Showing posts with label histórias. Show all posts
Showing posts with label histórias. Show all posts

Sunday, July 09, 2006

Histórias 4.

Tamara de Lempicka

Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.
Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.
Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero.
Dizia que o amava.
Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se.
Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário.
A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.

Tuesday, June 06, 2006

Os tumores





Ele costuma aconselhar a leitura de algumas pérolas mas hoje é ele que é a pérola, com um magnífico texto que nos leva aos tumores mais abjectos que a humanidade conhece.

Monday, May 08, 2006

À procura de uma história

- Não escreva nenhuma dessas histórias!
Incrédula, olhei para ela e depois para o meu caderno. Tinha medo de estar a sucumbir à minha própria fantasia e não ousei levantar os olhos durante uns minutos. Olhei de novo para o canto da sala: sentada, muito direita, de mãos serenamente pousadas sobre a mesa, uma cara enrugada abria os olhos na minha direcção. E repetiu:
- Já lhe disse, não escreva nenhuma dessas histórias!
Não voltei a olhar para os papéis. Fixei o olhar na figura pequenina e creio ter visto o necessário. Esqueci todas as ideias, todos os começos, todas as fantasias que me tinham enredado as quadrículas do caderno, procura inútil de uma invenção, à beira de uma realidade completa. O seu rosto era a verdadeira história, a história que se contava como um tempo que tinha acontecido sem se estar à espera. Olhando-a era como se visse, subitamente, a solução. Assemelhava-se à imobilidade de uma rocha, mas era também flor ou estrela. Dei-me conta que nela estava tudo em ordem, até mesmo a geografia das rugas onde o indizível se lia sem rumor nem fragmentos. Representava tudo o que estava excluído das palavras, todas as variantes e alternativas, todos os acontecimentos contidos no espaço e no tempo. Estava ali o conteúdo, a trama, a estrutura; tudo escrito nos olhos.

Saturday, April 29, 2006

Histórias 3.

Contaram-lhe que depois se enrodilhou na noite como um morcego e contornou a estátua, tomando a direcção oposta. Para o lado do caminho possível, disse ele, mas ela sabia do desejo de mudança que lhe atravessava a vida. Por isso não acreditou nas interpretações que eram muitas, múltiplas, resumindo-se tudo a uma acusação de malquerença que tinha de declinar ou ficaria refém desse sentimento de perda. Nada fácil, contudo, essa tarefa.
Contaram-lhe também que na direcção oposta residiam as coisas que sucedem por acaso, mas ela acreditava na solidez das construções e conhecia-lhe a capacidade de erguer das ruínas outras fachadas, mas com desenho prévio. Pelo menos era nisso que pensava enquanto preparava o tear para o cumprimento da tarefa. Precisava, pois de robustez, não fosse a peça afrouxar nos terminais e romper-se por falta de estrutura.
Ainda lhe trouxeram novidades, dia após dia, em tudo semelhantes ao despeito que teceu em pontos deliberadamente mal rematados.
Alimentou-se, pois, de cóleras até esgotar os argumentos e mesmo assim ainda lhe foi difícil aceitar que as mãos só adquirem a perfeição quando se soltam.

Monday, April 03, 2006

Histórias 2.

Ela dizia que o estímulo pode encontrar-se no desencanto e insistia em encantar-se com o abraço morno e o cheiro a quase tu. Depois acordava e entrava nas manhãs sem chegar a encontrar-se nelas; nem nas tardes invariavelmente enevoadas de fumo de cigarro e de incerteza.
Porém era fluente ao longo dos dias e em quase todas as situações, gostando de se colocar no centro, num quase palco de representações genuínas.
Chamava, pois, toda a gente para junto de si e o eco das palavras e dos risos amansava-lhe os silêncios. Tudo menos as horas vazias, pensava.
Andava por ali o ardil da triangulação; por isso ia inventando satisfações no pragmatismo que lhe era oferecido em bandeja dourada, fingindo aceitação. Melhor uma construção sólida, nem que seja pelo lado de fora, do que o nada.
Havia dias em que se convencia de não ser preciso usar as palavras, mas doía-lhe prescindir do verdadeiro encanto, embora a palavra desassossego lhe estivesse colada às mãos tecedeiras. Era por isso, pelo hábito de tecer sentidos cruzados em desenhos complexos, que a vida simples lhe atormentava os dias.
Não há tréguas para quem começa muito cedo a querer descortinar o mundo que está para além do fim da rua.

Sunday, March 26, 2006

Histórias 1.

Ela dizia que não suportava ser a segunda. Ou a terceira, que não sabia exactamente de quem era o cheiro que ele trazia colado à pele quando chegava. Mas abria-lhe a porta e a primeira parte do serão era feita de agressividade. Pensava sempre que era a última noite, que a seguir se despedia do corpo dele para sempre e que partia, de madrugada, para outra terra ou para outro céu. Era mais fácil procurar outro céu e entrar nele de braços escancarados. Há sempre carinho a entrar pelos braços abertos de uma mulher. Ou neles. E depois o céu. Mas quando beijava outro corpo era nele que pensava e não havia céu que justificasse o conforto emprestado aos braços; parecia-lhe que só aquele toque oxigenava as suas células e que nada mais existia para além da violência dos corpos a amainar depois da satisfação. Era quando faziam as pazes ou ele falava de paz e de trazer as roupas e ficar para sempre naquele quarto. Invariavelmente partia antes do dia começar e ela acordava sozinha a repetir que tinha sido a última vez. Depois o dia começava. E os braços que se apertavam um no outro, fechando-se todo o espaço pelo lado de fora, eram os dela.

Monday, September 19, 2005

O avô e o mar


Era uma vez uma onda…
Lembro-me das histórias do avô quando saíamos de mãos dadas logo pela manhã bem cedinho, o sol a nascer muito grande e a prometer um dia de calor daqueles em que eu ficava toda a tarde na água até ter os dedos das mãos engelhados e o corpo a tremer de frio. Nessas tardes o avô ficava à beira-mar, às vezes vinha ter comigo e estendia os braços para que eu me deitasse sobre eles e dizia: “mexe os braços” ou não dizia nada mas era como se dissesse.
Lembro-me de ter aprendido a nadar nos braços do meu avô.
Outras vezes sentava-se e vigiava as minhas brincadeiras. Ou trazia-me os baldes de água do mar para fazer um lago cavado na praia. Ou ajudava-me na construção dos castelos de ameias definidas, com túneis engenhosamente construídos sobre a areia molhada e fossos para aprisionar os inimigos. Eles vinham a cavalo para conquistar o castelo, já os avistava. Tornei-me espadachim, fiz cair cavaleiros, salvei princesas moiras e belas adormecidas, matei monstros e desfiz encantos de bruxas más.
Lembro-me de o ouvir dizer que o mar era perigoso. Ele dizia “traiçoeiro” e eu não sabia dos perigos porque a mão do avô estava sempre junto à minha quando as ondas se empinavam e enrolavam a areia que se metia por dentro dos calções.

Lembro-me, agora, de ter ouvido contar que ainda tentaram reanimar o seu corpo, depois de o retirarem do mar, junto às rochas. Disseram que escorregou quando puxou a cana de pesca e que o ouviram gritar o meu nome quando caiu às águas.