Sunday, October 30, 2005

Novelo Triste



A Hipatia da Voz em Fuga, lançou um desafio, a partir deste desenho.

Porque estás triste? Não te dei já o sumo de laranja que querias?

Respondi...

Gosto de coisas puras, perfeitas, autênticas.
Não suporto que me enganem, que finjam gostar de mim ou do que eu faço com dizeres amáveis, prestáveis, insuportáveis.
Por que vieste com a conversa do sumo? Mais parecias um miúdo inseguro nos actos, inconsequente, carente de mãos meladas.
Respeita as minhas lágrimas; há dias em que precisamos de ver a nossa tristeza inundar os céus, afrontar os deuses, fazer-se matéria inteira, grosseira, gume afiado sobre uma pele desbotada.
Não me toques nos cabelos; deixa-me sentir que estou só comigo, não quero ânimo servido em mãos adoçadas, enganadas de tanto pensar que podem salvar os outros das suas grades antigas.
Não me olhes, não me estendas um copo da cor das chamas; deixa-me arder por dentro que rebento se não consumo este sentir angustiado. Já me vi ao espelho, não precisas de me lembrar que o canto é grito calado; são assim os cantos dos meus olhos quando estou triste. O mais certo é teres andado desatento se nunca viste como sou planta sem viço.
Seguro o meu pé, viste bem; é certamente porque me enrolo neste feitiço de ser assim. Ser coisa pura, nua, talvez novelo. Assumo.

Thursday, October 27, 2005

Construções Narrativas

Histórias planas dobram-se e metem-se no bolso onde a mão envergonhada as espalma até deixarem de ter a dimensão de coisa mal começada. Reduzidas a pó ainda incomodam, contudo.
Não era, pois, de estabilidade que queria falar. Nem creio que quisesse falar de alguma coisa concreta. O caso era esse. Faltava-me adequar a personagem ao seu perfil, não tinha ainda definido as cores nem as linhas do vestido mas sabia que teria de ser amplo como convinha a personagens redondas; isso sim, que as queria anafadas de adjectivos omissos. Por isso nesse dia não tinha bolsos.

Disseram também que eram precisos antagonistas – só o vilão nos convence da bonomia – e que os devíamos encher de sedução. E eu, que apenas via o sorriso sério e franco metido nas páginas, entre asas de pássaros e o aroma velho de flores secas, não desencantava ali o natural engodo. E desesperava já de tanto me dividir: conto ou mostro? Estaria aí, se a encontrasse, a solução para o decoro; mas o que eu queria mesmo era ver o adjectivo ganhar gumes sem se mostrar aos olhos. Coisa de engenho.
Só faltava, pois, fixar-me no desenlace, inventar um artifício, criar, em suma o estranhamento que prendesse o infiel às palavras.

Monday, October 24, 2005

Descrença

Levaste-me a ver o mar de um sítio alto, visão magnífica, pensei, enquanto te olhava de soslaio para reconhecer passados. Busca-se sempre a versão dois de coisas póstumas. Escrevi levaste mas já não sei se fui eu que te levei e se foi a mim que olhaste; talvez tivessem sido olhos cruzados mas não me lembro de colisões. Trazias flores? Confesso a má memória, reconheço a teimosia de apagar tudo e destruir os adereços; depois é impossível refazer cenários, nunca se conseguem dois desenhos iguais. Era capaz de dizer que o beijo deixou sabor, mas qual beijo?, o que ficou perdido nos primeiros tempos ou a imitação desse, na ilusão procurada do mesmo arrepio? Só me lembro que estávamos sentados sobre espinhos mas tu dizias que era o verde da estação. Se lá chegarmos, pensava eu. Também me ocorre agora que era noite mas eu protegia os olhos como se o sol estivesse a pino; e o ar estava doce. Na tua boca. Foi então que estendeste a mão divina e eu transformei-me em sapo.
Maldita descrença.

Friday, October 21, 2005

Tentando entendimentos


Também te digo que há dias em que o tempo causa desconforto. Dias côncavos. Dias de trechos velhos cujo eco parece traçado em telas tempestuosas. Troncos torcidos de nudez rente ao outono e folhas secas sobre a terra entufando a lama. E telhas revestidas de verde sujo, fechos monótonos a cruzar as tentativas de entendimento.
Também te mostro a trama que se diz ter sido tácita; todas as teorias poderão testemunhar a tentação das culpas, porém nada faz sentido, apenas a paisagem como um tentáculo a matar a temperança e depois a tentativa sacramental da pacificação. Tudo turvo.
Acredita que de nada valem os lutos. Estava traçado o fim dos tempos em tatuagens celestes – era o que eu diria se não fosse o tédio. Porém nada transcrevo
porque nada estava determinado. Mas também não me satisfazem as entrelinhas.

Tuesday, October 18, 2005

Pedras desfeitas


Então dizias-me que havia uma pedra pousada no rio, uma pedra-ponte que se podia pisar para alcançar a outra margem. E que eras a pedra, pé firme sobre a solidez emprestada à partilha. Pé frágil o meu, pedindo apoio. Mãos postas sob os céus polidos de tantas preces.
Disseste que era para sempre. Podia ter sido para sempre essa ponte pousada no rio para chegar à placidez das águas. E o sempre fez-se tempo escrito no encanto das primeiras páginas de uma história de princesas. E depois passou sem se tornar eterno.
Para sempre ficaram as memórias num lugar de permanência que pintámos a duas mãos, sobrando agora apenas o olhar sobre o passado, pouco mais do que um passo em falso sobre uma pedra que as águas tornaram pó.

Friday, October 14, 2005

Retrato de um príncipe adormecido

Photo de Camilo Margeli


Constróis o teu casulo em seda espessa até sentires encoberta a existência; depois imaginas que nasceste num país todo coberto de neblina e é de névoas que fazes os teus dias.
Os bens nada te dizem de importante. Despojas-te do oiro, temendo ser um príncipe, antecipas o gelo com medo dos braseiros e apagas os incêndios à nascença; quando nos teus dedos nascem horizontes foges dos sentidos cobrindo os olhos com remendos tecidos do brilho das estrelas. Recusas a caligrafia demorada das palavras imaginando que elas denunciam a tua sede no caule de cada rebento novo; e vais secando, na alma, a terra das sementes que trazem a cor da lua. Temes, ainda, os salpicos da água no teu corpo sonolento e deitas-te protegido pelas dunas.
Se pudesse coroava-te de todas as flores e assobiava, num búzio, o chilreio das aves à beira-mar; parava os gestos na escultura do teu corpo e ficava a teu lado sem te chamar solidão. Depois fechava a noite no silêncio e levantava as brumas entoando madrigais de encanto, horas e horas sem fim, enquanto dormias.

Thursday, October 13, 2005

Em memória de Florbela Espanca

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os Homens! Morder como quem beija
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino se Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!”





Se eu fosse ela...








Disseram que eu acendo as fogueiras dentro de mim própria com as palavras que invento. Que coabito comigo e tenho tudo dentro de mim, como se fosse hermafrodita. E que me impus amarras que ninguém quebra.
Disseram também que eu faço temer com o poder das minhas palavras, que pode ser o poder dos olhos, se não as digo.
Disseram muitas coisas, tantas quantas cada um quer dizer se me intercepta a meio caminho, entre mim e o que não contenho.
Também disseram que sou mitificadora. Pouco importa.
Há qualquer coisa de autofágico em pessoas assim, talvez loucura ou qualquer coisa situada a meio caminho entre mim e o que não sei dizer à vida, dizendo-o em palavras que apenas vão de mim para o meu amor pelo próprio amor.

“Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor
Passa por ele a luz de todo o amor…
E nunca em meu castelo entrou alguém”.
(Castelã da Tristeza)

Uma sensibilidade assim vem da loucura ou conduz a ela, não sei ainda qual é o sentido do processo. Mitificação do amor; amor querendo sentir-se sabendo da sua impossibilidade porque está gelada a capacidade de entrega; gelada ou arrefecida pelo medo. Ou pela vontade de mitificar uma coisa que, se for concreta, perde a essência.
Uma sensibilidade que gera a vontade de ver amor em tudo, de sentir amor por tudo, sem nada ser capaz de sentir.
É talvez essa a razão feroz da procura (ou a razão da feroz procura).
Haverá qualquer coisa no mundo que quebre o gelo?
Talvez o braseiro das fogueiras, por isso as incendeio deixando que elas consumam o que me pertence e que ninguém pode tirar de mim porque ninguém soube ainda quebrar as amarras.
Talvez o sofrimento do próprio processo criativo, o voar lento e brando das aves de asas longas, em vez do voar picado da gaivota.
Talvez a procura do prazer pelo prazer, engano dos que pensam que me entrego, engano dos próprios homens a quem amei, porque o que amei neles não foram eles mas o amor que queria ter sentido. Tudo dentro de mim.
Talvez a vingança de qualquer coisa obscura que passa pelo domínio do outro. O prazer do domínio. O desafio de ocupar o lugar cimeiro destronando o outro com o fluir das palavras-frases, olhos abertos ao lugar das confissões e do despir fácil, fragilizando quem quer que esteja para além de mim, sem sequer lhe ver o rosto. Ou inventando estátuas em chamas à força de lhes sentir o gelo, recusando o calor dos olhos próximos.
Quem inventa consegue ser o começo e o fim das coisas, chegando a confundir-se a si próprio com a imaginação criadora.
Amar o amor é uma cruxificação.

“ Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!”
(A minha tragédia)

Wednesday, October 12, 2005

Vestido Roxo com Asas ou A Memória da Dor

O texto da Marquesa d'Aires, no Divas e Contrabaixos , fez-me recordar uma coisa que escrevi em vésperas de bisturis e batas brancas. Tudo já resolvido mas a memória a fazer ainda das suas...

Para resolver as más memórias podemos sempre olhar as imagens e as palavras da O'Sanji, não se sabendo onde começam umas e acabam outras, parecendo que se prolonga tudo numa sensibilidade muito especial.

Aqui vai o texto...





Photo de David Strohl



Vestido roxo com asas ou a Memória da dor

Nunca se sabe o que acontece dentro da memória quando os olhos se abrem em direcção ao tecto e as horas custam a passar. Deve ser o excesso de repouso abrindo-se, nesses momentos, o espaço às imagens do passado. E elas surgem, como se o tempo não tivesse existência e os ponteiros de todos os relógios tivessem ficado também imobilizados. Como se o tempo estivesse a vingar-se, arredando a verosimilhança das imagens guardadas na memória e fazendo soltar, desse reservatório de penumbras, a autenticidade das impressões registadas.
Se fechar os olhos centro-me toda na intensidade da dor. Por isso deixo que uma asa bata ao de leve nas pálpebras abertas e o tempo dilata-se, fluído. E os actos únicos, individuais, parados no tempo, tornam-se presentes.
Era roxa a cor do vestido que me enfiaram pela cabeça. Chegava aos pés, mesmo depois de apertadas as fitas do cinto. Levei-o para casa para sair já vestida, pela manhã. Creio que nem dormi ou, se dormi, sonhei com os anjos todos do paraíso.
Imagem bonita a dos anjos, povoando todos os presépios da infância. Coleccionava-os entre as folhas dos livros, alguns eram distribuídos pelo padre, na sua visita semanal à Escola: toda a classe de pé, “bom dia senhor prior”, e ele, muito direito naquela roupagem preta, abotoado de alto a baixo, mil botões miudinhos e uns óculos de vidros grossos com olhos pequeninos dentro. Falava-nos justamente no eixo do Cristo cruxificado, exibição diária de um sofrimento eterno, na direcção dos nossos olhos, quando tentávamos compreender a mecânica das subtracções, no quadro preto. Deve ter-nos dito que o roxo era a cor da paixão, sendo que a paixão era sempre sofrimento. Coisa estranha quando se acordava para a linguagem romanceada do amor.
Por cima do roxo, um par de asas brancas, feitas de rendas e arame, uma carreirinha de penas a esvoaçar nas pontas e fitinhas para as prender ao corpo, disfarçadas, sob o vestido. Na cabeça uma auréola dourada moldada em duas voltas encimadas por uma estrela, ilusão de estar sempre acompanhada pelo contorno da santidade.
As asas esvoaçavam em todos os espelhos e o meu sorriso compunha o voo celeste das pregas do vestido. Teria calçado sapatos brancos, provavelmente novos, provavelmente rijos, ainda não estariam moldados ao pé. Nesse tempo os sapatos eram chinelos e um anjo tinha de ser humilde. O padre dizia-nos que deveríamos fazer sacrifícios. Palavra pesada e mais pesado ainda o caminho para o paraíso, embora as imagens fossem de asas e de anjinhos de pele rosada.
No verso das pagelas os anjos deixavam um espaço para o registo do sacrifício do dia: hoje ajudei alguém a atravessar a estrada; hoje dei o meu lanche a uma menina pobre; hoje andei com sapatos apertados. Mas não é disso que me lembro. Continuo de olhos abertos para o tecto, sabendo que todo o esforço é doloroso.
Doem-me os braços, estão dormentes, quero voltar a pô-los na posição direita, quero que eles caiam pelo corpo, na vertical, mas não consigo.
Na véspera levara tudo para casa; era preciso ajustar todas as vestes ao meu corpo infantil, dar um jeito nas asas, compor a auréola e ensaiar o transporte do objecto sobre o paninho roxo, os braços estendidos para a frente e as mãos abertas. Na sacristia tinham distribuído todos os acessórios: o anjo branco levava o pano com que limparam as chagas de Cristo; o anjo azul levava a coroa; havia anjos roxos que levavam umas estrelas na mão, presas numa varinha – tão próximos das fadas – e eu, porquê eu? – transportava o feixe de varas com que lhe bateram.
A procissão saiu da Igreja, deu a volta completa à velha construção e foi percorrendo lentamente, todas as ruas da vila. À frente e atrás figuras de olhos muito tristes, de mãos postas, seguiam aos ombros de homens vestidos de roxo. A mim doíam-me os braços, sentia-os como duas peças mecânicas que deviam continuar a exibir o objecto.
Havia colchas brancas e roxas em todas as janelas, gente em todos os cantos de todas as ruas olhando para mim. Era eu que transportava o peso da maldade. Era eu que feria o divino. As minhas mãos abertas não paravam de exibir o feixe de varas com que Cristo tinha sido castigado, sangrando das feridas abertas pelas varas que os meus braços estendidos mostravam a todos.
Não sei quantas horas caminhei pelas ruas entre anjos e demónios, na tristeza do roxo com que me vestira pela manhã. As pessoas iam segredando entre si e era para mim que olhavam
. Os pés doíam. Mas não é isso que me perturba a memória. São os braços, dormentes, rijos; e a intensidade da dor quando os tentava descer. E a inquietação de um desconforto que se avolumava, à medida que as asas desciam, pesando-me já a consciência clarividente de que a dor era um erro.

Tuesday, October 11, 2005

Rumo ao Mar com as Aves pousadas nos braços

Vinha do Outono
e já não ousava lembrar
como era verde a paisagem;
vinha do sítio onde os ângulos das pedras
assanhavam os ventos
calando-se o assobiar dos madrigais
desfeitos no reflexo dos espelhos partidos;
onde os telhados adormeciam ao domingo
sob o desconforto da chuva miudinha;


Guardava alguns silêncios em lugares invioláveis,

e as palavras se acolhiam-se neles
quando os ouvidos lhes estranhavam a melodia;

lugares de labirintos com memória
e portas abertas para a estação das asas;


Devolvi esse lugar ao tempo
cruzado nas linhas
de um livro mal começado
e deixei aberta uma janela de palavras novas;
Foi no cais que me sentei
abrindo os olhos e deixando as mãos dobradas
sobre a curva dos joelhos.

Passou a noite; o sol demorou
a regressar a casa; nada trazia o nome
da pressa, a não ser os gestos da primeira vez
quando as mãos não sabiam
ainda ser serenas.

Não vieste como um barco. Eras o cais
Não abrias caminho por entre a espuma
Eras a espuma. Não chegaste,
Estiveste sempre entre as colunas
como um horizonte próximo
que acolhe o vaivém dos barcos
cansados da oscilação das ondas.


Contudo, tenho os olhos redondos
de tanto olhar os litorais,
lugares onde já não me detenho;
nem sequer nos Outonos
de telhados adormecidos…

Rumo ao mar.
Deixo que as aves pousem nos meus braços
carregados de penas e salpicados de espuma;
cruzo navios de pedra
as sereias mostram-me,
na transparência, as cicatrizes
que eu recuso; não quero permanecer
no lugar onde as ondas se desfazem.

Sunday, October 09, 2005

Os primeiros tempos

Foi a evocação das memórias a que o escritor me obrigou, misturando-se, depois, o cheiro das folhas molhadas que voam por aí ao sabor de um vento bom...

Ocorrem-nos as memórias em dias destes. As nossas, as reais, e as das nossas personagens, não se sabendo já se nos lembramos do que foi ou do que poderia ter sido...




Naquele tempo a vida era ainda tímida e as horas eram longas.
O palco da infância era a rua toda; e a outra rua; espaços no lado de cá do mundo, havendo o outro, grande, desconhecido, abstracto.
Brincadeiras de meninos povoavam a imaginação, marcados no chão os riscos e na alma.
Só havia uma janela, nem sempre aberta aos sonhos, nem sempre companheira dos risos. Naquele tempo não se podiam comprar todos os lápis de cor, os desenhos ficavam quase a preto e branco mas nas folhas do papel já se viam os sonhos.
Brincávamos às escondidas, unidos na sombra de um presságio invariavelmente cumprido. E os risos da infância perdiam-se no medo e na revolta.
Naquele tempo cumpria-se o ritual de uma viagem antecedida de lágrimas e portas fechadas; mas a chegada era boa: o baloiço pendurado na oliveira, o gosto das primeiras nêsperas apanhadas da árvore de folhas poeirentas, o mel que pingava dos figos, o doce das uvas presas aos cachos negros... doces que acalmavam os medos e a incompreensão das coisas.
Só havia uma janela e os sonhos acotovelavam-se, prisioneiros, em desejos de voo.
Sonhos já expressos em palavras, no papel, a preto e branco.
Talvez naquele tempo o resto do mundo, grande, desconhecido, abstracto, chamasse já por mim enquanto os sonhos transbordavam o espaço e a alma.

Thursday, October 06, 2005

As palavras da memória

Texto para concurso - Divas e Contrabaixos - a propósito das memórias do Escritor Famoso.


Há momentos em que paramos. Subitamente. Como se o corpo estivesse em exaustão e precisasse de recompor-se da corrida diária que é a vida.
Não se trata de parar para pensar, para desbastar a ideia que anda há semanas a ocupar a mente como onda espraiando-se sobre o areal da praia em dia de Agosto. Paragens dessas tive-as amiúde. Resultaram em páginas saídas das minhas mãos como pedaços de mim e espalhadas depois pelos olhos dos outros, olhos atentos, olhos de converter palavras em coisas acabadas com desfechos estranhos à minha compreensão.
O que deixamos escrito sai de nós para não nos pertencer mais. O que conservamos na memória permanece em nós e, se não o dizemos, é como se nunca tivesse acontecido. E dizemo-lo quando paramos.
Por isso trata-se, agora, de parar mesmo. Exercício de pacificação do espírito, memória que se acende em busca dos cheiros e dos gostos, das cores e dos brilhos que ficaram na infância e vão ressoando no tempo. Tempo de menino a combater os piratas, de espada em punho, num cantinho do quarto, herói de histórias inventadas, reais no espaço mágico do cavalinho de baloiço e da mesa redonda à volta da qual se sentavam os cavaleiros feitos de casacos sobre o espaldar das cadeiras. Tempo de mãos de mãe sobre os olhos, sobre a lágrima que molhava a face, sobre o bocejo do cansaço que sobrevinha às horas de brincadeira. E de voz de mãe a embalar nas cantigas. Tempo de janela fechada ao voo dos monstros que povoavam os pesadelos dos dias mais frios, quando o Outono derramava sombras amareladas e o cair da tarde deixava desenhos sobre o papel da parede. Tempo de colo, tempo de passos contados sobre o xadrez do ladrilho a caminho do baloiço pendurado na árvore mais robusta do jardim. E de gnomos sob a folhagem, ao fundo da sebe, aguardando a minha visita. E de línguas de sol a fazerem soar os bons dias, melodia da brisa que entreabria a copa das árvores e chegava a tempo de aquecer o gelo dos caminhos onde os homens pequeninos obedeciam às minhas ordens. Tempo de regressar a casa, ao cheiro dos livros, imponentes no couro das lombadas e nas letras que a minha infância já sabia serem tesouros. Tempo de azinho queimado em labaredas que atraíam os gatos e com eles os meus olhos que já escreviam palavras no cheiro dos veludos da sala.
Tempo em que a memória se enche de palavras. E de saudade.

Wednesday, October 05, 2005

O escritor famoso


Temos mais uma edição do concurso " O Escritor Famoso" no Divas e Contrabaixos. O mote são as imagens da memória do escritor. Participemos.

Thursday, September 29, 2005

As grades

Sentado ainda no lugar do condutor, ele sentiu a mão que se abeirou da janela. E entregou a sua, como se estivesse à espera há muito tempo. Olhou para fora, para ver de onde vinha o braço, mas a névoa só lhe permitia descortinar o verde da manga que cobria o pulso. Estranhou o contacto, não era comum tal intimidade com uma mão estranha, mas sentiu-se bem, apesar das grades que o separavam do exterior. Aliás, habituara-se ao gradeamento: bastava ter um simples desejo, nem precisando de o verbalizar, para que tudo aquilo em que tinha ousado pensar ficasse ao seu alcance.
Porém, era apenas à noite que aquela espécie de magia funcionava, quando o cansaço do dia fazia vergar o corpo no banco almofadado do automóvel, sem possibilidade de sair dali para desentorpecer as pernas. Ao longo do dia mantinha-se sentado, mãos no volante, dominando o espaço e o tempo à sua maneira, enquanto os ponteiros do relógio continuavam a eterna imposição do tempo exterior. Dali via todo o mundo, entrava na sala de trabalho pela porta grande, mãos no volante, ainda, e a secretária vinha trazer-lhe os papéis onde a tinta derramava a sua marca institucional; mostrava-se ao conjunto de funcionários que teclavam incessantemente, olhos postos na luminosidade dos monitores; ligava um comando e a voz da esposa fazia-se ouvir, melódica, deixando-lhe o sorriso rasgado pelo resto do dia. Amiúde interrompia o trabalho, devolvia os papéis à secretária que os recebia, atenta, por entre as grades e carregava de novo no pedal, acelerando para mais um movimento automatizado.
Percorria o espaço como se estivesse numa pista de dança. Em tempos – recordava – sentindo-se ainda entre fumo, decibéis e olhos a piscarem, destacava-se entre os demais, pés colados ao caleidoscópio do piso, enquanto todo o corpo abanava saindo dele, a um tempo, a rotação e a translação da terra. Lembrava-se de como fechava os olhos e acolhia um continente inteiro nos braços abertos, enquanto as ancas ritmavam a dança. Pista cheia em noite de sexta-feira, abandonado o dever dos dias pela troca voluntária e desejada, cheiro a corpos já transpirados mas ainda com o aroma frutado do duche que antecedera os arranjos ao espelho. Era isto que comunicava à mão quente que viera procurar a sua, na espera de mais uma madrugada.
Contava também como se movia no espaço, sentado ainda no banco de couro, e como o espaço se movia com ele, mas sempre ali, no mesmo lugar. Falava nas viagens que já fizera e nas que queria ainda fazer. Ele, dentro de um carro em movimento, como um planeta no espaço das galáxias, sem se mover do seu eixo. Lugar de responsabilidade, convertido diariamente em lugar de transporte de uma figurinha de olhos doces que, à porta da escola, aguardava pacientemente a chegada certa do progenitor. A direcção era a piscina, no horário do fim da tarde. Era mais uma vez desse lugar, as mãos ainda no volante, que a via dar braçadas seguras, através do vidro e através das grades, sem poder tocar-lhe com os olhos, que vidravam lágrimas.
À noite a esposa estava presente. E trazia-lhe o sossego, à noite, só à noite. Sentava-se a seu lado e contava como tinha sido o dia e como tinham sido as conversas com os filhos que verbalizavam expectativas, receios, projectos e sonhos. Quando tinha conhecimento deles sorria feliz. Sorria pela doce presença de uma companhia que nunca falhava, pelo conforto do cobertor que lhe trazia nas noites mais invernosas, pela água fresca que lhe passava pelos lábios nas tardes de estio sem sombras que ia suportando com amargura acrescida. A esposa sorria sempre, depois fechava os olhos e atirava a cabeça para trás, colocando os braços à sua volta, braços longos, cordas de atracar navios cansados de cais. Faziam amor à noite, no espaço exíguo que se transformava em universo, ao som da melodia da sua voz satisfeita.
Era isto que dizia à mão que viera de noite, por entre as grades, para lhe fazer companhia. E desviava os olhos da mão, que tinha também olhos e sabia das suas lágrimas.
A mão acariciou a angústia e ergueu um dedo para as grades.
Sim, instalaram-se aos poucos, sem que ele tivesse tido tempo de as observar de perto, tal era a sua concentração nos ponteiros do relógio e na pressa com que se antecipava aos outros carros para chegar a tempo. E, invariavelmente chegava a tempo, enquanto as grades cresciam e engrossavam nas janelas do automóvel.
A mão não disse nada. Só lhe era permitido ter olhos. Contudo, ele ouviu um murmúrio, um som que era penumbra guardada na memória e olhou pelo espelho retrovisor. Era o pai, mas jovem, muito mais jovem, de olhar duro, colocado mesmo ali atrás, mas tão distante.
Ele não se lembra se foi a voz do pai, sibilando falas de velho, já sem força, mas foi quase como uma ordem, ou talvez não mais que uma sugestão dita, agora, a medo.
Lançou a mão direita e arrancou um pedaço da primeira grade, que levou à boca, mastigando o ferro com a solidez dos dentes. Depois mais um pedaço. Sangrou um pouco. Talvez devesse parar. No chão, viu espalharem-se palavras, devagarinho.
Amanhã – pensava – amanhã comeria a segunda.
A mão retirou-se. Não era para si a missão de limpar a boca ensanguentada e a digestão teria de ser lenta, para não magoar.

Wednesday, September 28, 2005

Rosto no Espelho


É um rosto no lado de lá, que me olha de cima, de lado, de frente, visão de todas as faces de uma coisa que se chama pessoa e que se olha às vezes como se fosse uma ilha, outras vezes apenas como um pedaço de realidade que se enquadra ou desenquadra, depende sempre do dia, da pressa do levantar ou do sentar à mesa para uma refeição mal mastigada.
É um rosto de olhos enquadrados, quase só olhos de olhar e o resto fica como que apagado pela direcção do foco que foca as coisas que não se vêem a olho nú.
É um rosto que fixa, que teima, que se fixa em teimosias feitas quimeras ou em pontos de fuga que permanecem nas telas inventadas e presas na imaginação a ponto firme. Rosto no espelho. Rosto visível. Ilha presa em marés nuas sem linhas de fuga.

Sunday, September 25, 2005

Paradoxos


Conheço a minha face mais detestável – a que adia e suprime prazeres, por ser incapaz de se mexer para sair do lugar onde, em certos dias, uma certa melancolia funciona como as ruas de Cesário Verde, ao anoitecer…

“Nas ruas, ao anoitecer
Há tal sonoridade, há tal melancolia
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer”.

Em dias desses amargo os sentidos mesmo que à minha volta apareçam algumas solicitações, algumas sugestões, as suficientes para poder deixar o cais e abrir as velas em direcção a objectivos concretos, com rumos certos.
Porém, há dias em que “todos os lugares são os mesmos lugares, todas as terras são a mesma terra”, diz Álvaro de Campos e com ele eu digo que há dias em que “escrevo palavras e palavras e palavras, a dizer que não tenho nada que dizer; palavras a teimar em dizer isso (…) (estando) a verdade toda, e a vida toda fora delas e de mim”. (ele dizia “versos” e eu digo “palavras”).

Nestes dias a poesia parece ajudar. Deve ser por isso que pego nos livros e os folheio. Ou dirijo o olho fotógrafo para pormenores, em busca de tudo o que me preencha este “desejo absurdo de sofrer”, embora quisesse encontrar tudo “alegremente exacto”...

"Ah, todo o cais é uma saudade de pedra”, diz ainda Álvaro de Campos; e diz também, alinhando os versos:

“Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que não recebo.”

Nestes dias de enfado há uma inércia negra que chega a ser violenta de tanta passividade e de tanta espera.
Tudo, e em tudo, um grande paradoxo!
Folha seca e abandonada às primeiras brisas do Outono.

Monday, September 19, 2005

O avô e o mar


Era uma vez uma onda…
Lembro-me das histórias do avô quando saíamos de mãos dadas logo pela manhã bem cedinho, o sol a nascer muito grande e a prometer um dia de calor daqueles em que eu ficava toda a tarde na água até ter os dedos das mãos engelhados e o corpo a tremer de frio. Nessas tardes o avô ficava à beira-mar, às vezes vinha ter comigo e estendia os braços para que eu me deitasse sobre eles e dizia: “mexe os braços” ou não dizia nada mas era como se dissesse.
Lembro-me de ter aprendido a nadar nos braços do meu avô.
Outras vezes sentava-se e vigiava as minhas brincadeiras. Ou trazia-me os baldes de água do mar para fazer um lago cavado na praia. Ou ajudava-me na construção dos castelos de ameias definidas, com túneis engenhosamente construídos sobre a areia molhada e fossos para aprisionar os inimigos. Eles vinham a cavalo para conquistar o castelo, já os avistava. Tornei-me espadachim, fiz cair cavaleiros, salvei princesas moiras e belas adormecidas, matei monstros e desfiz encantos de bruxas más.
Lembro-me de o ouvir dizer que o mar era perigoso. Ele dizia “traiçoeiro” e eu não sabia dos perigos porque a mão do avô estava sempre junto à minha quando as ondas se empinavam e enrolavam a areia que se metia por dentro dos calções.

Lembro-me, agora, de ter ouvido contar que ainda tentaram reanimar o seu corpo, depois de o retirarem do mar, junto às rochas. Disseram que escorregou quando puxou a cana de pesca e que o ouviram gritar o meu nome quando caiu às águas.

As ameias



Estava ali fechada e a vista perdia-se na contemplação das coisas possíveis, dias de neblina sobre as pálpebras e muralhas de ameias sobre a vontade.
Estava ali fechada nos dias invernosos, paisagem escura, sonhos encarcerados no círculo das pedras.
Estava ali com vontade de ter asas ou pernas de gigante que ultrapassassem a inquietação contida na clausura.
Era moira por encantar, rosto sem espelhos para cá dos céus, estátua de pedra por analogia simples, semente caída em rocha.
Estava ali fechada, ou eu ou a minha imaginação.

Friday, September 09, 2005

Imperfeições


Fica sempre tudo inacabado ou está sempre tudo em curso como um rio ao qual podemos sempre alterar o caudal sabendo que se o fizermos há coisas que mudam a montante podendo as alterações ser irreversíveis.
Não sei por que me apetece escrever sobre coisas imperfeitas talvez seja a ameaça de Outono que começa a ofuscar a luz de muitos dias intensos ou a luz intensa de muitos dias não gosto deste adjectivar repetido mas sei que quero escrever sobre esta mudança que repetidamente me aflige e me perturba as emoções e a racionalidade .
Ou talvez esteja sob o efeito de tarefas imperfeitas impossíveis de aperfeiçoar por contingências várias mas sempre no curso das coisas que se podiam alterar sendo difícil o empreendimento por ser intenso.
Tudo a dificultar a estabilidade e ainda mais a impressão de poder ter sido de outra maneira se este calor camuflado não apoquentasse o estar bem ou pelo menos o estar razoavelmente e as coisas que passaram tivessem apenas ficado a aguardar o curso do tempo.
Todas as resoluções decorrem de pensamentos imperfeitos e de percursos continuados.
E eu aqui.

Wednesday, September 07, 2005

A criação









Sem máscara somos de novo obrigados a criar.
É sempre preciso mudar a cor dos olhos.

O que fica é apenas o olhar.

Monday, September 05, 2005

Um corpo visto de cima

Vejo-me de fora, dentro da paisagem.
Como se estivesse pousada numa nuvem acima do percurso dos pássaros.
Deitei-me na areia à beira do rebentar das ondas debaixo do mesmo céu que outros vêem e fiquei estendida, de olhos fechados a evitar a luz do sol.

De olhos fechados é como se nada existisse. As crianças fecham os olhos e ficam escondidas do mundo.

Vejo-me de cima, um corpo estendido na areia de uma praia, à beira de um oceano que começa ali e dá a volta ao mundo; no outro lado há também gente que se estende e fecha os olhos a evitar a luz do mesmo sol.
A dimensão do meu corpo vai perdendo importância; vista de cima sou uma entre os outros.

Retirei a máscara há muito tempo mas não dei conta da extinção dos medos.
Nunca damos pelo passar do tempo.

Sem máscara

Mas sem máscara ficamos cristalinos.
Cristal transparente deixa ver as vísceras. As vísceras são feias na transparência da pele sensível. São frágeis também. Mostram os processos no seu desenrolar íntimo.
Sem máscaras ficamos quebráveis. Vidro fininho que estala sob o calor do sol ou sob o granizo que se escapa de uma nuvem. Temperaturas inversas, súbitas, são fontes de dano irreparável. O vidro quebra e os restos aguçados ficam expostos à passagem das mãos.

Sem máscara ficamos apenas com as mãos para tapar os olhos, nos dias em que eles se recusam a ver.
Ou nos dias em que não queremos ser vistos.

Wednesday, August 31, 2005

Máscaras sobre os medos

No princípio era o medo.
Por isso criei a máscara, ainda sem jeito para a criação. Resultou do acto uma imitação grosseira (todas as imitações são grosseiras se não achamos a palavra certa), sem original que lhe servisse de modelo.
Pode sempre dizer-se que se obteve uma peça única, mas a composição que sai da roda do oleiro deve ser harmoniosa.

Gosto da palavra harmonia, disposta em linha sobre a palavra horizonte. E, pensando bem, talvez a imitação pudesse ser indecisa e não grosseira; ou talvez apenas imitação, sem qualificação que a mascarasse.

Não posso, pois, confiar às mãos, grosseiras e incertas (qualificações excessivas no texto) a tarefa do recorte.

Gosto de imaginar o efeito das mãos unidas na contra luz, abertos os dedos em leque, sombra de asas em movimento harmonioso.

Resta a mente, definida em padrão arrevesado, de matriz inquieta. Mente confusa ou a confundir-se em regressos sucessivos depois de cada esconderijo. Mente apinhada de palavras moldadas em pedra. Nela a máscara nunca encaixou, em resultado de tão desajeitada carpintaria. Confiar-lhe a criação é apontar-lhe sempre caminhos de palavras desalinhadas.
Mas não é já o medo. É sempre a inquietação.

Saturday, August 27, 2005

Amores Imperfeitos

Todo o mundo foi feito de amores imperfeitos
Quer na violência de braseiros desvairados
Quer no gelo de retratos escondidos
Por detrás dos rostos;
Houve também no mundo os submissos
Que disseram nomes com a sua voz velada
E na brancura de cada amanhecer
Esperaram tardes incandescentes que não chegaram;
Outros não se renderam aos desencontros
E puseram urgência nos gestos dizendo
Todas as palavras; esses aproveitaram os ventos
E abriram as ondas em espumas que sulcavam
As redes abertas ao correr das águas.
Dizem, meu amor, que neste verão
Todas as árvores tombarão em chamas
E que as chuvas, guardadas, deixarão secar
Todos os pomares, e com eles os pássaros.
Saberás, quando chegar esse calor,
Da a violência de um braseiro
Que eu queria ter apagado
A tempo de cheirar o musgo e as agulhas dos pinheiros

Sem que o tempo me deixasse arrefecer;
Nada me pertenceu, nem o tempo
Nem sequer os teus olhos fugitivos,
Ou os braços com que enlaçaste a tua solidão (ou a tua solidez).
Derrama a água do teu gelo sobre esse chão seco
E faz nascer o verde sobre a areia
Que eu soltei do vidro
Onde o tempo se escoava.

Tinha um texto para escrever



Tinha um texto para escrever. Ou um poema.
Ou apenas umas palavras em linha que o vento desta manhã desalinhou.

Ou foi a noite inquieta que lhes alterou o sentido. Ou a inquietação que vem amiúde e danifica os pensamentos na sua origem e os desliga de todas as coisas. Dias seguidos de palavras alteradas depois do estrago. Declínio do sol sob a ocultação da luz. Braseiro aceso.
Tinha um texto para escrever. Ou um poema.
Ou apenas a tinta nas mãos aguardando uma tela.
Ou a pintura da noite inquieta na impossibilidade da representação. Ou as palavras representadas em linha sem vento que lhes capte o sentido.
Ou eu própria desalinhada no espelho. Imagem detestável na manhã inquieta.
Que fazer com as palavras que não se fixam às coisas?

Friday, August 26, 2005

Sede de palavras


A sede sulca-nos a alma.
É por isso que usamos as palavras
Coragem ou doçura ou desalento
Ancoradas junto ao vento
Elas trazem-nos a calma.

Thursday, August 25, 2005

As pedras

Por baixo de nós estavam as pedras. Penedos sólidos em filões que chegavam às varandas suspensas. E nelas estávamos nós, vestidos com a dureza dos desencantos em dias de paisagens nuas.
Não sei se era a estação do estio ou se tínhamos visto o mundo ao contrário
.

Tuesday, August 23, 2005

O que disseram depois

(texto enviado para o concurso promovido pelo blog Divas e Contrabaixos)

Sim, era com ela que eu passava o tempo todo mas o que disseram depois foi o que quiseram dizer. Disseram tudo o que se quis ouvir e em tudo eu fui ouvindo, ao longo do tempo, versões várias de uma história que só eu sabia.Passávamos juntos os intervalos e todos já diziam que éramos namorados e às vezes atiravam-nos pedras – “olha os namorados”, “olha os namorados” – cantavam, e ela, envergonhada, baixava os olhos e depois erguia-os para mim, inquirindo-me sobre a verdade do silêncio. E era verdade, eu quis ser o seu namorado desde que ela nasceu daquela mãe que se sentou no lugar da minha, que se penteava no espelho onde antes eu via a minha mãe dizendo o meu nome. Aquela mãe que quis contar-me, depois, as mesmas histórias para adormecer, histórias que falavam sempre de bruxas más escondidas em quartos escuros, saindo a voar em vassouras velhas rumo à França. Antes tinham dito que a minha mãe me deixara a chorar nas escadas, que tinha ido embora ao fim do dia e que eu fiquei a acenar-lhe com a mãozita chorosa, num adeus quase até logo. Do que me lembro foi de ficar sentado no cavalinho de baloiço durante todo o serão, enquanto o meu pai olhava para mim. Mas não sei porque lhe conto isto. Só sei que quis ser o namorado de Helena, sim, para sentir que alguém me dava o afecto que ela me negou quando se despediu de mim nesse fim de dia.

Sim, lembro-me, ele passava todo o tempo com ela. Já foi há muito mas lembro-me muito bem de os ver andar de baloiço nos intervalos; depois começaram a faltar-me às aulas. Claro que era meu dever chamar os pais à escola, não acha? Mas não é verdade que tenham vindo logo. Se tivessem vindo talvez se pudesse ter evitado o que depois aconteceu. Mas há este hábito terrível dos pais adiarem as coisas que são realmente importantes.Reconheço que ele era um miúdo complicado, já nessa altura escrevia uns textos estranhos nas palavras e mais estranhos ainda nas ideias que deixava escritas. Coisas de adulto, pensava eu, de criança que cresce depressa demais. Mas não sei se pensava isso nesse tempo ou se só o penso agora, já que nessa altura as atenções se dispersavam sobre todas as coisas do dia-a-dia e ele era um entre os outros. Dizia-se que o pai o tinha rejeitado, desde o dia em que a mãe o deixara a chorar nas escadas. Talvez fosse essa a razão de todas as coisas. Ele era um miúdo complicado. Ela não. Ela destacava-se pela brancura da pele, pela maneira especial com que se afirmava, sem querer ser a melhor aluna. Mas era. Era toda sensibilidade. Toda inteligência. Helena era a beleza. Era tudo, Helena!

Sim, disseram-nos que eles passavam todo o tempo juntos e que faltavam às aulas. Mas só nos disseram depois. É claro que tudo se podia ter evitado se nos tivessem chamado à escola logo que a estranheza dos factos lhes chamou a atenção. Digo-o eu, Maria do Céu, mãe de Helena, que o pai nunca mais teve condições para falar ou emitir opinião. Não tente falar com ele, não vai adiantar nada ao que já sabe. E digo também que o pai costumava pôr a pequenita nos joelhos para lhe contar histórias, mas sempre que o fazia chamava-o também a ele; não é verdade que o tenha rejeitado, não é verdade que o tenha obrigado a ouvir as histórias sentado à porta da sala para não incomodar a serenidade da família, como se disse. Se isso aconteceu foi naquele dia em que ele despedaçou, uma a uma, as minhas violetas dispostas em vasos sobre o parapeito da janela. Ele era já um garoto complicado mas eu não fui madrasta, não, fui mãe, que a outra deixou-o a chorar nas escadas e foi para França.

Se ela me deixou a chorar nas escadas a culpa foi de alguém. De Helena, que quis nascer para me anular a existência? Talvez a culpa tenha passado daquela mãe para ela. Ambas inimigas. No baloiço eu sentia que ela era minha e a pouco e pouco prolonguei esses minutos até me encher do seu perfume e da transparência da sua pele, até sentir a tontura de todas as emoções mal contidas. Fraco entendimento de menino, disseram também, e eu não sei se tinham razão, mas quando lhe empurrava os ombros para que o baloiço se levantasse no ar e pairasse no azul do céu da nossa escola, tinha sempre a visão daquelas duas ruas, de casario esboroado de telhados baixos e janelas com postigos, entre uma encosta de socalcos e uma parede velha em cujas brechas nascera musgo. Era para aí que dava a janela emperrada. Tinha de a levar a esse lugar. Era lá que iríamos abraçar-nos, rendidos à cumplicidade dos nossos verdes anos. Era lá que tudo iria passar-se. Se faria o mesmo? Como é que a gente pode dizer se faria o mesmo? É tudo uma questão de ausência. Ou de uma presença forte sobre essa ausência. Disseram também que construí a minha vida de vinganças e essa pode ser a razão de tudo, incluindo este lugar onde me vêem, que é um lugar de desassossego. Não gosto de vasculhar no passado: em cada estrato, quando estamos a libertar-nos de coisas inúteis, como a areia e as pedras, escolhos que camuflam pequenos cacos, encontramos indícios, enigmas que não nos deixam dormir em paz sem que lhes adivinhemos um sentido. Não sei porque lhe estou a contar isto, talvez a minha história sirva para a sua história, para a sua escrita. Registe nela, com as palavras que eu deixei no passado, a face branca de uma menina que eu vi depois no caixão, de longe, porque já nessa altura a culpa me matou também a mim. Mas nada do que se disse foi verdade.

Tuesday, August 16, 2005

O Chefe recomenda...

A propósito de um blog que linkei há dias e que recomendo - Trattoria on line - lembrei-me de deixar sugestões diversas, não minhas claro, mas deliciosamente escritas em
http://www.gastronomias.com

Dia de Verão

O sol nas costas, o sol nos ombros, as línguas do sol a lamber-me a pele, escaldão do sol nos reflexos dos basaltos dispersos pela areia, escaldão nos pés que caminham a desejar refrescar-se nos fios das ondas, brilho irisado no sopro da brisa que espalha pelo ares a espuma nos cabelos, sol de um dia de verão a enrolar-se no corpo entre os lençóis caídos aos pés da cama, lembrança de noite de calor em demasia, o sol a escaldar no corpo que escalda na noite, calor de corpos que se lambem em línguas escaldadas, arco-íris enrolado na noite em fios dispersos sobre a espuma.

Saturday, August 13, 2005

Ouvir as palavras







Deixa ficar a roupa pelo chão
Não arrumes, não melhores, não agites
Não faças nada, que o teu agir pode ser um escolho
Na interpretação;

Deixa ficar as palavras onde estão
Não alongues, não prolongues, não aumentes
Não lhes fixes os sentidos, que as palavras têm asas
Na imaginação.

Thursday, August 11, 2005

Pontes de Tédio

Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
(M. Sá Carneiro)


Recuso permanecer no lugar onde as ondas se desfazem
Recuso ser qualquer coisa de intermédio
Entre rios sem margens e jangadas desfeitas
Recuso as pontes de tédio
E o tédio de não ter certezas.
Rumo ao mar.
A partida conduz à vertigem das viagens
Onde eu sou eu própria
Descoberta de mim em mim
No reflexo dos espelhos agora renovados.
E na loucura da partilha serena de mim e do outro
Digo adeus aos outros e peço às aves que me devolvam
O verde das paisagens nos seus cantos
Deixo que elas pousem nos meus braços
Aliviando as penas.
Agasalho-me de esperança e abro as mãos
Soltando delas todas as palavras.

O problema do começo

Quando me telefonou com a urgência do encontro – tinha de ser para dali a meia hora, no máximo – já nem me dei ao trabalho de imaginar a situação. Disse ao gerente que descontasse uma manhã às minhas férias, tão longínquas sob a constância de uma chuva miudinha que inutilizava as duas horas gastas no cabeleireiro, e meti-me no carro.
Ela já tinha pedido o meu café, sentada numa confusão de fumo de cigarros e gabardinas transpiradas. Da última vez era a consciência a derramar lágrimas, depois de uma noite de vingança programada para um hotel de Sesimbra, precisando a voz de gastar-se em justificações e pedidos de legitimação do acto. Mas antes tinha sido a descoberta dramática de que o Cláudio André a enganava, tudo contado com pormenores e ameaças de suicídio, depois de outra vez em que me pedira dinheiro urgente para as obras da cozinha. Vinte minutos depois ainda a Lurdinhas contava, detalhadamente, histórias que me escapavam ao entendimento. Tinha de lhe dizer qualquer coisa; reparava agora que estava muito branca, as olheiras muito dramáticas e o guincho de um choro magro a incomodar-me a concentração.

Na mesa ao lado a gravata de riscas enquadrava-se bem na camisa monogramada e o tom de voz era convincente na argumentação, embora viesse do interlocutor e eu não o visse. O da gravata dizia que sim, que sim, e o outro assegurava que o projecto era arrojado mas garantido. Compravam um barco, talvez dois, contratavam dois ou três marinheiros experientes para não se correrem riscos desnecessários, davam jantar a três ou quatro sem-abrigo, desses que quanto mais sujos melhor, faziam uma preparação intensiva dos indivíduos, uma ou duas semanas de formação, que os fundos previam-na, e ele próprio faria de capelão, ou missionário, esses pormenores ficavam para depois. O da gravata agitava-se na cadeira; avisava, pelo telemóvel, que ia chegar um pouco mais tarde, bem se via, com a manhã chuvosa o trânsito estava impossível; e começava a incomodar-se com a curiosidade que eu devo ter posto na forma como lhes escutava as palavras. O outro entusiasmava-se, antecipando naufrágios simulados no Tejo, que as pessoas já não sabiam como preencher certos vazios e a empresa de emoções iria ter muito sucesso. O da gravata desencarcerou-se da camisa, aliviando o botão que o fazia transpirar e ficou mais atento. O outro continuava a expor-lhe os seus propósitos.

Não sei porquê, veio-me à ideia a travessia do Canal da Mancha antecedida da aproximação ao porto de Calais, em estradas de casario antigo, em cujas paredes se viam marcas das balas de há meio século. Tínhamos combinado fazer os registos dos pormenores, como um diário de bordo, para que um dia a memória não nos traísse. Ficaria tudo escrito e é por isso que me lembro que a viagem se iniciou com sol e um vento cortante. Há uma fotografia em que estou a agarrar o lenço cor-de-rosa para que ele não se solte do pescoço. Lembro-me também que abandonei a ideia da escrita a meio da viagem, quando o nevoeiro envolveu o barco e só se viam janelas salpicadas. Foi nessa altura que os bardos vieram, bailando em carrocel, aliviando-me da rugosidade de umas quantas palavras naufragadas. Enquanto jogávamos às cartas para ajudar a passar o tempo, um deles surgia das brumas, puxava-me para a montada do cavalo e desaparecíamos no ar, já o Francisco me dizia que não me distraísse, que era a minha vez de jogar.

Dei comigo a fazer um exercício de racionalidade – a Lurdinhas chorava, o parceiro do da gravata propunha aventuras no Tejo e a minha memória levava-me para a travessia do Canal da Mancha – e a concluir que só podia ser por causa da chuva.

Normalmente abomino a chuva. Mas também me desgostam os dias de calor excessivo, fico como que abalroada nos gestos, sem acção para me movimentar e nem as páginas de um livro me devolvem a paciência. Estava à mercê da água, naquela manhã invernosa, dissolvendo-me numa sensação incómoda de cansaço. Tinha estado a ler contos até muito tarde: histórias de mar, umas com sinais premonitórios de tragédias sob ventos e tempestades; outras relatando ousadias sobre a ordem cósmica seguidas de imersões nos abismos. Antes mesmo de adormecer deixara que as palavras me mostrassem o corpo do capitão pirata a afundar-se em silêncio, os dois homens cuspindo para as mãos e continuando a remar. Premonição de chuva, tanto mar pela noite dentro e personagens de mãos gretadas.

Olhei para o canto da sala: sentada, muito direita, de mãos serenamente pousadas sobre a mesa, uma cara enrugada parecia estar à espera. Não sei se tinha já comido ou se aguardava o empregado, se esperava o fim da chuva ou se apenas que o tempo continuasse a passar. Havia nela qualquer coisa que se assemelhava à imobilidade de uma pedra. Senti uma estranheza, uma impressão de esgotamento das palavras. E, no entanto, ela poderia representar todas as variantes e alternativas, todos os acontecimentos contidos no espaço e no tempo. Como se a sua presença cristalizasse a singularidade ordenada da matéria. Mas sem palavras.

Há, de facto, personagens ideais para contos. A Lurdinhas servia alguns modelos, ideal no melodrama ou nos desfechos imprevisíveis. Podia pedir-me para a ajudar numa congeminação maquiavélica, a morte do Cláudio André ou, quem sabe, um suicídio no Tejo, de cima da ponte, acabando-se tudo num mergulho mediático. Rui Belchior também podia servir. O outro pusera-lhe ironia no nome, quando o chamava a ouvir atentamente a ideia da empresa de emoções; pelo menos foi o que me pareceu quando lhe ouvi a gargalhada. De facto o nome não lhe assentava bem, não condizia com a finura do rosto, barbeado e hidratado e muito menos com os dedos esguios que podiam dizer-se de um Mendonça ou de um Menezes. Belchior devia incomodá-lo, como uma unha encravada, um espinho que se tivesse alojado entre a carne e a pele, produzindo uma secreção purulenta.

E, pensando bem, que fazia ali um tal indivíduo, a não ser desempenhar o meu próprio papel de registadora das histórias alheias.

Por outro lado, tinha também o pormenor da ira do gerente perante a minha ausência, agravada por um problema complicado que só eu podia resolver. Um homem gordo de faces congestionadas por uma selva de capilares rosados, cabelo muito farto e teimoso e uma dose incontida de mau génio sempre pronto a surgir por debaixo dos pêlos rebeldes das sobrancelhas. A ira de um gerente numa manhã de chuva daria um bom começo para um conto.

Risquei a ira e sublinhei a chuva. Parei, olhei para o ar, mordisquei o plástico da esferográfica. Estava farta de fumo e guarda-chuvas a pingar.

Saí do café com a sensação de ter estado aprisionada em histórias e precisei de andar um pouco a pé. Tentei não olhar para ninguém, embora o movimento, nas ruas de uma cidade, seja normalmente cruzado; raramente duas pessoas se dirigem para o mesmo sítio ou, se se dirigem, os propósitos afastam-nas do eixo comum. Quanto a mim, não queria dirigir-me para lugar nenhum, precisava apenas de desbastar uma quantidade de condicionalismos que estavam a cortar-me os diálogos e criar pormenores que não fossem simples fragmentos ou rumores de factos sem importância.

E enquanto divagava sobre a importância das coisas visualizei a grande mesa de carvalho onde todos tínhamos pousado as mãos: dezoito pares de mãos em atitude de espera, cada uma delas querendo esconder das outras os projectos feitos para o uso do dinheiro que viria a ser distribuído após a celebração da escritura de venda do terreno sob o qual deveríamos deixar enterrada a discórdia dos últimos anos. À medida que a voz profissional da notária reproduzia nomes e valores as mãos agitavam-se: uma tirava o anel e voltava a pô-lo no dedo da outra, duas mãos pequeninas apertavam-se, encaixando-se, enquanto outra pressionava o par, fazendo estalar os dedos, um a um. Em algumas já se impacientavam as canetas aguardando o momento de derramar a tinta sobre a verdade material do papel timbrado. Penso que vi também uma mão precocemente aberta e outra imperturbável face à comparticipação nos rendimentos patrimoniais ali pronunciados.

E houve um momento em que me cruzei, na minha marcha, com uma mão que se acercava para depositar na minha, involuntariamente disponível, um papel que comecei a ler, distraída: “Já fizeste parapente, asa delta, escalada…”. Eu ia subindo a rua, sem direcção precisa, distraindo-me em duas ou três frases que não retive e detendo-me finalmente no apelo “…vem ter connosco e viverás a experiência mais louca nas águas do Tejo”. Reparei no título “Emoções Fortes” e, já no escritório, quando a urgência de um encontro veio pelo telefone – tinha de ser para dali a meia hora, no máximo – disse ao gerente que descontasse uma manhã às minhas férias e apressei-me para o café onde a Lurdinhas me esperava, levando na mão o prospecto para lhe dar.

Wednesday, August 10, 2005

Caleidoscópio

Podia estar sentada num banco de jardim
Estando ao relento
Podia ver-te, podia ter-te
Sentada na cama desfeita
Ou por detrás da janela, aberta pelo vento
Dentro do tempo que foi em vão
Podia tocar-te na pele roxa
Da cor da lágrima
Da cor da terra toda do chão
Podia ver-te, podia ter-te
Ou saber-te no som de um búzio
Perdido nos areais da espera
Ou por detrás da janela aberta pelo vento
Dentro do tempo
Podia ter visto o desassossego
Vestido de calma
Sentado num banco da cor do vento
Fora do tempo em que cresci
E vi, na alma,
Caleidoscópio já estilhaçado
Reconstruído dentro do tempo
E colocado por mãos em chama
Dentro da cama toda desfeita
Dentro da vida.
Poder ver-te, poder ter-te
E encontrar as cores em ti.

Tuesday, August 09, 2005

A espera

Evoco o tempo
E aninho-me num sentir magoado
À espera das horas e dos dias;
A passividade embala-me as memórias
Enquanto o tempo parece parado
Desperto devagar
Sem querer desprender-me
Das paisagens suspensas
E das falésias onde o tempo se perdeu;
E assim passam as horas.
Desta vez o outono chegou sem graça
carregado de folhas secas
Sob uma colina de névoas
Desenhando-se uma ave em sortilégio;
Roseiras cegas, asas sem vento
E silêncio.
Evoco, por isso, o tempo
Construo janelas com tinta nas mãos feridas
E sinto como gela o frio do abandono;

Fico assim, embalada nas memórias
À espera das horas que hão-de vir.

Divagando sobre a verdade

Gostava de equacionar a palavra Verdade numa fórmula perfeita, inalterável, mestra.
Para isso teria de entrar no mundo dos números, mundo racional, mundo de realidades apinhadas de vértices e arestas laminares ligadas seguramente por uma lógica e uma coerência interna que me escapa ao entendimento.
Terei, então, de entrar no mundo das palavras e ficcionar com elas (ficção é fingere, fazer) uma construção que arrume e organize a relação com o real.

Vamos ver:

- O presente é um lapso, um momento que se fez passado;
- O real passado já não existe. Lembrá-lo é entrar no domínio da representação porque todo o momento é irrecuperável, impossível de presentificar;
- Representar o momento é arrumá-lo no tempo, porque dentro da memória tudo se mistura em ritmos tão diversos, que a tarefa de o trazer ao presente falha, surgindo ele já como outra coisa, diversa do que tinha sido;
- Entre o real e a sua representação esvaiu-se o empírico; transfigurou-se o momento e o que daí resulta é uma versão que podemos sempre contar de outra maneira:

* Podemos iniciar o relato in medias res (na vida está-se sempre no meio!) e organizar tudo de uma forma harmoniosamente inteligível;

* Podemos também começar in ultimas res, invertendo o real, usando as analepses, em conjunto com a experiência que a chegada nos confere;

* Podemos até começar pelo “era uma vez”… mas com a consciência de que o início já começou no meio de qualquer coisa que era o fim da outra.

Dado que o papel do leitor é dar ao texto uma dimensão semântica, facilmente se deduz que a apreensão da verdade que aqui fizeste, leitor das minhas divagações, é única e apenas tua.
Dado, ainda que sobrevives da lógica e da racionalidade, (verdades muito frias para o meu entendimento), deduzo que terás chegado ao exacto ponto de partida:

Quid veritas

Que concluir, então, destas linhas filosófica e literariamente construídas sobre equações imperfeitas, análogas em tudo ao real guardado na memória?


Apenas isto: A VERDADE NÃO EXISTE

O deus

Estavas no cimo do Olimpo
E eu não sabia se eras árvore
Ou asa ou deus ou flor
Adivinhava apenas um caminho labiríntico
Entre pedras e troncos esguios.
Contornaria as pedras, pensava,
Deixando os olhos correrem pelos troncos
Em direcção ao céu.
Tao fácil adivinhar o caminho, pensava,
Rasgando os joelhos pelos vértices
Das pedras empilhadas
Antecipando os contornos de um corpo
A pedir o calor das mãos.
Apolíneo, alado
Só os olhos te adoçavam a frieza
Do mármore
E eu, subindo a encosta
Vestida de vermelho,
Lançava as mãos aos teus olhos.


Lá no topo, estavas parado
Olhando as águas.

Monday, August 08, 2005

Amores Imperfeitos

Todo o mundo foi feito de amores imperfeitos
Quer na violência de braseiros desvairados
Quer no gelo de retratos escondidos
Por detrás dos rostos;
Houve também no mundo os submissos
Que disseram nomes com a sua voz velada,
E na brancura de cada amanhecer
Esperaram tardes incandescentes que não chegaram;
Outros não se renderam aos desencontros
E puseram urgência nos gestos dizendo
Todas as palavras; esses aproveitaram os ventos
E abriram as ondas em espumas que sulcavam
As redes abertas ao correr das águas.
Dizem, meu amor, que neste verão
Todas as árvores tombarão em chamas
E que as chuvas, guardadas, deixarão secar
Todos os pomares, e com eles os pássaros.
Saberás, quando chegar esse calor,
Da a violência de um braseiro
Que eu queria ter apagado
A tempo de cheirar o musgo e as folhas dos sobreiros
Sem que o tempo me deixasse arrefecer;
Nada me pertenceu, nem o tempo
Nem sequer os teus olhos fugitivos,
Ou os braços com que enlaçaste a tua solidão (ou a tua solidez).
Derrama a água do teu gelo sobre esse chão seco
E faz nascer o verde sobre a areia
Que eu soltei do vidro
Onde o tempo se escoava.

Sentir


“Quando olho para mim não me percebo
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio, às vezes, ao sair
Das próprias sensações que não recebo.”
(Álvaro de Campos)


Falar nas dores que não tive, a propósito daquelas que se enclavinham na parte de trás da alma.
Não sentir nada, a não ser o bater das asas no silêncio dos olhos fechados;
Não chorar. Não dizer. Escrever apenas.
E poder encontrar na poesia a representação.

Sobre Florbela Espanca



1894: A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa.
1915: Casa com Alberto Moutinho.
1919: Entra na Faculdade de Direito, em Lisboa.
1919: Primeira obra, Livro de Mágoas.
1923: Publica o Livro de Soror Saudade.
1927: A 6 de Junho, morre Apeles, irmão da escritora, causando-lhe desgosto profundo.
1930: Florbela morre, em Matosinhos.
1931: Edição póstuma de Charneca em Flor, Reliquiae e Juvenilia e ainda das colectâneas de contos Dominó Negro e Máscara do Destino. São reeditados os dois primeiros livros.

Florbela conheceu três mães: a sua própria, Antónia Lobo, “rapariga exposta”, Mariana Toscano, a mulher legítima de João Maria Espanca, que não lhe deu filhos e por isso adoptou os ilegítimos (Florbela e Apeles) e depois Henriqueta de Almeida, segunda mulher de seu pai.
Poderá ver-se nesta insuficiência da imagem materna a origem da sua permanente evasão da realidade. E também da passividade com que desempenha a sua função de esposa, em casamentos tempestuosos: Alberto Moutinho, António Guimarães e Mário Lage terão convivido com uma mulher que mitificou o amor, não achando, nunca, satisfação nele, coabitando até à morte com a sua tragédia narcísica.
Exprimiu assim o carácter sublime do amor feminino:

“Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.”

E exprimiu também assim, paradoxalmente, como só a alma feminina sabe fazer, a ânsia de amar da procura sem retorno:

“Mesmo a um velho eu perguntei: _ Velhinho,
Viste o amor acaso em teu caminho?
E o velho estremeceu… olhou… e riu
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!”

Doente desde muito cedo, Florbela poderá ter nascido de uma mãe sifilítica, sendo essa uma possível razão para os seus males pulmonares ou para um temperamento neurótico que se traduzia em tremores, angústias, analgia, excesso de sensibilidade, a irritabildade e insatisfação. Impulsos exigentes são-lhe também apontados, quase caprichos de menina a quem o pai faz as vontades, chamando a si a urgência do amor em explosões de alma intranquila.
Conhecemos-lhe uma rede de desejos em delírio discordante, quase uma permanente tragédia narcísica, que a leva a chorar as dores de si para si porque acende fogueiras com palavras inventadas, porque é umbral da sua própria dor, consumindo-se a si própria. Tem tudo dentro de si – hermafrodita, como lhe chamou José Régio – da sensualidade à catalização, da animosidade perante o eu até ao instintivo processo criativo. Ela cumpre a paixão do poeta, a de sentir a sua dor, ou melhor, as suas dores, a escrita e a referencial.

“A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.”

Nas terras alentejanas, outrora dominadas por uma elite intelectual e guerreira de origem celta, terá permanecido uma certa concepção da influência feminina dentro dessas estruturas jurídicas, sendo que o casamento não tinha um carácter sagrado. Terá Florbela sido herdeira, como avança Agustina Bessa-Luís, do conceito celta de divindade feminina que depois as sociedades romano-cristãs condenaram? O que é facto é que a poetiza não foi escrava do homem nem dos contratos de casamento; nela houve sempre a exibição explícita de uma sexualidade que assumiu um lugar de símbolo ou de mito, mais do que de objectivo. Emoção exaltada é a expressão das suas cartas para Apeles, de conteúdo intenso, na linha da intensidade com que usa as palavras nos seus sonetos, quer sejam de natureza exaltada, quer funesta, uns e outros desencontrados da felicidade.
O seu ideal era de completa fusão de dois amores, de duas almas, de dois corpos:

“Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua”

Mas o desengano nunca tarda:

“Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Que terá acontecido quando a 7 de Dezembro de 1930,ocorreu a tragédia final? Uma neurótica que ingere uma dose suplementar de comprimidos ou uma mulher doente que os toma para se livrar da dor física e de todas as outras, bem piores, por certo. Ou não o soubéssemos nós, mulheres, que passamos a vida a discursar sobre a solidão, cumprindo sempre a paixão do poeta, que é a eterna paixão da dor.

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e Alem Dor!”

Serenidade

É absolutamente impressionante chegar a um estado de serenidade tão bom que apetece dizer: “ afinal era tão fácil, tão simples e tão possível estar feliz?”
É ainda mais impressionante chegar à conclusão de que foi num dia X que se ultrapassou uma linhazita que estava ali a ser um escolho no caminho, eliminando-se, sem esforço, com um passo apenas, a raiz de todos os constrangimentos.

Angústias, medos, tristezas, cóleras, inseguranças, dilemas, obsessões, hesitações, traições, humilhações… culpas, culpas, culpas…
Para quê?
…O maior desafio que a vida tem, afinal, é simplificar coisas que aparentemente são complicadas!
… E o maior segredo é ainda mais surpreendentemente acessível – o exercício do humor (sobretudo o supremo humor, que consiste em rirmo-nos de nós próprios).
Isto são pequenas reflexões, nada de grandioso, nada de espectacular, nada de maravilhosamente caído do céu. Pequenas reflexões que tenho feito, às vezes sem me dar conta, quer seja a meio do quilómetro 23 da auto-estrada, quer seja sentada à mesa a engolir a sopa do jantar ou a limar uma unha que arranha... para que não se pense que estou inundada de pensamentos literários.

Dantes, quando me falavam em sentido de humor, respondia sempre que não o tinha, que não me coubera nenhum pedacinho na distribuição feita à nascença. Efectivamente também eu reprimia o riso, como a religião faz aos crentes, disparando, de todas as direcções, culpas que se cravam violentamente na alma.
Vítima do espartilho ético, recusando-me a ultrapassar, com um ou outro passo mais largo, o risco circular traçado no chão à minha volta, carreguei fardos arruinando literalmente o suporte do corpo físico (as vértebras); arrastei culpas, expondo-me como que em exercício inútil de catarse; travei lutas de mim para comigo, desfazendo os restos de alguma desejada e desejável racionalidade.

Para quê, se o maior desafio que a vida tem é a simplificação!

“O simples facto de rir ajuda uma pessoa a relaxar. Quando alguém ri abertamente, este acto leva a uma descontracção generalizada dos músculos da face, pescoço, tórax, abdómen e diafragma, ao mesmo tempo que estimula o sistema cárdio-vascular e os pulmões”

Tudo tão simples, afinal:

- para as inibições sociais: descontrair os músculos e sorrir;
- para os desafios difíceis: arregaçar as mangas e sorrir;
- para as tentações de transgressão: dizer que sim a sorrir;
- para a tendência perfeccionista: dizer que não a sorrir;
- para as ansiedades: sorrir para refrear o ritmo e descontrair;
- para as reflexões angustiadas sobre aquele comportamento do
passado: sorrir, para aliviar o peso da lembrança;
- para aquilo que os outros dizem com ar censor: … apenas sorrir!

Falo de mim mesma


Falo de mim mesma:
Desconhecida, incógnita, evasiva,
Aquela que traz palavras
Dentro das mãos fechadas
E as pousa devagar
Revelando o segredo da crisálida
E o fascínio
Pelas margens da fantasia:


Falo de mim mesma
Na margem dos meus olhos
Abertos por dentro das madrugadas
De insónias finalmente resolvidas;
Transformo as palavras
Em convicções que não dizia
E sento-me no lugar onde as ondas se desfazem
À espera que o mar me conte segredos;


Falo de mim mesma
Depois de sufocar todas as iras;
Agora sim, de olhos abertos à vida
Embalada em todos os sentidos
Asas abertas, longas, leves, limpas
Em direcção aos pontos de fuga (e de retorno)
Evoco o Tempo
À espera das horas que hão-de vir;


Falo de mim mesma
Como se da terra outrora seca
Tivessem despertado as seivas
E o orvalho adormecido no silêncio
Tivesse também acordado
Sob o rumor da metamorfose.
Incógnita, ainda, sim,
Mas já voando sobre as cinzas
Crisálida desperta, com as mãos cheias de palavras
.