Monday, November 14, 2005

(1). Sinais e Vozes

Ele acolheu-a com os olhos à chegada. Curiosidade mútua de se saber que palavras vinham a seguir. Ou que demonstração de que desejos.
O sol já se tinha escondido, já nem se podia sentir a magia daquela linha ténue sobre o espelhado do mar, uma linha apenas que separa o real do irreal, pensava ela, com ilhas ao longe e sonhos de partidas. Contudo havia a magia da noite, momento em que tudo fica mais obscuro.
Frente a frente, entre o gelo das bebidas e o calor dos cigarros acesos, chamas a incendiar os olhos, ele falou de amores perdidos, pobres, gastos.
Ela escutou. Sentia-se a questionar o estar ali mas o desafio estava lançado ou esteve lançado quase desde o início, em ambiguidades mal resolvidas e numa resistência que pode ter sido a responsável pelo desencadear das emoções.
Lado a lado, saltitando ao sabor das suspensões do carro, o caminho fez-se estrada e as mãos soltaram-se. Que desejo? Que laço de entendimento? Que atracção? Provavelmente a da ambiguidade e apenas essa.
Talvez pudessem ter adiado tudo, adiar é uma boa solução porque a seguir vem sempre a inscrição da racionalidade no desejo, sobretudo se passam umas horas ou uns dias sobre a precipitação de uma emoção ou apenas de uma busca, pensava ela. Vale sempre a pena adiar e fazer as contas às perdas e aos ganhos.
Depois, ainda que não fosse isso o adiamento, ele aconchegou-lhe os lábios, enquanto ela fingia que não esperava a ternura do gesto. Foi quando se deu conta de estar a imaginar que a transparência dos sinais era visível, ou que podia preencher os vazios do momento com o arrebatamento das emoções, ou que tinha o direito à ousadia. Havia música na voz e música nas mãos, era o que ela sentia.
Mas havia também silêncios ou o som de outras vozes. Foi por isso que se rendeu à racionalidade do fim da noite e retomou o caminho do regresso.

10 comments:

pirata vermelho said...

p'a trás, vi-te com o torga
assim

e se um dia o torga aparecesse, dito pelo gato da d. sância?
morria o gato ou a decência;
ou ficávamos quedos e à distância...?

(ficávamos, pois! um plural decerto apenas majestático ou pomposo)

Elipse said...

...Mago deitava a mão às borboletas brancas ou às andorinhas novas e aos pardalecos que filava por desfastio na primavera...

peciscas said...

A racionalidade excessiva, por vezes estrafga tudo!

peciscas said...

corrijo:

"estraga", como é óbvio

Anonymous said...

Ai! E depois há aquela questão: quantas vezes se perdeu algo por causa da racionalidade e quantas vezes se agiu com as emoções à flor da pele e depois nos arrependemos? Adorei este texto. É de alguma coisa maior que estás a escrever? Beijinos

Anonymous said...

Ando com problemas nos comentários ultimemente. Então quando há caracteres de verificação nem consigo comentar. O anterior é meu: Maria (Bicho da Seda)

pirata vermelho said...

Agora, "relegado definitivamente para o mundo das pantufas e dos tapetes! (...) Condenado para sempre ao bafio da maldita sala de visitas", não conseguia parar de se atormentar com o que a ouvira dizer, numa tarde cinzenta, entredentes e de soslaio para ele
-- c'est dure la vie d'«artiste»...
-- raio da velha e mais os seus francesismos pomposos, exaltou, -- vou já p'a rua!

Elipse said...

...et il y a encore le plaisir du 'fingere'.

pirata vermelho said...

era um ';' em 'exaltou', prego.
...............................

ma...
da fingere, bella donna?!

Lilly Rose said...

empatias. neste e no texto anterior. :)

PS: já descortinaste como escrever no Escrita Solta? Deixas o teu texto nos comentários do post que te sugestionar. That's all folks :lol: