2005

Quase



Veste a brisa, veste a alma; veste-te de brisa; veste a mágoa de flores e aguarda os frutos. Aceita.
Abre as gavetas, abre os desejos; abre os sentidos. Desdobra as folhas secas e dá-lhes terra fresca. Rejeita a ira.
Tropeça na chuva, tropeça no pranto; levanta-te e ilumina esse espanto em que a luz tropeça quando te foca; e se te espantas é bom ainda.

Mudaste as roupas, mudaste o tom, mudaste o rumo; muda o sentido. Muda o sentir.

As estações sucedem-se e sucede que é bom ainda; veste o desejo; veste-te de alma.
E acalma.

Thursday, December 29, 2005

Anúncio de Janeiro com Primavera ainda adormecida

Eu dizia:
“Nenhuma brisa é triste”,
e procurava água, lábios,
um corpo
onde a solidão fosse impossível.*


Eu dizia que todos os ventos vêm carregados de tristeza. E que os silêncios pesam quando os ventos acalmam, fazendo sentir a distância a que estamos dos lábios ou do corpo. Ou apenas da música cativa nos dedos, quando os dedos acariciam. Ou ainda e tão só a distância que construímos para fugirmos de nós próprios e tornarmos possível a solidão.

Mas quem sabe dessa música
cativa nos meus dedos?
E depois, como guardar um beijo
mar doirado ou sombra
desolada?*

E dizia ainda de um beijo saudoso em tempo de festas ou de memórias acesas pelas iluminações que encantam almas outras que não esta, saudosa e inquieta, a guardar beijos como quem guarda folhas secas dentro de uma gaveta.

Recordava um rio
álamos
o sabor da chuva,
tropeçava em lágrimas e soluços
e lágrimas, e procurava.*

E digo ainda que o sabor da chuva tropeça também nas preces soluçadas, persistentes na procura dos álamos guardados em folhas-memórias, ainda frescas, ou em palavras-lágrimas que afectam a memória dos afectos.

Como quem se despe
para amar a madrugada nas areias,
eu dizia: “Nenhuma brisa é triste,
triste”, e procurava.

E procurava.*

Digo-o, ainda, como se me despisse para depois procurar uma brisa de sabor novo e me vestir com ela.


* Eugénio de Andrade - Ah, falemos da brisa

Sunday, December 25, 2005

Por que é que o natal me lembra Fernando Pessoa?

Passada a noite veio a chuva miudinha. E o nada fazer.
Aborrecem-me estes dias de acordar morno depois de noites preenchidas por iluminações fantásticas na alma alheia, roupa lavada a vestir vazios tão grandes como os meus. E começa o fingimento, porque vazio é palavra de mentira solta.

Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.*

E também me aborrece pedir clemência em preces. E em tudo finjo a começar por isto.
Digo que o silêncio pesa. Mas não apetece mais do que estar triste. E dizê-lo.

Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda.*

Digo que a distância magoa. Mas estar longe permite dizer também a mágoa de estar longe. E é um gosto sentir doer para se implorar à razão que venha com a chuva, numa persistência miudinha e cumpridora. E dizê-lo. Ou pedir à explicação que ajude a perceber o que podia ser explicável se fosse razoável. Pedir sem convicção, fingindo ainda.

Por isso escrevo em meio do que não está de pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir! Sinta quem lê! *

* Fernando Pessoa - Isto



Thursday, December 22, 2005

Balanço de fim de ano

O beijo saudoso recorda conversas agradáveis ao fim do dia quando o frio chegava de repente e obrigava um corpo a pedir emprestado o calor do outro; ou quando o sol se punha sobre o espanto das palavras e a cumplicidade dos olhos e trazia em si a noite; ou a meio de uma tarde de sol a bater nas ondas e nas roupas-agasalhos de fim de Outono. Tudo em sonho construído na estação das memórias.

As palavras, sempre muitas, contudo insuficientes para dizer o que a parte de dentro da frieza de fora não sabia exprimir, recordam-se em textos inventados que os outros supõem nascidos do coração, não sendo o coração a nascente da verdade mas do fingir secreto que é um fingir verdadeiro. Todas apagadas agora, por ser impossível lembrar se eram bem recebidas ou se era eu que as escrevia para as inventar nos seus símbolos. Tudo em memórias fora da estação construída.

O sorriso de natal – que não é alegre mas também não é triste – é apenas o que é, um sorriso escrito numa mensagem rápida a lembrar que me lembro de dias passados no passado; era eu uma mulher destra a cultivar emancipações e a coleccionar lembranças que ficaram numa folha de fim de Outono guardada numa gaveta, não sendo meu costume povoar gavetas. Tudo em estações construídas dentro das memórias.

Vai, então, o beijo em correio urgente para chegar ainda esta semana pois a seguir é Natal e as construções desfazem-se com as memórias da estação, em balanço rotineiro de fim de ano.

Monday, December 19, 2005

O trabalho do artista



Foi este o Olho que o Ivo fez para mim. É mesmo o meu, mas com mão de artista!
E dei-lhe muito trabalho, ele que o diga!
Gostei muito, Ivo!
No Olhar Surreal há muito mais "obras" para ver.


Não deixem de ler, mais abaixo, os textos que foram surgindo a propósito da fotografia do ToZé.
( Ivo Cação, Sem Cantigas, Bastet e Joaninha, Nokinhas e Ivamarle)

Sunday, December 18, 2005

Uma Sopa e duas Vidas

(O ToZé mandou-me a foto e sugeriu-me um texto... aceitam-se imterpretações para uma imagem tão bonita.)

Fica um pouco comigo não te vás já. Bem sei que a vida corre depressa e o tempo não chega para cuidares de tudo o que é o teu sentido, os miúdos, a casa, o tempo… ginásio, cabeleireira, viagens, reuniões… e diversões.
Já me deste a sopa, caldo atrasado para animar um pouco o corpo cansado; caldo entornado quando chegas e me vês desanimada, quase desamparada; é como me sinto quando me olhas e eu te digo com os olhos – fica um pouco comigo.
Já me deste a sopa e correste para o carro dizendo que o tempo é pouco. Fique bem, disseste tu de fugida, contra os meus olhos que agora são miudinhos e já não brilham como no dia em que te dei ao mundo; e tu tão pequenina, tão dentro das minhas mãos onde agora pões um malga de sopa antes de te ires a correr. Vivo das lembranças, eu sei que tens muito que fazer.
Fica um pouco comigo, digo eu calada, desolada, quase culpada por estar ainda aqui e ser o teu desassossego de todos os dias.
Mas sabes, eu fico bem assim. Deixa-me aqui entretida. E vai, que tens a tua vida.

No lugar do Escárnio e Maldizer faz-se assim uma legenda:

vê como estou, como a sopa que me dão antes era eu que a fazia, nem me sento nem saboreio, engulo a sopa que me dão, vês, antes era eu que a fazia e deitava-lhe pedaços de carne quando havia e couve todos os dias. fazia o caldo no pote ao lume, agora como a sopa que me dão, vês? é assim a vida filha, já não me deixam fazer a sopa e como a que me dão... e tu? 'tás magrinha, tens comido bem? lembras-te das sopas que eu fazia? quando podia era caldo, mas sempre no pote ao lume! ai filha vês?

E veio o Ivo Cação, do Zumbido, que disse:

Podemos olhar para um rosto e ver nele o tempo. Imaginar que esse tempo foi todo ele como se nos apresenta agora. Pensar que nos interstícios de cada ruga se alojou um desgosto. Mas também podemos ver no olhar firme o traço intenso da vontade e a fruição íntima de um gesto ou de uma memória. Digo eu. Que gosto de olhares fixos no horizonte, abandonados a uma reflexão que parece concentrar num instante todos os destinos. O nosso olhar é o momento do nosso olhar. E no rosto instantâneo, aliviado pela tigela de caldo, paira, naquela impressão primeira que me autorizou um sorriso terno, a posse de um passado cheio de acontecimentos, de acasos, de sortes e de perdas. Isso mesmo. Tal e qual como eu, tal e qual como nós. Um rosto que sobreviveu ao tempo, e que aparece agora recheado de idade, aconchegado pela roupa quente, alvo e quieto, imune às velocidades de quem ainda espera muito, lembra-me, às vezes, como neste caso, sabedoria. Parece-me, pelo menos nos dias bons, que não devo lamentar o tempo nem os cabelos brancos. A 'alma', essa animação que nos identifica e percorre um intervalo de tempo, tomando da terra a matéria emprestada, termina um dia. Mas cada um de nós é, enquanto é, só e apenas essa animação. E isso é extraordinário.

A Bastet viu assim:

Tenho nos olhos a ironia do que fui e ninguém sabe ou lembra. Tenho por vezes a tristeza desse esquecimento. Sei que este velho invólucro não ajuda à memória ou ao amor dos outros e, por isso, vivo sobretudo de recordações. Sinto o mundo da mesma maneira, o pulsar da terra e a diferença de um dia a mais. Tenho a vontade de gritar que ainda sou a mesma mas a certeza da estranheza desse grito. Porque somos sempre os mesmos. Iguais. A mesma essência numa matéria que se faz em brancos, dores e rugas. Esperei anos em vão pela suposta transformação. A que faria de mim alguém mais próximo do meu corpo. A que me transformaria na consciência da minha idade. E como é cruel ver-me como vi outros em outros tempos, quando então passava lesta e indiferente ao futuro. Quando o futuro nos chega às mãos e ao rosto apanha-nos desprevenidos. Porque somos a criança vestida de anos. Esperava eu que pudesse ser de outra forma. Que houvesse um lento descarregar das baterias da vida e da vontade para que me fosse indiferente o lugar que me cedem ou a beata compaixão que me concedem. Queria então justificar o jovem orgulho que me resta, sem o patético desprendimento que finjo. Ou que por milagre me vissem por dentro, para que lessem a origem desta arrogante agressividade. Põe-me nas mãos o caldo, a sopa que me alimenta a persistência mas que não me dá forças para me por fim. Pusessem-me na boca um beijo e escolhas nos dedos, chamassem-me ainda mulher e eu entenderia a roupagem deste meu destino.

E a joaninha viu-se assim:

Quando entro na sala de aula e vejo todos os seniores de olhos postos em mim, sinto-me como essa malga de sopa, ainda a fumegar, para reconfortar não estômagos, mas espíritos… e como é revigorante para mim o sentir isso…Pode ser uma forma de me libertar dos desamores… assim, eles são a minha tigela de caldo quente… Quando toca para a saída e me vêm beijar, sinto que cada beijo é um pedido de fica mais um pouco comigo… mas tenho de sair e dar lugar ao professor que segue… e senti isso, quando turmas imensas de adolescentes, ávidos de satisfazer as suas curiosidades, me vinham com canções da “berra”, para traduzir… para terem a minha atenção… são saudades que ficam… e eu, quase a chegar a um limite, quando vejo aqueles olhos, também gostaria que o grito interior fizesse eco, para lhe pedir para ficar mais um pouco comigo… mas apenas sou a imagem animada que o tempo deixou sem data… porque em cada novo rosto, ele vai encontrando uma nova paixão…Em linha também fui deixando as minhas palavras… e acabei por escrever demais, mas com tão magnífica foto e tão belos dizeres, não me contive.

A imagem chamou também a sensibilidade da Nokinhas:

Envelheci. O tempo teceu como rendas as rugas que já marcam o meu rosto e a neve poisou sobre a minha cabeça cobrindo-a com um véu branco. Os braços, que embalaram os filhos já não têm o mesmo vigor mas as minhas mãos, aquecidas pelo calor deste caldo partilhado contigo, com alguma tremura acariciam o teu rosto. Os meus olhos, que já não são o que foram antes, ainda te olham, embevecidos, e cintilam abrasados pelo calor da tua presença pois tu serás sempre o meu "menino". Deitando um olhar de relance à minha vida vejo um longo caminho percorrido com grandes provações mas, com a força que Deus me deu, hoje ainda estou aqui. Tenho casa, tenho esta sopa que muitos mendigam e que eu ainda faço com as minhas próprias mãos. O coração, esse está cheio de amor para dar. Envelheci. Mas só por fora. Por dentro ainda acalento a criança que há em mim. Vou do riso à lágrima, conforme me tocam o coração. Remo muitas vezes contra a maré e luto contra o desalento que teima em bater-me à porta querendo entrar. Espero ter forças para terminar a "caminhada". Estou viva!

E a Ivamarle, igualmente sensível nas suas palavras, viu também uma mãe saudosa.
Encosto-me à claridade, para que ela me aqueça um pouco o esquecimento vazio a que me votaram. Perde-se no murmúrio o meu olhar que já só vê memórias, e aqueço as mãos na taça de sopa, que me aquece, mas já não saboreio. Por vezes até penso: ao menos tenho uma sopa...na juventude quantas vezes quis e não tive, quando as senhas de racionamento não davam para matar a fome, e uma sardinha tinha que dar para quatro e à minha mãe só calhava a broa com o molho da sardinha cortada e dividida.Tantos sacrifícios...tanta luta, tanta noite em branco a pensar como iríamos arranjar-nos no dia seguinte, e eu ia para o pé do borralho aquecer-me e matar a cabeça: como? Onde? Ai os meus ricos filhos que não têm que comer, e eu não tenho quase força para cavar mais terra, para acarretar mais estrume, não tenho mais força para esquecer a morte do meu homem...ai os meus ricos filhos...E de manhã acordava acocorada no frio, e , sem saber como, levantava-me e fazia um chá de carqueja ou de tília, bebia um gole e deixava o resto, para os meus queridos meninos terem com o que enganar a fome. E saía e procurava o onde e o como, enganaríamos o estômago mais um dia. Recosto-me mais um pouco à claridade que se vai sumindo, e as memórias gelam-me as mãos e a sopa. Tanto sacrifício pelos meus meninos, e agora, há já anos que não vêm ver-me, ao princípio mandavam um xaile ou umas meias no Natal, e um postal a desejar Boas Festas, o último tem a data de há dois anos...queixam-se muito da vida, que lhes rouba o tempo e do dinheiro que só chega para as férias no Algarve e pouco mais; coitadinhos dos meus meninos, será que estão bem? E nem sequer me mandaram a fotografia do meu neto mais novo, que nem sequer conheço...encosto-me na espera, espero, desisto... a sopa está fria, mas ao menos, tenho uma sopa...

Wednesday, December 14, 2005

Novelo marinho

No Voz em Fuga voltou a haver desafio.


Parti do Novelo Triste e compus o Novelo Marinho, correspondendo ao mote da Hipátia.

(desenho de Gaivina)

Tinha-te dito que há dias em que precisamos de ver a nossa tristeza inundar os céus, afrontar os deuses, fazer-se matéria inteira, grosseira, gume afiado sobre uma pele desbotada.

Digo-te agora que desci dos céus aos mares, onde sou barco sem velas, parada, contrariada, incapaz de bolinar para alcançar o que está longe. Mesmo com vento. Astrolábio da desdita o meu que nada ensina. Nem me fascina.

Tinha-te dito que me deixasses sentir que estou só comigo.

Digo-te agora que sou mulher e espero sempre que outros ouvidos ouçam inversos daquilo que a boca diz. Caravela de esperança dentro de um coração apertado. Assumo.

Tinha-te dito que queria apenas ser coisa pura, talvez novelo.

Digo-te agora que só me vejo neste enrolar de mim para mim e que me afronta ser corpo em chamas sem que me toques. Por isso eu canto ainda. Calada. Por isso me detenho nesta almofada feita de fundos de mar. Depois deito-me numa cama gelada a ouvir o eco da ausência que me traz perdida, velha desdita de ser, sem ter contrapartida.




Tuesday, December 13, 2005

Poema para uma amiga triste

Por momentos ficaste de mãos vazias
Nos teus olhos vi farrapos de perfume
É assim que te recordo
Despida
Numa noite de estrelas cintilantes
Onde Vénus antecipava a despedida.

Punhas todas as palavras a dançar
Com energia
Quando falavas de lutas;
Alegria mascarada.

Fiquei sem sono
Arde-me a raiva
Fecham-se as mãos
Sinto-te irmã

Sondei-te os gestos nos olhos
Traziam lutos
E vi, depois, nascer na tua face
Uma lágrima gelada.

Monday, December 12, 2005

Sobre o ser português

Diz quem sabe que tudo pode ter começado com a rivalidade entre a aristocracia portucalense e a galega, sobretudo no plano religioso, com igual rivalidade entre Braga e Santiago de Compostela. Ao mesmo tempo autonomizavam-se outros espaços cristãos na Península, sem que possamos ter como assente o crescimento de uma nacionalidade face a um reino de Leão homogéneo. Diversidades regionais sempre as houve e há por todo o espaço peninsular e não é da geografia que vem a individualidade. Depois há ainda a considerar o carácter guerreiro dos primeiros reis em época de cruzada e as consequências que isso trouxe para o alargamento do território.
Enfim, de tudo isto terá nascido um país, com muito mais explicações à mistura, que a história não se escreve em meia dúzia de linhas. Quanto à vassalagem e ao espírito de independência daí nascente, o que me parece é que ela era praticada na época como instituição, logo, não há conceitos modernos que expliquem o passado, Nem há uma visão única sobre os acontecimentos, sendo que todas as explicações decorrem do olhar de quem as encontra nos documentos.

Ser português?
É complexa a explicação, porque o passar dos tempos traz ligações à terra, à língua, aos hábitos, a pormenores da maneira de estar e de se comportar; ligações que não fazem parte das nossas reflexões diárias mas que nos ocorrem por comparação, no confronto.

Pode ser essa a palavra: foi o confronto que nos deu alma (porque nos animou para a autonomia) e é do confronto com o outro que passamos a reflectir sobre o que é a alma portuguesa.
Sem que o fado ou o futebol nos expliquem ou nos justifiquem. E muito menos a saudade, que é coisa que se diz única mas que tem a ver com este assumir de uma pequenez evidente, dadas as dimensões do território.

Talvez me veja a reflectir um pouco mais, noutro dia…

Sunday, December 11, 2005

Fim-de-Semana em Dezembro



Não sei se é isto que é ser português, mas falávamos todos a mesma língua numa casa forrada a xistos, mesa farta e lareira acesa que lá fora, depois do sol ter caído atrás dos montes, o frio arrepiava os agasalhos e colava-se às pernas, enquanto os pés tentavam equilibrar-se no escuro. O Armando sabia de muitas coisas e a fábrica não parava de produzir informação. A Luna, matreira naqueles olhos vivaços de mulher-mastro, puxava conversas embaraçosas (risos) enquanto os da casa, no lado mais masculino, se iam esquivando às respostas; A Mushu carinha-de-sorriso distribuiu champagne, entre cigarros e graças e a Lima deitava simpatia pelos olhos. Nisso nenhuma das irmãs lhe ficou atrás: distintas, filhas dos mesmos braços que se abriram aos amigos, puseram calor na noite; a Iva mais do que isso, deixou-se ver por dentro quando falou dos seus mimos – e é bonita. Ficaram-me retratos de beleza, de uma beleza nascida ali no agreste da paisagem e cultivada em abraços de família que se junta e se gosta. E de quem se gosta.
O Manel tinha trazido flores – outra coisa não seria de esperar de um cavalheiro que deu provas da sua natureza sábia. E o Finúrias revelou outras provas – as da máquina fotográfica, as de uma sensibilidade muito fina e pura e as provas … do bolo de chocolate!
O Ivo partiu cedo e levou-me o olho direito, embora não o pudesse trocar pelos olhos lindos da Andreia porque as paixões são egoístas, felizmente. Fico à espera para ver o resultado.
Fim-de-semana em Dezembro, com as cores do Outono e o frio do Natal, porque tudo ali se misturou. Também o bacalhau da ceia e o espírito do acolhimento próprio das terras da Beira.

A mim ficaram-me as Palavras, lembrando-me que fiz, este ano, um Desafio ao Outono, depois de outros, carregados de folhas caídas. Para trás ficaram retratos antigos e variações no Verão.

Tuesday, December 06, 2005

Reflexões em Pisa

Falava-se de cidadania e a Aula Magna estava cheia. Toda a Europa estava representada e a participante espanhola cansou a assistência com um inglês medonho; depois a grega, com referências à politeia e à fratria. Foi às origens e colheu aplausos. Mas o inglês era sibilado (risos). Depois a flamenga a referir a necessidade de se repensar o conceito dada a mistura étnica a que o continente europeu vai assistindo. Ao húngaro perdi-lhe o fio, porque falou de emigrantes húngaros nos EUA mas tocou em Kant ou manifestou essa intenção. Abandonei o esforço.
Das ligações religiosas à secularização do conceito; dos medievalistas aos contemporâneos, todos envolvidos num gosto comum – escrever a História.
Ficou-me a questão que o francês usou para pôr o grupo a reflectir – o que é um francês? – e pensei que ter de provar a minha cidadania não seria assim um acto tão linear. Porque nasci em Portugal? (dantes, os filhos dos residentes coloniais ou emigrantes vinham cá nascer).
Porque falo português? (também um imigrante moldavo fala).
Porque tenho nacionalidade? (qualquer estrangeiro a pode adquirir).
E vocês, são portugueses porque…..

Sunday, December 04, 2005

Podia ter sido assim (2)

Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas quando a nudez do frio emaranhava pelos corpos. Depois os palheiros, casinhas de adobe rasteiras ao chão com telha muito gasta, as empenas a esboroarem-se gastas da esturração do estio e do salitre que soprava do suão, nos temporais invernosos. Dos poiais caíam cachos de malvas e alegrias da casa, dispostas em restos de vasos ou metidas dentro de cestas de palma entrançada.
Justina costumava sentar-se de pernas afastadas debaixo da chita da saia a dar espaço para o trabalho da empreita e ali ficava entrançando as tiras, cosidas umas nas outras, até que o redondo ia ganhando forma. À roda das casas corriam os moços pequenos zurzindo latas, caras sujas e pés descalços, os paninhos das camisas a saírem dos suspensórios com que seguravam o cotim gasto das calças transformadas pelas mãos destras das mães, que vinham para a rua ao fim das tardes – era a hora da lazeira, diziam –, sentadas nas cadeiras de vime, com a ceirinha das linhas e das agulhas, onde havia sempre um ovo de madeira para remendar as meias. Destacavam-se os caboucos do casario, de encontro aos cerros que fechavam a vila, vendo-se no chão as fendas da terra seca que levantava o pó branco à mistura com o canto das cigarras.
Os cães vinham ladrando ao caminho enquanto ela se afogueava e limpava o suor com as pontas do lenço.
Imagino ainda as falas:
- Ó ti Juliana! Chegue-me daí um cucharrinho de água, que já venho caminhando há tanto tempo!
A mãe da comadre levantava-se da cadeirinha de vime largando a empreita e lançava a corda à cisterna, ouvindo-se o eco do balde batendo na água fresca. Justina levava a cortiça à boca e refrescava depois as mãos e as maçãs do rosto.
- Vou à Igreja, ti Juliana.
(continua)

Thursday, December 01, 2005

Podia ter sido assim (1)

Sei que eles cresceram entre as estevas e as figueiras arredondadas, matando a fome com figos, pela manhã, em dias de sol, que as figueiras frutificam na primavera, como todas as coisas da vida, quando seguem o seu curso normal. Pai dançarino, folião, surpreendido pelas responsabilidades da vida quando ainda nem tinha tido tempo de cumprir todas as voltinhas do baile mandado, que os homens demoram a maturar. Mãe robusta de tanto parir: vinha um filho em cada dois anos, era apenas o tempo de dar de mamar ao anterior e já se o seguinte vinha a caminho, sei-o eu, de tantas vezes ter ouvido a história.
Sei que ela ia à Igreja porque o cheiro das velas e dos incensos era como que a prova final, se lhe provocava o vómito. Tinha, então, a certeza de estar novamente grávida.

Devia ser assim a caminhada para a vila, em direcção ao lugar que consagrava essa certeza:

Quando as alpercatas iam chinelando sobre a areia mais escura abrandava o passo mas se as carrasqueiras rareavam, o sol castigava e tinha de andar mais depressa. Debaixo do chapéu de palha ainda tinha a protecção do lenço, atado em duas pontas coloridas debaixo do queixo, misturando-se o cheiro fresco das estevas com o da transpiração, as meias colando-se às pernas magras. Afrouxava o aperto das ligas, fazendo-as deslizar para os joelhos. Seguia apressada, as mãos a darem o impulso da marcha, de trás para a frente, da frente para trás. Sentia a pieira no peito e o respirar era ofegante mas já avistava as primeiras casas da vila.Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos, à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas, quando a nudez do frio emaranhava pelos corpos... (continua)

Wednesday, November 30, 2005

Re-viver

Estava descalça no areal vestida ainda de espanto; quebrado o búzio as mãos estavam vazias e eu deixei soltar o grito sob os açoites do vento. Baixei então os olhos e a lágrima prendeu-se ao choro calado, envergonhada.
Sob os meus pés, as ondas murmuravam que não, que não, que não tens culpa e o sol continuava quieto no seu espaço absoluto.

Amanhã todas as coisas estariam ali, mesmo que eu não voltasse.
Ergui os olhos, ergui os braços, silenciei o queixume e avancei, serena.
Atrás deixava as águas e os meus pés trilhavam o caminho certo.



Foi assim que respondi à Diva, em mensagem de alegria à vista, mais uma vez, mas agora já sem rimas, que a prosa também é poética.

Depois veio a bastet, límpida nas suas frases lindas, e disse que eu tenho razão.

Tomei a areia nos braços,
e o mar sentia-o no ventre,
sorvendo as lágrimas de sal
com as ondas do meu desalento.
Traguei a vida num sopro,
até à banalidade da morte,
fiz de pouco a minha sorte
e do amor amuleto...
Despi-me de roupas e credos,
vesti-me do verso, de errado,
não fosse o destino ofertar-me
o teu corpo por presente...
Que mais fiz que não faria?
Que vagas rebentaram cá dentro,
quando nua me vi deitada
ardendo de fogo e tremendo...
Troquei seixos por promessas,
rezei, chorei e pedi
que a espuma da maré vaza
te trouxesse de novo até mim.
Cinji a cintura de algas,
cobri o rosto de véus
quando na praia te vi as pegadas
e te senti os braços nos meus...
Das febres, das seivas, dos gestos
dos risos, gemidos, odores,
calou a noite o segredo
guardou o mar os sabores...

Monday, November 28, 2005

Desgarrada


Tudo começou quando a Addiragram, no Aguarelas de Turner, ofereceu esta gravura ao poeta desconhecido que há em cada um de nós, a propósito do Escritor Famoso.



1. Primeiro foi ela :


I
Em dias assim envolvida neste choro do tempo
ouso sair
Que são tantas as lágrimas que as minhas se perdem

II
que ramos quebrados são esses
que força usámos para nos perdermos

Chicotes de vento
Chicotes de tempo

III
atravessa o vidro, trespassa a árvore
desventra a nuvem e a neblina
percorre a casa que é um fantasma
e o meu olhar não encontra nada.


2. Depois eu...

I
Em dias assim
Seco as lágrimas nos cantos da boca

E risco a face de arco-íris sem vento;

II
Depois trago para dentro o olhar,
Ponho ramos secos no centro das mágoas
E neles prendo flores viçosas;

III
Ganho o dia,
Ganho tempo;
Amaino o bater dos chicotes nas memórias
E sento-me na calma das palavras.


3. E ela aceitou a desgarrada, dizendo que ía continuar no registo à "Madalena":

Em dias assim
o vento rasga os arco-íris

que nascem nos meus olhos

Mas se acaso algum escapa
e desce à foz que são meus lábios
sinto que o tempo o congela
e nem a mão o afaga

e não há mão que me afague
nem manto que me dê asas
nem fogueira que me aqueça
até que esta mágoa passe

Arcos-lágrima que perduram
por sobre sóis e palavras
espelham tua íris negra
despojada de ternura.

4. E eu, de novo...

E não há mão que me afague
Sem conhecer os meus beijos
Nem afago que resista
Ao arco-iris que ponho
No braseiro dos desejos;
Nem manto que me dê asas
Porque cavalgo com o vento

Porque aproveito os despojos
E não deixo o pensamento
Rasgar a luz dos meus olhos;
Não há mal que me destrua
Nem fogueira que me queime
Quando amanheço na foz
Porque o tempo é meu amigo
E traz-me sempre no vento
Luas novas, sóis diferentes
Iluminando-me a Vida
Até que esta mágoa passe.


5. E pois, agora eu, disse ela de novo:

em dias assim
olho os girassóis na tela
meus olhos que seguem os teus
olhos que levam os meus pela trela

em dias assim
abafo as fogueiras
minhas mãos que querem apenas arder nas tuas
mãos que se fecham n' algibeira

em dias assim
escondo-me neste manto
meu corpo marcado pelo espanto do teu
corpo animal de puro sangue


espasmos, danças, achas, cheias
que em dias assim
rodopiam nos meus olhos como areia.


6. E eu tinha de responder...

Em dias assim
Ponho girassóis nos olhos
E sopro, no som dos búzios,
O apelo do meu corpo;

Sigo depois em dança
Tacteando a neblina;

Em dias assim
Fecho a noite à beira das marés
E componho a minha dança
Na caligrafia das ondas;

Solto os sentidos
Rasgo-te a pele
Soltam-se os gritos
...
Sente-se a calma;

Nesse instante acordo o espanto
E sento-me, descalça, no areal.


7. E a desgarrada parece ter-se transformado em maratona, disse a Diva:

Descalça no areal
parei para sentir a noite
esse instante em que o vento é mais nu

o teu corpo fica frio de vento
os odores caiem c'os açoites do ar
esse instante em que a palavra é mais crua

os olhos erguem-se para a palavra o céu desce até nós
tocam-me as luzes que tremem

e nesse instante quebras um búzio
e suspiras adeus.

8. Depois veio a maria e meteu-se aqui no meio...

descalça no areal
parei para sentir a noite,
grávida de sonhos
que a mão da consciência
sente pontapear

naquele instante
em que suspiraste adeus
vi que na ampulheta dos teus beijos
se media o meu tempo

e levito no vácuo da espera
ansiando que um búzio qualquer
te sussurre “vem”na minha voz de mar.


Friday, November 25, 2005

Um quarto nas águas-furtadas

Vou contar-te como a mulher dele me disse para ir embora, que a casinha era pequena e eu estava a dar despesa. Levei apenas um saco na mão e pedi à madame para me arranjar um quartinho nas águas furtadas do restaurante, onde havia um colchão e pouco mais, já não me lembro do que havia, mas sei que o partilhava com a enteada da patroa, atendíamos ambas à mesa, no rés-do-chão e ela um dia foi apanhada a comer sopa às escondidas. Nesse dia, a madame trouxe a panela da sopa para o quarto e, ali à minha frente, falando na soupe, que eu não percebia mais do que isso, obrigou a moça a comer tudo, tudo, que nem as lágrimas serviram para nada, as dela e as minhas, abraçadas depois na desgraça de um quartinho numas águas furtadas, acordando na manhã seguinte para mais um dia de trabalho.
Mas não morri, não, que uma mulher arranja sempre forças e eu tinha de cumprir a minha pena. Não podia andar sempre no coiffeur a entufar o cabelo, mas dava um jeito às minhas farripas escassas e aparecia sempre com bom aspecto aos clientes, mademoiselle, comment ça va?, e eu a aprender palavras novas e a rir-me para todos, chamando a mim a alegria de viver de novo ou enganando-me com ela, já não sei dizer-te.
Hoje, à distância do tempo, penso que os dias passavam e eu seguia com eles, mas não consigo dizer se me movia a petite bourse onde juntava os francos, um a um, a imagem do meu filho a entrar no carro do pai e a encarar-me como se eu fosse um fantasma pálido, ou o brilho dos meus olhos grandes, muito pretos, cujo contorno eu continuava a acentuar com o eyeliner, que se dizia crayon e atraía os homens que vinham comer au restaurant.
La portugaise, diziam os clientes. Era o que eles diziam e gostavam que fosse eu a atendê-los, sorridente, embora à noite, no quartinho acanhado das águas furtadas, não tivesse já lágrimas para chorar aquela qualquer coisa tão vazia, tão vazia, que eu não sabia se eram saudades ou se era a morte a chamar por mim. E continuava a sorrir, para as afastar a ambas.

As memórias

Lembro-me de ti quando trepavas a laranjeira, no quintal da casa da avó, para alcançar, lá do alto, a aproximação dos inimigos que irias derrubar com a tua espingarda de madeira “pum”, “pum”. Sem vinganças, sem maldades, apenas traquinices de uma infância feliz, espraiadas ali no quintal, como se fosse numa selva ou numa floresta, porque no apartamento o espaço não chegava para a imaginação, penso eu agora, depois de ter tido filhos e de ter percebido que os espaços fechados das casas empilhadas umas sobre as outras os impede de verem as estrelas à noite, tanta luz à volta dentro das cidades e armas de guerra nos cestos de brinquedos, de todas as formas e feitios, com luzes e sons, sem ser preciso fazer “pum”, “pum”.
Os anos passavam e eu perguntava-me, sempre que colhia as laranjas ou as apanhava do chão, grandes, maduras, vivas, onde estarias e como seria a tua vida. Via ainda a espingarda de madeira nas tuas mãos brincalhonas, mas já procurava o teu nome nas listas dos alunos que frequentavam a minha escola, sabendo que os anos nos teriam mudado as feições de miúdos e que não seria possível reconhecermo-nos se nos cruzássemos na rua. As turmas eram só femininas ou só masculinas lembras-te?, mas naquele dia em que o senhor ministro visitou a escola e nos enfileiraram no corredor, de bandeirinha na mão, menina ao lado de menino e menino ao lado de menina, a comitiva toda a passar e nós compenetrados na nossa missão de infantes da Pátria, quase como os militares que desfilavam antes de embarcarem rumo às Áfricas, como a televisão mostrava, fazendo chorar a minha mãe, naquele dia eu procurei-te com os olhos, pensando sempre que podia ser possível descobrir-te. E dar-te as ler as cartas vindas de França.

Wednesday, November 23, 2005

Pensamento a cores


Visto-me de azul, pinto-me de céu e os olhos nesses dias são caleidoscópios.
Abençoado mundo colorido, quase divino o pensamento, ou submisso.
Rente à folhagem pousam pássaros e ouço-lhes os cantos se me visto de verde. Soltando-se da cobertura acastanhada a erva rompe e eu piso-a cautelosamente, emoção em tons de esperança.
Se é cinza o tempo morre, a música do orvalho adormece e o silêncio já não cabe nos olhos. Havendo dias de negro, cantos dos lábios a tocar o chão, olhar baço sobre a viuvez das horas.
Prefiro as rosas, aromas de jardins a encher a alma, matizes suaves e os olhos cheios de prazer.
Se digo vermelho os olhos fecham-se, flamejam para dentro e o corpo estremece. Vermelho vivo, desejo. As horas podem ser lentas no desbotado das ausências; podendo haver um pôr-do-sol cor de fogo quando é verão.

Monday, November 21, 2005

Leda

Leda


Agradou-lhe a silhueta longa, oferecida
Por isso vestiu-se de penas
E desceu sobre o corpo perfumado da rainha;
Despida, ela tinha apenas o aroma de um corpo de mulher
E ele, alado,
Pousou-lhe no peito um beijo divino.

Abrindo os braços ao calor das asas
Ela sentiu-lhe o debicar macio
Sobre os mamilos;
Foi quando lhe estendeu a mão fechada
E o desejo se cruzou nos gestos.

Sunday, November 20, 2005

O encontro

Brincávamos com as palavras e víamos a mão destra por detrás de cada uma delas. Da mão ao rosto ia apenas uma sílaba.
Depois pedimos às fadas que desvendassem os esconderijos e olhámo-nos nos olhos.
Foi o momento em que a magia se revelou inteira.

Friday, November 18, 2005

(2). Vozes e Silêncios

Mas havia também o som de outras vozes. Foi por isso que se rendeu à racionalidade do fim da noite e fez o caminho do regresso.
Ligou o rádio em gesto de procura – a companhia de uma música, talvez, ou de um som que afastasse o incómodo do fim de noite. Fez rodar o carro sobre um eixo incendiado que lhe vinha das entranhas, no escuro e viu-se a percorrer as mesmas ruas.
Era tarde quando chegou. O gato fê-la tropeçar, presença inesperada na confusão de mãos a saber a beijos sob o incêndio das dúvidas.
Sentada, aconchegou o pêlo ao bicho que lhe procurou o colo e teve a noção exacta do momento em que chegaram as memórias. Não gostava destas visitas que vinham de noite e aproveitavam o silêncio para trazer gemidos. Gemidos não, pensava. Era como se das paredes saíssem até os cheiros encostados às palavras; evidências em voo a apoquentar a chegada da manhã. Gemidos não, dizia.
Não era justo que continuasse a dar guarida ao mal. Depois pensou no bem e não soube a quem acolher.
Levantou-se e decidiu que o dia iria começar ali. Disse então que sim, que tinha o direito à ousadia.

Thursday, November 17, 2005

Precipícios

Sufoco-me de instantes; esperança feita de dias acabados.
Os amanhãs ficaram em linha e eu suspensa, lançando o olhar em projecto.
Os bicos dos pés saltitam sobre a garganta forrada a verde-musgo.
Alcançarei as nuvens?

Texto para o Escrita Solta.

Wednesday, November 16, 2005

Vem aí Poesia



I
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco onde possas guardar,
Sempre que queiras, coisas da ordem do incomunicável ao próximo.
Depois da morte, voltaremos ambos a estas páginas
E procuraremos renascer no apagar das palavras.


II
O prédio está em silêncio, no seu repouso
Erigido à beira da estrada.
Sou capaz de imaginar alguma brisa,
Folhas de arbustos a correr assustadas.
No quarto ao lado, tu, adormecida e ausente,
Em sonhos. Levanto-me e apalpo
O trajecto reconhecido, a luz apagada.

(...)

VIII
Olho o poema, não me entendo na decisão do seu início.
Talvez o poema não comece exactamente na primeira palavra.
Talvez devêssemos virar tudo isto ao contrário.


IX
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco,
O meu recado. Vais fingir que eu nunca existi
E eu não vou voltar a procurar como dizer
Coisas que me doem. Depois da morte,
Talvez.

Luís Filipe Cristóvão



E se fôssemos todos a Torres Vedras, no dia 26 de Novembro à Livraria Livrododia, para cumprimentar o poeta?

Tuesday, November 15, 2005

"fingere".blogspot.com

Gostava de equacionar a palavra Verdade numa fórmula perfeita, inalterável, mestra.
Para isso teria de entrar no mundo dos números, mundo racional, mundo de realidades apinhadas de vértices e arestas laminares ligadas seguramente por uma coerência interna que me escapa ao entendimento.
Tenho, então, de entrar no mundo das palavras e ficcionar com elas (ficção = fingere = fazer) uma construção que arrume e organize a relação com o real.
Tudo em linha para que delas não se escape o entendimento. Depois tenho de usar harmonia e ritmo para estabelecer a ligação dos ingredientes. Receita antiga. Construção.

Monday, November 14, 2005

(1). Sinais e Vozes

Ele acolheu-a com os olhos à chegada. Curiosidade mútua de se saber que palavras vinham a seguir. Ou que demonstração de que desejos.
O sol já se tinha escondido, já nem se podia sentir a magia daquela linha ténue sobre o espelhado do mar, uma linha apenas que separa o real do irreal, pensava ela, com ilhas ao longe e sonhos de partidas. Contudo havia a magia da noite, momento em que tudo fica mais obscuro.
Frente a frente, entre o gelo das bebidas e o calor dos cigarros acesos, chamas a incendiar os olhos, ele falou de amores perdidos, pobres, gastos.
Ela escutou. Sentia-se a questionar o estar ali mas o desafio estava lançado ou esteve lançado quase desde o início, em ambiguidades mal resolvidas e numa resistência que pode ter sido a responsável pelo desencadear das emoções.
Lado a lado, saltitando ao sabor das suspensões do carro, o caminho fez-se estrada e as mãos soltaram-se. Que desejo? Que laço de entendimento? Que atracção? Provavelmente a da ambiguidade e apenas essa.
Talvez pudessem ter adiado tudo, adiar é uma boa solução porque a seguir vem sempre a inscrição da racionalidade no desejo, sobretudo se passam umas horas ou uns dias sobre a precipitação de uma emoção ou apenas de uma busca, pensava ela. Vale sempre a pena adiar e fazer as contas às perdas e aos ganhos.
Depois, ainda que não fosse isso o adiamento, ele aconchegou-lhe os lábios, enquanto ela fingia que não esperava a ternura do gesto. Foi quando se deu conta de estar a imaginar que a transparência dos sinais era visível, ou que podia preencher os vazios do momento com o arrebatamento das emoções, ou que tinha o direito à ousadia. Havia música na voz e música nas mãos, era o que ela sentia.
Mas havia também silêncios ou o som de outras vozes. Foi por isso que se rendeu à racionalidade do fim da noite e retomou o caminho do regresso.

Friday, November 11, 2005

Minha... e depois longe

Trazia-te dentro de mim com a novidade da primeira vez e o furor da intenção cumprida. Era o projecto a ganhar a sua velocidade e o desejo da realização a trepar uma das encostas. Projecto de amor. Sublime como todos os projectos que brotam do centro do nosso dentro.
Trazia-te dentro de mim e era muito jovem. Tão jovem que hoje pronuncio ainda desajeitadamente os dizeres do amor que não sei se fui capaz de te colar à pele.
Trazia-te transportada, menina minha, corpo dentro do meu corpo, ave ainda aninhada e eu sem asas, rasando a entrega e cumprindo-a sem condições.
Trazia-te para te deixar, depois, largada em voo mas com fios tecidos de atenção nos olhos, para lhe proteger das penas.
Trazia-te para te dar ao mundo, sem penas de penar, sem pesos, sem precipícios. Só queria olhar, atenta e sorrir ao teu voo feliz.
Trazia-te sem poder saber que um dia as nossas crias saem de nós para muito longe. Longe na distância que vai do coração às palavras. Crescer dói muito.

Wednesday, November 09, 2005

Variações no Verão

Foto de MRF

Éramos vizinhos do vento e as aves vinham em visita enquanto conversávamos sob a visão do céu. Andorinhas vestidas de viúva vinham espreitar-nos por detrás das folhas e o verde do meu vestido, aconchegado nos trevos, desafiava-lhes a vontade.
Os teus olhos sorviam os raios de sol chamando-lhes vida. E eu ouvia versos voando da tua boca. Chamavas-me Diva.

Monday, November 07, 2005

Não me quero prisioneira


Soltei do corpo todas as palavras e fiquei despida.
Tenho frio.
Não me aquece esse amor feito de camadas de óleo sobre a madeira
Antes perdida.
Doem-me as mãos de tanto segurar em mim.
Aprisionaste-me na moldura mas estou partida.
Mesmo que traces contornos em contra-luz
E o teu engenho me cole ao espelho,
Já não tens tempo
Fiquei sem vida.
Não me contemples. Já não me tens
Para que te sirvo desconstruída? Ou prisioneira?
Baixei os olhos ao teu desejo,
Deixei de ser para te agradar
Mas não sabia dessa magia que tu usaste
Para me pintar desta maneira.
Fechei os olhos, não quero ver-te,
Nem quero a sombra que desenhaste não sendo eu
Cobre-me o corpo, não me desdobres,
Vê se me encobres que tenho frio.
Para quê esconder-me, disseste tu?
Não me importava de me mostrar
Mas este estado de desvendada, quase esventrada, retrato nu,
É expor a alma, aprisioná-la.

Não peças mais para me rir
Estou cansada de me segurar, quero ir dormir.
Dei-te o meu corpo como quem dá tudo o que tem e aqui fiquei.
Sou o teu sonho e o teu desejo
A tua obra já acabada..
Solta-me agora que tenho frio
Quero ir dormir.
Já estou cansada.

Sunday, November 06, 2005

Aprisionar Palavras

Falámos de métrica. Em conversa solta.

Depois escreveram-me um poema.

Deixei aqui palavras prisioneiras enquanto solto as outras numa tela de Magritte...



POESIA ...

Pintura que se traduz
Em melódicas toadas
Que o poeta tece a fio
Em doses nunca acabadas
De grandezas sem medida;

E entre sons e acordes
Movem-se as sombras da escrita
Iluminam-se os portais
Reflectindo a luz bendita
Da cor, do som e da vida.

Saturday, November 05, 2005

Desafio ao Outono

Respondi ao desafio...




Costumávamos ficar deitados à beira do Outono
Como se quiséssemos guardar o fermento das palavras
Usávamos a voz na margem das penumbras
Não fossem os deuses acordar zangados
E escrevíamos páginas de silêncios
Sobre folhas engelhadas;
Cruzávamos as mãos sob o declinar do sol
Os corpos fundiam-se com a terra e cheirava a barro fresco
Se chovia molhávamos os lábios depois dos beijos
As folhas inchavam apercebendo-se do calor dos olhos
E no céu, por entre os intervalos da folhagem velha
Os deuses liam-nos as mãos, pausadamente
Determinando as palavras que me dirias
Por entre as linhas descontínuas, quebradas
Éramos presas fáceis depois do fim do verão
Sem tardes de abraço quente à sombra das falésias
Nem passeios de aves
Em silêncio ofereci-te a minha mão
E sobre ela despontaram as sílabas da palavra amor.

Friday, November 04, 2005

E o Torga também passou por aqui...

... ou eu por lá.

Provavelmente porque ando a fazer tempo para os poemas que vou mandar ao Escritor famoso.
Até lá, falam os poetas a sério.



A Verdadeira Morte

O domingo passou, mas nos meus olhos
Não morreu a paisagem da moldura
Mal dos montes, das urzes e das fontes,
Se perecessem pela cercadura!

Outro tempo os preserva e acarinha
Dentro de mim.
Na fortaleza da recordação,
A duração das coisas
Não tem fim.

A desgraça completa
É se morre o poeta...

(Miguel Torga)

E depois a Sophia...

E depois a Sophia... e a difícil escolha, quase um gesto de acaso com o livro aberto às cegas.

E o cheiro do mar sobre a cor dos sonhos e o assobiar dos búzios nos ouvidos e o murmurar das ondas em desenhos nocturnos e os aromas dos jardins perdidos e os dias luminosos entre poentes cor de rosa e frios...



Tudo

"Tudo me é dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio de um sonhar obscuro
Em que do bem, às vezes, nasce o mal

À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos
Sobe os degraus do ar..."

Wednesday, November 02, 2005

Eugénio de Andrade - para começar

Sempre gostei de ver as palavras a saltitar e de lhes ouvir a música; não eram tanto as que dizia mas as que deslizavam para dentro, presas no interior da timidez.

Foi por essa altura que descobri Eugénio de Andrade.

"Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos
ficamos longamente à sua espera."
(As mãos e os Frutos)

Desafios



Ao passarmos pelo Divas e Contrabaixos somos desafiados.

Vale a pena ir espreitar e aceitar o(s) desafio(s).

Sunday, October 30, 2005

Novelo Triste



A Hipatia da Voz em Fuga, lançou um desafio, a partir deste desenho.

Porque estás triste? Não te dei já o sumo de laranja que querias?

Respondi...

Gosto de coisas puras, perfeitas, autênticas.
Não suporto que me enganem, que finjam gostar de mim ou do que eu faço com dizeres amáveis, prestáveis, insuportáveis.
Por que vieste com a conversa do sumo? Mais parecias um miúdo inseguro nos actos, inconsequente, carente de mãos meladas.
Respeita as minhas lágrimas; há dias em que precisamos de ver a nossa tristeza inundar os céus, afrontar os deuses, fazer-se matéria inteira, grosseira, gume afiado sobre uma pele desbotada.
Não me toques nos cabelos; deixa-me sentir que estou só comigo, não quero ânimo servido em mãos adoçadas, enganadas de tanto pensar que podem salvar os outros das suas grades antigas.
Não me olhes, não me estendas um copo da cor das chamas; deixa-me arder por dentro que rebento se não consumo este sentir angustiado. Já me vi ao espelho, não precisas de me lembrar que o canto é grito calado; são assim os cantos dos meus olhos quando estou triste. O mais certo é teres andado desatento se nunca viste como sou planta sem viço.
Seguro o meu pé, viste bem; é certamente porque me enrolo neste feitiço de ser assim. Ser coisa pura, nua, talvez novelo. Assumo.

Thursday, October 27, 2005

Construções Narrativas

Histórias planas dobram-se e metem-se no bolso onde a mão envergonhada as espalma até deixarem de ter a dimensão de coisa mal começada. Reduzidas a pó ainda incomodam, contudo.
Não era, pois, de estabilidade que queria falar. Nem creio que quisesse falar de alguma coisa concreta. O caso era esse. Faltava-me adequar a personagem ao seu perfil, não tinha ainda definido as cores nem as linhas do vestido mas sabia que teria de ser amplo como convinha a personagens redondas; isso sim, que as queria anafadas de adjectivos omissos. Por isso nesse dia não tinha bolsos.

Disseram também que eram precisos antagonistas – só o vilão nos convence da bonomia – e que os devíamos encher de sedução. E eu, que apenas via o sorriso sério e franco metido nas páginas, entre asas de pássaros e o aroma velho de flores secas, não desencantava ali o natural engodo. E desesperava já de tanto me dividir: conto ou mostro? Estaria aí, se a encontrasse, a solução para o decoro; mas o que eu queria mesmo era ver o adjectivo ganhar gumes sem se mostrar aos olhos. Coisa de engenho.
Só faltava, pois, fixar-me no desenlace, inventar um artifício, criar, em suma o estranhamento que prendesse o infiel às palavras.

Monday, October 24, 2005

Descrença

Levaste-me a ver o mar de um sítio alto, visão magnífica, pensei, enquanto te olhava de soslaio para reconhecer passados. Busca-se sempre a versão dois de coisas póstumas. Escrevi levaste mas já não sei se fui eu que te levei e se foi a mim que olhaste; talvez tivessem sido olhos cruzados mas não me lembro de colisões. Trazias flores? Confesso a má memória, reconheço a teimosia de apagar tudo e destruir os adereços; depois é impossível refazer cenários, nunca se conseguem dois desenhos iguais. Era capaz de dizer que o beijo deixou sabor, mas qual beijo?, o que ficou perdido nos primeiros tempos ou a imitação desse, na ilusão procurada do mesmo arrepio? Só me lembro que estávamos sentados sobre espinhos mas tu dizias que era o verde da estação. Se lá chegarmos, pensava eu. Também me ocorre agora que era noite mas eu protegia os olhos como se o sol estivesse a pino; e o ar estava doce. Na tua boca. Foi então que estendeste a mão divina e eu transformei-me em sapo.
Maldita descrença.

Friday, October 21, 2005

Tentando entendimentos


Também te digo que há dias em que o tempo causa desconforto. Dias côncavos. Dias de trechos velhos cujo eco parece traçado em telas tempestuosas. Troncos torcidos de nudez rente ao outono e folhas secas sobre a terra entufando a lama. E telhas revestidas de verde sujo, fechos monótonos a cruzar as tentativas de entendimento.
Também te mostro a trama que se diz ter sido tácita; todas as teorias poderão testemunhar a tentação das culpas, porém nada faz sentido, apenas a paisagem como um tentáculo a matar a temperança e depois a tentativa sacramental da pacificação. Tudo turvo.
Acredita que de nada valem os lutos. Estava traçado o fim dos tempos em tatuagens celestes – era o que eu diria se não fosse o tédio. Porém nada transcrevo
porque nada estava determinado. Mas também não me satisfazem as entrelinhas.

Tuesday, October 18, 2005

Pedras desfeitas


Então dizias-me que havia uma pedra pousada no rio, uma pedra-ponte que se podia pisar para alcançar a outra margem. E que eras a pedra, pé firme sobre a solidez emprestada à partilha. Pé frágil o meu, pedindo apoio. Mãos postas sob os céus polidos de tantas preces.
Disseste que era para sempre. Podia ter sido para sempre essa ponte pousada no rio para chegar à placidez das águas. E o sempre fez-se tempo escrito no encanto das primeiras páginas de uma história de princesas. E depois passou sem se tornar eterno.
Para sempre ficaram as memórias num lugar de permanência que pintámos a duas mãos, sobrando agora apenas o olhar sobre o passado, pouco mais do que um passo em falso sobre uma pedra que as águas tornaram pó.

Friday, October 14, 2005

Retrato de um príncipe adormecido

Photo de Camilo Margeli


Constróis o teu casulo em seda espessa até sentires encoberta a existência; depois imaginas que nasceste num país todo coberto de neblina e é de névoas que fazes os teus dias.
Os bens nada te dizem de importante. Despojas-te do oiro, temendo ser um príncipe, antecipas o gelo com medo dos braseiros e apagas os incêndios à nascença; quando nos teus dedos nascem horizontes foges dos sentidos cobrindo os olhos com remendos tecidos do brilho das estrelas. Recusas a caligrafia demorada das palavras imaginando que elas denunciam a tua sede no caule de cada rebento novo; e vais secando, na alma, a terra das sementes que trazem a cor da lua. Temes, ainda, os salpicos da água no teu corpo sonolento e deitas-te protegido pelas dunas.
Se pudesse coroava-te de todas as flores e assobiava, num búzio, o chilreio das aves à beira-mar; parava os gestos na escultura do teu corpo e ficava a teu lado sem te chamar solidão. Depois fechava a noite no silêncio e levantava as brumas entoando madrigais de encanto, horas e horas sem fim, enquanto dormias.

Thursday, October 13, 2005

Em memória de Florbela Espanca

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os Homens! Morder como quem beija
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino se Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!”





Se eu fosse ela...








Disseram que eu acendo as fogueiras dentro de mim própria com as palavras que invento. Que coabito comigo e tenho tudo dentro de mim, como se fosse hermafrodita. E que me impus amarras que ninguém quebra.
Disseram também que eu faço temer com o poder das minhas palavras, que pode ser o poder dos olhos, se não as digo.
Disseram muitas coisas, tantas quantas cada um quer dizer se me intercepta a meio caminho, entre mim e o que não contenho.
Também disseram que sou mitificadora. Pouco importa.
Há qualquer coisa de autofágico em pessoas assim, talvez loucura ou qualquer coisa situada a meio caminho entre mim e o que não sei dizer à vida, dizendo-o em palavras que apenas vão de mim para o meu amor pelo próprio amor.

“Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor
Passa por ele a luz de todo o amor…
E nunca em meu castelo entrou alguém”.
(Castelã da Tristeza)

Uma sensibilidade assim vem da loucura ou conduz a ela, não sei ainda qual é o sentido do processo. Mitificação do amor; amor querendo sentir-se sabendo da sua impossibilidade porque está gelada a capacidade de entrega; gelada ou arrefecida pelo medo. Ou pela vontade de mitificar uma coisa que, se for concreta, perde a essência.
Uma sensibilidade que gera a vontade de ver amor em tudo, de sentir amor por tudo, sem nada ser capaz de sentir.
É talvez essa a razão feroz da procura (ou a razão da feroz procura).
Haverá qualquer coisa no mundo que quebre o gelo?
Talvez o braseiro das fogueiras, por isso as incendeio deixando que elas consumam o que me pertence e que ninguém pode tirar de mim porque ninguém soube ainda quebrar as amarras.
Talvez o sofrimento do próprio processo criativo, o voar lento e brando das aves de asas longas, em vez do voar picado da gaivota.
Talvez a procura do prazer pelo prazer, engano dos que pensam que me entrego, engano dos próprios homens a quem amei, porque o que amei neles não foram eles mas o amor que queria ter sentido. Tudo dentro de mim.
Talvez a vingança de qualquer coisa obscura que passa pelo domínio do outro. O prazer do domínio. O desafio de ocupar o lugar cimeiro destronando o outro com o fluir das palavras-frases, olhos abertos ao lugar das confissões e do despir fácil, fragilizando quem quer que esteja para além de mim, sem sequer lhe ver o rosto. Ou inventando estátuas em chamas à força de lhes sentir o gelo, recusando o calor dos olhos próximos.
Quem inventa consegue ser o começo e o fim das coisas, chegando a confundir-se a si próprio com a imaginação criadora.
Amar o amor é uma cruxificação.

“ Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!”
(A minha tragédia)

Wednesday, October 12, 2005

Vestido Roxo com Asas ou A Memória da Dor

O texto da Marquesa d'Aires, no Divas e Contrabaixos , fez-me recordar uma coisa que escrevi em vésperas de bisturis e batas brancas. Tudo já resolvido mas a memória a fazer ainda das suas...

Para resolver as más memórias podemos sempre olhar as imagens e as palavras da O'Sanji, não se sabendo onde começam umas e acabam outras, parecendo que se prolonga tudo numa sensibilidade muito especial.

Aqui vai o texto...





Photo de David Strohl



Vestido roxo com asas ou a Memória da dor

Nunca se sabe o que acontece dentro da memória quando os olhos se abrem em direcção ao tecto e as horas custam a passar. Deve ser o excesso de repouso abrindo-se, nesses momentos, o espaço às imagens do passado. E elas surgem, como se o tempo não tivesse existência e os ponteiros de todos os relógios tivessem ficado também imobilizados. Como se o tempo estivesse a vingar-se, arredando a verosimilhança das imagens guardadas na memória e fazendo soltar, desse reservatório de penumbras, a autenticidade das impressões registadas.
Se fechar os olhos centro-me toda na intensidade da dor. Por isso deixo que uma asa bata ao de leve nas pálpebras abertas e o tempo dilata-se, fluído. E os actos únicos, individuais, parados no tempo, tornam-se presentes.
Era roxa a cor do vestido que me enfiaram pela cabeça. Chegava aos pés, mesmo depois de apertadas as fitas do cinto. Levei-o para casa para sair já vestida, pela manhã. Creio que nem dormi ou, se dormi, sonhei com os anjos todos do paraíso.
Imagem bonita a dos anjos, povoando todos os presépios da infância. Coleccionava-os entre as folhas dos livros, alguns eram distribuídos pelo padre, na sua visita semanal à Escola: toda a classe de pé, “bom dia senhor prior”, e ele, muito direito naquela roupagem preta, abotoado de alto a baixo, mil botões miudinhos e uns óculos de vidros grossos com olhos pequeninos dentro. Falava-nos justamente no eixo do Cristo cruxificado, exibição diária de um sofrimento eterno, na direcção dos nossos olhos, quando tentávamos compreender a mecânica das subtracções, no quadro preto. Deve ter-nos dito que o roxo era a cor da paixão, sendo que a paixão era sempre sofrimento. Coisa estranha quando se acordava para a linguagem romanceada do amor.
Por cima do roxo, um par de asas brancas, feitas de rendas e arame, uma carreirinha de penas a esvoaçar nas pontas e fitinhas para as prender ao corpo, disfarçadas, sob o vestido. Na cabeça uma auréola dourada moldada em duas voltas encimadas por uma estrela, ilusão de estar sempre acompanhada pelo contorno da santidade.
As asas esvoaçavam em todos os espelhos e o meu sorriso compunha o voo celeste das pregas do vestido. Teria calçado sapatos brancos, provavelmente novos, provavelmente rijos, ainda não estariam moldados ao pé. Nesse tempo os sapatos eram chinelos e um anjo tinha de ser humilde. O padre dizia-nos que deveríamos fazer sacrifícios. Palavra pesada e mais pesado ainda o caminho para o paraíso, embora as imagens fossem de asas e de anjinhos de pele rosada.
No verso das pagelas os anjos deixavam um espaço para o registo do sacrifício do dia: hoje ajudei alguém a atravessar a estrada; hoje dei o meu lanche a uma menina pobre; hoje andei com sapatos apertados. Mas não é disso que me lembro. Continuo de olhos abertos para o tecto, sabendo que todo o esforço é doloroso.
Doem-me os braços, estão dormentes, quero voltar a pô-los na posição direita, quero que eles caiam pelo corpo, na vertical, mas não consigo.
Na véspera levara tudo para casa; era preciso ajustar todas as vestes ao meu corpo infantil, dar um jeito nas asas, compor a auréola e ensaiar o transporte do objecto sobre o paninho roxo, os braços estendidos para a frente e as mãos abertas. Na sacristia tinham distribuído todos os acessórios: o anjo branco levava o pano com que limparam as chagas de Cristo; o anjo azul levava a coroa; havia anjos roxos que levavam umas estrelas na mão, presas numa varinha – tão próximos das fadas – e eu, porquê eu? – transportava o feixe de varas com que lhe bateram.
A procissão saiu da Igreja, deu a volta completa à velha construção e foi percorrendo lentamente, todas as ruas da vila. À frente e atrás figuras de olhos muito tristes, de mãos postas, seguiam aos ombros de homens vestidos de roxo. A mim doíam-me os braços, sentia-os como duas peças mecânicas que deviam continuar a exibir o objecto.
Havia colchas brancas e roxas em todas as janelas, gente em todos os cantos de todas as ruas olhando para mim. Era eu que transportava o peso da maldade. Era eu que feria o divino. As minhas mãos abertas não paravam de exibir o feixe de varas com que Cristo tinha sido castigado, sangrando das feridas abertas pelas varas que os meus braços estendidos mostravam a todos.
Não sei quantas horas caminhei pelas ruas entre anjos e demónios, na tristeza do roxo com que me vestira pela manhã. As pessoas iam segredando entre si e era para mim que olhavam
. Os pés doíam. Mas não é isso que me perturba a memória. São os braços, dormentes, rijos; e a intensidade da dor quando os tentava descer. E a inquietação de um desconforto que se avolumava, à medida que as asas desciam, pesando-me já a consciência clarividente de que a dor era um erro.

Tuesday, October 11, 2005

Rumo ao Mar com as Aves pousadas nos braços

Vinha do Outono
e já não ousava lembrar
como era verde a paisagem;
vinha do sítio onde os ângulos das pedras
assanhavam os ventos
calando-se o assobiar dos madrigais
desfeitos no reflexo dos espelhos partidos;
onde os telhados adormeciam ao domingo
sob o desconforto da chuva miudinha;


Guardava alguns silêncios em lugares invioláveis,

e as palavras se acolhiam-se neles
quando os ouvidos lhes estranhavam a melodia;

lugares de labirintos com memória
e portas abertas para a estação das asas;


Devolvi esse lugar ao tempo
cruzado nas linhas
de um livro mal começado
e deixei aberta uma janela de palavras novas;
Foi no cais que me sentei
abrindo os olhos e deixando as mãos dobradas
sobre a curva dos joelhos.

Passou a noite; o sol demorou
a regressar a casa; nada trazia o nome
da pressa, a não ser os gestos da primeira vez
quando as mãos não sabiam
ainda ser serenas.

Não vieste como um barco. Eras o cais
Não abrias caminho por entre a espuma
Eras a espuma. Não chegaste,
Estiveste sempre entre as colunas
como um horizonte próximo
que acolhe o vaivém dos barcos
cansados da oscilação das ondas.


Contudo, tenho os olhos redondos
de tanto olhar os litorais,
lugares onde já não me detenho;
nem sequer nos Outonos
de telhados adormecidos…

Rumo ao mar.
Deixo que as aves pousem nos meus braços
carregados de penas e salpicados de espuma;
cruzo navios de pedra
as sereias mostram-me,
na transparência, as cicatrizes
que eu recuso; não quero permanecer
no lugar onde as ondas se desfazem.

Sunday, October 09, 2005

Os primeiros tempos

Foi a evocação das memórias a que o escritor me obrigou, misturando-se, depois, o cheiro das folhas molhadas que voam por aí ao sabor de um vento bom...

Ocorrem-nos as memórias em dias destes. As nossas, as reais, e as das nossas personagens, não se sabendo já se nos lembramos do que foi ou do que poderia ter sido...




Naquele tempo a vida era ainda tímida e as horas eram longas.
O palco da infância era a rua toda; e a outra rua; espaços no lado de cá do mundo, havendo o outro, grande, desconhecido, abstracto.
Brincadeiras de meninos povoavam a imaginação, marcados no chão os riscos e na alma.
Só havia uma janela, nem sempre aberta aos sonhos, nem sempre companheira dos risos. Naquele tempo não se podiam comprar todos os lápis de cor, os desenhos ficavam quase a preto e branco mas nas folhas do papel já se viam os sonhos.
Brincávamos às escondidas, unidos na sombra de um presságio invariavelmente cumprido. E os risos da infância perdiam-se no medo e na revolta.
Naquele tempo cumpria-se o ritual de uma viagem antecedida de lágrimas e portas fechadas; mas a chegada era boa: o baloiço pendurado na oliveira, o gosto das primeiras nêsperas apanhadas da árvore de folhas poeirentas, o mel que pingava dos figos, o doce das uvas presas aos cachos negros... doces que acalmavam os medos e a incompreensão das coisas.
Só havia uma janela e os sonhos acotovelavam-se, prisioneiros, em desejos de voo.
Sonhos já expressos em palavras, no papel, a preto e branco.
Talvez naquele tempo o resto do mundo, grande, desconhecido, abstracto, chamasse já por mim enquanto os sonhos transbordavam o espaço e a alma.

Thursday, October 06, 2005

As palavras da memória

Texto para concurso - Divas e Contrabaixos - a propósito das memórias do Escritor Famoso.


Há momentos em que paramos. Subitamente. Como se o corpo estivesse em exaustão e precisasse de recompor-se da corrida diária que é a vida.
Não se trata de parar para pensar, para desbastar a ideia que anda há semanas a ocupar a mente como onda espraiando-se sobre o areal da praia em dia de Agosto. Paragens dessas tive-as amiúde. Resultaram em páginas saídas das minhas mãos como pedaços de mim e espalhadas depois pelos olhos dos outros, olhos atentos, olhos de converter palavras em coisas acabadas com desfechos estranhos à minha compreensão.
O que deixamos escrito sai de nós para não nos pertencer mais. O que conservamos na memória permanece em nós e, se não o dizemos, é como se nunca tivesse acontecido. E dizemo-lo quando paramos.
Por isso trata-se, agora, de parar mesmo. Exercício de pacificação do espírito, memória que se acende em busca dos cheiros e dos gostos, das cores e dos brilhos que ficaram na infância e vão ressoando no tempo. Tempo de menino a combater os piratas, de espada em punho, num cantinho do quarto, herói de histórias inventadas, reais no espaço mágico do cavalinho de baloiço e da mesa redonda à volta da qual se sentavam os cavaleiros feitos de casacos sobre o espaldar das cadeiras. Tempo de mãos de mãe sobre os olhos, sobre a lágrima que molhava a face, sobre o bocejo do cansaço que sobrevinha às horas de brincadeira. E de voz de mãe a embalar nas cantigas. Tempo de janela fechada ao voo dos monstros que povoavam os pesadelos dos dias mais frios, quando o Outono derramava sombras amareladas e o cair da tarde deixava desenhos sobre o papel da parede. Tempo de colo, tempo de passos contados sobre o xadrez do ladrilho a caminho do baloiço pendurado na árvore mais robusta do jardim. E de gnomos sob a folhagem, ao fundo da sebe, aguardando a minha visita. E de línguas de sol a fazerem soar os bons dias, melodia da brisa que entreabria a copa das árvores e chegava a tempo de aquecer o gelo dos caminhos onde os homens pequeninos obedeciam às minhas ordens. Tempo de regressar a casa, ao cheiro dos livros, imponentes no couro das lombadas e nas letras que a minha infância já sabia serem tesouros. Tempo de azinho queimado em labaredas que atraíam os gatos e com eles os meus olhos que já escreviam palavras no cheiro dos veludos da sala.
Tempo em que a memória se enche de palavras. E de saudade.

Wednesday, October 05, 2005

O escritor famoso


Temos mais uma edição do concurso " O Escritor Famoso" no Divas e Contrabaixos. O mote são as imagens da memória do escritor. Participemos.

Thursday, September 29, 2005

As grades

Sentado ainda no lugar do condutor, ele sentiu a mão que se abeirou da janela. E entregou a sua, como se estivesse à espera há muito tempo. Olhou para fora, para ver de onde vinha o braço, mas a névoa só lhe permitia descortinar o verde da manga que cobria o pulso. Estranhou o contacto, não era comum tal intimidade com uma mão estranha, mas sentiu-se bem, apesar das grades que o separavam do exterior. Aliás, habituara-se ao gradeamento: bastava ter um simples desejo, nem precisando de o verbalizar, para que tudo aquilo em que tinha ousado pensar ficasse ao seu alcance.
Porém, era apenas à noite que aquela espécie de magia funcionava, quando o cansaço do dia fazia vergar o corpo no banco almofadado do automóvel, sem possibilidade de sair dali para desentorpecer as pernas. Ao longo do dia mantinha-se sentado, mãos no volante, dominando o espaço e o tempo à sua maneira, enquanto os ponteiros do relógio continuavam a eterna imposição do tempo exterior. Dali via todo o mundo, entrava na sala de trabalho pela porta grande, mãos no volante, ainda, e a secretária vinha trazer-lhe os papéis onde a tinta derramava a sua marca institucional; mostrava-se ao conjunto de funcionários que teclavam incessantemente, olhos postos na luminosidade dos monitores; ligava um comando e a voz da esposa fazia-se ouvir, melódica, deixando-lhe o sorriso rasgado pelo resto do dia. Amiúde interrompia o trabalho, devolvia os papéis à secretária que os recebia, atenta, por entre as grades e carregava de novo no pedal, acelerando para mais um movimento automatizado.
Percorria o espaço como se estivesse numa pista de dança. Em tempos – recordava – sentindo-se ainda entre fumo, decibéis e olhos a piscarem, destacava-se entre os demais, pés colados ao caleidoscópio do piso, enquanto todo o corpo abanava saindo dele, a um tempo, a rotação e a translação da terra. Lembrava-se de como fechava os olhos e acolhia um continente inteiro nos braços abertos, enquanto as ancas ritmavam a dança. Pista cheia em noite de sexta-feira, abandonado o dever dos dias pela troca voluntária e desejada, cheiro a corpos já transpirados mas ainda com o aroma frutado do duche que antecedera os arranjos ao espelho. Era isto que comunicava à mão quente que viera procurar a sua, na espera de mais uma madrugada.
Contava também como se movia no espaço, sentado ainda no banco de couro, e como o espaço se movia com ele, mas sempre ali, no mesmo lugar. Falava nas viagens que já fizera e nas que queria ainda fazer. Ele, dentro de um carro em movimento, como um planeta no espaço das galáxias, sem se mover do seu eixo. Lugar de responsabilidade, convertido diariamente em lugar de transporte de uma figurinha de olhos doces que, à porta da escola, aguardava pacientemente a chegada certa do progenitor. A direcção era a piscina, no horário do fim da tarde. Era mais uma vez desse lugar, as mãos ainda no volante, que a via dar braçadas seguras, através do vidro e através das grades, sem poder tocar-lhe com os olhos, que vidravam lágrimas.
À noite a esposa estava presente. E trazia-lhe o sossego, à noite, só à noite. Sentava-se a seu lado e contava como tinha sido o dia e como tinham sido as conversas com os filhos que verbalizavam expectativas, receios, projectos e sonhos. Quando tinha conhecimento deles sorria feliz. Sorria pela doce presença de uma companhia que nunca falhava, pelo conforto do cobertor que lhe trazia nas noites mais invernosas, pela água fresca que lhe passava pelos lábios nas tardes de estio sem sombras que ia suportando com amargura acrescida. A esposa sorria sempre, depois fechava os olhos e atirava a cabeça para trás, colocando os braços à sua volta, braços longos, cordas de atracar navios cansados de cais. Faziam amor à noite, no espaço exíguo que se transformava em universo, ao som da melodia da sua voz satisfeita.
Era isto que dizia à mão que viera de noite, por entre as grades, para lhe fazer companhia. E desviava os olhos da mão, que tinha também olhos e sabia das suas lágrimas.
A mão acariciou a angústia e ergueu um dedo para as grades.
Sim, instalaram-se aos poucos, sem que ele tivesse tido tempo de as observar de perto, tal era a sua concentração nos ponteiros do relógio e na pressa com que se antecipava aos outros carros para chegar a tempo. E, invariavelmente chegava a tempo, enquanto as grades cresciam e engrossavam nas janelas do automóvel.
A mão não disse nada. Só lhe era permitido ter olhos. Contudo, ele ouviu um murmúrio, um som que era penumbra guardada na memória e olhou pelo espelho retrovisor. Era o pai, mas jovem, muito mais jovem, de olhar duro, colocado mesmo ali atrás, mas tão distante.
Ele não se lembra se foi a voz do pai, sibilando falas de velho, já sem força, mas foi quase como uma ordem, ou talvez não mais que uma sugestão dita, agora, a medo.
Lançou a mão direita e arrancou um pedaço da primeira grade, que levou à boca, mastigando o ferro com a solidez dos dentes. Depois mais um pedaço. Sangrou um pouco. Talvez devesse parar. No chão, viu espalharem-se palavras, devagarinho.
Amanhã – pensava – amanhã comeria a segunda.
A mão retirou-se. Não era para si a missão de limpar a boca ensanguentada e a digestão teria de ser lenta, para não magoar.